4 de agosto de 2016

Capítulo um


Se vocês não soubessem grande coisa sobre os órfãos Baudelaire e os vissem sentados sobre suas malas no Cais de Dâmocles, poderiam pensar que eles estavam a ponto de iniciar uma emocionante aventura. Afinal, os três haviam acabado de saltar da barca que os conduzira através do Lago Lacrimoso para irem morar com sua tia Josephine, e, na maioria dos casos, uma situação como essa levaria a acontecimentos dos mais divertidos.
Mas, é claro, vocês estariam redondamente enganados. Porque, embora Violet, Klaus e Sunny estivessem prestes a passar por experiências emocionantes e memoráveis, estas não seriam emocionantes e memoráveis tipo ter a sorte lida por alguém ou assistir a um rodeio. Sua aventura seria emocionante e memorável tipo ser perseguido por um lobisomem num campo de arbustos com espinhos venenosos à meia-noite sem ninguém por perto para vir em socorro. Se vocês se interessam por ler histórias com acontecimentos divertidos, certamente estão lendo o livro errado, porque raras vezes os Baudelaire passam por experiências divertidas ao longo de suas melancólicas e desventuradas vidas. O infortúnio deles é algo de terrível, tão terrível que eu mal tenho coragem de escrever sobre o assunto. De modo que, se vocês não querem ler uma história que é só tragédia do início ao fim, esta é sua última chance de largar este livro, porque os tormentos dos órfãos Baudelaire começam já no próximo parágrafo.
“Vejam só o que eu trouxe para vocês!”, disse o sr. Poe com um largo sorriso, estendendo um saquinho de papel. “Balas de hortelã-pimenta!”
O sr. Poe era um banqueiro a quem fora confiada a gestão dos negócios dos órfãos Baudelaire depois que os pais deles morreram. O sr. Poe era um homem de bons sentimentos, mas neste mundo não basta ter bons sentimentos, especialmente quando se é responsável por manter crianças a salvo de ameaças. O sr. Poe conhecia as três crianças desde que nasceram, e nunca lembrava que elas eram alérgicas a balas de hortelã-pimenta.
“Obrigada, sr. Poe”, disse Violet, pegando o saco de papel e espiando o seu conteúdo. Como a maioria das meninas de catorze anos, Violet era muito bem-educada para mencionar que, se comesse balas de hortelã-pimenta, na mesma hora sua pele se cobriria de urticária, palavra que significa “placas vermelhas que coçam durante algumas horas”. Além do mais, ela se achava justamente num de seus momentos de concentração inventiva, o que não lhe permitia dar muita atenção ao sr. Poe. Quem conhecia Violet, sabia que quando o cabelo dela estava preso com uma fita para não atrapalhar sua visão, como agora, era sinal de que roldanas, alavancas, engrenagens e outros acessórios necessários a invenções ocupavam seus pensamentos. Naquele momento em particular, ela pensava como poderia aprimorar a barca do lago para que esta deixasse de soltar fumaça no céu cinzento.
“Muito agradecido”, disse Klaus, o órfão do meio, sorrindo para o sr. Poe e pensando que bastaria uma lambidinha numa bala de hortelã-pimenta para que sua língua inchasse e ele mal conseguisse falar. Klaus tirou os óculos e desejou que em vez daquelas balas o sr. Poe houvesse comprado para ele um livro ou um jornal. Klaus era um leitor voraz, e quando ficou sabendo de sua alergia numa festa de aniversário aos oito anos, foi logo lendo todos os livros sobre alergia da biblioteca dos pais dele. Mesmo passados quatro anos, ele ainda era capaz de recitar as fórmulas químicas que causavam o inchaço de sua língua.
“Tói!”, gritou Sunny. A mais jovem dos Baudelaire era pouco mais que um bebê e, como muitos bebês, expressava-se com palavras difíceis de entender. Com “Tói!” era provável que quisesse dizer: “Nunca comi balas de hortelã-pimenta porque desconfio que, como meus irmãos, eu seja alérgica a elas”; mas não dava para saber. Também podia ser que quisesse dizer: “Bem que eu desejaria morder uma bala de hortelã-pimenta, porque gosto de morder coisas com meus quatro dentes afiados, mas não quero me arriscar a ter uma reação alérgica”.
“Vocês podem comer essas balas no táxi, durante o percurso até a casa da sra. Anwhistle”, disse o sr. Poe, tossindo no seu lenço branco. O sr. Poe parecia estar sempre resfriado, e os órfãos Baudelaire se acostumaram a receber dele informações entre acessos de tosse. “Ela pediu desculpas por não ter ido recebê-los no cais, mas disse que tem medo.”
“Mas por que ela teria medo de um cais?”, perguntou Klaus, olhando para os embarcadouros de madeira e os barcos a vela.
“Ela tem medo de tudo o que tenha ligação com o Lago Lacrimoso”, disse o sr. Poe, “mas não deu o motivo. Talvez esteja relacionado à morte do marido. Sua tia Josephine – na verdade, ela não é propriamente tia de vocês; é cunhada de sua prima em segundo grau, mas pediu que vocês a chamem de tia –, sua tia Josephine perdeu o marido recentemente, e é possível que ele tenha morrido afogado ou em consequência de um acidente de barco. Não me pareceu de bom-tom perguntar-lhe de que maneira ele morreu. Bem, vamos pô-los num táxi.”
“O que significa essa palavra que o senhor usou?”, perguntou Violet.
O sr. Poe olhou para Violet e ergueu as sobrancelhas. “Muito me surpreende, Violet”, disse, “que uma garota de sua idade ainda não saiba que um táxi é um carro que nos leva a qualquer lugar mediante o pagamento de uma tarifa. Andem, peguem as malas e vamos para junto do meio-fio.”
“‘Bom-tom’“, Klaus disse baixinho para Violet, “é o mesmo que boas maneiras, boa educação.”
“Obrigada”, respondeu ela baixinho, segurando a mala com uma das mãos e Sunny com a outra.
O sr. Poe acenava o lenço no ar para chamar um táxi, e, num instante, o taxista já havia ajeitado toda a bagagem no porta-malas e o sr. Poe já conseguira ajeitar os órfãos Baudelaire no banco de trás.
“Aqui me despeço de vocês”, disse o sr. Poe. “O expediente no banco já começou, e tenho impressão de que, se acompanhá-los até a casa da tia Josephine, não vou dar conta do meu serviço. Deem a ela minhas recomendações e digam-lhe que manterei contato regularmente.” O sr. Poe fez uma pausa para tossir no seu lenço antes de continuar. “Outra coisa. Sua tia está um pouco nervosa com a presença de três crianças na casa dela, mas eu lhe assegurei que vocês três são muito bem-educados. Portem-se direitinho e, como sempre, podem me telefonar ou passar um fax para mim no banco se surgir qualquer tipo de problema. Apesar de que eu imagine que nada vá dar errado desta vez.”
Quando o sr. Poe disse “desta vez”, olhou significativamente para as crianças, como se tivesse sido por culpa delas que o tio Monty havia morrido. Mas os Baudelaire estavam nervosos demais com a expectativa de conhecer sua nova tutora para pensar numa resposta ao sr. Poe que não fosse um simples “Até logo”.
“Até logo”, disse Violet, guardando o saco de balas de hortelã-pimenta no bolso.
“Até logo”, disse Klaus, lançando um último olhar para o Cais de Dâmocles.
“Frul!”, gritou Sunny, chupando a fivela do cinto de segurança.
“Até logo”, respondeu o sr. Poe, “e boa sorte para vocês. Pensarei nos Baudelaire sempre que puder.”
O sr. Poe deu algum dinheiro ao motorista do táxi, e se despediu das três crianças com um gesto enquanto o carro se afastava do cais para enveredar por uma rua cinzenta de paralelepípedos. Havia uma pequena mercearia com barris de limas e beterrabas do lado de fora. Havia uma loja de roupas chamada Veja Só! É O Seu Tamanho! que parecia estar em reforma. Havia um restaurante de aparência horrível chamado Palhaço Ansioso, com luzes de néon e balões na janela. Mas, sobretudo, havia um grande número de lojas fechadas, com tábuas ou grades de metal nas portas e janelas.
“A cidade não parece muito povoada”, observou Klaus. “E eu, que esperava que fizéssemos novos amigos aqui.”
“Estamos fora da temporada”, disse o taxista. Era um sujeito magrinho com um cigarro magrinho pendurado na boca, e falava com as crianças olhando-as pelo retrovisor. “A cidade do Lago Lacrimoso é uma estação de veraneio, e na temporada isto aqui fica repleto. Nesta época, no entanto, é tudo parado, não se vê vivalma. Para fazer amigos, vocês vão ter que esperar o tempo melhorar. Por falar nisso, o Furacão Hermano está sendo esperado na cidade para daqui a uma semana, por aí. Tratem de providenciar para que haja comida suficiente lá no alto, na casa de vocês.”
“Um furacão num lago?”, perguntou Klaus. “Pensei que só houvesse furacões perto do oceano.”
“Numa massa d’água tão vasta como o Lago Lacrimoso”, disse o motorista, “tudo pode acontecer. Para dizer a verdade, eu ficaria um pouco preocupado de morar no alto deste morro. Quando a tempestade chegar, vai ser muito difícil para um carro descer este caminho todo até a cidade.”
Violet, Klaus e Sunny olharam pela janela e entenderam o que o motorista quisera dizer com “descer este caminho todo”. O táxi tinha dobrado uma última curva e chegara ao estreito topo de um morro bem, bem alto, e as crianças puderam ver como a cidade ficava bem, bem longe, lá embaixo: a rua de paralelepípedos que avançava em volteios ao redor das construções mais parecia uma minúscula cobrinha cinzenta, e o Cais de Dâmocles, um pequeno quadrado com pontinhos – as pessoas – se movendo em torno. E, no espaço além do cais, estava a bolha escura que era o Lago Lacrimoso, bolha colossal e negra, como se um monstro se erguesse acima dos três órfãos, projetando sobre eles uma sombra gigantesca. Por alguns instantes as crianças olharam fixo para o lago, como se hipnotizadas pela enorme mancha na paisagem.
“O lago é tão enorme”, disse Klaus, “e parece tão profundo. Eu quase consigo entender por que tia Josephine tem medo dele.”
“A senhora que mora aqui em cima”, perguntou o taxista, “tem medo do lago?”
“Foi o que nos disseram”, disse Violet.
O taxista balançou a cabeça e freou o carro. “Não sei como ela aguenta, então.”
“Como assim?”, perguntou Violet.
“Vocês querem dizer que nunca estiveram nesta casa?”, perguntou ele.
“Não, nunca”, respondeu Klaus. “Nós nem sequer conhecemos tia Josephine.”
“Bem, se sua tia Josephine tem medo da água”, disse o taxista, “não acredito que ela more aqui nesta casa.”
“O que o senhor quer dizer com isso?”, perguntou Klaus.
“Bem, dê uma olhada”, respondeu o motorista, e saiu do táxi.
Os Baudelaire deram uma olhada. De início, os três garotos viram apenas algo semelhante a uma caixinha quadrada que tinha uma porta branca com a pintura descascando e que parecia ser um pouco maior do que o táxi que os levara até ali. Mas quando saíram do carro e se aproximaram da construção, viram que a caixinha quadrada era a única parte da casa situada no cume do morro. O resto dela – uma grande pilha de caixas quadradas grudadas umas nas outras como cubos de gelo – pendia das encostas, prendendo-se no morro por estacas metálicas que eram como patas de aranha. Ao olhar para seu novo lar, os três órfãos tiveram a impressão de que a casa inteira se agarrava ao morro como se ele fosse uma tábua de salvação.
O motorista do táxi tirou a bagagem deles do porta-malas, depositou-a diante da porta branca com a pintura descascando, e desceu o morro com seu carro, dando um toque na buzina para se despedir. Houve um rangido suave quando a porta branca com a pintura descascando se abriu, e de trás da porta surgiu uma mulher pálida com os cabelos brancos presos num coque no alto da cabeça.
“Olá”, disse ela, sorrindo contidamente. “Sou sua tia Josephine.”
“Olá”, disse Violet, cautelosa, e deu um passo em direção a sua nova tutora. Klaus, logo atrás dela, também deu um passo, e Sunny, logo atrás dele, engatinhou para a tia, mas os três Baudelaire caminhavam com o máximo cuidado, como se seu peso fosse capaz de romper o precário equilíbrio da casa, fazendo-a despencar. Os órfãos não conseguiam deixar de pensar como uma mulher que tinha tanto medo do Lago Lacrimoso suportava viver numa casa que parecia prestes a se lançar em suas profundezas.

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