24 de setembro de 2016

Capítulo 10

— Alô? — murmurou, hesitante. Seu peito se encheu imediatamente com a dor de ter perdido Trey, dor que até vê-lo na festa tinha quase desaparecido. Quase.
— Kylie? — o tom grave da voz de Trey mexeu ainda mais com suas emoções.
Kylie engoliu em seco e o visualizou mentalmente: os olhos verdes encarando-a como acontecia quando ficavam juntos.
— Sim?
— É o Trey.
— Eu sei — respondeu Kylie, fechando os olhos. — Por que está me ligando?
— Preciso de um motivo?
Como está dormindo com outra garota, precisa, sim.
— Não estamos mais juntos, Trey.
— E talvez isso seja um erro — continuou ele. — Não consigo parar de pensar em você desde que nos vimos na festa.
Kylie podia apostar que ele nem lembrava mais dela depois de ficar a sós com seu novo brinquedinho sexual aquela noite. Para a sorte deles, tinham saído quinze minutos antes de a polícia chegar. Sendo assim, enquanto Kylie esperava sentada na delegacia, Trey provavelmente se esbaldava com a sua nova namorada.
— Sara me contou que você está num acampamento em Fallen — prosseguiu ele, vendo que Kylie não dizia nada. — E, pelo que ela me disse, sua mãe te colocou aí por causa da festa.
— Pois é — confirmou Kylie, embora soubesse que aquela não era toda a verdade.
Mas toda a verdade ela não podia contar a Trey. Nem sequer parte da verdade. Só agora se dava conta de quantas vezes tinha sido obrigada a mentir para todas as pessoas que conhecia! E nesse momento constatou outra coisa. A mãe não havia mentido ao dizer que tinha sido a Dra. Day quem a convencera a mandar Kylie para o acampamento. Talvez, no final das contas, a mãe não quisesse tanto se livrar da filha como ela tinha pensado. Isso devia fazê-la se sentir melhor, mas a dor no peito só aumentou. Estava com saudade da mãe. Com saudade do pai. Queria ir para casa. O nó se formou na garganta e ela se esforçou a engoli-lo.
— Tem permissão para atender telefonemas? — perguntou Trey. A voz a trouxe de volta ao presente, para longe de seus pensamentos.
Permissão?
Kylie não tinha pensado nisso.
— Acho que sim. Ninguém até agora me proibiu — no entanto, não tinha lido as regras que deviam estar afixadas em sua cabana. E não por culpa sua: ainda não tinha permissão para ir até lá.
Olhou em volta para ver se mais alguém estava ao telefone. Dois conversavam e outros dois digitavam mensagens. Um deles era Jonathon, o cara dos piercings, no momento acompanhado por dois colegas. Ao lado deles, a Garota Gótica, no meio de uma turma de góticos.
Kylie viu também Lucas Parker. Não ao telefone, mas batendo papo com um grupo de garotas que pareciam seu fã-clube. Ele ria do que uma delas tinha dito. As meninas sorviam suas palavras, extasiadas, quase desfalecendo a seus pés.
Que riam até desmaiar, pensou Kylie. Ele ainda não havia matado seus gatos.
— Estarei num acampamento de futebol, em Fallen, na semana que vem — contou Trey, trazendo-a de volta à conversa. — Talvez pudéssemos... Sei lá, descobrir um jeito de ficar juntos. Conversar. Sinto sua falta, Kylie.
— Pensei que você estivesse namorando aquela garota, Shannon.
— Namorando para valer, não. De qualquer maneira, não estamos mais nos vendo. Não tínhamos muito que conversar.
Mas outras coisas vocês fizeram, aposto... — era doloroso se lembrar da garota grudada nele na festa.
— Diga que pelo menos irá me encontrar — pediu ele. — Por favor. Eu realmente sinto sua falta.
Kylie sentiu um peso no peito.
— Não sei se posso... Quer dizer, ainda não sei como são as coisas por aqui.
— Nossos acampamentos ficam a mais ou menos um quilômetro de distância. Não seria difícil nos encontrarmos.
Kylie fechou os olhos e calculou como seria bom ver Trey de novo. Ver qualquer pessoa que conhecia seria ótimo, especialmente Trey. Era por ele que ela sempre procurava quando algo a aborrecia. Por isso o fim do namoro tinha sido tão difícil para ela.
— Não posso prometer nada até conhecer as regras deste lugar.
Olhou para cima e viu Holiday e Sky se dirigindo para frente da sala.
— O almoço está pronto — avisou Sky. — Vamos deixar que os novatos comecem. Depois, faremos as apresentações.
Apresentações?
A ideia de ter de falar ao grupo lhe causou um frio na barriga. Kylie viu Derek se virar e olhá-la como se quisesse saber se ela toparia entrar na fila com ele. Kylie gostou da ideia de ficar ao lado dele e não, sozinha.
— Tenho que ir, Trey — disse.
— Mas, Kylie...
Kylie desligou. Não fez de propósito, mas a perspectiva de que ele pudesse se sentir um pouquinho rejeitado não a aborreceu muito. Era o troco. Derek se levantou e acenou para ela. Com certeza, ele era mais alto que Trey. Ao acompanhá-lo, tentou não hesitar quando Della se juntou a eles e os três entraram na fila. Della ficou atrás da Garota Gótica e começaram a conversar. Derek virou-se para Kylie e a encarou.
— Namorado? — perguntou.
— Hã?
— O do telefone?
— Ah! — ela negou com a cabeça. — Ex.
Instantaneamente se lembrou de que várias cabeças tinham se voltado em sua direção quando Della lhe perguntou o que ela era. Inclinou-se para Derek.
— Você conseguiu ouvir o que eu estava falando ao telefone? — baixou a voz. — Alguém mais ouviu?
— Eu, não. Falo por causa... Da sua linguagem corporal — ele tinha percebido o modo como ela olhava para o grupo. — Mas, sim, alguns aqui têm superaudição.
— E você, não tem? — perguntou, esperando que Derek lhe contasse o que gostaria muito de saber: o que ele era.
— Não — disse o garoto, enquanto davam mais um passo à frente.
Seu braço roçou no dela e, por um segundo, Kylie não soube dizer se gostaria de se afastar ou chegar mais perto. O fato de Derek não ser frio reforçava a segunda opção. Quando seus braços se tocaram de novo, uma sensação reconfortante se espalhou pelo corpo de Kylie.
— Mas, então, o que você é? — ela perguntou, para logo se arrepender. Não era justo fazer perguntas a que ela mesma não queria responder. — Tudo bem, esqueça o que eu disse.
Desviou os olhos, embaraçada, e pôs-se a ouvir a tagarelice das pessoas à sua volta. Ao contrário de antes, quando reinava o silêncio, agora, com algum esforço, ela podia até se convencer de que estava numa sala cheia de adolescentes normais. Percebeu então que já não tentava negar isso. 
Risos e gritinhos femininos chegaram aos seus ouvidos. Tinha achado a ideia de que eles eram “normais” reconfortante, mas não podia exagerar: nenhuma daquelas pessoas era normal. Nem ela. Essa constatação provocou uma onda de pânico no fundo do seu estômago e Kylie se perguntou como, pelo amor de Deus, ela ia conseguir comer alguma coisa naquele momento.
— Sou meio fae — sussurrou Derek no ouvido dela. A respiração dele fez seu estômago se agitar. Não por causa do medo, mas de algo diferente.
Procurando não pensar nisso, concentrou-se no que o garoto tinha falado. Fae?
A busca por sinônimos, em seu cérebro, iniciou uma varredura de arquivos até ela se lembrar de ter lido, uma vez, que fae era a palavra francesa para fada.
A mente de Kylie começou a ligar os fatos. Holiday era fada. E Holiday tinha dito que Kylie talvez fosse também. Contemplou os olhos verdes de Derek. Em voz tão baixa que mal se podia considerar um sussurro, ela perguntou:
— Você... Você vê fantasmas?
— Fantasmas? — os olhos dele se arregalaram, como se a pergunta fosse inconcebível.
Mas, que droga, como poderia ser inconcebível ou maluca quando... Quando... O fluxo de pensamentos foi interrompido abruptamente quando percebeu alguém atrás de si. Seu coração se acelerou e ela temeu que fosse o soldado Dude. Mas o frio que sempre sentia quando ele estava por perto dessa vez não se manifestou. Derek ergueu os olhos e acenou com a cabeça. Kylie virou-se e quase perdeu o fôlego quando deu de cara com os olhos azul-claros de Lucas Parker.
— Acho que você perdeu isso — sua voz parecia a de um locutor de rádio: profunda, com uma vibração que a tornava única, memorável. Uma voz que o fazia parecer mais velho do que era.
Baixou então os olhos para as mãos de Lucas. Elas seguravam a carteira que sua avó lhe dera no último natal. Kylie apressou-se a olhar para a mesa onde tinha deixado a bolsa. Estava lá, no mesmo lugar. Como ele conseguiu pegar sua carteira? Tomou-a das mãos de Lucas e lutou contra o impulso de verificar se o cartão de crédito de sua mãe continuava seguro lá dentro. Ela ficaria uma fera se Kylie o perdesse.
Sem saber se tomaria a atitude socialmente aceitável de agradecer ou se perguntaria como ele tinha ousado pôr aquelas mãos assassinas nas suas coisas, a mente de Kylie perdeu o rumo. Em seguida, como quase sempre tomava atitudes socialmente aceitáveis, a palavra “obrigada” se formou em seus lábios, mas não conseguiu pronunciá-la.
Ela não conseguia deixar de imaginar se ele se lembrava dela. Não conseguia deixar de perceber que seus olhos azuis a penetravam fundo, como já havia acontecido anos antes. Não tinham sido amigos, mas vizinhos por algum tempo. Eles nem estavam na mesma série. Mas os dois costumavam percorrer os mesmos três quarteirões da escola para casa diariamente. E essa caminhada era a melhor parte do dia para Kylie. Quando o viu pela primeira vez andando de bicicleta na rua, sentiu um misterioso fascínio. Lembrou-se também, nitidamente, da última vez que o tinha visto. O fascínio se foi, deixando em seu lugar uma rajada fria de medo.
Ela estava brincando no balanço com o novo gatinho no colo — o gatinho que seus pais tinham lhe dado depois que Socks desaparecera. A cabeça de Lucas apareceu por cima da cerca e seus olhos azuis se encontraram com os dela. O gatinho rosnou e a arranhou, tentando fugir. O garoto, com os olhos pregados nela, disse: Não deixe esse gatinho sair de casa à noite acontecerá com ele o que aconteceu com o outro.
Kylie correu para junto da mãe, chorando. Aquela noite, o pai e a mãe foram falar com os pais de Lucas. Não contaram a Kylie o que aconteceu, mas ela se lembrava de que o pai parecia furioso quando voltaram da visita. De qualquer modo isso não importava, pois no dia seguinte Lucas Parker e sua família se mudaram.
— Seja bem-vinda! — disse Lucas, com a voz profunda agora mesclada de um ligeiro sarcasmo. Em seguida, afastou-se.
Mais essa. Tudo o que lhe faltava era fazer inimigos entre os membros da gangue que consideravam os seres humanos parte da cadeia alimentar. — especialmente aquele que, ela sabia bem, era capaz de praticar atos abomináveis. Mas, convenhamos, dar uma de boazinha com Lucas Parker não seria nada fácil. Afinal, ele tinha matado seu gato e ameaçado matar também seu novo gatinho.

7 comentários:

  1. unicornio malandrão4 de outubro de 2016 01:54

    acho que o lucas não matou o gato,afinal todos os lucas que eu conheço são caras legais

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  2. Em nenhum momentos ele disse que faria mal ao gato. Disse que aconteceria a mesma coisa, mas não que faria. Aprendi a não julgar personagens nos primeiros capítulos.

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  3. Kkkk o matador de gatoo kkkk

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  4. hum lucas sexy 😍
    ass: mary Walker

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