17 de agosto de 2016

Capitulo treze


“Aquilo são toalhinhas de papel”, exclamou Violet. “Esta caixa está cheia de toalhinhas de papéis”.
E era verdade. Espalhadas por todo o palco, derramando-se do que restava da caixa de papelão, havia centenas e centenas de toalhinhas de papel redondas, rendadas em volta, do tipo que você poderia usar para enfeitar um pratinho de biscoitos, ou para pôr embaixo do copo em uma festa sofisticada.
“É claro”, disse o homem de óculos escuros. Ele se aproximou do palco e tirou os óculos escuros, e os Baudelaire puderam ver que ele não era um dos asseclas de Gunther, afinal. Era só um participante do leilão, usando terno risca-de-giz. “Eu ia dar ao meu irmão, de presente de aniversário. São Caprichosos Suportes de Copos. Que mais poderia significar C.S.C?”
“Sim”, disse Gunther, sorrindo para as crianças. “Que mais poderia significar, faz favor?”
“Não sei”, disse Violet, “mas o que os Quagmire descobriram não foi um segredo sobre toalhinhas de papel sofisticadas. Onde você os pôs, Olaf?”
“O que é Olaf, faz favor?”, perguntou Gunther.
“Ora, Violet”, disse Jerome. “Nós não combinamos que não íamos mais discutir com Gunther? Por favor, desculpe as crianças, Gunther. Acho que elas devem estar doentes.”
“Não estamos doentes!”, exclamou Klaus. “Nós fomos enganados! Esta caixa de suportes de copos era um red herring!”
“Mas o Lote 48 é que era um arenque vermelho”, disse alguém na multidão.
“Crianças, estou muito perturbado com o seu comportamento”, disse o sr. Poe. “Parece que vocês não se lavam há uma semana. Vocês estão gastando o seu dinheiro em coisas ridículas. Vocês ficam acusando todo mundo de ser o conde Olaf disfarçado. E agora, vocês me fazem uma grande confusão de toalhinhas pelo chão. Alguém é capaz de levar um tombo, com todas essas toalhinhas de papel liso espalhadas por aí. Eu pensei que os Squalor estavam criando vocês melhor.”
“Nós não vamos mais criá-los”, disse Esmé. “Não depois de eles terem feito esse papelão. Sr. Poe, eu quero que essas crianças horríveis sejam tiradas da minha tutela. Não vale a pena ter órfãos, mesmo que sejam in.”
“Esmé!”, exclamou Jerome. “Elas perderam os pais! Aonde mais poderiam ir?”
“Não discuta comigo”, cortou Esmé. “E vou lhe dizer aonde elas podem ir. Elas podem ir...”
“Comigo, faz favor”, disse Gunther, e pôs uma das suas mãos ossudas no ombro de Violet. Violet lembrou-se de quando aquele vilão traiçoeiro arquitetara um plano de se casar com ela, e estremeceu debaixo daqueles dedos gananciosos. “Eu muito gosta crianças. Eu muito feliz, faz favor, de criar três crianças só meus.” Ele pôs a outra mão ossuda no ombro de Klaus, depois veio para a frente, como se fosse pôr uma das suas botas no ombro de Sunny, para que todos os três Baudelaire ficassem travados em um abraço sinistro. Mas o pé de Gunther não desceu no ombro de Sunny. Ele desceu em uma toalhinha, e um segundo depois a previsão do sr. Poe, de que alguém ia escorregar e cair, se realizou. Com um baque de tombo empapelado, Gunther foi ao chão de repente, os braços se agitando freneticamente no meio das toalhinhas e as pernas se agitando loucamente no chão do palco. “Faz favor!”, ele gritou ao cair, mas os braços e pernas se abanando só fizeram com que escorregasse ainda mais, e os caprichosos suportes de copos começaram a se espalhar para o outro lado do palco e a cair no piso do Veblen Hall.
Os Baudelaire ficaram olhando as toalhinhas sofisticadas flutuarem em volta deles, produzindo leves ruídos sussurrantes ao cair, mas então ouviram dois sons ponderosos, um após o outro, como se a queda de Gunther tivesse feito cair alguma coisa mais pesada e, quando voltaram as cabeças na direção do som, viram as botas de Gunther caídas no chão, uma aos pés de Jerome e uma aos pés do sr. Poe.
“Faz favor!”, gritou Gunther de novo enquanto se debatia para se levantar, mas quando finalmente conseguiu se firmar em cima dos pés, todos no salão estavam olhando para eles.
“Olhem!”, disse o homem que antes estava de óculos escuros. “O leiloeiro estava sem meias! Isto não é muito educado!”
“E olhem!”, disse uma outra pessoa. “Ele está com um suporte de copo preso entre dois dedos do pé! Isto não é muito confortável!”
“E olhem!”, disse Jerome. “Ele tem um olho tatuado no tornozelo! Ele não é Gunther!”
“Ele não é um leiloeiro!”, gritou o sr. Poe. “Ele não é nem mesmo um estrangeiro! Ele é o conde Olaf!”
“Ele é mais do que o conde Olaf”, disse Esmé, andando devagar até o terrível vilão. “Ele é um gênio! Ele é um maravilhoso mestre da arte dramática! E ele é o homem mais lindo e mais in da cidade!”
“Não seja absurda!”, disse Jerome. “Impiedosos vilões sequestradores não estão in!”
“Você está certo”, disse o conde Olaf, e que alívio é poder chamá-lo pelo seu verdadeiro nome! Olaf jogou fora o seu monóculo e passou um braço em volta de Esmé. “Nós não estamos in. Nós estamos out, fora: fora da cidade! Vamos, Esmé!”
Com uma gargalhada estridente, Olaf segurou a mão de Esmé e pulou para fora do palco, abrindo caminho a cotoveladas no meio da multidão in enquanto começava a correr para a saída.
“Eles estão escapando!”, gritou Violet, e pulou para fora do palco para ir ao encalço deles. Klaus e Sunny a seguiram o mais rápido que as suas pernas podiam levá-los, mas Olaf e Esmé tinham pernas mais compridas, o que neste caso era uma vantagem tão injusta quanto o elemento surpresa. No tempo que os Baudelaire levaram para correr até o estandarte com a cara de Gunther, Olaf e Esmé já tinham chegado ao estandarte com a palavra “Leilão”, e no tempo que as crianças levaram para chegar até aquele estandarte, os dois vilões já tinham passado correndo pelo estandarte “In” e atravessado a porta premiada do Veblen Hall.
“Ó Deus!”, exclamou o sr. Poe. “Não podemos deixar aquele homem monstruoso escapar pela sexta vez! Atrás dele, todo mundo! O homem é procurado por uma grande variedade de crimes violentos e financeiros!”
A multidão in entrou em ação e começou a perseguir Olaf e Esmé, e você pode optar por acreditar, agora que esta história se aproxima do seu desfecho, que com tanta gente no encalço daquele vilão miserável seria impossível ele escapar. Você pode querer fechar este livro sem terminar de ler, e imaginar que Olaf e Esmé foram capturados, e que os trigêmeos Quagmire foram resgatados, e que o verdadeiro significado de C.S.C. foi descoberto e que o mistério da passagem secreta para a mansão Baudelaire destruída foi resolvido e que todos fizeram um delicioso piquenique para comemorar toda esta boa sorte e que havia sanduíches de sorvete suficientes para todo mundo. Eu certamente não culparia você por imaginar essas coisas, pois eu mesmo as imagino o tempo todo. Tarde da noite, quando nem mesmo o mapa da cidade consegue me reconfortar, fecho os olhos e imagino todas essas coisas alegres e reconfortantes rodeando as crianças Baudelaire, em vez de todas aquelas toalhinhas de papel que as rodearam e trouxeram mais um golpe de infortúnio às suas vidas. Porque quando o conde Olaf e Esmé Squalor abriram impetuosamente a porta do Veblen Hall, deixaram entrar uma brisa vespertina que fez todos os caprichosos suportes de copos esvoaçarem por cima das cabeças dos Baudelaire para depois caírem de novo no chão atrás deles e, em um escorregadiço momento, todos na multidão in estavam caindo uns por cima dos outros numa confusão de risca-de-giz empapelada. O sr. Poe caiu em cima de Jerome. Jerome caiu em cima do homem que estava antes usando óculos escuros e os seus óculos escuros caíram em cima da mulher que tinha dado o lance mais alto pelo Lote 47. Aquela mulher deixou cair as suas sapatilhas de balé feitas de chocolate e aquelas sapatilhas caíram em cima das botas do conde Olaf, e aquelas botas caíram em cima de mais três toalhinhas que fizeram mais quatro pessoas escorregarem e caírem em cima de uma outra pessoa, e logo a multidão inteira estava metida em um emaranhado sem saída.
Mas os Baudelaire nem relancearam para trás, para ver a última desgraça que as toalhinhas haviam causado. Mantiveram os olhos fixos na dupla de pessoas odiosas que corria pelos degraus do Veblen Hall abaixo na direção de uma grande caminhonete preta. Atrás do volante da caminhonete estava o porteiro, que por fim fizera a coisa sensata e enrolara as mangas exageradas; mas esta deve ter sido uma tarefa difícil, pois quando as crianças olharam para dentro da caminhonete, viram de relance que havia dois ganchos onde deveriam estar as duas mãos do porteiro.
“O homem de mãos de gancho!”, exclamou Klaus. “Ele estava bem debaixo dos nossos narizes o tempo todo!”
Assim que chegou à caminhonete, o conde Olaf voltou-se para zombar das crianças. “Ele pode ter estado bem debaixo dos seus narizes”, ele rosnou arreganhando os dentes, “mas logo estará nas suas gargantas. Eu voltarei, órfãos Baudelaire! Em breve as safiras Quagmire serão minhas, mas não esqueci da fortuna de vocês!”
“Gonope?”, gritou Sunny, e Violet apressou-se em traduzir.
“Onde estão Duncan e Isadora?”, disse ela. “Aonde você os levou?”
Olaf e Esmé se entreolharam e desandaram a rir enquanto se esgueiravam para dentro da caminhonete preta. Esmé apontou um polegar de unha comprida para a carroceria, que é a palavra que se usa para a parte de trás de uma caminhonete, onde são colocadas as coisas a transportar. “Usamos dois red herrings para enganá-los”, disse ela quando o motor da caminhonete despertou rugindo para a vida. As crianças puderam ver, na parte de trás da caminhonete, o grande arenque vermelho que tinha sido o Lote 48 no Leilão In.
“Os Quagmire!”, exclamou Klaus. “Olaf os prendeu dentro da estátua!”
Os órfãos desceram correndo as escadas do salão e, mais uma vez, você poderá achar mais agradável pôr de lado este livro, fechar os olhos e imaginar para esta história um fim melhor do que o que tenho de escrever. Você poderia imaginar, por exemplo, que assim que os Baudelaire chegaram à caminhonete, eles ouviram o som do motor falhando em vez do toque de buzina quando o homem de mãos de gancho acelerou, levando embora os seus patrões. Você poderia imaginar que as crianças ouviram sons dos Quagmire escapando da estátua de arenque em vez do “Bai-bai!” saído da boca ignóbil de Esmé. E você poderia imaginar o som das sirenes da polícia enquanto o conde Olaf era por fim agarrado, em vez do choro dos órfãos Baudelaire enquanto a caminhonete preta dobrava a esquina e desaparecia de vista.
Porém a sua imaginação seria ersatz, como toda imaginação. Seria tão inverdade quanto o leiloeiro ersatz que encontrou os Baudelaire na cobertura dos Squalor, e o elevador ersatz do lado de fora da porta da frente, e a tutora ersatz que os empurrara para dentro do abismo profundo do poço do elevador. Esmé escondera o seu plano maligno debaixo da sua reputação como a sexta consultora financeira mais importante da cidade, e o conde Olaf escondera a sua identidade atrás de um monóculo e umas botas pretas, e a passagem secreta escondera seus segredos atrás de um par de portas deslizantes de elevador, mas por mais que me doa contar a vocês que os órfãos Baudelaire ficaram parados nos degraus do Veblen Hall chorando, cheios de angústia e frustração, enquanto o conde Olaf fugia com os trigêmeos Quagmire, não posso esconder as verdades desafortunadas das vidas dos Baudelaire atrás de um final feliz ersatz.
Os órfãos Baudelaire ficaram parados nos degraus do Veblen Hall chorando, cheios de angústia e frustração, enquanto o conde Olaf fugia com os trigêmeos Quagmire, e a visão do sr. Poe emergindo da porta premiada com uma toalhinha de papel presa no cabelo e uma expressão de pânico nos olhos só serviu para fazê-los chorar ainda mais sentido.
“Vou chamar a polícia”, disse o sr. Poe, “e eles vão capturar o conde Olaf sem mais tardar”, mas os Baudelaire sabiam que esta afirmação era tão ersatz quanto o inglês imperfeito de Gunther. Eles sabiam que Olaf era esperto demais para ser capturado pela polícia, e lamento dizer que no momento em que dois detetives encontraram a grande caminhonete preta, abandonada na frente da Catedral de St. Carl com o motor ainda funcionando, Olaf já tinha transferido os Quagmire do arenque vermelho para um lustroso estojo preto de instrumento musical, que ele disse ao motorista do ônibus tratar-se de uma tuba que estava levando para a tia dele. Os três irmãos viram o sr. Poe voltar correndo para o Veblen Hall, para perguntar às pessoas na multidão in onde poderia encontrar um telefone público, e perceberam que o banqueiro não ia ser de nenhuma ajuda.
“Acho que o sr. Poe não vai ser de muita ajuda”, disse Jerome, que tinha saído do Veblen Hall e sentado nos degraus para tentar consolar as crianças. “Ele vai ligar para a polícia e dar a eles uma descrição de Olaf.”
“Mas Olaf anda sempre disfarçado”, disse Violet muito infeliz, enxugando os olhos. “Você não sabe qual vai ser a aparência dele até que o veja.”
“Bem, vou me certificar de que vocês jamais o vejam de novo”, prometeu Jerome. “Esmé pode ter partido – e não vou discutir com ela – mas ainda sou o tutor de vocês e vou levá-los para muito, muito longe daqui, tão longe que vão esquecer tudo a respeito do conde Olaf, e dos Quagmire, e tudo o mais.”
“Esquecer Olaf?”, perguntou Klaus. “Como vamos esquecer dele? Nunca esqueceremos a sua traição, não importa onde estivermos vivendo.”
“E nós também nunca vamos esquecer os Quagmire”, disse Violet. “Eu não quero esquecê-los. Temos de descobrir aonde ele está levando os nossos amigos, e como salvá-los.”
“Tercul!”, disse Sunny, o que queria dizer “E nós também não vamos esquecer tudo o mais – como o corredor subterrâneo que nos levou à nossa mansão destruída, e o verdadeiro significado de C.S.C.!” ou algo no gênero.
“Minha irmã tem razão”, disse Klaus. “Temos de seguir a pista de Olaf e descobrir todos os segredos que ele está escondendo de nós.”
“Nós não vamos seguir a pista de Olaf”, disse Jerome estremecendo só de pensar. “Teremos sorte se ele não seguir a nossa pista. Como tutor de vocês, não posso permitir que tentem encontrar um homem tão perigoso. Vocês não preferem viver em segurança comigo?”
“Sim”, admitiu Violet, “mas os nossos amigos estão em sério perigo. Precisamos salvá-los.”
“Bem, não quero discutir”, disse Jerome. “Se vocês já decidiram, então decidiram. Vou dizer ao sr. Poe para encontrar um outro tutor.”
“Quer dizer que não vai nos ajudar?”, perguntou Klaus.
Jerome suspirou e beijou cada um dos Baudelaire na testa. “Vocês crianças me são muito queridas”, disse ele, “mas não tenho a sua coragem. A sua mãe sempre disse que eu não era muito valente, e acho que ela estava certa. Boa sorte, jovens Baudelaire. Acho que vão precisar.”
As crianças ficaram olhando em total perplexidade enquanto Jerome se afastava, sem sequer olhar para trás, para os três órfãos que estava abandonando. Elas sentiram os olhos marejando de lágrimas mais uma vez enquanto o viam se afastar e desaparecer de vista. Nunca mais tornariam a ver a cobertura dos Squalor, nem passariam mais uma noite em seus quartos, nem passariam um momento sequer usando os seus ternos risca-de-giz grandes demais. Embora ele não fosse tão infame quanto Esmé, ou o conde Olaf, ou o homem de mãos de gancho, Jerome continuava sendo um tutor ersatz, porque um tutor de verdade deve prover um lar, com um lugar para dormir e alguma coisa para vestir, e no fim tudo o que Jerome lhes dera fora um “Boa sorte”. Jerome chegou ao fim do quarteirão, virou à esquerda, e os Baudelaire estavam sozinhos no mundo outra vez.
Violet suspirou e ficou olhando ao longe na direção em que Olaf escapara. “Espero que as minhas habilidades de inventora não me decepcionem”, disse ela, “porque vamos precisar mais do que boa sorte para resgatar os trigêmeos Quagmire.”
Klaus suspirou e ficou olhando ao longe na direção dos remanescentes cinzentos do seu primeiro lar. “Espero que as minhas habilidades de pesquisador não me decepcionem”, disse ele, “porque vamos precisar mais do que boa sorte para resolver o mistério do corredor e da mansão Baudelaire.”
Sunny suspirou e ficou olhando para uma toalhinha de papel solitária que esvoaçava pelos degraus. “Morder”, disse ela, e queria dizer com isso que esperava que os seus dentes não a decepcionassem, porque eles precisariam de mais do que boa sorte para descobrir o que realmente significava C.S.C.
Os Baudelaire se entreolharam com um leve sorriso nos lábios. Estavam sorrindo porque não achavam que as habilidades de inventora de Violet fossem decepcionar, assim como as habilidades de pesquisador de Klaus não iriam decepcionar, e os dentes de Sunny não iriam decepcionar. Mas as crianças também sabiam que não iriam decepcionar umas às outras, como Jerome as decepcionara e como o sr. Poe as estava decepcionando agora, enquanto discava um número errado e falava com um restaurante vietnamita em vez de falar com a polícia. Não importa por quantas desventuras tivessem passado, e não importa quantas coisas ersatz ainda fossem encontrar no futuro, os órfãos Baudelaire sabiam que podiam contar uns com os outros pelo resto de suas vidas, e isto, pelo menos, dava a sensação de ser a única coisa no mundo que era verdade.

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