17 de agosto de 2016

Capítulo sete


Quando você conhece alguém há muito tempo, acostuma-se com as suas idiossincrasias, que é uma palavra sofisticada para os seus hábitos peculiares. Por exemplo, Sunny Baudelaire conhecia a sua irmã Violet há um bocado de tempo, e estava acostumada com a idiossincrasia dela de prender os cabelos com uma fita para não cair nos olhos sempre que estivesse inventando alguma coisa. Violet conhecia Sunny exatamente pelo mesmo período de tempo, e estava acostumada com a idiossincrasia dela de dizer “Freijip?” quando queria fazer a pergunta “Como você pode pensar em elevadores em um momento como este?”. E ambas as jovens Baudelaire conheciam muito bem o seu irmão Klaus, e estavam acostumadas com a idiossincrasia dele de não prestar a mínima atenção às coisas que o cercavam quando estava pensando muito intensamente em alguma coisa, como estava muito claramente fazendo enquanto a tarde se esvaía.
Como o porteiro continuava a insistir que os órfãos Baudelaire não podiam voltar à cobertura, as três crianças sentaram-se no primeiro degrau da longa escadaria da Avenida Sombria 667, comeram a comida que tinham trazido e descansaram as pernas fatigadas, que não sentiam tão doloridas desde que Olaf, em um disfarce anterior, as forçara a correr centenas e centenas de voltas como parte do seu plano para roubar a fortuna delas. Uma coisa boa para fazer enquanto se está sentado comendo ou descansando é ter uma conversa, e Violet e Sunny estavam ambas ansiosas por conversar sobre o mistério do aparecimento e desaparecimento de Gunther, e o que poderiam ser capazes de fazer a respeito, mas Klaus mal participou da discussão. Era só quando suas duas irmãs lhe faziam uma pergunta direta, tal como “Mas onde diacho Gunther poderia estar?” ou “O que você acha que Gunther está planejando?” ou “Topoing?”, que Klaus murmurava alguma resposta, e Violet e Sunny logo deduziram que Klaus devia estar pensando muito, muito intensamente em alguma coisa, portanto o deixaram com a sua idiossincrasia e ficaram conversando discretamente uma com a outra até o porteiro introduzir Jerome e Esmé no saguão.
“Olá, Jerome”, disse Violet. “Olá, Esmé.”
“Tretchev!”, gritou Sunny, o que queria dizer “Bem-vindos ao lar!”.
Klaus murmurou alguma coisa.
“Que surpresa agradável ver vocês todos aqui embaixo!”, disse Jerome. “Vai ser mais fácil subir todas aquelas escadas tendo três pessoas encantadoras como vocês por companhia.”
“E vocês poderão carregar os caixotes de refrigerante de salsa que estão empilhados lá fora”, disse Esmé. “Assim não terei de me preocupar com a possibilidade de quebrar uma das minhas unhas.”
“Nós ficaríamos felizes em carregar grandes caixotes por toda essa escadaria acima”, mentiu Violet, “mas o porteiro disse que não podemos voltar para a cobertura.”
“Não podem?”, Jerome franziu a testa. “O que você quer dizer?”
“A senhora me deu instruções específicas para não deixar as crianças voltarem, sra. Squalor”, disse o porteiro. “Pelo menos até Gunther sair do edifício. E ele ainda não saiu.”
“Não diga absurdos”, disse Esmé. “Ele saiu da cobertura na noite passada. Que espécie de porteiro e você?”
“Na verdade, eu sou um ator”, disse o porteiro, “mas ainda assim fui capaz de seguir as suas instruções.”
Esmé lançou ao porteiro um olhar severo que provavelmente usava quando estava dando consultoria financeira às pessoas. “As suas instruções mudaram”, disse ela. “As suas novas instruções são para deixar eu e os meus órfãos irmos diretamente para o meu apartamento de setenta e um dormitórios. Sacou, cara?”
“Saquei”, disse o porteiro, humilde.
“Bom”, disse Esmé, e então voltou-se para as crianças. “Depressa, crianças”, disse ela. “Violet e como-é-que-chama podem levar um caixote de refrigerante cada um, e Jerome levará o resto. Acho que o bebê não vai ser de muita utilidade, mas isto era de esperar. Vamos andando.”
Os Baudelaire foram andando, e em poucos momentos as três crianças e os dois adultos estavam fazendo a dura escalada da escadaria de sessenta e seis andares. Os jovens tinham esperanças de que Esmé afinal ajudasse a carregar os pesados caixotes de refrigerante, mas a sexta consultora financeira mais importante da cidade estava muito mais interessada em contar a todos sobre o seu encontro com o rei do Arizona do que em bajular órfãos. “Ele me contou toda uma longa lista de coisas novas que são in”, informou Esmé. “Para começar, pomelos. Também tigelas para cereais em azul-vivo. Quadros de avisos com fotografias de doninhas afixadas, e muitas outras coisas que vou listar para vocês agora mesmo.” Durante todo o percurso até a cobertura, Esmé listou os novos itens in que aprendera com Sua Alteza do Arizona, e as duas irmãs Baudelaire escutaram com muita atenção o tempo todo. Não é que elas escutaram com muita atenção o discurso assaz maçante de Esmé, é claro, mas escutaram com muita atenção a cada curva da escada, conferindo de novo o que já tinham bisbilhotado antes para ouvir se Gunther estava realmente atrás de uma das portas dos apartamentos. Nem Violet nem Sunny ouviram nada de suspeito, e elas teriam perguntado a Klaus, falando baixinho para que os Squalor não ouvissem, se ele tinha ouvido algum tipo de ruído de Gunther, mas perceberam pela sua idiossincrasia que ele ainda estava pensando muito intensamente sobre alguma coisa e não estava ouvindo os ruídos nos outros apartamentos mais do que estava ouvindo a lista de pneus de automóvel, competições de esqui, filmes com cachoeiras e o resto das coisas in que Esmé estava desfiando.
“Ah, e papel de parede carmesim!”, disse Esmé quando os Baudelaire e os Squalor estavam acabando de comer um jantar regado a refrigerante de salsa, que tinha um gosto ainda mais detestável do que o nome sugeria. “E porta-retratos triangulares, e caprichosos suportes de copos, e latas de lixo com letras do alfabeto aplicadas em toda a volta, e...”
“Desculpe”, disse Klaus, e suas irmãs, surpresas, se sobressaltaram um pouco. Era a primeira vez que Klaus falava sem ser em um murmúrio desde quando eles estavam lá embaixo no saguão. “Não quero interromper, mas é que minhas irmãs e eu estamos muito cansados. Será que podemos ir para a cama?”
“É claro”, disse Jerome. “Vocês precisam descansar bastante para o leilão de amanhã. Vou levá-los ao Veblen Hall às dez e meia em ponto, então...”
“Não, você não vai”, disse Esmé. “Clipes de papel amarelos estão in, Jerome, portanto, assim que o sol despontar, você vai ter de ir ao Bairro das Papelarias e comprar um pouco. Eu levarei as crianças.”
“Bem, não quero discutir”, disse Jerome, encolhendo os ombros e dando um sorrisinho para as crianças. “Esmé, você não quer pôr as crianças na cama?”
“Nada disso”, respondeu Esmé, franzindo as sobrancelhas ao tomar um gole do seu refrigerante de salsa. “Ajeitar cobertores em volta de três crianças se contorcendo me parece ser muito mais aborrecimento do que vale a pena. Vejo vocês amanhã, crianças.”
“Espero que sim”, disse Violet, e bocejou. Ela sabia que Klaus estava pedindo licença para levantar da mesa a fim de poder contar a ela e a Sunny o que estivera pensando, mas depois de ficar acordada a noite anterior vasculhando a cobertura inteira e descendo todas aquelas escadas na ponta dos pés, a mais velha dos Baudelaire estava realmente muito cansada. “Boa noite, Esmé. Boa noite, Jerome.”
“Boa noite, crianças”, disse Jerome. “E por favor, se vocês acordarem no meio da noite para fazer um lanche, tentem não deixar a comida cair no chão. Parece haver um bocado de migalhas espalhadas pela cobertura ultimamente.”
Os Baudelaire se entreolharam e sorriram com o segredo compartilhado. “Nos desculpem por isso”, disse Violet. “Amanhã passaremos o aspirador, se vocês quiserem.”
“Aspiradores!”, disse Esmé. “Eu sabia que ele tinha me contado mais alguma coisa que está in. Ah, e bolas de algodão, e qualquer coisa com pedacinhos de chocolate, e...”
Os Baudelaire não queriam ficar por perto para ouvir mais nada da lista de Esmé, então levaram os seus pratos para a cozinha mais próxima e desceram o corredor decorado com galhadas de animais diversos, atravessaram uma sala de visitas, passaram por cinco banheiros, entraram à esquerda em outra cozinha e, por fim, chegaram ao quarto de Violet.
“Muito bem, Klaus”, disse Violet ao irmão quando as três crianças encontraram um canto confortável para conversar. “Sei que você esteve pensando muito intensamente sobre alguma coisa, porque estava se comportando de acordo com aquele seu hábito singular de não prestar a mínima atenção no que está à sua volta.”
“Hábitos singulares como este são chamados de idiossincrasias”, disse Klaus.
“Stiblo!”, exclamou Sunny, o que queria dizer “Podemos melhorar o nosso vocabulário depois. Conte-nos o que tem em mente!”.
“Desculpe, Sunny”, disse Klaus. “É só que eu acho que descobri onde Gunther está escondido, mas ainda não tenho certeza. Primeiro, Violet, preciso perguntar uma coisa. O que você sabe sobre elevadores?”
“Elevadores?”, disse Violet. “Um bocado, para dizer a verdade. Meu amigo Ben uma vez me deu de aniversário alguns projetos de elevadores, e eu os estudei muito atentamente. Eles foram destruídos no incêndio, é claro, mas eu me lembro de que um elevador é essencialmente uma plataforma, rodeada por um invólucro, que se movimenta ao longo de um eixo vertical por meio de uma correia sem fim e uma série de cabos. E controlado por um painel com botões que governam um sistema de freio eletromagnético de modo a que a sequência de transporte possa ser interrompida em qualquer ponto de acesso que o passageiro deseje. Em outras palavras, é uma caixa que se movimenta para cima ou para baixo, dependendo de aonde você quer ir. Mas e daí?”
“Freijip?”, perguntou Sunny, o que, como vocês sabem, era o seu modo idiossincrático de dizer “Como você pode pensar em elevadores em um momento como este?”.
“Bem, foi o porteiro que me fez ficar pensando em elevadores”, disse Klaus. “Lembram-se quando ele disse que às vezes a solução está bem debaixo do seu nariz? Bem, ele estava grudando aquela estrela-do-mar de madeira nas portas do elevador no momento em que disse aquilo.”
“Eu também notei”, disse Violet. “Era meio feiosa.”
“Era mesmo feiosa”, concordou Klaus. “Mas não era isso que eu queria dizer. Eu comecei a pensar nas portas do elevador. Do lado de fora da porta desta cobertura há dois pares de portas de elevador. Mas em todos os outros andares há apenas um par.”
“É verdade”, disse Violet, “e isso também é estranho, agora que pensei nisso. E significa que um dos elevadores só pode parar no último andar.”
“Ieliverc!”, disse Sunny, o que queria dizer “Aquele segundo elevador é quase completamente inútil!”.
“Eu não acho que seja inútil”, disse Klaus, “porque não acho que o elevador esteja realmente ali.”
“Não está realmente ali?”, perguntou Violet. “Mas então só sobra um poço de elevador vazio!”
“Midiou?”, perguntou Sunny.
“Um poço de elevador é o caminho que um elevador usa para se movimentar para cima e para baixo”, explicou Violet à irmã. “É assim como um corredor, só que vai para cima e para baixo em vez de ir de um lado para o outro.”
“E um corredor”, disse Klaus, “pode levar a um esconderijo.”
“Aha!”, exclamou Sunny.
“Aha está certo”, concordou Klaus. “Pense só, se ele usou um poço de elevador vazio em vez das escadas, ninguém jamais saberia onde ele estava. Não acho que o elevador tenha sido desligado porque está out. Acho que é lá que Gunther está escondido.”
“Mas por que está escondido? O que está tramando?”, perguntou Violet.
“Esta é a parte que ainda não sabemos”, admitiu Klaus, “mas aposto que as respostas podem ser encontradas atrás daquelas portas deslizantes. Vamos dar uma olhada no que está atrás do segundo par de portas de elevador. Se enxergarmos os cabos e as coisas que você estava descrevendo, saberemos que é um elevador de verdade. Mas se não enxergarmos...”
“Então saberemos que estamos na pista certa”, concluiu Violet por ele. “Vamos lá, neste minuto.”
“Se formos neste minuto”, disse Klaus, “teremos de fazer isto muito discretamente. Os Squalor não vão deixar que três crianças fiquem bisbilhotando num poço de elevador.”
“Vale o risco, se isto nos ajudar a desvendar o plano de Gunther”, disse Violet.
Lamento dizer que aquilo acabou não valendo o risco nem um pouco, mas é claro que os Baudelaire não tinham como saber, então eles simplesmente assentiram com as cabeças e se dirigiram na ponta dos pés para a saída da cobertura, espiando para dentro de cada quarto e sala antes de atravessar, para ver se os Squalor estavam por ali. Mas aparentemente Jerome e Esmé estavam passando a noite em algum quarto em outra parte do apartamento, pois os Baudelaire não viram nem sinal deles – a expressão “nem sinal” aqui significa “nem um vislumbre da sexta consultora financeira mais importante da cidade, ou de seu marido” – a caminho da porta da frente. Eles esperavam que a porta não rangesse ao ser aberta, mas aparentemente as dobradiças silenciosas estavam in, pois os Baudelaire não fizerem nenhum ruído quando saíram do apartamento e foram na ponta dos pés até os dois pares de portas deslizantes de elevador.
“Como vamos saber qual elevador é quai?”, cochichou Violet. “Os pares de portas parecem exatamente iguais.”
“Eu não tinha pensado nisso”, respondeu Klaus. “Se uma delas é realmente uma passagem secreta, deve haver algum jeito de perceber.”
Sunny puxou as pernas das calças dos irmãos, o que era um bom jeito de atrair a atenção deles sem fazer nenhum barulho, e quando Violet e Klaus olharam para baixo para ver o que a irmã queria, ela respondeu de um modo igualmente silencioso. Sem falar, estendeu um dos seus dedinhos e apontou para os botões que estavam junto a cada conjunto de portas deslizantes. Junto a um dos pares de portas havia um único botão, com uma seta gravada que apontava para baixo. Mas junto ao segundo par de portas, havia dois botões: um com uma seta Descer e um com uma seta Subir. As três crianças olharam para os botões e refletiram.
“Para que você precisa de um botão Subir”, cochichou Violet, “se já está no último andar?”, e, sem esperar resposta à sua pergunta, ela estendeu o braço e apertou o botão. Com um som abafado, as portas deslizantes se abriram. As crianças se inclinaram cautelosamente para dentro do vão e ficaram sem fôlego com o que viram.
“Lacri”, disse Sunny, o que queria dizer algo como “Não há cabos”, ou coisa do gênero.
“Não só não há cabos”, disse Violet, “como não há correia sem fim, painel de botões ou sistema de freio eletromagnético. Não vejo nem mesmo uma plataforma rodeada por um invólucro.”
“Eu sabia”, disse Klaus contendo a excitação. “Eu sabia que o elevador era ersatz!”
Ersatz é uma palavra que descreve uma situação em que uma coisa está fingindo que é outra, do mesmo modo como a passagem secreta para a qual os Baudelaire estavam olhando fingia ser um elevador, mas a palavra poderia bem ter significado “o lugar mais aterrorizante que os Baudelaire já tinham visto”.
Em pé no vão da porta e olhando para dentro do poço de elevador, era como se as crianças estivessem à beira de um enorme penhasco, olhando para as profundezas vertiginosas lá embaixo. Mas o que tornava essas profundezas aterrorizantes, além de vertiginosas, era o fato de que eram tão, tão escuras. O poço parecia mais um abismo que uma passagem, levando diretamente a um negrume como os jovens jamais tinham visto. Era mais escuro do que qualquer noite jamais fora, nem mesmo aquelas noites em que não havia lua. Era mais escuro que a Avenida Sombria no dia em que chegaram. Era mais escuro que uma pantera negra como azeviche, coberta de piche, comendo alcaçuz preto no ponto mais profundo da parte mais funda do Mar Negro. Os órfãos Baudelaire nunca nem sonharam que alguma coisa pudesse ser tão escura, nem mesmo em seus pesadelos mais assustadores; e ali em pé, na beirada daquele abismo de inimaginável negror, tinham a impressão de que o poço de elevador iria simplesmente engoli-los, e eles nunca mais voltariam a ver um lampejo que fosse de luz.
“Temos de ir lá embaixo”, disse Violet, mal acreditando nas palavras que pronunciava.
“Não estou muito certo de que vou ter coragem de ir lá embaixo”, disse Klaus. “Olhe só como está escuro. É aterrorizante.”
“Prollit”, disse Sunny, o que queria dizer “Mas não tão aterrorizante quanto o que Gunther vai fazer conosco se não descobrirmos qual é o seu plano!”.
“Por que simplesmente não contamos aos Squalor sobre isto?”, perguntou Klaus. “Aí eles poderão descer pela passagem secreta.”
“Não temos tempo para discutir com os Squalor”, disse Violet. “Cada minuto que perdemos é um minuto a mais que os Quagmire estão passando nas garras de Gunther.”
“Mas como vamos descer?”, perguntou Klaus. “Não estou vendo nenhuma escada de marinheiro, nenhuma escada em caracol. Não estou vendo absolutamente nada.”
“Vamos ter de descer por uma corda”, disse Violet. “Mas onde encontrar uma corda a esta hora da noite? A maioria das lojas de ferragens fecha às seis.”
“Os Squalor devem ter alguma corda em algum lugar na cobertura deles”, disse Klaus. “Vamos nos separar e procurar. Nos encontraremos aqui de novo em quinze minutos.”
Violet e Sunny concordaram. Os Baudelaire se afastaram cautelosamente do poço de elevador e voltaram na ponta dos pés para a cobertura dos Squalor. Sentiram-se como larápios quando se separaram e começaram a vasculhar o apartamento, muito embora tenham existido na história dos ladrões apenas cinco larápios que se especializaram em cordas. Todos os cinco foram pegos e mandados para a prisão, e é por isso que as pessoas raramente trancam as suas cordas para maior segurança; mas para sua frustração, os Baudelaire descobriram que os seus tutores não mantinham suas cordas trancadas pela simples razão de que não possuíam corda nenhuma.
“Não consegui encontrar corda nenhuma”, admitiu Violet quando reuniu-se aos irmãos. “Mas achei estas extensões elétricas, que podem dar certo.”
“Eu tirei estes puxadores de cortina de algumas janelas”, disse Klaus. São meio parecidos com cordas, então achei que poderiam ser úteis.”
“Armani”, ofereceu Sunny, apresentando uma braçada de gravatas de Jerome.
“Bem, temos algumas cordas ersatz”, disse Violet, “para descer pelo poço de elevador ersatz. Vamos amarrá-las todas umas nas outras com a língua-do-diabo.”
“Língua-do-diabo?”, perguntou Klaus.
“É um nó”, explicou Violet. “Foi inventado por mulheres piratas finlandesas, no século XV. Eu usei para fazer o meu arpéu, quando Olaf prendeu Sunny naquela gaiola, pendurada na janela da torre, e vai funcionar aqui também. Precisamos fazer uma corda o mais comprida possível – até onde sabemos, a passagem vai direto até o andar mais baixo do edifício.”
“Parece que vai direto até o centro da terra”, disse Klaus. “Nós passamos tanto tempo tentando escapar do conde Olaf. Nem posso acreditar que agora estamos tentando encontrá-lo.”
“Nem eu”, concordou Violet. “Se não fosse pelos Quagmire, eu não desceria até lá de jeito nenhum.”
“Bangemp”, Sunny lembrou aos irmãos. Queria dizer alguma coisa na linha de “Se não fosse pelos Quagmire, estaríamos nas garras dele há muito tempo”, e os dois Baudelaire mais velhos concordaram com a cabeça. Violet mostrou aos irmãos como fazer a língua-do-diabo e as três crianças amarraram às pressas as extensões elétricas aos puxadores de cortina, e os puxadores de cortina às gravatas, e a última gravata à coisa mais firme e resistente que puderam encontrar, que era a maçaneta da porta da cobertura dos Squalor. Violet conferiu o trabalho dos irmãos e finalmente deu um puxão na corda inteira, dando-se por satisfeita.
“Acho que isto vai nos aguentar”, disse ela. “Só espero que seja comprida o bastante.”
“Por que não deixamos a corda cair pelo poço”, disse Klaus, “e ouvimos o som que faz, para ver se chega até o fundo? Então saberemos com certeza.”
“Boa ideia”, retrucou Violet, e foi até a beirada da passagem. Ela atirou para baixo a última extensão elétrica e as crianças ficaram olhando enquanto ela desaparecia na escuridão, arrastando consigo o restante da corda dos Baudelaire. As voltas do rolo de extensões, puxadores e gravatas se desenrolaram rapidamente, como uma longa serpente acordando e deslizando para dentro do poço. Ela deslizou, e deslizou, e deslizou, e as crianças se inclinaram para a frente o máximo que ousaram e escutaram o mais atentamente que puderam. Finalmente, ouviram um leve, leve plim!, como se a extensão elétrica tivesse atingido um pedaço de metal, e os três órfãos se entreolharam. Só de pensar em descer toda aquela distância no escuro, por uma corda ersatz que eles mesmos tinham confeccionado, dava vontade de dar meia-volta, sair correndo direto para a cama e puxar as cobertas por cima da cabeça. Os irmãos, em pé à beira daquele lugar escuro e aterrador, se perguntavam se realmente teriam coragem de começar a descida. A corda dos Baudelaire chegara ao fundo. Mas chegariam também as crianças Baudelaire?
“Estão prontos?”, perguntou Klaus, por fim.
“Não”, respondeu Sunny.
“Nem eu”, disse Violet, “mas se esperarmos até estar prontos, vamos esperar pelo resto das nossas vidas. Vamos.”
Violet deu um último puxão na corda e, cautelosamente, muito cautelosamente, começou a descer pela passagem. Klaus e Sunny a viram desaparecer na escuridão, como se alguma criatura enorme e faminta a tivesse engolido. “Venham”, ouviram-na sussurrar do meio das trevas. “Está tudo bem.”
Klaus cuspiu nas mãos e Sunny cuspiu nas dela, e os dois Baudelaire mais jovens seguiram a irmã para dentro da escuridão total do poço de elevador, só para descobrir que Violet não tinha contado a verdade. Não estava tudo bem. Não estava nem meio tudo bem. Não estava nem um vinte e sete avos tudo bem. A descida pela passagem sombria dava a sensação de estar caindo em um buraco profundo no fundo de um fosso profundo no fundo de um porão enterrado muito fundo debaixo da terra, e era a situação menos tudo bem que os Baudelaire já tinham encontrado. As mãos agarrando a corda eram a única coisa que podiam ver, pois mesmo depois que os olhos se acostumaram com o escuro, eles tinham medo de olhar para qualquer outro lugar, especialmente para baixo. O distante plim! na extremidade da corda era o único som que ouviam, pois os Baudelaire estavam assustados demais para falar. E a única coisa que sentiam era o mais puro terror, tão profundo e escuro quanto a passagem em si, um terror tão profundo que eu tenho dormido com quatro luzes noturnas acesas desde que visitei a Avenida Sombria 667 e vi aquele abismo profundo por onde os Baudelaire desceram. Mas também vi, durante a minha visita, o que os Baudelaire viram quando chegaram ao fundo, depois de uma descida de mais de três horas aterrorizantes. Àquela altura, seus olhos já tinham se acostumado com a escuridão, e eles puderam ver no que a ponta da corda estava batendo para fazer aquele leve som de plim. A extremidade da extensão elétrica mais distante estava realmente batendo contra um pedaço de metal – um cadeado de metal. O cadeado estava preso em volta de uma porta de metal e a porta de metal estava presa a uma série de barras de metal que formavam uma ferrugenta jaula de metal. No momento em que a minha pesquisa me levou a essa passagem a jaula estava vazia, e já estava vazia há muito, muito tempo. Mas ela não estava vazia quando os Baudelaire a encontraram. Quando eles chegaram ao fundo daquele profundo e aterrorizante lugar, os órfãos Baudelaire olharam para dentro da jaula e viram as figuras agachadas, encolhidas e trêmulas, de Duncan e Isadora Quagmire.

Um comentário:

  1. Nossa n acredito q eles achou os trigemeos
    Como eles foram parar naquele lugar

    Mais estou feliz deles ter achado as crianças

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