30 de agosto de 2016

Capítulo seis


Durante a madrugada, enquanto os dois Baudelaire mais velhos procuravam os degraus do Caminho Secundário das Chamas para escalar – e, sinceramente, espero que você não tenha lido a descrição dessa jornada –, a mais jovem dos Baudelaire viu-se exposta a um tipo diferente de problema com os pés. Sunny não apreciara muito a longa e fria noite no Cume das Aflições. Se você já dormiu em um prato de forno no ponto mais alto de uma cadeia de montanhas, sabe que esse não é um lugar dos mais confortáveis, mesmo que tenha usado um pano de prato como cobertor. Durante toda a noite, os gélidos ventos da montanha invadiram o prato pelos buracos da tampa, e os enormes dentes de Sunny bateram de frio a noite toda, o que lhe rendeu alguns cortes nos lábios e uma noite em claro por conta do barulho. Quando os primeiros raios do sol da manhã amornaram o interior da panela o suficiente para permitir um cochilo, o conde Olaf saiu da sua barraca e chutou fora a tampa. “Acorde, pesadelo de dentista!”, gritou ele. Sunny abriu um olho exausto e viu-se frente a frente com a tatuagem no tornozelo esquerdo de Olaf, visão que a fez se arrepender de ter aberto os olhos.
Aquela tatuagem de olho dava a Sunny a impressão de ter sido observada desde aquele dia na Praia de Sal, quando ela e seus irmãos souberam do terrível incêndio que destruíra seu lar. O conde Olaf tentara várias vezes ocultar aquele olho para que as autoridades não o reconhecessem, mas as crianças sempre davam um jeito de fazê-la vir à tona por trás de seus ridículos disfarces. Os Baudelaire tinham visto o olho em diversos lugares além do tornozelo de Olaf: no consultório de um hipnotizador maligno, numa tenda de parque de diversões, na bolsa de Esmé Squalor e num colar de uma misteriosa cartomante. Era como se o olho tivesse substituído os olhos dos pais dos Baudelaire, porém, em vez de tomar conta deles, o olho permanecia indiferente às suas desventuras. Se observado de perto, o olho revelaria as letras C.S.C., ocultas sob o desenho, e isso lembrou Sunny de todos os segredos sinistros que cercavam os três irmãos e de como estavam longe de entender aquela teia de mistério. Mas é difícil pensar em mistérios e segredos ao acordar, ainda mais quando há alguém gritando com você, e Sunny se voltou para o seu sequestrador.
“Você vai cozinhar e fazer a faxina para nós, órfã”, disse o conde Olaf, “e pode começar pelo café-da-manhã. Temos um grande dia pela frente, e uma boa refeição nos dará energia para cometer crimes execráveis.”
“Plakna?”, perguntou Sunny, o que queria dizer: “Como vou preparar um café-da-manhã no topo de uma montanha gelada?”. E tudo o que obteve como resposta foi um sorriso repulsivo do conde Olaf.
“Pena que o seu cérebro não seja tão grande quanto os seus dentes, macaquinha”, disse ele. “Você está falando bobagem, como de costume.”
Sunny suspirou, frustrada porque não havia ninguém no alto das Montanhas de Mão-Morta que compreendesse o que ela queria dizer. “Trado”, disse ela, o que queria dizer: “Só porque você não entende uma coisa, isso não quer dizer que ela seja uma bobagem”.
“Lá vem você com esse tatibitate”, disse Olaf, e jogou as chaves do carro para Sunny. “Pegue as compras no porta-malas.”
Sunny pensou de repente em algo que poderia alegrá-la um pouquinho. “Paposafo”, disse ela, e esse era o seu modo de dizer: “Já que você não entende o que eu digo, posso falar qualquer coisa, mesmo que seja contra você”.
“Já estou ficando muito cansado dessa sua ridícula deficiência oral”, disse Olaf.
“Brummel”, disse Sunny, o que queria dizer “Na minha opinião, você precisa desesperadamente de um banho, e a sua roupa está um horror”.
“Fique quieta, já!”, ordenou Olaf.
“Busheney”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa na linha de “Você é um homem mau que não se preocupa nem um pouco com as outras pessoas.
“Cale a boca!”, rugiu o conde Olaf. “Cale a boca e comece a cozinhar!”
Sunny deixou o prato de forno e ficou em pé, com os olhos baixos para que o vilão não reparasse que ela sorria. É claro que não é bonito caçoar das pessoas, mas a jovem Baudelaire achou que não seria um problema curtir uma piadinha às custas de um homem tão sanguinário e malvado. Foi andando para o carro de Olaf em um passo saltitante, uma expressão que aqui significa “de um jeito alegre demais para quem estava nas garras de um vilão impiedoso, no topo de uma montanha fria a ponto de congelar uma queda d’água”.
Mas quando Sunny Baudelaire abriu o porta-malas do carro, o que se congelou foi seu sorriso. Em circunstâncias normais, não é seguro guardar gêneros alimentícios no porta-malas durante extensos períodos de tempo, pois alguns alimentos podem se deteriorar sem a devida refrigeração. Porém o que Sunny constatou não foi falta, mas excesso de refrigeração. Uma fina camada de gelo se depositara sobre todos os produtos, e Sunny teve de enxugar o gelo com as mãos para visualizar o que ia preparar para os vilões. Embora houvesse uma variedade de alimentos roubados do parque de diversões por Olaf, nenhum deles estava em condições para se transformar num bom café-da-manhã. Havia um saco de grãos de café embaixo de um lançador de arpões e de um bloco de espinafre, mas não havia como moer os grãos para preparar o café. Perto de uma cesta de piquenique e de um saco de cogumelos havia um frasco de suco de laranja, mas ele estava muito perto de um dos buracos de bala do porta-malas, e congelara por completo. Só depois que Sunny passou ao lado de três pedaços de queijo gelado, uma grande lata de tremoço e uma berinjela do tamanho dela, é que encontrou um pequeno pote de geleia de amora e um pão que poderia ser usado para fazer torradas, muito embora, com o frio, mais parecesse uma tora de lenha que um ingrediente de café-da-manhã.
“Acordem!”, Sunny espiou para fora do porta-malas e viu o conde Olaf gritando pela porta de uma das barracas. “Vistam-se para o café-da-manhã!”
“Não podemos dormir por mais dez minutos?”, perguntou a voz lamentosa do homem de mãos de gancho. “Eu estava tendo um lindo sonho sobre espirrar sem cobrir o nariz e a boca, transmitindo germes para todo mundo.”
“De jeito nenhum!”, retrucou Olaf. “Vocês têm um monte de trabalho para fazer.”
“Mas Olaf”, disse Esmé Squalor, emergindo da barraca que compartilhava com seu namorado vil. Ela usava um robe comprido e um par de chinelos felpudos, e seu cabelo estava cheio de bobes. “Preciso de um tempinho para escolher o que vou vestir. Não é in tocar fogo em uma base de operações sem as roupas adequadas para a ocasião.”
Sunny engoliu em seco dentro do porta-malas. Sabia que Olaf estava ansioso por chegar à base de operações de C.S.C., rápido, a fim de acabar com alguma evidência crucial. Mas o que ela não pôde imaginar é que ele iria combinar essa procura por evidências com a sua habitual piromania, uma palavra que aqui significa “amor pelo fogo, usualmente produto de uma mente desequilibrada”.
“Não entendo por que você precisa de tanto tempo”, foi o que ele respondeu à sua namorada. “Eu uso a mesma roupa por semanas, a não ser quando estou disfarçado, e a minha aparência é insuportavelmente linda. Você tem alguns minutos antes de o café-da-manhã ficar pronto. A lentidão no serviço é uma das desvantagens de ter bebês como escravos.” Olaf se dirigiu até o carro e deu uma espiada em Sunny, que ainda não tinha conseguido agarrar o pão. “Ande logo, bocuda”, rosnou ele para Sunny. “Preciso de uma boa refeição quente para aliviar a friagem da madrugada.”
“Impossi!”, exclamou Sunny. Com “Impossi” ela queria dizer: “Para preparar uma refeição quente sem eletricidade eu precisaria de fogo, e esperar que um bebê acenda fogo sozinho no topo de uma montanha nevada é cruelmente impossível e impossivelmente cruel”, mas Olaf apenas fechou a cara.
“Esse tatibitate já está começando a me incomodar”, disse ele.
“Higiene”, disse Sunny, para se sentir um pouco melhor. Ela queria dizer alguma coisa do gênero de: “Além disso, você deveria ter vergonha de usar a mesma roupa por semanas a fio sem lavar”, mas Olaf apenas fez uma careta e voltou para sua barraca.
Sunny olhou para os ingredientes frios e raciocinou. Mesmo que tivesse idade suficiente para acender o fogo sozinha, ficava nervosa quando estava perto de fogo, desde o incêndio na mansão Baudelaire. Mas ao pensar nisso ela se lembrou de uma coisa que sua mãe lhe dissera uma vez. Estavam ambas na cozinha – a mãe de Sunny preparava um almoço formal, enquanto ela derrubava um garfo pela enésima vez no chão para ouvir o ruído que fazia. O almoço deveria começar a qualquer minuto, e a mãe de Sunny estava preparando uma salada de manga fatiada, feijão-preto e aipo picadinho, temperada com pimenta-do-reino, suco de limão-galego e azeite de oliva. “Essa não é uma receita muito complicada”, dissera a mãe, “mas se eu arrumar a salada muito direitinho em pratos elegantes, as pessoas vão pensar que passei o dia todo cozinhando. A apresentação da comida pode ser tão importante quanto a própria comida.” Pensando no que sua mãe havia dito, Sunny abriu a cesta de piquenique que estava no porta-malas de Olaf e descobriu um jogo de pratos elegantes, adornados com a familiar insígnia do olho, e um pequeno aparelho de chá. Ela arregaçou as mangas – uma expressão que aqui significa “concentrou-se no que estava fazendo, mas não chegou a arregaçar as mangas de fato, porque estava muito frio” – e pôs mãos à obra, enquanto os vilões faziam as primeiras tarefas do dia.
“Vou usar esses cobertores como toalha de mesa”, Sunny ouviu o conde Olaf dizer de dentro da barraca, por cima do barulho que os seus próprios dentes faziam enquanto trabalhavam.
“Boa ideia”, ouviu Esmé responder. “É muito in jantar al fresco.”
“O que quer dizer isso?”, perguntou Olaf.
“Quer dizer ‘do lado de fora”, explicou Esmé. “Está na moda fazer as refeições ao ar livre.”
“Eu sabia o que queria dizer”, retrucou o conde Olaf. “Estava só conferindo se você sabia.”
“Ei, patrão”, chamou Hugo da outra barraca. Colette não quer repartir o fio dental comigo.”
“Não há nenhuma razão para usar fio dental”, disse Olaf, “a não ser que se esteja tentando estrangular alguém.”
“Kevin, quer me fazer um favor?”, perguntou o homem de mãos de gancho, enquanto Sunny se esforçava para abrir um frasco de suco. “Venha me ajudar a pentear o cabelo. Os ganchos tornam as coisas mais difíceis.”
“Tenho inveja dos seus ganchos”, replicou Kevin. “Não ter mãos é melhor do que ter duas mãos igualmente fortes.”
“Não seja ridículo”, reagiu uma das mulheres de cara branca. “Ter uma cara branca é pior do que a situação de qualquer um de vocês.”
“Mas vocês têm a cara branca porque se maquiam”, disse Colette, enquanto Sunny escalava o porta-malas para se ajoelhar na neve. “Agora mesmo você está usando pó-de-arroz.”
“Será que toda santa manhã tem que ter discussão?”, perguntou o conde Olaf, e saiu da barraca pisando duro, com um cobertor com estampa de olhos na mão. “Alguém pegue esse cobertor, estenda naquela pedra chata ali e ponha a mesa.”
Hugo saiu da barraca e sorriu para o patrão. “Com todo prazer”, disse.
Depois de vestir um agasalho de neve vermelho-vivo, Esmé passou o braço em volta de Olaf. “Dobre o cobertor em triângulo”, ela ordenou a Hugo. “É o jeito in de fazer.”
“Sim, senhora”, disse Hugo, “e se não se importa que eu diga, seu agasalho de neve é muito bonito.”
A vil namorada de Olaf girou o corpo para mostrar o agasalho de todos os ângulos. Sunny ergueu os olhos do seu trabalho e notou que havia uma letra B costurada nas costas do agasalho, junto com o emblema do olho. “Fico feliz que você tenha gostado”, disse Esmé. “Foi roubado.”
Olaf percebeu que Sunny observava Esmé e rapidamente se colocou na frente da sua namorada. “O que está olhando, dentuça?”, perguntou ele. “Já preparou nosso café-da-manhã?”
“Ainda”, respondeu Sunny.
“Esse bebê só fala coisas sem pé nem cabeça”, disse Hugo. “Não é à toa que nos enganou, parece mesmo uma aberração de parque de diversões.”
Sunny suspirou, mas ninguém ouviu por causa das ruidosas e desdenhosas gargalhadas da trupe de Olaf. Um a um, os desprezíveis empregados do vilão emergiram da barraca e se aproximaram da pedra onde Hugo havia estendido o cobertor. Uma das mulheres de cara branca lançou um sorrisinho para Sunny, mas ninguém se ofereceu para ajudar com os últimos preparativos do café-da-manhã nem para pôr na mesa os pratos estampados com olhos. Em vez disso, ficaram tagarelando e rindo em volta da pedra, até Sunny lhes servir a comida muito bem arranjada na bandeja em forma de olho que tinha encontrado na cesta de piquenique. Muito embora estivesse preocupada com seus irmãos e nas garras de um homem vil, ela não pôde deixar de se orgulhar quando o conde Olaf e seus comparsas olharam admirados para a refeição que ela preparara.
Sunny tinha em mente o que sua mãe lhe dissera sobre a apresentação ser tão importante quanto a própria comida, e organizara um adorável café-da-manhã, apesar das circunstâncias difíceis. Primeiro ela abriu um frasco de suco de laranja congelado e, com uma colher, raspou o bloco gelado em cada prato, produzindo uma deliciosa raspadinha de laranja, a elegante sobremesa que se serve em grandes jantares e bailes a fantasia. Depois lavou a boca com neve derretida e triturou alguns grãos de café com os dentes. Colocou um pouquinho do pó em cada taça e acrescentou um pouco de neve derretida, o que resultou num iced coffee, uma bebida deliciosa que saboreei pela primeira vez na Tailândia, durante uma viagem que fiz para entrevistar um motorista de táxi. Enquanto a mais jovem Baudelaire preparava essas receitas, o pão descongelava debaixo de sua camisa, e quando as fatias chegaram ao ponto de ser comidas, colocou uma em cada prato e espalhou uma camada em forma de olho de geleia de framboesa sobre elas. O toque final foi decorar a mesa com um ramalhete de hera que Olaf dera de presente a Esmé há pouco tempo. A hera ajudaria na apresentação da comida, como peça de centro, expressão que aqui significa “decoração colocada no centro de uma mesa para desviar a atenção das pessoas da comida”. Raspadinha de laranja e iced Coffee não são normalmente servidos em cafés-da-manhã al fresco, no alto de picos gelados, e o pão em que se coloca geleia costuma ser torrado, especialmente em países e lugares frios, mas, na falta de uma fonte de calor ou qualquer outro equipamento de cozinha, Sunny fez o melhor possível, e esperava que os vilões apreciassem os seus esforços.
Caffe fredde, sorbet, toast tartar”, anunciou ela.
“O que é isso?”, disse o conde Olaf desconfiado, olhando para dentro da sua xícara de café. “Parece café, mas está completamente gelado!”
“E que negócio de laranja é esse?”, perguntou Esmé, desconfiada. “Quero comida in, e não um punhado de gelo!”
Colette pegou um pedaço de pão e olhou desconfiada para ele. “Essa torrada não parece torrada”, disse. “É seguro comê-la crua?”
“Claro que não”, disse Hugo. “Aposto que aquele bebê está tentando nos envenenar.”
“Na verdade, o café não está ruim”, disse uma das mulheres de cara branca, “embora esteja um pouco amargo. Alguém me passe o açúcar, por favor?”
“Açúcar?”, guinchou Olaf, furioso. Ele se pôs em pé, agarrou uma ponta do cobertor e puxou o mais forte que pôde, esparramando todo o trabalho duro de Sunny. Comida, bebidas e pratos voaram para todos os lados, e Sunny teve de se agachar para não ser atingida na cabeça por um garfo. “Todo o açúcar do mundo não será capaz de salvar esse horrendo café-da-manhã!”, rugiu, e depois se curvou para que os seus olhos muito, muito brilhantes encontrassem os de Sunny. “Eu disse para você preparar um café-da-manhã bom e quente, e você me apresenta uma gororoba nojenta e fria!”, disse ele, liberando seu bafo malcheiroso no ar gelado. “Sua pequena selvagem dentes-de-sabre, não percebe a que altitude estamos? Se eu a atirasse de cima do Cume das Aflições você jamais sobreviveria!”
“Olaf!”, disse Esmé, “estou surpresa! Com certeza você não se esqueceu de que sem Sunny jamais conseguiremos pôr as mãos na fortuna Baudelaire. Temos de mantê-la viva em nome da causa maior.”
“Sim, sim”, disse o conde Olaf. “Eu sei. Não vou atirar a órfã daqui de cima. Só estava querendo aterrorizá-la.” Ele dirigiu a Sunny um sorrisinho cruel, depois voltou-se para o homem de mãos de gancho. “Vá até aquela queda d’água congelada”, disse ele, “e abra um buraco no gelo com o seu gancho. O arroio está cheio de salmões enamorados. Pesque o suficiente para todo mundo, e o bebê irá nos preparar uma refeição decente.”
“Boa ideia, Olaf”, disse o homem de mãos de gancho, caminhando para o escorregador de gelo. “Você é tão esperto quanto inteligente.”
“Sakesushi”, disse Sunny, o que queria dizer: “Não creio que vocês apreciem muito o salmão se ele estiver cru”.
“Pare com o seu tatibitate e lave os pratos”, ordenou Olaf. “Estão sujos de comida nojenta.”
“Sabe, Olaf”, disse a mulher de cara branca que tinha pedido açúcar, “não é da minha conta, mas devíamos encarregar alguma outra pessoa da cozinha. Provavelmente é muito difícil para um bebê preparar um café-da-manhã quente sem fogo.”
“Mas aqui há fogo”, disse uma voz grave e profunda, e todos se voltaram para ver quem havia chegado.
Possuir uma aura ameaçadora é como possuir um gambá de estimação, pois é muito raro encontrar alguém que a possua, e quando você encontra, sente vontade de se esconder debaixo da mesa do café. Uma aura ameaçadora é simplesmente uma nítida sensação da presença do mal, e pouquíssimos indivíduos são suficientemente maus para possuir uma aura ameaçadora muito forte. O conde Olaf, por exemplo, possuía esse tipo de aura, e os três Baudelaire a sentiram no momento em que o conheceram. Mas inúmeras outras pessoas jamais perceberam a presença de um vilão, mesmo quando o conde Olaf estava bem ao lado delas com um brilho mau no olhar. Quando dois visitantes chegaram ao pico mais alto das Montanhas de Mão-Morta, a aura ameaçadora que carregavam ficou bastante evidente. Sunny engoliu em seco ao vê-los. Esmé Squalor estremeceu dentro de seu agasalho de neve. Todos os integrantes da trupe de Olaf, exceto o homem de mãos de gancho, ocupado em pescar salmões na hora em que os visitantes chegaram, baixaram os olhos. O próprio conde Olaf pareceu ficar um tantinho nervoso quando o homem, a mulher e a aura ameaçadora foram se aproximando cada vez mais.
E até mesmo eu, depois de todo esse tempo, só de escrever sobre aquelas duas pessoas posso sentir essa aura ameaçadora com tanta intensidade que nem me atrevo a citar seus nomes. Em vez disso, vou me referir a eles do mesmo modo como todos os que se atrevem a se referir a eles o fazem, como “o homem com barba mas sem cabelo” e “a mulher com cabelo mas sem barba”.
“E bom tornar a vê-lo, Olaf”, continuou a voz profunda, e Sunny percebeu que era a voz da mulher sinistra. Ela usava uma roupa confeccionada com um estranho tecido azul muito brilhante, com dois grossos enchimentos nos ombros. Arrastava um tobogã de madeira – uma palavra que aqui significa “um trenó grande o suficiente para transportar diversas pessoas” – que produzia um ruído áspero contra o chão gelado. “Eu estava preocupada, imaginando que as autoridades poderiam tê-lo capturado.”
“Você parece bem-disposto”, disse o homem com barba mas sem cabelo. Ele estava vestido do mesmo modo que a mulher com cabelo mas sem barba, porém sua voz era muito rouca, como se tivesse gritado por horas a fio e não conseguisse mais falar direito. “Faz um bom tempo desde que nos vimos pela última vez.” O sorriso que o homem abriu para Olaf deixou o pico da montanha ainda mais frio. Em seguida parou de falar e ajudou a mulher a encostar o tobogã na pedra em que Sunny servira o café-da-manhã. A mais jovem dos Baudelaire viu que no tobogã estava pintado o familiar emblema do olho e havia umas correias compridas de couro, talvez usadas para conduzir.
Olaf tossiu de leve, coisa que às vezes as pessoas fazem quando não conseguem pensar em algo para dizer.
“Olá”, disse ele meio nervoso. “Será que ouvi você dizer alguma coisa sobre fogo?”
O homem com barba mas sem cabelo e a mulher com cabelo mas sem barba se entreolharam e soltaram uma gargalhada que fez Sunny tampar os ouvidos com as mãos. “Vocês não repararam”, disse a mulher, “que não há mosquitos da neve por perto?”
“Nós reparamos”, disse Esmé. “Achei que talvez eles não estivessem mais in.”
“Não seja ridícula, Esmé”, disse o homem com barba mas sem cabelo. Ele pegou a mão de Esmé e a beijou, e Sunny percebeu que ela tremia. “Os mosquitos não estão por perto porque sentiram o cheiro da fumaça.”
“Não estou sentindo cheiro nenhum”, disse Hugo.
“Bem, se você fosse um pequeno inseto, sentiria”, retrucou a mulher com cabelo mas sem barba. “Se você fosse um mosquito da neve, sentiria o cheiro da fumaça que vem da base de operações de C.S.C.”
“Nós fizemos um favor a você, Olaf”, disse o homem. “Tocamos fogo em tudo aquilo.”
“Não!”, gritou Sunny, que não pôde se conter. Com “Não!” ela queria dizer: “Eu espero que isso não seja verdade, pois meus irmãos e eu esperávamos chegar até lá, resolver os mistérios que nos rodeiam e talvez encontrar um de nossos pais”, mas ela não tinha planejado dizer isso em voz alta. Os dois visitantes baixaram os olhos para a jovem Baudelaire e lançaram aquela aura ameaçadora em sua direção.
“O que é isso?”, perguntou o homem com barba mas sem cabelo.
“Isso é a mais jovem dos Baudelaire”, respondeu Esmé. “Eliminamos os outros dois, mas estamos conservando esta aqui para nos assegurar de nossos direitos sobre a fortuna.”
A mulher com cabelo mas sem barba concordou com a cabeça. “Empregados bebês são muito inoportunos”, disse ela. “Eu já tive um empregado bebê certa vez, muito tempo atrás, antes da cisão.”
“Antes da cisão?”, disse Olaf, e Sunny desejou que Klaus estivesse ali para lhe dizer o que significava a palavra “cisão”. “Isso faz muito tempo. Aquele bebê já deve ser um adulto a essa altura.”
“Não necessariamente”, disse a mulher, e riu de novo, enquanto seu companheiro se curvava para examinar Sunny, que não conseguiu retribuir o olhar e baixou os olhos para os sapatos lustrosos do homem com barba mas sem cabelo.
“Esta é Sunny Baudelaire”, disse ele em sua voz estranha e rouca. “Bem, bem, bem. Ouvi falar tanto desta pequena órfã. Ela já causou quase tantos problemas quanto seus pais.” Ele endireitou o corpo e olhou para Olaf e sua trupe. “Mas nós sabemos como resolver problemas, não sabemos? O fogo resolve qualquer problema no mundo.”
Ele começou a rir, e a mulher com cabelo mas sem barba riu junto. Nervoso, Olaf começou a rir também, e então dirigiu um olhar feroz para a sua trupe até eles começarem a rir, e num instante Sunny se viu cercada por vilões grandes e gargalhantes.
“Aquilo foi maravilhoso”, disse a mulher com cabelo mas sem barba. “Primeiro nós tocamos fogo na cozinha, depois na sala de jantar. Então tocamos fogo na sala de visitas, na central de disfarces, na sala de projeção e nos estábulos. Passamos ao ginásio e ao centro de treinamento, à garagem, e todos os seis laboratórios. Tocamos fogo nos dormitórios e nas salas de aula, no saguão, no teatro e na sala de música, e também no museu e na sorveteria. Depois foi a vez das salas de ensaio, das centrais de testes e da piscina, que custou a pegar fogo. E por último os banheiros e a biblioteca de C.S.C. Essa foi a minha parte favorita – livros e mais livros, todos transformados em cinzas. Você devia estar lá, Olaf! Ateávamos fogo todas as manhãs, e todas as noites celebrávamos com uma garrafa de vinho e alguns fantoches de dedo. Usamos essas roupas à prova de fogo durante quase um mês. Foi maravilhoso!”
“Por que vocês não incendiaram tudo de uma vez só?”, perguntou o conde Olaf. “É como costumo proceder.”
“Não poderíamos ter feito isso na base de operações”, disse o homem com barba mas sem cabelo. “Alguém teria nos detectado. Lembre-se, onde há fumaça, há fogo.”
“Mas se vocês tocaram fogo sala por sala”, disse Esmé, “os voluntários devem ter escapado.”
“Eles já tinham ido embora”, disse o homem, e coçou a cabeça no lugar onde deveria estar o cabelo. “A base de operações havia sido abandonada. Foi como se eles soubessem que estávamos para chegar. Mas tudo bem, não se pode ganhar todas.”
“Talvez encontremos alguns deles quando incendiarmos o parque”, disse a mulher em sua voz profunda, muito profunda.
“Parque?”, perguntou Olaf, nervoso.
“Sim”, disse a mulher, e coçou o lugar onde deveria estar a sua barba, se ela tivesse uma. “Existe uma prova importante que C.S.C, escondeu em uma estatueta que foi vendida no Parque Caligari, portanto precisamos tocar fogo nele.”
“Eu já fiz isso”, disse o conde Olaf.
“No parque inteiro?”, disse a mulher, surpresa.
“No parque inteiro”, disse Olaf com um sorriso nervoso.
“Congratulações”, disse ela em um profundo ronronar. “Você é melhor do que eu pensava, Olaf.”
O conde Olaf pareceu aliviado, como se não tivesse certeza se a mulher iria congratulá-lo ou dar-lhe um pontapé. “Bem, é tudo em nome da causa maior”, disse ele.
“Como recompensa”, disse a mulher, “tenho um presente para você, Olaf.” Sunny observou enquanto a mulher enfiava a mão no bolso da sua roupa reluzente e extraía um maço de papéis amarrado com um cordão. Os papéis pareciam muito velhos e desgastados, como se tivessem passado por muitas mãos diferentes conforme tinham sido escondidos em diversos compartimentos secretos, e quem sabe tenham até sido divididos em várias pilhas quando transportados em carruagens através de uma cidade e reunidos novamente à meia-noite na sala dos fundos de uma livraria disfarçada de café disfarçado de loja de artigos esportivos. Os olhos do conde Olaf se arregalaram e brilharam muito, e ele estendeu suas mãos imundas para o maço de papel, como se fosse a própria fortuna Baudelaire que estivesse ali.
“O dossiê Snicket!”, sussurrou ele.
“Está tudo aqui”, disse a mulher. “Todos os gráficos, mapas e fotografias do único dossiê que poderia nos mandar para a cadeia.”
“Está completo, a não ser pela página treze”, disse o homem. “Achamos que os Baudelaire furtaram essa página do Hospital Heimlich.”
Os dois visitantes lançaram um olhar feroz para Sunny Baudelaire, que não conseguiu conter um choramingo de medo. “Migonão”, disse ela, o que queria dizer alguma coisa no gênero de “Não está comigo, está com os meus irmãos”, mas não precisou de um tradutor.
“Os órfãos mais velhos estão com ela”, disse Olaf, “mas tenho quase certeza de que eles estão mortos.”
“Então todos os nossos problemas viraram fumaça”, disse a mulher com cabelo mas sem barba.
Olaf agarrou o dossiê e apertou-o contra o peito como se fosse um bebê recém-nascido, muito embora não fosse o tipo de pessoa que trata um recém-nascido com carinho. “Esse é o presente mais maravilhoso que eu já ganhei”, disse. “Vou tratar de lê-lo agora mesmo.”
“Vamos ler todos juntos”, disse a mulher com cabelo mas sem barba. “O dossiê revela segredos que todos devíamos conhecer.”
“Mas primeiro”, disse o homem com barba mas sem cabelo, “tenho um presente para a sua namorada, Olaf.”
“Para mim?”, perguntou Esmé.
“Encontrei isso em uma das salas da base de operações”, disse o homem. “Nunca tinha visto um desses antes, mas já faz um bom tempo que eu deixei de ser um voluntário.” Com um sorriso matreiro, ele enfiou a mão no bolso e tirou de lá um tubinho verde.
“O que é isso?”, perguntou Esmé.
“Acho que é um cigarro”, disse o homem.
“Um cigarro!”, exclamou ela com um sorriso tão grande quanto o de Olaf. “Que coisa mais in!”
“Imaginei que você fosse gostar”, disse o homem. “Aqui está, experimente. Por sorte tenho alguns fósforos comigo.”
O homem com barba mas sem cabelo riscou um fósforo, acendeu a ponta do tubinho verde e o ofereceu à perversa namorada de Olaf, que o levou à boca. O ar foi tomado por um cheiro forte, como o de legumes queimados, e Esmé Squalor começou a tossir.
“Qual é o problema?”, perguntou a mulher. “Pensei que você gostasse de coisas in.”
“E gosto”, disse Esmé, tossindo mais um pouco, e Sunny lembrou-se do sr. Poe, que sempre tossia em seu lenço. Esmé deixou cair o tubinho verde no chão, de onde ele regurgitou uma fumaça verde-escura. “Adoro cigarros”, explicou ela ao homem com barba mas sem cabelo, “mas prefiro fumá-los com uma piteira comprida, porque não gosto do cheiro nem do gosto. E porque cigarros fazem mal.”
“Isso não importa agora”, disse o conde Olaf, impaciente. “Vamos entrar na minha barraca e ler o dossiê.” Ele começou a andar na direção da barraca, mas parou e lançou um olhar feroz para os seus comparsas, que o seguiam. “Vocês ficam aqui”, disse. “Há segredos nesse dossiê que não quero que vocês conheçam.”
Os sinistros visitantes começaram a rir, e seguiram o conde Olaf e Esmé para a barraca, fechando-a atrás de si. Sunny ficou com Hugo, Colette, Kevin e as duas mulheres de cara branca, olhando para os visitantes em silêncio, até que sua aura ameaçadora desaparecesse para dentro da barraca.
“Quem eram aquelas pessoas?”, perguntou o homem de mãos de gancho assim que retornou da sua expedição pesqueira. Quatro salmões estavam pendurados em um dos seus ganchos, pingando água do Arroio Enamorado.
“Não sei”, disse uma das mulheres de cara branca, “mas elas me deixam nervosa.”
“Mas se são amigas do conde Olaf”, disse Kevin, “devem ser bastante más.”
Os integrantes da trupe se entreolharam, mas ninguém comentou o que dissera o ambidestro. “O que aquele homem quis dizer quando disse ‘Onde há fumaça, há fogo’?”, perguntou Hugo.
“Não sei”, disse Colette, e começou a se contorcer até ficar tão cheia de curvas quanto a fumaça do tubo verde que Esmé deixara cair.
“Esqueçam todas essas perguntas”, disse o homem de mãos de gancho. “A minha pergunta é como você vai preparar o salmão, órfã?”
O capanga de Olaf estava aguardando a resposta de Sunny, mas a jovem Baudelaire demorou para responder. Estava pensando, e seus irmãos teriam se orgulhado se a vissem assim. Klaus teria se orgulhado porque ela estava pensando no significado da expressão “Onde há fumaça, há fogo”. E Violet teria se orgulhado porque ela estava pensando no que poderia ajudá-la a preparar aquele salmão que o homem de mãos de gancho segurava. Sunny olhou para ele e pensou mais um pouco, e foi quase como se seus dois irmãos estivessem com ela, Klaus ajudando-a a pensar sobre a expressão e Violet ajudando-a a pensar numa invenção.
“Responda, bebê”, rosnou o homem. “Como você vai preparar esse salmão para nós?”
“Lox!”, disse Sunny, mas era como se os três Baudelaire juntos tivessem dado a resposta.

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