27 de agosto de 2016

Capítulo sete


“O que vocês faz aqui, faz favor?”, rosnou madame Lulu, e foi pisando firme na direção dos órfãos. Seus olhos brilhavam tão furiosos quanto o olho que levava no pescoço. “O que aberraçóns faz aqui no barraca, faz favor, e o que aberraçóns faz embaixo de mesa, faz favor, e faz favor responde agora mesma, faz favor, ou entón vocês vai ficar muito, muito rependida, faz favor, obrigada!”
Os órfãos Baudelaire ergueram os olhos para a falsa vidente, e uma coisa estranha aconteceu. Em vez de tremer de medo, ou chorar de pavor, ou se agarrar uns aos outros enquanto Lulu berrava, os órfãos peitaram a vidente, uma expressão que aqui significa “não ficaram nem um pouco amedrontados”. Agora que já sabiam que madame Lulu tinha uma máquina no teto e uma biblioteca debaixo da mesa, e que isso era parte de seu disfarce de pessoa mágica e misteriosa, era como se todo o medo que pudessem sentir dela tivesse derretido, e ela fosse apenas uma mulher mal-humorada e com um sotaque esquisito que possuía as informações de que os Baudelaire precisavam. Enquanto madame Lulu gritava, Violet, Klaus e Sunny a observavam sem temor, pois assim como ela, eles também tinham motivos para estar zangados.
“Como vocês se atreve, faz favor, de entrar no barraca sem permissón de madame Lulu!”, gritou a falsa vidente. “Eu é dona de Parque Caligari, e vocês precisa me obedecer cada minuto de seus vidas de aberraçón! Faz favor, eu nunca viu, faz favor, aberraçóns tón ingratos com madame Lulu! Vocês se meteu em grande, grande encrenca, faz favor!” A essa altura, Lulu já tinha visto os cacos de vidro espalhados pelo assoalho. “Vocês quebradores de bola de cristal!”, bramiu ela, apontando uma unha suja para os Baudelaire. “Vocês devia ter vergonha de seu existência de aberraçón! Bola de cristal é coisa de muito valor, faz favor, tem poderes mágicos!”
“Fraude!”, gritou Sunny.
“A bola de cristal não tem poderes mágicos coisa nenhuma!”, traduziu Violet, irada. “E nem era de cristal! Você também não é uma vidente de verdade! Nós sabemos do seu dispositivo de relâmpagos, e da biblioteca de arquivos históricos.”
“Isso tudo não passa de um grande disfarce”, disse Klaus, mostrando a barraca com um gesto. “Você é que devia ter vergonha da sua existência de vidente.”
“Faz fa...”, ia dizer madame Lulu, mas fechou a boca antes de terminar. Ela olhou para os Baudelaire, e os seus olhos se arregalaram. Então sentou-se junto ao que restou da bola de cristal, baixou a cabeça e começou a chorar. “Estou envergonhada da minha existência de vidente”, disse ela, agora sem sotaque nenhum. Com um movimento rápido, ela desenrolou o turbante e seus longos cabelos loiros caíram ao redor do rosto borrado pelas lágrimas. “Estou totalmente envergonhada da minha existência”, disse ela entre lágrimas, e seus ombros sacudiam-se com os soluços.
Os Baudelaire se entreolharam, depois olharam para a tremelicante mulher sentada perto deles. Para uma pessoa decente, continuar com raiva de alguém que desabou em lágrimas é difícil, e é por isso que muitas vezes chorar é uma boa ideia quando uma pessoa decente está gritando com você. As três crianças ficaram um pouco tristes enquanto madame Lulu não parava de chorar, mas não podiam ajudá-la.
“Madame Lulu”, disse Violet com firmeza, mas não tanta firmeza quanto ela gostaria, “por que você...”
“Oh”, exclamou madame Lulu ao ouvir seu nome, “não me chame assim.” Ela ergueu a mão e puxou de uma vez o cordão que prendia o olho em volta do seu pescoço. Ele se arrebentou com um pléc!, e ela o jogou no meio dos cacos de vidro no chão e continuou soluçando. “Meu nome é Olívia”, disse, com um suspiro soluçante. “Não sou madame Lulu nem tampouco vidente.”
“Mas por que estava fingindo ser?”, perguntou Klaus. “Por que você se disfarça? Por que ajuda o conde Olaf?”
“Eu tento ajudar todo mundo”, disse Olívia, tristemente. “Meu lema é ‘dê às pessoas o que elas querem’. É por isso que estou neste parque. Finjo ser vidente e digo às pessoas o que elas querem ouvir. Se o conde Olaf ou um de seus comparsas me pergunta onde estão os Baudelaire, eu conto. Se Jacques Snicket ou outro voluntário entra aqui e me pergunta se seu irmão está vivo, eu conto.”
Os Baudelaire sentiram tantas perguntas pipocarem dentro deles que não conseguiam decidir qual delas fazer primeiro.
“Mas onde você encontrava as respostas?”, perguntou Violet, apontando para as pilhas de papel embaixo da mesa. “De onde vêm todas essas informações?”
“A maior parte vem de bibliotecas”, disse Olívia, enxugando os olhos. “Se você quer se passar por vidente, precisa ser capaz de responder perguntas, e a resposta para quase todas as perguntas está escrita em algum lugar. O máximo que pode acontecer é levar algum tempo para achá-las. Precisei de bastante tempo para reunir a minha biblioteca de arquivos históricos, e ainda não tenho todas as respostas que andei procurando. Por isso, às vezes eu invento alguma coisa.”
“Quando você contou ao conde Olaf que um de nossos pais está vivo”, perguntou Klaus, “estava inventando ou sabia a resposta?”
Olívia fechou a cara. “O conde Olaf não perguntou nada sobre pais de aberra... Espere um minuto. Suas vozes estão diferentes. Beverly, você não tinha uma fita no cabelo, e sua outra cabeça não usava óculos. O que está acontecendo?”
As crianças se entreolharam, surpresas. O que Olívia estava dizendo era tão importante que se esqueceram dos disfarces, mas agora parecia que eles não eram mais necessários. Eles precisavam de respostas honestas, e era mais provável que Olívia lhes desse respostas desse tipo se eles também fossem honestos. Sem dizer nada, os Baudelaire se despiram dos disfarces. Enquanto Sunny se desvencilhava de sua barba, Violet e Klaus desabotoaram a camisa, esticaram os braços que vinham mantendo presos e saíram de dentro das calças com barra de pele. Num piscar de olhos, os Baudelaire estavam no meio da barraca trajando suas próprias roupas, com exceção de Violet, que ainda vestia o avental da Ala Cirúrgica do Hospital Heimlich. Os Baudelaire mais velhos sacudiram suas cabeças com vigor, uma expressão que aqui significa “até tirar todo o talco dos cabelos”, e esfregaram o rosto para apagar as cicatrizes.
“Eu não sou Beverly”, disse Violet, “e este aqui é o meu irmão, não minha outra cabeça. E aquela não é Chabo, o Bebê-Lobo. Ela é...”
“Eu sei quem ela é”, disse Olívia, olhando atônita para eles. “Eu sei quem são vocês. São os Baudelaire!”
“Sim”, disse Klaus, e os três sorriram. Parecia que cem anos haviam se passado desde que alguém os chamara por seus nomes verdadeiros, e quando Olívia os reconheceu foi como se finalmente pudessem ser eles mesmos, e não aberrações de parque de diversões ou qualquer outra falsa identidade. “Sim”, repetiu Klaus. “Somos os Baudelaire. Três deles, pelo menos. Não temos certeza, mas achamos que pode haver um quarto. Talvez um de nossos pais esteja vivo.”
“Talvez?”, perguntou Olívia. “A resposta não está no dossiê Snicket?”
“Só temos a última página dele”, explicou Klaus, e tirou novamente do bolso a página treze do dossiê. “Queremos encontrar o resto desse documento antes de Olaf. A última página diz que pode haver um sobrevivente do incêndio. Sabe se isso é verdade?”
“Não tenho ideia”, admitiu Olívia. “Eu também andei procurando esse documento. Toda vez que vejo um pedaço de papel ser levado pelo vento, corro atrás para checar se não é uma das páginas do dossiê Snicket.”
“Mas você disse ao conde Olaf que um de nossos pais está vivo”, disse Violet, “e que está escondido nas Montanhas de Mão-Morta.”
“Foi só uma conjectura”, disse Olívia. “Mas se um deles sobreviveu, é provável que esteja lá. Em algum lugar naquelas montanhas fica uma das últimas bases de operação de C.S.C. Mas isso vocês já sabiam, é claro.”
“Não”, disse Klaus. “Não sabemos sequer o que significa C.S.C.”
“Então como aprenderam a se disfarçar?”, perguntou Olívia, perplexa. “Vocês seguiram todos os passos do Treinamento C.S.C., para Disfarces – disfarces faciais, como suas falsas cicatrizes, disfarces indumentários múltiplos, como suas roupas de aberrações, e disfarces de voz espúria, como as diferentes vozes que vocês usaram. E pensando bem, seus disfarces eram bem parecidos com as coisas do meu kit de disfarces.”
Olívia se levantou e foi até o canto da sala onde ficava um baú. Tirando uma chave do bolso, ela o destrancou e começou a revirar seu conteúdo. Os Baudelaire viram Olívia tirar uma variedade de coisas dali, e todas elas foram reconhecidas pelas crianças. Ela pegou uma peruca que se parecia com a que o conde Olaf tinha usado quando se passara por uma tal de Shirley; depois uma perna de pau que ele usara no seu disfarce de capitão de navio; um par de panelas que o comparsa careca de Olaf usara quando as crianças moravam em Paltryville; e um capacete de motociclista idêntico ao que Esmé Squalor usara para se fingir de policial. Por fim, Olívia ergueu uma camisa toda coberta de babados e laçarotes, exatamente como aquela que agora estava caída aos pés dos Baudelaire. “Como veem”, disse ela, “é uma camisa igual à que vocês usaram.”
“Mas nós pegamos a nossa no porta-malas do conde Olaf”, disse Violet.
“Faz sentido”, retrucou Olívia. “Todos os voluntários têm o mesmo kit. Pelo mundo inteiro há gente com esses disfarces tentando levar Olaf a julgamento.”
“O quê?”, perguntou Sunny.
“Eu também estou confuso”, disse Klaus. “Estamos todos confusos, Olívia. O que é C.S.C., afinal? Às vezes penso que são pessoas boas, às vezes pessoas más.”
“Não é tão simples assim”, disse Olívia, tristemente, e tirou uma máscara cirúrgica de dentro do baú. “Os itens do kit de disfarces são apenas coisas, jovens Baudelaire. Você pode usar estas coisas para ajudar as pessoas ou para prejudicá-las, e muita gente as usa para ambas as coisas. Às vezes é difícil saber qual disfarce usar ou o que fazer depois que a gente se disfarçou.”
“Não entendo”, disse Violet.
“Algumas pessoas são como os leões que Olaf trouxe para cá”, disse Olívia. “A princípio são bons, mas antes que se deem conta, já se transformaram em outra coisa. Aqueles leões já foram criaturas nobres. Foram treinados por um amigo meu para farejar fumaça, o que era muito útil no nosso trabalho. Mas agora, como o conde Olaf se nega a alimentá-los e os castiga com o chicote, estão a ponto de devorar alguém. Esse mundo é mesmo doido.”
“Varrido?”, perguntou Sunny.
“É complicado e confuso”, explicou Olívia. “Dizem que muito tempo atrás o mundo era simples e tranquilo, mas isso pode ser lenda. Houve uma cisão em C.S.C. – uma briga entre vários integrantes – e, desde então, tenho achado difícil saber o que fazer. Nunca imaginei que colaboraria com vilões, mas é o que faço agora. Vocês nunca fizeram algo que nunca imaginaram fazer?”
“Acho que sim”, disse Klaus, e virou-se para as irmãs. “Vocês se lembram de quando roubamos aquelas chaves de Hal na Biblioteca de Registros? Eu nunca tinha imaginado que roubaria alguém.”
“Flynn”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “E eu nunca tinha imaginado que me tornaria uma pessoa violenta, mas travei um duelo de espadas com a dra. Orwell”.
“Todos nós já fizemos coisas que nunca tínhamos imaginado ser capazes de fazer”, disse Violet, “mas sempre tivemos uma boa razão para isso.”
“Todo mundo pensa ter uma boa razão”, disse Olívia. “O conde Olaf pensa que conquistar uma fortuna é uma boa razão para assassinar vocês. Esmé Squalor pensa que o fato de ser namorada de Olaf é uma boa razão para juntar-se à trupe. E quando disse a Olaf onde encontrar vocês, eu tinha uma boa razão – porque o meu lema é ‘dê às pessoas o que elas querem.’”
“Dúbio”, disse Sunny.
“Sunny não está certa de que essa seja uma razão muito boa”, traduziu Violet, “e eu tenho de concordar com ela. Você causou um bocado de sofrimento para um bocado de gente só para dar ao conde Olaf o que ele queria.”
Olívia concordou com a cabeça, e mais uma vez brotaram lágrimas de seus olhos. “Eu sei”, disse ela, arrasada. “Estou envergonhada da minha existência. Mas não sei o que poderia fazer para consertar o que fiz.”
“Parar de ajudar o Olaf”, disse Klaus, “e começar a nos ajudar. Poderia nos contar tudo o que sabe sobre C.S.C, e nos levar às Montanhas de Mão-Morta para confirmar se um de nossos pais está vivo.”
“Não sei”, disse Olívia. “Me comportei muito mal durante muito tempo, mas talvez eu possa mudar.” Ela se levantou e olhou tristemente em volta da barraca, que já começava a ficar escura. “Eu era uma pessoa nobre”, disse ela. “Vocês acham que eu poderia voltar a ser nobre?”
“Não sei”, disse Klaus, “mas vamos descobrir. Podemos partir juntos rumo ao norte.”
“Mas como?”, perguntou Olívia. “Não temos um carro, nem uma caminhonete, nem quatro cavalos, nem um estilingue gigante, nem qualquer outro meio de sair do sertão.”
Violet amarrou de novo a fita no cabelo e olhou para o teto, pensativa. “Olívia”, disse ela afinal, “os carrinhos daquela montanha-russa ainda funcionam?”
“Da montanha-russa?”, repetiu Olívia. “Mais ou menos. As rodas giram, mas acho que estão com os motores enferrujados.”
“Acho que com o seu dispositivo de relâmpagos posso reproduzir um motor”, disse Violet. “Afinal, aquela tira de borracha se parece um pouco com...”
“Uma correia de ventilador!”, completou Olívia. “Boa ideia, Violet.”
“Esta noite vou me esgueirar até a montanha-russa”, disse Violet, “e começar o trabalho. Partimos amanha de manhã, antes que todos acordem.”
“Melhor não começar esta noite”, disse Olívia. “O conde Olaf e seus capangas estão sempre de tocaia depois que escurece. O melhor seria partir à tarde, quando todos estão na Casa dos Monstros. Vocês podem montar a invenção de manhã cedo, enquanto Olaf estiver aqui fazendo perguntas à bola de cristal.”
“O que você vai fazer então?”, perguntou Klaus.
“Tenho uma bola de cristal sobressalente”, respondeu Olívia. “Não é a primeira vez que uma se quebra.”
“Não foi isso o que eu quis dizer”, disse Klaus. “Você não vai contar ao conde Olaf que estamos aqui no parque, vai?”
Olívia parou um instante e sacudiu a cabeça. “Não”, disse ela, mas sua voz não soou muito convincente.
“Promete?”, perguntou Sunny.
Olívia baixou os olhos para a mais jovem dos Baudelaire e a fitou por um longo tempo antes de responder. “Sim”, disse muito baixo. “Eu prometo, se prometerem me levar com vocês para a base de C.S.C.”
“Prometido”, disse Violet, e seus irmãos concordaram. “Agora, vamos começar pelo começo. O que quer dizer C.S.C.?”
“Madame Lulu!”, chamou uma voz rascante do lado de fora da barraca. Os Baudelaire se entreolharam consternados quando o conde Olaf gritou o nome da falsa vidente. “Madame Lulu! Onde está você?”
“Eu está no meu Barraca de Destino, meu Olaf”, respondeu Olívia, voltando ao sotaque com a facilidade com que os Baudelaire poderiam voltar à camisa de babados. “Mas nón entra, faz favor. Eu está fazendo ritual secreta com bola de cristal meu.”
“Bem, ande logo”, disse ele, mal-humorado. “O fosso está pronto, e estou com muita sede. Venha nos servir um pouco de vinho.”
“Só uma minutinho, meu Olaf”, disse Olívia, abaixando-se para pegar o turbante. “Por que você nón vai toma ducha, faz favor? Você deve está suada de fossa cavar, e quando você acaba, nós todas vai tomar vinho juntas.”
“Não seja ridícula”, retrucou o conde Olaf. “Já tomei uma ducha há dez dias. Vou passar mais um pouco de água-de-colônia e encontro você no seu trailer.”
“Sim, meu Olaf”, gritou Olívia, e então voltou a cochichar com as crianças, enquanto enrolava o turbante no cabelo. “É melhor deixar essa conversa para depois”, disse ela. “Antes que seus colegas comecem a procurar por vocês. Amanhã, quando partirmos, conto tudo o que vocês quiserem saber.”
“Não dá para contar pelo menos algumas coisas agora?”, perguntou Klaus.
Os Baudelaire nunca estiveram tão perto das respostas que procuravam, e adiar aquela conversa era quase insuportável.
“Não, não”, decidiu Olívia. “Vamos, é melhor vestirem seus disfarces, senão seus colegas podem vir atrás de vocês.”
As três crianças se entreolharam. “Talvez você esteja certa”, disse Violet afinal. “Podem vir atrás de nós.”
“Proffco”, disse Sunny, o que queria dizer: “Também acho”, e começou a enrolar a barba em volta do corpo. Violet e Klaus entraram nas calças com barra de pele e abotoaram a camisa. E Olívia amarrou de volta o seu colar para virar madame Lulu outra vez.
“Nossas cicatrizes”, lembrou-se Klaus, olhando para o rosto da irmã. “Nós apagamos todas.”
“E nosso cabelo precisa de mais talco”, disse Violet.
“Eu tem lápis de maquiagem, faz favor”, disse Olívia, procurando no baú, “e também tem talco.”
“Você não precisa usar esse sotaque agora”, disse Violet, e desamarrou a fita do cabelo.
“É bom costume, faz favor”, retrucou Olívia. “Eu precisa pensar em eu mesma como madame Lulu, faz favor, senão eu vai esquecer a disfarce, faz favor.”
“Mas da promessa você vai se lembrar, não vai?”, perguntou Klaus.
“Promessa?”, perguntou madame Lulu.
“Você prometeu que não ia contar ao conde Olaf que estamos aqui”, disse Violet, “e em troca nós prometemos levá-la conosco para as Montanhas de Mão-Morta.”
“Claro, Beverly”, confirmou Lulu. “Eu vai cumprir meu promessa para aberraçóns.”
“Eu não sou Beverly”, disse Violet, “e não sou aberração.”
Madame Lulu sorriu e se inclinou para desenhar uma cicatriz no rosto de Violet. “Mas agora hora de disfarces, faz favor. Nón vai esquecer seus vozes disfarçados, para nón ser reconhecidas.”
“Não vamos nos esquecer”, disse Klaus, guardando os óculos de volta no bolso, “e você não vai esquecer a sua promessa, certo?”
“Claro, faz favor”, disse madame Lulu, levando as crianças para fora da barraca. “Nón precisa se preocupar, faz favor.”
Quando os Baudelaire saíram da barraca, foram banhados pela luz azul do famoso crepúsculo do sertão. A luz os deixava um pouco diferentes, como se estivessem usando um outro disfarce azul por cima dos disfarces de aberrações. O cabelo de Violet parecia mais pálido; as falsas cicatrizes de Klaus ficaram ainda mais sinistras; e Sunny parecia uma nuvenzinha azul, sobre a qual os últimos raios de sol incidiam como pequenos relâmpagos. Madame Lulu, que acompanhava os Baudelaire até a porta, ficou mais parecida com uma vidente quando a luz do poente incidiu sobre a pedra do turbante e cobriu sua longa túnica de uma luminosidade fantasmagórica.
“Boa noite, meus pequenas aberraçóns”, disse ela, e os Baudelaire se perguntaram se aquela mulher misteriosa teria realmente mudado seu lema e voltaria a ser uma pessoa nobre. “Eu vai cumprir meu promessa”, ele dissera, mas os órfãos Baudelaire não sabiam se era verdade ou apenas aquilo que eles queriam ouvir.

Um comentário:

  1. Eu nao estou confiante nessa madame lulu
    Acho q ela vai entregar eles

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