27 de agosto de 2016

Capitulo três


Tão desagradável quanto cortar-se com papel várias vezes no mesmo dia, ou descobrir que alguém da família o denunciou aos seus inimigos, é ser entrevistado para um emprego. É aflitivo explicar a alguém todas as coisas que você sabe fazer na esperança de que lhe paguem para fazê-las. Uma vez, numa dessas entrevistas, tive de explicar e demonstrar como era capaz de acertar uma azeitona com arco-e-flecha, memorizar três páginas de poesia e dizer se havia ou não veneno misturado no fondue de queijo, mesmo sem experimentar. Na maior parte dos casos, a melhor estratégia para uma entrevista de emprego é ser honesto, pois o pior que pode acontecer é você não conseguir o emprego e passar o resto da vida atrás de comida no deserto, abrigado debaixo de uma árvore ou de uma ponte. Mas, no caso dos Baudelaire, a situação era ainda mais desesperadora. Eles não podiam ser honestos com madame Lulu, pois estavam disfarçados, e o pior que podia acontecer era serem descobertos pelo conde Olaf e sua trupe e passarem o resto de suas vidas em circunstâncias impensáveis de tão ruins.
“Senta, faz favor, que Lulu vai entrevistar vocês para emprego na parque”, disse madame Lulu, apontando para a mesa de Olaf e sua trupe. Sob o olhar de todos, Violet e Klaus sentaram-se na mesma cadeira e Sunny arrastou-se para cima de outra. A trupe, com os cotovelos sobre a mesa, comia lanches fornecidos por Lulu, enquanto Esmé Squalor bebericava o seu leite desnatado e o conde Olaf prestava muita, muita atenção nos Baudelaire.
“Vocês me parecem muito familiares”, disse ele.
“Talvez você já viu aberraçóns antes, meu Olaf”, disse Lulu. “Como é nome de aberraçóns?”
“Meu nome é Beverly”, disse Violet, inventando um nome tão depressa quanto poderia inventar uma tábua de passar roupa. “E essa é a minha outra cabeça, Elliot.”
Olaf esticou o braço para um aperto de mãos, e Violet e Klaus tiveram de refletir por um momento antes de saber de quem era o braço que saía pela manga direita para cumprimentar o vilão. “É um prazer conhecê-los”, disse ele. “Deve ser muito difícil ter duas cabeças.”
“Oh, sim”, disse Klaus, com a voz mais aguda que sabia fazer. “Você nem imagina o trabalho que dá comprar roupas.”
“A sua camisa”, disse Esmé, “é muito in”.
“Não é porque somos aberrações”, disse Violet, “que não nos importamos com a moda.”
“E como vocês fazem para comer?”, perguntou Olaf, com um brilho cínico nos olhos. “Vocês têm dificuldade para comer?”
“Bem, eu..., quero dizer, nós... “, e antes que Klaus terminasse a fala, Olaf pegou uma espiga de milho que estava num dos pratos e a estendeu para as duas crianças.
“Vamos ver que grau de dificuldade você tem”, rosnou ele, e os seus capangas deram risadinhas. “Coma essa espiga de milho, aberração de duas cabeças.”
“Sim”, concordou madame Lulu. “Esta é melhor jeito de ver se você pode trabalhar na parque. Come milho! Come milho!”
Violet e Klaus se entreolharam, e então cada um estendeu uma mão para pegar a espiga de milho e, desajeitados, levaram-na à frente de suas bocas. Violet se inclinou para dar a primeira mordida, mas o movimento fez a espiga escorregar da mão de Klaus e cair na mesa, fazendo todos soltarem gargalhadas cruéis.
“Olhem só para ele!”, riu uma das mulheres de cara branca. “Não consegue nem comer uma espiga de milho! Como é esquisito!”
“Tente outra vez”, disse Olaf, com um sorriso perverso. “Pegue a espiga da mesa, aberração.”
As crianças obedeceram, e de novo levaram a espiga às suas bocas. Klaus apertou os olhos e tentou dar uma mordida, mas quando Violet mudou a posição da espiga para ajudá-lo, acabou acertando-lhe o rosto, e todo mundo – com exceção de Sunny, é claro – desatou a rir mais uma vez.
“Vocês aberraçóns é engraçadas”, disse madame Lulu. De tanto rir ela precisou enxugar os olhos, e quando fez isso, borrou ligeiramente uma de suas dramáticas sobrancelhas, como se tivesse um pequeno machucado em cima do olho. “Tenta de novo, aberraçón Beverly-Elliot!”
“Essa é a coisa mais engraçada que eu já vi”, disse o homem de mãos de gancho. “Sempre tive pena das pessoas defeituosas, mas agora acho que elas são hilárias.”
Violet e Klaus ficaram com vontade de dizer que um homem com ganchos no lugar das mãos também devia penar para comer uma espiga de milho. Depois de algumas mordidas, as crianças começaram a encontrar o caminho das pedras, uma expressão que aqui significa “descobrir como duas pessoas, com somente duas mãos, podem comer uma única espiga de milho ao mesmo tempo”, mas ainda assim era uma tarefa bastante difícil. A manteiga que lambuzava a espiga deixava suas bocas engorduradas, quando não escorria por seus queixos. Às vezes, a posição da espiga era perfeita para um deles morder, mas cutucava a outra cabeça. E muitas vezes a espiga de milho simplesmente escapava de suas mãos, e todo mundo soltava aquela gargalhada.
“Isso é mais divertido que fazer sequestros!”, disse o capanga careca de Olaf, que não parava de rir. “Lulu, essa aberração vai atrair pessoas de muito longe, e tudo o que você vai ter de comprar é uma espiga de milho!”
“Este é verdade, faz favor”, concordou madame Lulu, baixando os olhos para Violet e Klaus. “O multidón adora comilança porca. Vocês está contratado para atraçón de Casa dos Monstros. “
“E aquele outro?”, perguntou Esmé, às risadinhas, limpando o lábio superior sujo de leite. “O que é aquela aberração, algum tipo de cachecol vivo?”
“Chabo!”, disse Sunny para os irmãos. Ela queria dizer alguma coisa do tipo: “Sei que é humilhante, mas pelo menos os nossos disfarces funcionam!”, e Violet se apressou em disfarçar a tradução.
“Esta é Chabo, a Bebê-Lobo”, disse ela, com sua voz grave. “Sua mãe era uma caçadora que se apaixonou por um belo lobo e teve com ele essa pobre filha.”
“Eu nem sabia que isso era possível”, disse o homem de mãos de gancho.
“Grr”, rosnou Sunny.
“Pode ser engraçado vê-la comendo milho também”, sugeriu o careca e, com outra espiga de milho na mão, acenou para a mais jovem dos Baudelaire. “Aqui, Chabo! Coma uma espiga de milho!”
Sunny escancarou a boca, mas quando o careca viu as pontas dos seus dentes aparecendo por detrás da barba, puxou a mão de volta, assustado.
“Opa!”, disse ele. “Aquela aberração é feroz!”
“Ela ainda é um pouco selvagem”, disse Klaus, com a voz aguda. “Ficamos com todas estas cicatrizes só por provocá-la.”
“Grr”, rosnou Sunny, e mordeu um talher de prata para demonstrar como era selvagem.
“Chabo vai ficar ecselente atraçón na parque”, pronunciou madame Lulu. “Pessoas sempre gosta de violência, faz favor. Você também está contractada, Chabo.”
“Apenas a mantenha longe de mim”, disse Esmé. “Um bebê-monstro como esse é bem capaz de estragar a minha roupa.”
“Grr!”, rosnou Sunny.
“Vem com madame Lulu, aberraçóns”, disse Lulu. “Eu vai mostrar trailer, faz favor, onde vocês vai fazer naninha.”
“Vamos ficar aqui e tomar mais vinho”, disse o conde Olaf. “Congratulações pelas novas aberrações, Lulu. Eu sabia que você teria sorte se eu estivesse por perto.”
“Todo mundo tem”, disse Esmé, e beijou Olaf na bochecha. Madame Lulu fez uma careta e levou as crianças para fora do trailer. “Vem comigo, aberraçóns, faz favor”, disse ela. “Vocês vai morar na trailer dos aberraçóns. Vocês vai dividir com outros aberraçóns. Tem Hugo, Colette e Kevin, todos aberraçóns. Todo dia vai ser dia de atraçón de Casa dos Monstros. Beverly-Elliot, você vai comer milho, faz favor. Chabo, você vai ficar atacando público, faz favor. Algum pergunta?”
“Nós seremos pagos?”, perguntou Klaus. Ele pensou que um pouco de dinheiro podia ajudá-los quando já tivessem conseguido as respostas que queriam e pudessem escapar dali.
“Na-na-na”, disse madame Lulu. “Madame Lulu nón vai dá dinheiro para aberraçóns, faz favor. Quando você é aberraçón, tem que agradecer se alguém dá trabalho para você. Olha homem com gancho nos mons: ele agradecido porque trabalha para conde Olaf, apesar que conde Olaf nón dá para ele nada de fortuna Baudelaire. “
“Conde Olaf?”, perguntou Violet, fingindo não conhecer seu pior inimigo. “É aquele moço com uma sobrancelha só?”
“Aquela é Olaf”, disse Lulu. “Homem brilhanta, mas melhor nón falar coisas errados pra ele, faz favor. Madame Lulu sempre diz, você precisa sempre dar para pessoas o que pessoas quer, portanto vocês precisa falar sempre para Olaf que ele homem brilhanta.”
“Vamos nos lembrar disso”, disse Klaus.
“Bom, faz favor”, disse Lulu. “Esta é trailer dos aberraçóns. Bem-vindos na sua nova lar.”
Ela parara diante de um trailer onde a palavra ABERRAÇÕES aparecia pintada em grandes letras. A tinta parecia escorrer, como se a pintura fosse fresca, mas a palavra estava tão desbotada que os Baudelaire perceberam que o trailer tinha sido pintado havia muitos anos. Junto a ele havia uma barraca esburacada onde estava afixada uma placa com o desenho de uma menina de três olhos dizendo BEM-VINDO À CASA DOS MONSTROS. Madame Lulu passou pela placa e bateu à porta do trailer.
Aberraçóns!”, gritou ela. “Faz favor acorda, faz favor! Nós tem novos aberraçóns aqui, vocês diz olá!”
“Só um minuto, madame Lulu”, gritou uma voz detrás da porta.
“Nada de minuto, faz favor”, disse madame Lulu. “Agora! Eu é dono da parque!”
Quando a porta se abriu, apareceu um homem sonolento e giboso, uma palavra que aqui significa “que possui uma protuberância nas costas perto do ombro, dando à pessoa uma aparência irregular”. Usava um pijama rasgado nos ombros por causa da corcunda e segurava uma pequena vela.
“Sei que a senhora é a dona, madame Lulu”, disse o homem, “mas estamos no meio da noite. A senhora não quer que as suas aberrações fiquem descansadas?”
“Madame Lulu nón está muito preocupado com sono de aberraçóns”, disse Lulu, desdenhosa. “Faz favor, conta pra novas aberraçóns como deve fazer para atraçón de amanhã. O aberraçón de dois cabeças vai comer milho, faz favor, e o pequena aberraçón lobo vai atacar público.”
“Violência e comilança porca”, disse o homem com um suspiro. “Acho que a multidão vai gostar.”
“Claro que multidón vai gostar”, disse Lulu, “e entón Parque Caligari vai ganhar muita dinheira.”
“E, quem sabe, a senhora vai poder nos pagar”, disse o homem.
“Nem pensar, faz favor”, respondeu Lulu. “Bom noite, aberraçóns.”
“Boa noite, madame Lulu”, retrucou Violet, que preferiria ter sido chamada por um nome decente, mesmo que inventado, a ser chamada de “aberraçón”, mas a vidente foi embora sem nem olhar para trás. Os Baudelaire ainda ficaram no vão da porta do trailer por um momento, vendo Lulu desaparecer na noite, e só então olharam para o homem e se apresentaram de modo mais apropriado.
“Meu nome é Beverly”, disse Violet. “Minha segunda cabeça se chama Elliot, e esta é Chabo, a Bebê-Lobo.”
“Grr!”, rosnou Sunny.
“Eu sou Hugo”, respondeu o homem. “É bom ter novos colegas de trabalho. Entrem no trailer, vou apresentá-los aos outros.”
Mesmo com dificuldade para caminhar, Violet e Klaus seguiram Hugo, e Sunny seguiu seus irmãos, engatinhando para ficar mais parecida com um bebê-lobo. O trailer era pequeno, mas à luz da vela de Hugo era possível perceber que estava arrumado e limpo. Havia uma pequena mesa de madeira no centro e várias cadeiras em volta. Num canto havia várias roupas penduradas, inclusive uma longa fileira de casacos idênticos, e um grande espelho para alguém se pentear e se certificar de que está apresentável. Havia um pequeno fogão com algumas panelas e frigideiras empilhadas e alguns vasos de plantas enfileirados para receber a luz que vinha da janela. O trailer parecia ser um lugar confortável, mesmo que não tivesse uma pequena bancada de trabalho onde Violet pudesse inventar coisas, nem estantes de livros para Klaus fazer pesquisas, nem tampouco uma pilha de cenouras ou de qualquer outro alimento crocante em que Sunny pudesse cravar os dentes. Mas do que os Baudelaire realmente sentiram falta quando entraram no trailer foi de um lugar para dormir, pelo menos até que Hugo avançasse um pouco mais com a vela e iluminasse três redes penduradas em ganchos nas paredes. Uma delas estava vazia – e os Baudelaire presumiram que Hugo dormia lá –, em outra havia uma mulher alta e magra de cabelos encaracolados, que olhava para eles com os olhos apertados, e, na terceira, um homem com o rosto muito enrugado ainda dormia.
“Kevin!”, gritou Hugo para o homem adormecido. “Kevin, acorde! Temos novos colegas de trabalho. Vou precisar de ajuda para pendurar mais redes.”
O homem franziu o cenho e lançou um olhar furibundo para Hugo. “Você não devia ter me acordado”, disse. “Estava sonhando que não era uma aberração e não havia nada de errado comigo. Era maravilhoso.”
Os Baudelaire deram uma boa conferida em Kevin quando ele desceu da rede, e não encontraram nada que fosse aberrante; em compensação, quando ele olhou para os Baudelaire, arregalou os olhos como se tivesse visto um fantasma.
“Palavra de honra”, disse. “Vocês dois são bem defeituosos.”
“Tente ser gentil, Kevin”, disse Hugo. “Esta é Beverly-Elliot, e lá no chão está Chabo, a Bebê-Lobo.”
“Bebê-Lobo?”, repetiu Kevin, sacudindo a mão direita de Violet-Klaus. “Ela morde?”
“Ela não gosta de provocações”, disse Violet.
“Eu também não”, disse Kevin, e baixou a cabeça. “Mas onde quer que eu esteja ouço as pessoas cochichando: ‘Lá vai Kevin, o monstro ambidestro’.”
“Ambidestro?”, disse Klaus. “Isso não quer dizer que você é destro e canhoto ao mesmo tempo?”
“Então já ouviu falar de mim”, disse Kevin. “E foi por isso que viajou até aqui, para o meio do sertão, só para ver alguém capaz de escrever o próprio nome tanto com a mão esquerda como com a direita?”
“Não”, disse Klaus. “Apenas conheço a palavra ‘ambidestro’.”
“Bem que eu notei que você era sabido”, disse Hugo. “Afinal, tem duas vezes mais cérebro que todo mundo.”
“Eu só tenho um cérebro”, disse Kevin, tristemente. “Um cérebro, dois braços ambidestros e duas pernas ambidestras. Que aberração!”
“É melhor do que ser corcunda”, disse Hugo. “As suas mãos podem ser uma aberração, mas você tem os ombros absolutamente normais.”
“De que me valem ombros normais”, disse Kevin, “se eles estão ligados a mãos que usam garfo e faca com a mesma facilidade?”
“Oh, Kevin”, disse a mulher, e desceu da rede para fazer-lhe um carinho na cabeça. “Eu sei que é deprimente ser tão bizarro, mas tente ver o lado bom das coisas. Pelo menos, você está melhor do que eu.” Ela se voltou para as crianças com um sorriso tímido. “Meu nome é Colette”, disse, “e se é para vocês rirem de mim, prefiro que riam agora e acabem com isso de uma vez.”
Os Baudelaire olharam para Colette e depois se entreolharam.
“Renufl”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “Eu não vejo nada de aberrante em você, mas mesmo que visse não daria risada, porque não seria gentil”.
“Aposto que isso é algum tipo de risada de lobo”, disse Colette, “mas não culpo Chabo por rir de uma contorcionista.”
“Contorcionista?”, perguntou Violet.
“Sim”, suspirou Colette. “Posso dobrar o meu corpo em diversas posições inusitadas. Vejam.”
Colette suspirou novamente e iniciou uma sequência de contorções. Primeiro ela se curvou para baixo, pôs a cabeça entre as pernas e se enroscou até virar uma bola no chão. Depois suspendeu o corpo inteiro com apenas alguns dedos e trançou as pernas em espiral. Por fim, deu uma cambalhota no ar, ficou um momento se equilibrando na cabeça e entrelaçando braços e pernas como se fosse um novelo de barbante, e depois mirou os Baudelaire com uma expressão triste.
“Viram?”, disse ela. “Sou uma completa aberração.”
“Uau!”, guinchou Sunny.
“Achei incrível”, disse Violet, “e Chabo também.”
“É muito gentil da sua parte”, disse Colette, “mas eu tenho vergonha de ser assim.”
“Mas se você tem vergonha”, disse Klaus, “por que não movimenta o seu corpo normalmente, em vez de fazer contorções?”
“Porque estou na Casa dos Monstros, Elliot”, respondeu Colette. “Ninguém pagaria para me ver movimentando o corpo normalmente.”
“É um dilema interessante”, disse Hugo, usando uma palavra difícil para “problema”, a qual os Baudelaire aprenderam num livro jurídico na biblioteca da juíza Strauss. “Nós três gostaríamos de ser normais, e não aberrações, mas pela manhã as pessoas estarão na barraca esperando que Colette se contorça em estranhas posições, que Beverly-Elliot coma milho, que Chabo rosne e ataque a multidão, que Kevin escreva seu nome com as duas mãos e que eu experimente um daqueles casacos. Madame Lulu diz que devemos dar às pessoas o que elas querem, e elas querem aberrações fazendo seus números num palco. Agora, vamos dormir, já é tarde. Kevin, me dê uma mão aqui para pendurar essas redes, e depois vamos todos descansar um pouco.”
“Eu daria até as duas mãos”, disse Kevin, taciturno. “Ambas são ágeis. Oh, como eu queria ser ou destro ou canhoto!”
“Tente se alegrar”, disse Colette, gentilmente. “Talvez amanhã aconteça um milagre e consigamos todas as coisas que desejamos.”
Ninguém no trailer disse mais nada, mas enquanto Hugo e Kevin preparavam duas redes para os três Baudelaire, as crianças ficaram pensando sobre o que Colette havia dito. Milagres são como almôndegas, porque ninguém está exatamente de acordo sobre do que são feitos, de onde vêm ou com que frequência devem aparecer. Algumas pessoas dizem que o nascer do sol é um milagre porque é algo misterioso e muito bonito, mas há quem diga que é apenas um fato da vida, porque acontece todos os dias e exageradamente cedo pela manhã. Algumas pessoas dizem que o telefone é um milagre, porque o fato de você poder falar com alguém que está a milhares de quilômetros de distância é algo prodigioso, mas há quem diga que não passa de um dispositivo manufaturado, feito com peças metálicas, circuitos eletrônicos e fios fáceis de cortar. E algumas pessoas dizem que sair sorrateiramente de um hotel é um milagre, especialmente se o saguão estiver cheio de policiais, mas há quem considere isso apenas um fato da vida, porque acontece todos os dias e exageradamente cedo pela manhã. Portanto você pode pensar que existem tantos milagres no mundo que mal dá para contar, ou que existem tão poucos que mal vale a pena mencionar, depende de como você passa as suas manhãs, se admirando um belo crepúsculo ou descendo para um beco sem saída por uma corda feita de toalhas.
Mas os Baudelaire pensavam num milagre enquanto tentavam dormir em suas redes, e era um milagre que parecia ser maior do que qualquer almôndega que o mundo já tenha visto. Enquanto Violet e Klaus buscavam a melhor posição dentro da roupa comum e Sunny tentava ajeitar a barba de Olaf para não pinicar tanto, o ranger de suas redes ressoava no trailer, e os três jovens pensavam num milagre tão prodigioso e lindo que só de pensar dava uma dorzinha no coração. O milagre, é claro, era que um de seus pais estivesse vivo, que ou seu pai ou sua mãe tivessem sobrevivido ao incêndio que destruíra sua casa e dera início à sua jornada de desventuras. A existência de mais um Baudelaire vivo seria um milagre tão enorme e improvável que as crianças quase sentiam medo de desejá-lo, mas desejavam assim mesmo. Eles pensaram no que Colette havia dito – que talvez acontecesse um milagre e todos conseguissem o que mais desejavam – e aguardaram o amanhecer, quando então a bola de cristal de madame Lulu poderia anunciar o milagre que os Baudelaire desejavam.
Por fim o sol nasceu, como faz todos os dias, exageradamente cedo pela manhã. As três crianças tinham dormido pouco e desejado muito, e agora observavam o trailer pouco a pouco se encher de luz, ouviam Hugo, Colette e Kevin se mexer em suas redes, e se perguntavam se o conde Olaf já teria entrado na Barraca do Destino e descoberto alguma coisa por lá. E já não aguentavam mais esperar, quando ouviram o som de passos apressados e uma batida forte na porta.
“Acordem! Acordem!”, gritou o homem de mãos de gancho, mas antes de continuar a escrever o que ele disse, preciso contar a você que existe mais uma similaridade entre um milagre e uma almôndega, que é o fato de ambos parecerem ser uma coisa e acabarem revelando-se outra. Isso aconteceu comigo num restaurante por quilo, quando se revelou que havia uma pequena câmera escondida na almôndega que eu peguei. E desta vez aconteceu com Violet, Klaus e Sunny, muito embora só bastante tempo depois eles tenham descoberto que aquilo que o homem de mãos de gancho disse era um pouco diferente do que eles entenderam quando o ouviram gritar do outro lado da porta do trailer.
“Acordem!”, disse ele novamente, e bateu na porta. “Acordem e andem depressa! Estou de mau humor e não tenho tempo para besteiras. O dia está agitado no parque. A madame Lulu e o conde Olaf saíram em missão, estou encarregado da Casa dos Monstros, a bola de cristal revelou que um dos pais daqueles malditos Baudelaire ainda está vivo e o trailer dos presentes está desfalcado de estatuetas.”

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