11 de agosto de 2016

Capítulo um


Se vocês tivessem que dar uma medalha de ouro para a pessoa mais detestável do mundo, certamente o prêmio iria para Carmelita Spats, e, se vocês não lhe dessem a medalha, Carmelita Spats era o tipo de pessoa que a tomaria de qualquer maneira. Ela era rude, violenta e nojenta, e é uma lástima que eu tenha de descrevê-la para vocês, porque esta história já tem atrocidades e infortúnios demais para eu ainda mencionar uma pessoa tão desagradável.
São os órfãos Baudelaire, graças a Deus, os heróis desta história, não a detestável Carmelita Spats, e se vocês quisessem poderiam dar uma medalha de ouro a Violet, Klaus e Sunny Baudelaire por terem sobrevivido a tanta adversidade. Adversidade é uma palavra que aqui significa “problemas”, “maus momentos”, e pouquíssimas pessoas neste mundo passaram por adversidades tão perturbadoras como essas crianças, que são perseguidas aonde quer que vão. Seus problemas começaram um belo dia em que estavam descansando na praia e receberam a notícia desoladora de que os pais haviam morrido num terrível incêndio. Órfãos, foram morar com um parente distante chamado conde Olaf.
Se vocês tivessem que dar uma medalha de ouro para o conde Olaf, teriam que guardá-la em algum lugar bem seguro antes da cerimônia de entrega, porque o conde Olaf era um sujeito tão ganancioso e tão perverso que haveria de tentar roubá-la com antecedência. Os órfãos Baudelaire não tinham uma medalha de ouro, mas tinham uma enorme fortuna que os pais haviam deixado, e era essa fortuna que estava na mira do conde. Os três irmãos sobreviveram, a duras penas, à experiência de morar com o conde Olaf, e desde então Olaf os seguia para onde quer que fossem, em geral acompanhado por um ou mais dos sinistros e feios auxiliares. Não importa quem estivesse com a guarda dos Baudelaire, o conde Olaf invariavelmente estava no pé das crianças, praticando ações as mais abomináveis, tantas que nem dá para fazer uma lista completa aqui para vocês. Sequestros, assassinato, telefonemas ameaçadores, disfarces, envenenamento, hipnose, refeições detestáveis, são apenas algumas das adversidades a que os órfãos Baudelaire sobreviveram nas mãos dele. E o pior: o conde Olaf tinha o mau hábito de escapar à captura, de modo que era certo que voltaria mais e mais uma vez. É horrível que isso aconteça, mas esta história é assim o tempo todo, fazer o quê?
Só estou dizendo que a história é assim o tempo todo porque chegou a hora de vocês conhecerem a rude, violenta e nojenta Carmelita Spats, e, se vocês não aguentarem conhecê-la, é melhor pôr este livro de lado e ler outra coisa, porque daqui em diante tudo só vai piorar. Não demora muito e Violet, Klaus e Sunny vão ter pela frente tanta adversidade que levar um empurrão de Carmelita Spats será apenas um refresco.
“Saiam do meu caminho, seus bisbórrias!”, disse uma garotinha rude, violenta e nojenta, empurrando os órfãos Baudelaire para o lado a fim de abrir passagem. Violet, Klaus e Sunny não souberam o que responder, de tão espantados. O caminho que estavam seguindo era de pedras que pareciam bastante antigas, pois havia grande quantidade de musgo escuro brotando nas brechas das pedras. A calçada cortava um gramado marrom que parecia nunca haver sido regado, no qual centenas de crianças corriam em várias direções. Vez por outra uma delas escorregava e ia ao chão, logo se levantando e retomando a corrida. Parecia uma atividade cansativa e sem sentido, duas coisas que se devem evitar a todo o custo, mas os Baudelaire mal dirigiam o olhar para as outras crianças, atentos aos tijolos musguentos sob os pés.
A timidez é curiosa, porque, da mesma forma que a areia movediça, pega as pessoas de surpresa, e, também como a areia movediça, faz com que as vítimas olhem para baixo. Aquele estava sendo o primeiro dia dos Baudelaire na Escola Preparatória Prufrock, e os três irmãos preferiram não olhar para nada que não fosse o musgo entre as pedras.
“Vocês deixaram cair alguma coisa?”, perguntou o sr. Poe, tossindo em um lenço branco.
Com toda a certeza os Baudelaire não queriam pôr os olhos era no sr. Poe, que vinha andando logo atrás deles. O sr. Poe era executivo de um banco e fora incumbido de zelar pelos interesses dos Baudelaire depois que os pais das crianças morreram no incêndio – o que, com o tempo, revelou-se uma péssima ideia. O sr. Poe era bem-intencionado – contudo um pote de mostarda provavelmente também o é, e não tenho a menor dúvida de que cuidaria melhor dos Baudelaire. Violet, Klaus e Sunny havia muito tinham aprendido que do sr. Poe só podiam contar com a tosse infalível.
“Não”, respondeu Violet, “não deixamos cair nada.”
Violet era a mais velha dos órfãos Baudelaire, e habitualmente não era nem um pouco tímida. Violet gostava de inventar coisas, e volta e meia a víamos pensando concentradíssima em sua invenção mais recente, os cabelos amarrados com uma fita para não cair nos olhos. Quando concluía uma invenção, gostava de exibi-la aos conhecidos, que em geral se mostravam muito impressionados com seu talento. Agora, ao olhar para os tijolos musguentos, pensava em inventar uma máquina que fosse capaz de impedir o crescimento de musgo nas calçadas, mas estava nervosa demais para falar nisso. E se nem os professores, nem as crianças, nem os funcionários da escola se interessassem pelas invenções?...
Como se houvesse lido seus pensamentos, Klaus pousou a mão no ombro de Violet, e ela sorriu para ele. Ao longo de seus doze anos de existência, Klaus aprendera que a irmã mais velha achava consolador ter uma mão no seu ombro – contanto que a mão estivesse ligada a um braço, é claro. Normalmente, Klaus acrescentaria algumas palavras de conforto, mas naquele momento sentia-se tão tímido quanto a irmã. Quase sempre ele podia ser visto fazendo aquilo de que mais gostava, ou seja, lendo. Quando amanhecia, era comum encontrá-lo adormecido na cama com os óculos ainda no rosto; ficava lendo até tarde e caía no sono com óculos e tudo. Klaus baixou os olhos para o caminho de pedras e lembrou-se de um livro intitulado Mistérios do musgo, porém, com a timidez que sentia, não ousou puxar assunto. E se na Escola Preparatória Prufrock não tivesse nada de bom para ler?...
Sunny, a mais jovem dos Baudelaire, ergueu o olhar para os irmãos, o que fez com que Violet sorrisse para ela e a levantasse nos braços. Isso era fácil de fazer porque Sunny era um bebê, e só pouco maior que um pão de forma. Sunny também estava nervosa demais para falar qualquer coisa, e na verdade às vezes era difícil entender o que ela dizia. Por exemplo, se Sunny não estivesse se sentindo tão acanhada, poderia ter aberto a boca revelando os quatro dentes afiados e dito “Marimô!”, o que numa situação como aquela significaria: “Espero que na escola haja muita coisa para morder, porque morder coisas é um dos meus passatempos preferidos!”.
“Eu sei por que vocês estão assim tão quietos!”, disse o sr. Poe. “E porque estão emocionados, posso compreender. Eu sempre quis ir para um colégio interno quando era jovem, mas nunca tive chance. Para dizer a verdade, sinto até um pouco de inveja de vocês.”
Os Baudelaire se entreolharam. O fato de a Escola Preparatória Prufrock ser um colégio interno era justamente o que os deixava mais nervosos. Se ninguém ali estivesse interessado em invenções, ou se não houvesse nada para ler, ou se morder fosse proibido, estariam encurralados o dia inteiro e a noite inteira. Já que o sr. Poe sentia inveja, os irmãos bem que desejaram trocar os papéis: ele podia entrar na Escola Preparatória Prufrock, e os três trabalhariam no banco.
“Vocês têm muita sorte de estar aqui”, prosseguiu o sr. Poe. “Liguei para mais de quatro escolas até encontrar uma que recebesse vocês três juntos num prazo de tempo tão curto. A Prep Prufrock – como ela é chamada, uma espécie de apelido – é o que há de melhor na área acadêmica. Os professores todos têm título superior. A ala residencial dos alunos é muito bem mobiliada. E o mais importante: há um sistema computadorizado de última geração que manterá o conde Olaf afastado de vocês. O vice-diretor Nero me disse que a descrição completa do conde Olaf – tudo, desde a longa e única sobrancelha tipo duas-numa-só até a tatuagem de olho no tornozelo esquerdo – foi programada no computador, de modo que vocês três estarão em segurança aqui durante os próximos anos.”
“E como um computador pode manter o conde Olaf afastado?”, perguntou Violet, intrigada, sempre com os olhos colados no chão.
“É um computador de última geração”, disse o sr. Poe, como se a expressão “última geração” explicasse por si mesma, e não tivesse o sentido de algo “que é moderno, avançado”. “Não atormentem suas cabecinhas pensando no conde Olaf. O vice-diretor Nero me prometeu que vai estar vigilante. Afinal de contas, uma escola de última geração como a Prep Prufrock não haveria de permitir às pessoas que entrem e saiam quando bem entendem.”
“Afastem-se, bisbórrias!”, disse a rude, violenta e nojenta garotinha ao forçar passagem por eles mais uma vez.
“O que é que ela quer dizer com 'bisbórrias'?”, murmurou Violet para Klaus, que possuía um vasto vocabulário graças às leituras.
“Não sei não”, confessou Klaus, “mas não me parece lá muito simpático.”
“Deve estar querendo dizer 'lambisgóia, que não quer dizer nada”, comentou o sr. Poe. “Bisbórrias... Inventam cada uma! Muito bem, chegamos.”
Eles haviam atingido o final do caminho de pedras e achavam-se diante da escola. Os Baudelaire ergueram os olhos para o novo lar e prenderam a respiração, surpresos. Se não tivessem olhado fixo para as pedras do chão enquanto atravessavam todo o gramado, já poderiam ter notado a aparência da escola, mas talvez tivesse sido melhor retardar o máximo possível o momento de olhar para ela. Uma pessoa que planeja o desenho de edifícios é conhecida profissionalmente como arquiteto, porém, no caso da Prep Prufrock, melhor teria sido chamá-lo de “deprê arquiteto”. A escola era constituída por várias construções, todas em mármore polido cinza, as quais se agrupavam num alinhamento pouco rigoroso. Para chegar aos edifícios, os Baudelaire tiveram que caminhar debaixo de um imenso arco de pedra que projetava sobre a relva uma sombra recurva, como um arco-íris em que todas as cores eram ou cinzentas ou pretas. Sobre o arco estava escrito, em enormes letras pretas, “ESCOLA PREPARATÓRIA PRUFROCK” seguido, em letras menores, do lema da escola: “Memento mori”. Mas não foram os edifícios nem o arco que fizeram as crianças prender a respiração. Foi a forma dos edifícios – o topo era arredondado, como um arco. Um retângulo com o lado superior arredondado é um formato estranho, convenhamos, e pela cabeça dos órfãos só passou uma coisa que tinha essa forma. Para os Baudelaire, cada um daqueles edifícios parecia exatamente uma lápide.
“Arquitetura bastante estranha”, comentou o sr. Poe. “Os prédios parecem dedos polegares. Seja como for, vocês têm que se apresentar no gabinete do vice-diretor Nero imediatamente. Fica no nono andar do edifício principal.”
“O senhor não vem conosco, sr. Poe?”, perguntou Violet. Violet tinha catorze anos e sabia que catorze anos era idade suficiente para comparecer sozinha ao escritório de qualquer pessoa, contudo estava nervosa por ter que entrar num edifício de aparência tão sinistra sem um adulto ao lado.
O sr. Poe tossiu no lenço ao mesmo tempo que olhava para o relógio de pulso. “Na verdade, não”, disse ele quando passou o acesso de tosse. “O expediente no banco já começou. Mas já discuti tudo com o vice-diretor Nero. E lembrem-se: se houver algum problema é só entrar em contato comigo ou com qualquer um dos meus sócios na Administração de Multas. É isso aí. Pé na estrada. Boa sorte e tudo de bom para vocês na Prep Prufrock.”
“Tudo correrá bem”, disse Violet, demonstrando mais coragem do que realmente sentia. “Obrigada por tudo, sr. Poe.”
“Obrigado”, disse Klaus, apertando a mão do executivo da Administração de Multas.
“Tecal”, disse Sunny. Era a sua maneira de dizer “Obrigada”.
“Não tem de quê, meus queridos”, disse o sr. Poe. “Até mais.”
Ele se despediu dos três Baudelaire com um aceno de cabeça, e em seguida, sob o olhar atento de Violet e Sunny, fez o caminho de volta sobre as pedras musguentas, evitando cuidadosamente o corre-corre da garotada. No entanto Klaus não ficou olhando para ele. Estava observando o enorme arco que se erguia à entrada do colégio.
“Posso não saber o que significa 'bisbórria'“, disse Klaus, “mas acho que sei traduzir o lema de nossa nova escola.”
“Parece estar escrito em outra língua”, disse Violet erguendo os olhos para a inscrição.
“E está mesmo”, disse Klaus. “É latim. Muitos lemas são em latim, por alguma razão. Não conheço muito latim, mas me lembro de ter lido essa expressão num livro sobre a Idade Média. Se o sentido é o que eu imagino, trata-se de um lema estranho, sem dúvida alguma.”
“O que é que você acha que significa?”, perguntou Violet.
“Se não me engano”, disse Klaus, que raramente se enganava, “'Memento mori' quer dizer 'Lembra-te de que morrerás”'.
Lembra-te de que morrerás”, repetiu Violet em voz baixa, e os três irmãos se encolheram uns sobre os outros, como se sentissem muito frio. Mais cedo ou mais tarde todos morreremos, é claro. Acrobatas de circo hão de morrer, exímios clarinetistas hão de morrer, vocês e eu havemos de morrer, e talvez neste exato momento alguém que more no seu quarteirão esteja atravessando uma rua sem olhar para ambos os lados e morra dentro de poucos segundos, tudo por causa de um ônibus. Todos havemos de morrer, mas quase ninguém quer ser lembrado disso. As crianças certamente não queriam pensar nisso, muito menos ao passar sob o arco na entrada da Prep Prufrock. Os órfãos Baudelaire não precisavam ser lembrados disso ao iniciar o primeiro dia no gigantesco cemitério que era seu novo lar.

3 comentários:

  1. Ai que lindo, até no livro dos outros, Ron e Hermione brigam. *-*

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  2. Kkkkk acho q os cometarios estao no livro erradoo kk acho q esse é do livro do HP kk

    Ah amanha vou checar se alguem na minha rua morreu ou foi atropelado por um onibus se isso aconteceu paro de ler na hora kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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