11 de agosto de 2016

Capítulo treze


“Onde estão eles?”, gritou Violet assim que o instrutor Genghis pôs os pés dentro do barraco. “O que você fez com eles?” Normalmente, é claro, a pessoa deve iniciar uma conversa com Olá, como vai, ou algo do gênero, contudo a mais velha dos Baudelaire estava angustiada demais para seguir as normas de boa educação.
Os olhos de Genghis brilhavam até não poder mais, contudo sua voz saiu calma e agradável. “Aqui estão”, disse, erguendo e mostrando a fita e os óculos. “Achei que vocês podiam estar preocupados, e resolvi trazê-los logo de manhã cedo.”
“Não é deles que estamos falando!”, disse Klaus tomando os dois objetos das mãos ossudas de Genghis. “É deles, os outros!”
“Infelizmente, não estou entendendo esses 'eles' todos”, disse o instrutor Genghis dando de ombros para os adultos. “A noite os órfãos correram no gramado, exercício que faz parte do meu programa D.O.R., porém tiveram que sair apressados de manhã para prestar os exames. Na pressa, Violet deixou cair a fita e Klaus deixou caírem os óculos. E o bebê...”
“Você sabe muito bem que não foi isso que aconteceu”, interrompeu Violet. “Onde estão os trigêmeos Quagmire? O que você fez com nossos amigos?”
“O que você fez com nossos amigos?”, arremedou o vice-diretor Nero, em deboche. “Parem de dizer tolices, órfãos.”
“Infelizmente, não são tolices”, disse Genghis, balançando a cabeça envolvida no turbante, e prosseguiu com sua história. “Como eu estava dizendo quando a garotinha me interrompeu, o bebê não se apressou em acompanhar os outros órfãos. Ficou lá sentada no chão como um saco de farinha. Então cheguei perto dela e dei-lhe um pontapé para que se movesse.”
“Excelente ideia!”, disse Nero. “Que história estupenda! E então, o que aconteceu?”
“Bem, primeiro tive a impressão de que havia cavado um buraco enorme no bebê com o meu pontapé”, disse Genghis, os olhos brilhando, “o que eu diria ser uma sorte, levando em conta a péssima atleta que era Sunny. Seria uma bênção que a livraria para sempre da infortunada condição.”
Nero bateu palmas. “Sei muito bem o que você quer dizer, Genghis”, disse ele. “Ela é também uma péssima secretária.”
“Mas ela grampeou todas aquelas folhas!”, protestou o sr. Remora.
“Cale-se e deixe o instrutor terminar a história”, disse Nero.
“E quando olhei para baixo”, prosseguiu Genghis, “vi que meu pontapé não tinha feito um buraco num bebê. O pontapé tinha feito um buraco num saco de farinha! Eu havia sido enganado!”
“Isso é muito sério!”, exclamou Nero.
“Então corri atrás de Violet e Klaus”, continuou Genghis, “e descobri que eles não eram Violet e Klaus, e sim aqueles dois outros órfãos, os gêmeos.”
“Eles não são gêmeos!”, exclamou Violet. “Eles são trigêmeos!”
“Eles são trigêmeos!”, arremedou Nero. “Não seja estúpida. Trigêmeos são quando quatro bebês nascem ao mesmo tempo, e os Quagmire são apenas dois.”
“Pois esses dois Quagmire estavam querendo se fazer passar pelos Baudelaire para que os amigos tivessem tempo extra para estudar.”
“Tempo extra para estudar?”, disse Nero, franzindo a cara com satisfação. “Hi, hi, hi! Meu Deus, isso é trapaça!”
“Isso não é trapaça!”, disse a sra. Bass.
“Faltar à aula de ginástica para estudar é trapaça”, insistiu Nero.
“Não, eu diria que é saber administrar o tempo”, argumentou o sr. Remora. “Não há nada de errado com a educação física, mas não deve interferir no aproveitamento escolar.”
“Escute, eu sou o vice-diretor”, disse o vice-diretor, “e estou dizendo que os Baudelaire trapacearam sim, por isso – hurra! – posso expulsá-los. Vocês não passam de meros professores, e fiquem sabendo que, se discordarem de mim, posso expulsá-los também.”
O sr. Remora olhou para a sra. Bass, os dois deram de ombros. “Você é quem manda, Nero”, disse finalmente o sr. Remora, tirando outra banana do bolso. “Se você diz que eles estão expulsos, eles estão expulsos.”
“Pois bem, eu digo que eles estão expulsos”, disse Nero. “E Sunny perde o emprego também.”
“Ova!”, gritou Sunny, querendo dizer algo como: “Eu nunca quis ser secretária droga nenhuma!”.
“Pouco nos importa ser expulsos”, disse Violet. “Queremos saber o que aconteceu com nossos amigos.”
“Bem, os Quagmire tinham que ser punidos pela participação na trapaça”, disse o instrutor Genghis, “e então resolvi levá-los para o refeitório e deixá-los sob a vigilância de dois empregados. Vão ficar batendo ovos o dia inteiro.”
“Muito justo”, concordou Nero.
“E isso é tudo o que estão fazendo?”, perguntou Klaus desconfiado. “Batendo ovos?”
“Foi o que eu disse”, disse Genghis chegando tão perto dos Baudelaire que tudo o que eles podiam ver era o brilho dos olhos do instrutor e a maldade entortando a curva da boca. “Esses dois Quagmire vão bater ovos e mais ovos, mas tanto, tanto, que eles próprios vão acabar desmanchando e sumindo.”
“Você é um mentiroso”, disse Violet.
“E ainda insulta seu instrutor”, disse Nero, balançando a cabeça com os rabichos-de-cavalo. “Agora estão duplamente expulsos.”
“Como é isso?”, disse uma voz aproximando-se da porta. “Duplamente expulsos?”
A voz foi interrompida por um longo e catarrento acesso de tosse, e na mesma hora os Baudelaire souberam que se tratava do sr. Poe. Ele estava diante do Barraco dos Órfãos segurando um grande saco de papel e tinha uma expressão séria e desconcertada. “O que vocês todos estão fazendo aqui?”, perguntou. “Não parece ser um lugar apropriado para conversar, um barraco caindo aos pedaços.”
“E pode-se saber o que você está fazendo aqui?”, perguntou Nero. “Não permitimos a estranhos circular pela Escola Preparatória Prufrock.”
“Meu nome é Poe”, disse o sr. Poe, apertando a mão de Nero. “Você deve ser Nero. Falamo-nos pelo telefone. Recebi seu telegrama sobre os vinte e oito sacos de balas e os dez pares de brincos com pedras preciosas. Meus sócios na Administração de Multas acharam melhor que eu fizesse a entrega pessoalmente, e por isso aqui estou. E que história é essa de expulsão?”
“Estes órfãos que você me impingiu”, disse Nero, empregando uma palavra grosseira onde deveria ter dito “encaminhou”, “me saíram uns trapaceiros de marca maior, e sou obrigado a expulsá-los.”
“Trapaceiros?”, disse o sr. Poe, fechando a cara para os três irmãos. “Violet, Klaus, Sunny, estou muito decepcionado com vocês. Vocês me prometeram que seriam excelentes estudantes.”
“Bem, na verdade, apenas Violet e Klaus eram estudantes”, disse Nero. “Sunny era assistente administrativa, mas também péssima nas suas funções.”
Os olhos do sr. Poe escancararam-se de surpresa, durante uma pausa para tossir no lenço branco. “Assistente administrativa?”, repetiu. “Como assim? Sunny, um bebê!... Ela tinha que estar na pré-escola, e não trabalhando num escritório.”
“Bem, agora isso não importa”, disse Nero. “Todos foram expulsos. Passe-me as balas.”
Klaus olhou para as próprias mãos, que continuavam com os cadernos dos Quagmire. Receava que, a não ser pelos cadernos, não voltasse a ver nenhum outro vestígio dos amigos. “Não há tempo para ficarmos aqui discutindo sobre balas!”, exclamou. “O conde Olaf fez alguma coisa terrível com nossos amigos!”
“Conde Olaf?”, disse o sr. Poe, estendendo a Nero o saco de papel. “Não me diga que ele descobriu vocês aqui!”
“Não, claro que não”, disse Nero. “Meu computador de última geração manteve-o à distância, é claro. Mas as crianças têm essa bizarra ideia de que o instrutor Genghis é na verdade Olaf disfarçado.”
“Conde Olaf”, disse Genghis demorando-se na pronúncia das duas palavras. “Sim, já ouvi falar dele. É considerado o melhor ator do mundo. Eu sou o melhor professor de ginástica do mundo, logo não haveria possibilidade de sermos a mesma pessoa.”
O sr. Poe olhou para o instrutor Genghis de alto a baixo, e em seguida balançou a cabeça. “Prazer em conhecê-lo”, disse, depois virou-se para os Baudelaire. “Vocês muito me surpreendem, crianças. Mesmo sem um computador de última geração, dá para perceber que esse homem não é o conde Olaf. Olaf tem uma única sobrancelha, e esse homem está usando um turbante. E Olaf tem um olho tatuado no tornozelo, e esse homem está calçando caríssimos tênis de corrida. Muito bonitos, diga-se de passagem.”
“Ora, obrigado”, disse o instrutor Genghis. “Infelizmente, graças a essas crianças, eles estão enfarinhados, mas tenho certeza de que ficarão limpos com um pano úmido.”
“Se ele tirar o turbante e os tênis”, Violet disse com impaciência, “você vai ver como é Olaf.”
“Já passamos por isso antes”, disse Nero. “Ele não pode tirar os tênis de corrida porque esteve se exercitando e os pés suados devem estar com mau cheiro.”
“E não posso tirar meu turbante por motivos religiosos”, acrescentou Genghis.
“Você não está usando turbante por motivos religiosos!”, disse Klaus com revolta, e Sunny gritou alguma coisa em concordância. “Você está usando o turbante como disfarce! Por favor, sr. Poe, mande ele tirar!”
“Escute aqui, Klaus”, disse o sr. Poe, severo. “Você precisa aprender a aceitar culturas diferentes. Desculpe, instrutor Genghis. Essas crianças não costumam ser preconceituosas.”
“Tudo bem”, disse Genghis. “Estou habituado à perseguição religiosa.”
“Entretanto”, continuou o sr. Poe depois de um breve acesso de tosse, “eu lhe pediria para tirar os tênis de corrida, nem que fosse só para tranquilizar o espírito das crianças. Acho que todos podemos suportar um pouquinho de mau cheiro, desde que seja em nome da justiça criminal.”
“Chulé”, disse a sra. Bass torcendo o nariz. “Hum, argh!”
“Infelizmente não posso tirar meus tênis de corrida”, disse Genghis dando um passo em direção à porta. “Preciso deles.”
“Precisa deles?”, perguntou Nero. “Para quê?”
O instrutor Genghis lançou um olhar demorado para os três Baudelaire e sorriu com uma careta terrível, os dentões para fora. “Para correr, é claro”, disse e disparou porta afora.
Os órfãos se espantaram por um instante, não só por ele ter começado a correr tão de repente, mas também pela facilidade com que parecia ter desistido de seu plano. Um plano tão elaborado – disfarçar-se em professor de ginástica, forçar os Baudelaire a exaustivas corridas noturnas, conseguir que fossem expulsos –, e então atravessar em disparada o gramado sem sequer se virar para olhar as crianças que vinha perseguindo havia tanto tempo!... Os Baudelaire saíram do Barraco dos Órfãos, e o instrutor Genghis voltou-se para trás e encarou-os com desprezo.
“Não pensem que desisti de vocês, órfãos!”, disse ele. “Por ora, tenho dois prisioneirozinhos, eles próprios donos de uma fortuna pra lá de boa!”
Genghis começou a correr de novo, mas antes apontou um dedo ossudo para o outro extremo do gramado. Os Baudelaire prenderam a respiração. Ao longe, nos limites da Prep Prufrock, eles viram um longo carro preto soltando fumaça escura do escapamento. Só que as crianças não estavam prendendo a respiração por causa do ar poluído. Dois empregados do refeitório caminhavam em direção ao carro, e finalmente sem as máscaras de ferro, de modo que os garotos puderam ver que se tratava das duas mulheres de rosto empoado de branco, integrantes do bando do conde Olaf. Mas tampouco era isso que havia prendido a respiração das crianças, embora fosse uma revelação surpreendente e lamentável. Os irmãos estavam chocados com o que as mulheres de rosto empoado de branco arrastavam para o carro. Cada uma estava arrastando um dos trigêmeos Quagmire, que se debatiam em desespero para soltar-se.
“Ponham eles no banco de trás!”, Genghis ordenou aos gritos. “Eu dirijo! Depressa!”
“Que diabos o instrutor Genghis está fazendo com aquelas crianças?”, perguntou o sr. Poe, franzindo a cara.
Os Baudelaire nem sequer se voltaram para o sr. Poe a fim de tentar explicar. Depois de todas as sessões de treinamento com a D.O.R., Violet, Klaus e Sunny notaram que os músculos das pernas podiam responder instantaneamente se eles quisessem correr. E nunca antes os órfãos Baudelaire haviam desejado correr tanto como agora.
“Vamos atrás deles!”, exclamou Violet, e as crianças foram atrás deles.
Violet correu, os cabelos esvoaçando rebeldes atrás dela. Klaus correu, e não se preocupou nem um pouco se os cadernos dos Quagmire poderiam cair. E Sunny correu o mais rápido que lhe permitiam suas mãos e pernas. O sr. Poe tossiu de espanto e começou a correr atrás deles, e Nero, o sr. Remora e a sra. Bass começaram a correr atrás do sr. Poe. Se vocês estivessem escondidos atrás do arco de pedra, de olho no que estava acontecendo, teriam presenciado uma estranha corrida no gramado da frente: o instrutor Genghis correndo na dianteira, os órfãos Baudelaire logo atrás dele, e uma diversidade de adultos bufando e resfolegando atrás das crianças. E se continuassem a observar, veriam um emocionante desenrolar da corrida, expressão que aqui significa que “os Baudelaire estavam ganhando terreno sobre Genghis”. O instrutor tinha pernas muito mais compridas do que os Baudelaire, é claro, contudo havia passado as dez últimas noites de pé, parado, soprando num apito. As crianças tinham corrido tantas voltas em torno do círculo fosforescente que as pernas miúdas mas fortes – ou braços, no caso de Sunny – estavam valendo mais que a estatura de Genghis.
Muito me desagrada interromper a narrativa numa parte tão cheia de suspense como esta, porém sinto que devo me intrometer e preveni-los uma última vez antes de terminar esta história tão triste. Vocês provavelmente pensaram, ao ler que as crianças estavam a ponto de alcançar o inimigo, que agora os órfãos Baudelaire apanhariam o terrível vilão, e que encontrariam bons tutores, e que Violet, Klaus e Sunny seriam razoavelmente felizes pelo resto da vida – quem sabe criando a empresa tipográfica que imaginaram com os Quagmire. E vocês podem até acreditar que é esse o desfecho da história, se quiserem. Os poucos acontecimentos que encerram este capítulo da vida dos órfãos Baudelaire são incrivelmente infelizes e apavorantes; assim, se preferirem ignorá-los por completo, devem fechar o livro agora e imaginar um final agradável para esta horrível história. Fiz promessa solene de escrever a história dos Baudelaire exatamente como aconteceu, mas vocês não fizeram tal promessa – pelo menos que eu saiba – e não são obrigados a suportar o final desastroso desta narrativa. Por isso estou avisando: esta é a última chance de poupar-se do sofrimento de saber o que aconteceu em seguida com os irmãos Baudelaire.
Violet foi a primeira a alcançar o instrutor Genghis, e esticou o braço o mais que pôde até agarrar parte do turbante. Os turbantes, como vocês devem saber, consistem de uma peça única de pano que se prende bem ajustada à cabeça, envolvendo-a de modo bastante complicado. Mas como não conhecia a maneira correta de enrolar um turbante, Genghis improvisou, porque na verdade suas intenções eram usá-lo como um disfarce, e não por motivos religiosos. Ele o enrolou meio de qualquer jeito em volta da cabeça, como vocês enrolariam uma toalha ao sair do chuveiro, e o resultado foi que, quando Violet agarrou o turbante, o pano se soltou na mesma hora. Ela esperava que, ao segurar o turbante, conseguiria impedir o instrutor de correr, porém tudo o que aconteceu foi ficar com um longo pedaço de pano na mão. O instrutor Genghis continuou a correr, o suor escorrendo na sobrancelha única acima dos olhos brilhantes.
“Vejam!”, disse o sr. Poe, que estava bem longe dos Baudelaire mas mesmo assim próximo o suficiente para perceber o detalhe. “Genghis tem só uma sobrancelha, como o conde Olaf!”
Sunny foi a segunda Baudelaire a alcançar Genghis, e, como corria engatinhando, estava na posição perfeita para atacar os tênis dele. Usando todos os seus quatro dentes afiados, mordeu um cadarço, depois o outro. Os laços se desataram na mesma hora, deixando pedacinhos de cadarço no gramado marrom. A esperança de Sunny era que, desamarrando os laços, conseguisse fazer o instrutor tropeçar e cair; no entanto Genghis desvencilhou-se dos tênis e continuou a correr. Como muitas pessoas imundas, o instrutor Genghis não estava usando meias, assim o olho tatuado no tornozelo esquerdo fulgurava à luz do sol a cada passo.
“Vejam!”, disse o sr. Poe, que continuava ainda muito longe para ajudar mas suficientemente próximo para perceber o detalhe. “Genghis tem um olho tatuado, como o conde Olaf! Na verdade, acho que ele é o conde Olaf!”
“Claro que é!”, exclamou Violet, com o turbante desenrolado na mão.
“Solf!”, gritou Sunny, com um pedacinho de cadarço de tênis na mão. Ela quis dizer algo como: “Era o que estávamos tentando dizer a você”.
Klaus, entretanto, não disse nada. Pôs toda a sua energia na corrida, porém não corria em direção ao homem que agora podemos enfim chamar pelo nome verdadeiro, o conde Olaf. Corria em direção ao carro. As mulheres de rosto empoado de branco estavam empurrando os Quagmire para o banco de trás, e Klaus sabia que aquela podia ser a única chance de salvá-los.
“Klaus! Klaus!”, gritou Isadora assim que ele alcançou o carro. Klaus deixou os cadernos caírem no chão e agarrou a mão da amiga. “Socorro!”
“Segure firme!”, Klaus exclamou e começou a puxar Isadora para fora do carro. Sem dizer nenhuma palavra, uma das mulheres de rosto empoado curvou-se e mordeu a mão de Klaus, forçando-o a soltar a trigêmea. A outra mulher de rosto empoado aproximou-se de Isadora e tentou fechar a porta do carro.
“Não!”, Klaus exclamou e agarrou a maçaneta da porta. Cada um puxando de um lado, Klaus e a cúmplice de Olaf disputaram acirradamente o domínio da porta, ora um pouco mais entreaberta, ora um pouco mais entrecerrada.
“Klaus!”, exclamou Duncan por trás de Isadora. “Ouça, Klaus! Se algo der errado...”
“Nada vai dar errado”, prometeu Klaus, puxando para si a porta do carro com toda a força. “Vocês vão estar aqui fora num segundo!”
“Se algo der errado”, tornou a dizer Duncan, “é preciso que você saiba de uma coisa. Quando pesquisávamos a história do conde Olaf, fizemos uma descoberta terrível!”
“Depois a gente fala disso”, disse Klaus, lutando com a porta.
“Os cadernos!”, exclamou Isadora. “C...” A primeira mulher de rosto empoado tapou com a mão a boca de Isadora, impedindo-a de falar. Isadora, num repelão com a cabeça, escapou ao controle da mulher, “C...” A mão empoada de branco cobriu sua boca de novo.
“Segure firme!”, gritava Klaus em desespero. “Segure firme!”
“Os cadernos! C.S.C.”, disse Duncan aos berros, mas a mão empoada da outra mulher tapou a sua boca antes que pudesse continuar.
“Quê?”, perguntou Klaus.
Duncan sacudiu com violência a cabeça e furtou-se à mão da mulher por apenas um instante. “C.S.C.”, conseguiu gritar mais uma vez, e foi a última coisa que Klaus ouviu. O conde Olaf, que havia corrido mais devagar sem os tênis, enfim chegou ao carro e, com um rugido ensurdecedor, agarrou a mão de Klaus e tirou-a da porta. Quando a porta bateu e se fechou, Olaf acertou um pontapé no estômago de Klaus e jogou-o ao chão com um brutal pof!, fazendo o menino aterrissar perto de onde deixara cair os cadernos dos Quagmire. O vilão encarou Klaus, dirigiu-lhe um sorriso repulsivo, depois abaixou-se para apanhar os cadernos e enfiou-os debaixo do braço.
“Não!”, gritou Klaus, porém o conde Olaf limitou-se a sorrir, entrar no carro, sentar-se no banco da frente dar a partida, afastando-se bem no momento em que Violet e Sunny alcançaram o irmão.
Com as mãos no estômago, Klaus levantou-se e tentou seguir as irmãs, que tentavam perseguir o longo carro preto. Mas Olaf estava dirigindo a toda a velocidade e era simplesmente impossível ir atrás dele, de modo que pouco adiante os Baudelaire tiveram que parar. Os trigêmeos Quagmire avançaram sobre as mulheres de rosto empoado e começaram a dar socos na janela traseira do carro. Violet, Klaus e Sunny não conseguiram ouvir o que os Quagmire gritavam do outro lado do vidro; viram apenas o rosto desesperado e aterrorizado dos amigos. Até que as mãos empoadas das auxiliares de Olaf os agarraram e retiraram à força da janela. O rosto dos trigêmeos Quagmire desapareceu e os Baudelaire nada mais viram até o carro sumir à distância.
“Temos que ir atrás deles!”, gritou Violet, com lágrimas a correr pelo rosto. Virou-se para Nero e o sr. Poe, que estavam retomando o fôlego no final do gramado. “Temos que ir em busca deles!”
“Vamos chamar a polícia”, disse o sr. Poe, arquejante, enxugando com o lenço a testa suada. “Eles também têm um sistema computadorizado de última geração. Com certeza vão pegá-los. Onde fica o telefone mais próximo, Nero?”
“Não vou deixar que use meu telefone, Poe!”, disse Nero. “Você trouxe para cá três terríveis trapaceiros, e agora, graças a você, meu supremo professor de ginástica foi-se embora e levou dois alunos com ele! Os Baudelaire estão triplamente expulsos!”
“Veja bem, Nero”, disse Poe. “Seja razoável.”
Os Baudelaire deixaram-se cair sobre o gramado marrom, chorando de frustração e casaco. Não ligaram para a discussão entre o vice-diretor Nero e o sr. Poe, porque sabiam, com base no prisma da experiência, que quando os adultos chegassem a uma decisão o conde Olaf já teria escapado. Desta vez, Olaf não apenas escapou, mas escapou com os amigos deles, e os Baudelaire choravam porque imaginavam que nunca mais tornariam a ver os trigêmeos. Estavam enganados a esse respeito, contudo não tinham como saber que estavam enganados, e só de pensar no que o conde Olaf seria capaz de fazer com os queridos amigos começaram a chorar ainda mais desesperadamente. Violet chorava, ao lembrar como os Quagmire tinham sido bons com ela e os irmãos assim que chegaram àquele medonho colégio. Klaus chorava ao lembrar como os Quagmire haviam arriscado a própria vida para ajudá-los a fugir das garras de Olaf. E Sunny chorava ao lembrar da pesquisa que os Quagmire haviam feito, e da informação que eles não tiveram tempo de partilhar com ela e os irmãos.
Os órfãos Baudelaire abraçaram-se, e choraram e choraram enquanto atrás deles os adultos não terminavam a discussão. Enfim – quando, lamento dizer, o conde Olaf forçou os Quagmire a disfarçar-se como cachorrinhos para que entrassem no avião sem que ninguém notasse –, os Baudelaire esgotaram o pranto e simplesmente permaneceram sentados no gramado, deprimidos, em silêncio. Olharam para o mármore polido cinza dos edifícios em forma de lápide e para o arco com os dizeres “ESCOLA PREPARATÓRIA PRUFROCK” em enormes letras pretas e o lema “Memento mori” embaixo. Olharam para a beira do gramado, onde Olaf recolhera os cadernos dos Quagmire. E trocaram longos, longos olhares. Veio, então, à lembrança dos Baudelaire – como estou certo de que veio à de vocês também – que, em casos de estresse extremo, as pessoas encontram energia escondida nas áreas mais exaustas do corpo, e naquele momento Violet, Klaus e Sunny sentiram essa energia surgir dentro deles.
“O que foi que Duncan gritou para você?”, perguntou Violet. “O que foi que ele gritou quando estava no carro? Algo sobre os cadernos...”
“C.S.C”, disse Klaus, “mas não sei o que significa.”
“Ceju”, disse Sunny, querendo dizer: “Precisamos descobrir”, ou algo do gênero.
Os irmãos mais velhos olharam para a caçula e concordaram com a cabeça. Sunny tinha razão. As crianças precisavam esclarecer o mistério daquele C.S.C. e da horrível descoberta dos Quagmire. Talvez pudesse ajudá-los a salvar os dois trigêmeos. Talvez servisse para entregar o conde Olaf à justiça. E talvez permitisse que compreendessem como a vida deles, de um modo misterioso e fatal, tomara aquele rumo que as fez tão desaventuradas.
Uma brisa matinal soprava no campus da Escola Preparatória Prufrock farfalhando no gramado marrom e chocando com o arco de pedra onde estava inscrito o lema “Memento mori”: “Lembra-te de que morrerás”. Os órfãos Baudelaire olharam para o lema e juraram que não morreriam sem antes encontrar a solução daquele mistério soturno e intrincado que projetava uma sombra sobre a vida deles.

Um comentário:

  1. Puxa oq sera da vida dos trigemeos agora.

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