21 de agosto de 2016

Capítulo sete


Neste nosso mundo grande e selvagem, há muitos, muitos lugares desagradáveis para se estar. Você pode estar em um rio infestado de enguias elétricas raivosas, ou em um supermercado cheio de maratonistas truculentos. Você pode estar em um hotel que não tem serviço de quarto, ou pode estar perdido em uma floresta que está pouco a pouco se enchendo de água. Você pode estar em um vespeiro, ou em um aeroporto abandonado, ou no consultório de um cirurgião pediátrico; mas uma das coisas mais desagradáveis que podem acontecer é encontrar-se em um dilema, que é onde os órfãos Baudelaire se encontravam naquela noite. Encontrar-se em um dilema significa que tudo parece confuso e perigoso, e você não sabe que diabo fazer a respeito; e esta é uma das coisas mais desagradáveis em que você pode se encontrar. Os três Baudelaire estavam sentados na cozinha de Hector enquanto o factótum preparava mais um jantar mexicano e, em comparação com o dilema em que se encontravam, todos os seus outros problemas ficavam parecidos com as batatinhas que ele cortava em três.
“Tudo parece confuso”, disse Violet taciturna. “Os trigêmeos Quagmire estão em algum lugar aqui por perto, mas nós não sabemos onde, e as únicas pistas que temos são dois poemas confusos. E agora, temos um homem que não é o conde Olaf porém tem um olho tatuado no tornozelo e queria nos contar alguma coisa sobre os nossos pais.”
“É mais que confuso”, disse Klaus. “É perigoso. Precisamos salvar os Quagmire antes que o conde Olaf faça algo de pavoroso, e precisamos convencer o Conselho dos Anciãos de que o homem que eles prenderam é realmente Jacques, caso contrário irão queimá-lo na fogueira.”
“Dilema?”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa na linha de “Que diabo podemos fazer a respeito?”.
“Não sei o que nós podemos fazer a respeito, Sunny”, respondeu Violet. “Passamos o dia todo tentando descobrir o que significam os poemas, e tentamos o melhor que pudemos convencer o Conselho dos Anciãos de que a oficial Luciana cometeu um erro.” Ela e seus irmãos olharam para Hector, que certamente não fizera o melhor que podia com o Conselho dos Anciãos mas, em vez disso, ficara sentado em sua cadeira de dobrar sem dizer palavra.
Hector suspirou e olhou para as crianças com um ar infeliz. “Sei que devia ter dito alguma coisa”, disse ele, “mas eu estava desassossegado demais. O Conselho dos Anciãos é tão imponente que não consigo dizer nem uma palavra na presença deles. No entanto, me ocorre algo que podemos fazer para ajudar.”
“O que é?”, perguntou Klaus.
“Podemos saborear estes huevos rancheros, disse ele. “Huevos rancheros são ovos fritos com feijão, servidos com tortilhas e batatas em molho apimentado de tomate.”
Os irmãos se entreolharam, tentando imaginar como um prato mexicano poderia tirá-los do seu dilema. “E como isto vai ajudar?”, perguntou Violet desconfiada.
“Não sei”, admitiu Hector. “Mas já estão quase prontos e a minha receita é deliciosa, modéstia à parte. Venham, vamos comer. Talvez um bom jantar os ajude a pensar em alguma coisa.”
As crianças suspiraram, mas concordaram com a cabeça e levantaram-se para sentar-se à mesa, e por curioso que possa parecer, um bom jantar de fato ajudou os Baudelaire a pensar em alguma coisa. Assim que Violet pôs na boca o seu primeiro bocado de feijão, sentiu as engrenagens e alavancas do seu cérebro inventivo entrarem em ação. Assim que Klaus mergulhou a sua tortilha no molho apimentado de tomate, começou a pensar nos livros que tinha lido que poderiam ser de ajuda. E assim que Sunny lambuzou a cara toda com gemas de ovos, bateu os seus quatro dentes afiados uns nos outros e tentou pensar em como eles poderiam ser de ajuda. Quando os Baudelaire já estavam terminando a refeição que Hector preparara para eles, suas ideias tinham crescido e evoluído para planos completos, do mesmo modo como a Árvore do Nunca Mais crescera muito tempo atrás a partir de uma minúscula semente, e o Chafariz Corvídeo fora construído muito recentemente a partir do abominável projeto de alguém.
Foi Sunny quem falou primeiro. “Plano!”, disse ela.
“O que é, Sunny?”, perguntou Klaus.
Com um dedinho coberto de molho de tomate, Sunny apontou para a Árvore do Nunca Mais através da janela, a qual estava recoberta de corvos de C.S.C., como acontecia todas as manhãs. “Merganser!”, disse ela com firmeza.
“Minha irmã está dizendo que amanhã de manhã provavelmente haverá mais um poema de Isadora no mesmo lugar”, explicou Klaus para Hector, “e quer passar a noite embaixo da árvore. Ela é tão pequena que, seja quem for que está deixando os poemas ali, provavelmente nem notará a sua presença, e ela será capaz de descobrir como os dísticos estão chegando até nós.”
“E isto deverá nos levar mais para perto de encontrar os Quagmire”, disse Violet. “É um bom plano, Sunny.”
“Minha nossa, Sunny”, disse Hector. “Você não vai ficar com medo de passar a noite inteira embaixo de todo um bando de corvos?”
“Tríler”, disse Sunny, o que queria dizer “Isto não vai ser mais assustador do que a vez em que eu escalei um poço de elevador com os dentes”.
“Acho que também tenho um bom plano”, disse Klaus. “Hector, ontem você nos contou o segredo da biblioteca que você tem no celeiro.”
“Psiu!”, disse Hector, olhando em volta. “Não fale tão alto! Você sabe que é contra as regras ter todos esses livros, e eu não quero ser queimado na fogueira.”
“Eu não quero que ninguém seja queimado na fogueira”, disse Klaus. “Olha só, a biblioteca secreta contém livros sobre as regras de C.S.C.?”
“Com certeza”, disse Hector. “Aos montes. Como os livros descrevem pessoas quebrando regras, eles quebram a Regra nº 108, que reza claramente que a biblioteca de C.S.C. não pode conter livros que quebrem qualquer uma das regras.”
“Bem, vou ler o maior número de livros de regras que puder”, disse Klaus. “Deve haver um jeito de salvar Jacques de ser queimado na fogueira, e aposto que vou encontrá-lo nas páginas desses livros.”
“Minha nossa, Klaus”, disse Hector. “Você não vai ficar enjoado de tanto ler todos aqueles livros de regras?”
“Não mais do que fiquei quando tive de ler tudo o que havia sobre gramática, a fim de salvar a tia Josephine”, respondeu ele.
“Sunny está trabalhando para salvar os Quagmire”, disse Violet, “e Klaus está trabalhando para salvar Jacques. Eu tenho de trabalhar para salvar a nós.”
“O que você quer dizer?”, perguntou Klaus.
“Bem, acho que o conde Olaf deve estar por trás de todos esses problemas”, disse Violet.
“Grebe!”, disse Sunny, o que queria dizer “Como de costume!”.
“Se a cidade de C.S.C. queimar Jacques na fogueira”, continuou Violet, “todos vão pensar que o conde Olaf está morto. Aposto que O Pundonor Diário vai até publicar uma matéria afirmando isso. Serão boas-novas para Olaf – o verdadeiro, quero dizer. Se todo mundo pensar que ele está morto, Olaf poderá cometer as perfídias que bem entender, e as autoridades não vão sair à sua procura.”
“É verdade”, disse Klaus. “O conde Olaf deve ter encontrado Jacques – seja ele quem for – e o trouxe para a cidade. Sabia que a oficial Luciana iria pensar que ele era Olaf. Mas o que isto tem a ver com nos salvar?”
“Bem, se nós salvarmos os Quagmire e provarmos que Jacques é inocente”, disse Violet, “o conde Olaf virá atrás de nós, e não podemos confiar no Conselho dos Anciãos para nos proteger.”
“Poe!”, disse Sunny.
“Nem no sr. Poe”, concordou Violet. “É por isso que precisamos encontrar um modo de salvar a nós mesmos.” Ela voltou-se para Hector. “Ontem você também nos contou sobre a sua casa móvel autossustentável a ar quente.”
Hector olhou em volta outra vez, para ter certeza de que ninguém estava ouvindo. “Sim”, disse ele, “mas eu acho que vou parar de trabalhar nela. Se o Conselho dos Anciãos ficar sabendo que estou quebrando a Regra nº 67, posso ser queimado na fogueira. De qualquer modo, não estou conseguindo pôr o motor dela a funcionar.”
“Se você não se importa, eu gostaria de dar uma olhada”, disse Violet. “Talvez eu possa ajudar a acabá-la. Você queria usar a casa móvel autossustentável a ar quente para escapar de C.S.C. e do Conselho dos Anciãos, e de tudo o mais que deixa você desassossegado, mas ela também poderia ser um excelente veículo de fuga.”
“Talvez sejam as duas coisas”, disse Hector timidamente, e estendeu a mão através da mesa para dar uma palmadinha no ombro de Sunny. “Aprecio muito a companhia de vocês três, crianças, e seria delicioso compartilhar uma casa móvel com vocês. Há espaço à vontade na casa móvel autossustentável a ar quente, e depois que conseguirmos fazê-la funcionar, poderemos lançá-la e nunca mais descer outra vez. O conde Olaf e os seus parceiros nunca mais conseguiriam incomodá-los. O que vocês acham?”
Os três Baudelaire ouviram atentamente a sugestão de Hector, mas quando tentaram dizer a ele o que pensavam, sentiram-se como se estivessem em um dilema tudo de novo. Por um lado, seria emocionante viver de um modo tão inusitado, e a ideia de estar para sempre a salvo das garras perversas do conde Olaf era muito convidativa, para dizer o mínimo. Violet olhou para a sua irmãzinha bebê e pensou na promessa que tinha feito quando Sunny nasceu, de que iria sempre cuidar dos seus irmãos mais novos e garantir que não se metessem em dificuldades. Klaus olhou para Hector, que era o único cidadão naquela cidade sinistra que realmente parecia se preocupar com as crianças, como deve fazer um tutor. E Sunny olhou para o céu noturno através da janela e lembrou-se da primeira vez em que ela e seus irmãos viram os corvos de C.S.C. voando em círculos superlativos e desejou que também eles pudessem escapar de todas as suas preocupações. Mas por outro lado, os Baudelaire achavam que voar para longe de todos os seus problemas e viver para sempre lá em cima no céu não parecia ser um jeito acertado de viver a vida. Sunny era um bebê, Klaus só tinha doze anos, e até Violet, a mais velha, tinha catorze, o que na verdade não é tanto assim. Havia muitas coisas que os Baudelaire esperavam conseguir em terra, e eles não tinham certeza de que poderiam simplesmente abandonar todas essas esperanças tão cedo em suas vidas. Os Baudelaire sentaram-se à mesa e pensaram no plano de Hector, e pareceu às crianças que se passassem o resto de suas vidas flutuando pelos céus, simplesmente não estariam no seu elemento, uma expressão que aqui significa “no tipo de lar que os três irmãos prefeririam”.
“Primeiro o mais importante”, disse Violet afinal, esperando não estar ferindo os sentimentos de Hector. “Antes de tomarmos uma decisão sobre o resto das nossas vidas, vamos tirar Duncan e Isadora das garras de Olaf.”
“E garantir que Jacques não seja queimado na fogueira”, disse Klaus.
“Albico!”, acrescentou Sunny, o que queria dizer alguma coisa do tipo “E vamos resolver o mistério de C.S.C., do qual os Quagmire nos falaram!”.
Hector suspirou. “Vocês estão certos”, disse ele. “Essas coisas são mais importantes, mesmo que me deixem desassossegado. Bem, vamos levar Sunny para a árvore e depois vamos ao celeiro, onde estão a biblioteca e o ateliê de invenções. Parece que esta vai ser mais uma longa noite, mas espero que desta vez não estejamos latindo para a árvore errada.”
Os Baudelaire sorriram para o factótum e o seguiram para fora no escuro da noite. Soprava uma brisa suave e o ar estava fresco, repleto de sons do bando de corvos que se acomodavam para passar a noite. Eles continuaram sorrindo quando se separaram, Sunny engatinhando para a Árvore do Nunca Mais e os dois Baudelaire mais velhos seguindo Hector para o celeiro; e eles continuaram a sorrir quando começaram a pôr cada um dos seus planos em ação. Violet sorriu porque o ateliê de invenções de Hector era muito bem equipado, com uma abundância de alicates, e cola, e arame, e tudo o que a sua mente inventiva precisava, e porque a casa móvel autossustentável a ar quente era um mecanismo enorme e fascinante – exatamente o tipo de invenção desafiadora em que ela gostava de trabalhar. Klaus sorriu porque a biblioteca de Hector era muito confortável, com algumas boas mesas robustas e cadeiras estofadas, simplesmente perfeitas para leitura, e porque os livros sobre as regras de C.S.C. eram bem grossos e cheios de palavras difíceis – exatamente o tipo de leitura desafiadora que ele apreciava. E Sunny sorriu porque havia diversos galhos mortos da Árvore do Nunca Mais que tinham despencado para o chão, portanto ela teria alguma coisa para roer enquanto aguardava escondida pelo aparecimento do próximo dístico. As crianças estavam nos seus elementos. Violet estava no seu elemento no ateliê de invenções, Klaus estava no seu elemento na biblioteca, e Sunny estava no seu elemento simplesmente por estar no chão e perto de algo que podia morder. Violet amarrou o cabelo com uma fita para impedir que lhe caísse nos olhos, Klaus limpou os óculos e Sunny espichou a boca preparando os dentes para a tarefa que os aguardava, e os três irmãos sorriram mais do que tinham sorrido desde a sua chegada na cidade. Os órfãos Baudelaire estavam nos seus elementos, e esperavam que o fato de estarem nos seus elementos os levasse a encontrar uma saída para o seu dilema.

3 comentários:

  1. Não gostei! O Brasil também tinha que ter ganho uma copa de Quadribol! Anula essa também J.K.

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  2. Boraa trabalhar crianças !

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  3. Não sei, não... To achando essa oficial Luciana muito esquisita... acho que ela pode ser a Esme Squalor... =/

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