25 de agosto de 2016

Capítulo seis


Esta não é uma história sobre Lemony Snicket. É inútil contar a história de Snicket, porque ela aconteceu muito tempo atrás, e porque não há nada que alguém possa fazer quanto ao modo como aconteceu, portanto a única razão que eu poderia ter para anotá-la nas margens destas páginas seria tornar este livro ainda mais desagradável, enervante e inacreditável do que já é.
Esta é uma história sobre Violet, Klaus e Sunny Baudelaire, e como eles descobriram na Biblioteca de Registros do Hospital Heimlich uma coisa que mudou as suas vidas para sempre, e ainda me deixa agoniado sempre que fico sozinho à noite PONTO. Porém se este fosse um livro sobre mim, e não sobre as três crianças que logo iriam dar de encontro com alguém que esperavam nunca mais ver de novo, eu poderia me interromper por um momento e contar a vocês sobre algo que fiz muitos anos atrás, mas que ainda me perturba. Era uma coisa necessária, que precisava ser feita, mas não era uma coisa bonita, e mesmo agora sinto uma pequena palpitação de vergonha no estômago toda vez que me lembro disso. Posso estar fazendo algo de que gosto – passeando pelo convés de um navio, ou olhando para a aurora boreal por um telescópio, ou entrando em uma livraria como quem não quer nada e pondo os meus livros no lugar mais alto da estante para que ninguém seja tentado a comprá-los e lê-los – quando, de repente, me lembro dessa coisa que fiz, e penso comigo mesmo: Será que foi realmente necessário? Será que foi absolutamente necessário furtar aquele açucareiro de Esmé Squalor?
Os órfãos Baudelaire estavam vivenciando palpitações similares naquela tarde, ao encerrar o dia de trabalho na Biblioteca de Registros. Toda vez que Violet punha uma pasta no seu devido lugar, apalpava a sua fita de cabelo no bolso e sentia uma palpitação no estômago ao pensar no que ela e os seus irmãos estavam prestes a fazer. Klaus pegava uma pilha de papéis na cesta ao lado da via de informações e, em vez de pôr os clipes na pequena tigela, ele os escondia na mão, sentindo uma palpitação no estômago ao pensar no ardil que ele e as suas irmãs iriam usar. E toda vez que Hal virava as costas, e Klaus passava os clipes para Sunny, a mais jovem dos Baudelaire sentia uma palpitação no estômago ao pensar no modo furtivo como eles retornariam à Biblioteca de Registros naquela noite. Quando Hal se pôs a trancar os arquivos de aço com o seu enorme molho de chaves, encerrando o expediente do dia, as três crianças Baudelaire já estavam com palpitações no estômago suficientes para participar de um Festival de Estômagos Palpitantes, se houvesse algum naquela tarde.
“É absolutamente necessário fazer isso?”, murmurou Violet para Klaus, enquanto as três crianças saíam da biblioteca e entravam na antessala atrás de Hal. Ela tirou a fita de cabelo do bolso e alisou-a com a mão, para que não ficasse nem um pouco amassada. “Não é uma coisa bonita de se fazer.”
“Eu sei”, respondeu Klaus, estendendo a mão para que Sunny pudesse pegar os clipes. “Sinto uma palpitação no estômago só de pensar nisso. Mas é o único jeito que temos de pôr as mãos naquela pasta.”
“Olaf”, disse Sunny, soturna. Ela queria dizer: “Antes que Mattathias ponha as mãos em nós”, e assim que ela terminou a frase, a voz estridente de Mattathias soou no intercomunicador.
Atenção! Atenção!”, disse a voz, enquanto Hal e os Baudelaire erguiam os olhos para o alto-falante quadrado. “Aqui é Mattathias, o novo diretor de Recursos Humanos. As inspeções estão encerradas por hoje, mas continuaremos amanhã.”
“Que absurdo”, resmungou Hal, pondo o molho de chaves em cima da mesa.
Os Baudelaire se entreolharam, depois olharam para as chaves, enquanto Mattathias continuava a sua comunicação.
E também”, disse o alto-falante, “se qualquer pessoa neste hospital possuir objetos valiosos de qualquer tipo, solicito que os traga à sala dos Recursos Humanos para que sejam guardados em lugar seguro. Obrigado.”
“Meus óculos são valiosos, de certo modo”, disse Hal, tirando-os, “mas não vou levá-los para a sala dos Recursos Humanos. Corro o risco de nunca mais vê-los de novo.”
“Isso provavelmente é verdade”, disse Violet balançando a cabeça ao pensar em Mattathias e sua impudência, uma palavra que aqui significa “tentativa de roubar objetos valiosos dos funcionários do hospital, além de arrebatar a fortuna dos Baudelaire”.
“Além disso”, disse Hal, sorrindo para as crianças e estendendo a mão para pegar o casaco, “ninguém vai roubar nada de mim. Vocês três são as únicas pessoas que vejo no hospital, e em quem confio absolutamente. Agora, onde deixei as minhas chaves?”
“Aqui estão”, disse Violet, e as palpitações no seu estômago ficaram piores. Ela ergueu a sua fita de cabelo, que tinha sido amarrada formando um círculo para ficar parecendo um anel de barbante. Pendurada na fita, havia uma longa fileira de clipes de papel, que Sunny tinha dobrado com os dentes em formas variadas enquanto Hal não estava olhando. O resultado tinha certa semelhança com o molho de chaves de Hal, do mesmo modo como um cavalo tem certa semelhança com uma vaca, ou uma mulher de vestido verde tem certa semelhança com um pinheiro, mas não havia como alguém olhar para a fita de cabelo de Violet, cheia de clipes mascados, e pensar que fosse um molho de chaves – a não ser, é claro, que a vista desse alguém não fosse mais o que era. As três crianças aguardaram enquanto Hal apertava os olhos na direção do que Violet estava segurando.
“Essas são as minhas chaves?”, disse Hal, desconfiado. “Achei que as tinha deixado em cima da mesa.”
“Oh, não”, Klaus apressou-se a dizer, plantando-se na frente da mesa para que Hai não pudesse ver as chaves verdadeiras nem de relance. “Violet está com elas.”
“Aqui”, disse Violet, balançando as chaves de um lado para outro para que ficassem ainda mais difíceis de ver, “posso pô-las no bolso do seu casaco?”
“Obrigado”, disse Hal quando Violet as deixou cair no bolso do seu sobretudo. Ele olhou para os Baudelaire, os olhinhos brilhando de gratidão. “Esta é mais uma ajuda que vocês três me deram. Minha vista não é mais o que era, vocês sabem, portanto estou contente por poder confiar em voluntários tão bons. Bem, boa noite, crianças. Vejo vocês amanhã. “
“Boa noite, Hal”, respondeu Klaus. “Vamos só comer um último pedaço de fruta aqui na antecâmara”.
“Não vão estragar o jantar”, disse Hal. “Parece que vai ser uma noite muito fria, e aposto que os seus pais prepararam uma deliciosa refeição quente.” Hal sorriu e fechou a porta atrás dele, deixando as crianças sozinhas com as chaves verdadeiras da Biblioteca de Registros e a sensação palpitante no estômago.
“Algum dia”, disse Violet baixinho, “vamos pedir desculpas a Hal por pregar uma peça nele e explicar por que tivemos de quebrar as regras. Isso não foi uma coisa bonita de se fazer, embora tenha sido necessária.”
“E vamos voltar ao Armazém Geral Última Chance”, disse Klaus, “e explicar ao dono da venda por que tivemos de fugir.”
“Twisp”, disse Sunny com firmeza, o que queria dizer: “Mas não até que tenhamos deitado as mãos na pasta, resolvido todos aqueles mistérios e provado a nossa inocência”.
“Você está certa, Sunny”, disse Violet com um suspiro. “Vamos começar. Klaus, veja se você consegue encontrar a chave certa para a porta da biblioteca.”
Klaus assentiu e levou as chaves de Hal até a porta. Não faz muito tempo, quando os Baudelaire estavam morando com a tia Josephine às margens do Lago Lacrimoso, Klaus estivera em uma situação na qual teve de associar uma chave a uma porta trancada muito, muito depressa, e desde então se tornara bom nisso. Ele olhou para a fechadura da porta, que tinha uma fenda muito curta e estreita, depois olhou para o molho de chaves, no qual havia uma só chave curta e estreita, e num piscar de olhos as crianças estavam entrando de novo na Biblioteca de Registros e olhando para os corredores mal iluminados de arquivos de aço.
“Vou trancar a porta”, disse Klaus, “para que, se por acaso alguém entrar na antecâmara, não fique desconfiado.”
“Alguém como Mattathias”, disse Violet com um calafrio. “No intercomunicador, ele disse que iam parar com as inspeções por hoje, mas aposto que ainda está procurando.”
“Vapey”, disse Sunny, o que queria dizer: “Não vamos nos apressar”.
“Vamos começar pelo corredor S”, disse Violet. “De ‘Snicket’.”
“Certo”, disse Klaus, trancando a porta com um ruído seco. As três crianças encontraram o corredor S e foram passando pelos arquivos de aço e lendo as etiquetas para descobrir qual deles deviam abrir.
“Salada a Saxifragácea”, leu Klaus em voz alta. “Isso significa que tudo o que cai alfabeticamente entre a palavra ‘salada’ e a palavra ‘saxifragácea’ está neste arquivo. Isso seria ótimo se quiséssemos a pasta Sanguessugas.”
“Ou a pasta Sauna”, disse Violet. “Vamos seguir adiante.”
As crianças seguiram adiante, seus passos ecoando no teto baixo da sala.
“Saxofone a Sebastianismo”, disse Klaus, lendo um arquivo mais adiante no corredor. Sunny e Violet sacudiram a cabeça, e os Baudelaire seguiram em frente.
“Secretaria a Sedimento”, leu Violet. “Ainda não chegamos lá.”
“Kalm”, disse Sunny, o que queria dizer: “Não sei ler muito bem, mas acho que este aqui diz: ‘Sequela a Serenidade’“.
“Você está certa, Sunny”, disse Klaus, sorrindo para a irmã. “É o arquivo errado.”
“Shakespeariano a Shaolin”, leu Violet.
“Sheik a Sherbef’, leu Klaus, seguindo adiante pelo corredor.
“Sherbournia a Showmício.”
“Shiatsu a Shinto.”
“Sicília a Siderurgia.”
“Sifonáptero a Sigilografia.”
“Sílfide a Sinuca.”
“Snack a Snifier.”
“Soneto a Sonolência.”
“Esperem!”, gritou Klaus. “Voltem atrás! ‘Snicket’ fica entre ‘snack’ e ‘snijier’“.
“Você tem razão”, disse Violet, dando um passo atrás para encontrar o arquivo certo. “Fiquei tão distraída com todos aqueles nomes estranhos de pastas que esqueci o que estávamos procurando. Aqui está, Snack a Snifter. Tomara que a pasta que procuramos esteja aqui.”
Klaus olhou para a fechadura do arquivo de aço e só encontrou a chave certa na terceira tentativa.
“Deve estar lá no fundo da gaveta”, disse Klaus, “perto de ‘snifter’. Vamos conferir”.
Os Baudelaire conferiram. Snifter é uma espécie de copo, normalmente usado para conhaque, embora seja também um termo para designar um vento forte. Há uma porção de palavras perto de snifter no alfabeto, especialmente em inglês, e as crianças encontraram muitas delas. Havia uma pasta sobre sniffing [cheirar], que parecia conter muitas fotografias de narizes. Havia uma pasta sobre a Lei de Snell, a qual afirma que um raio de luz, passando de um meio uniforme para outro, produz uma razão idêntica entre o seno do ângulo de incidência e o seno do ângulo de refração, coisa que Klaus já sabia. Havia uma pasta sobre o inventor do sneaker [tênis], que Violet admirava muito, e uma sobre snicking [entalhar], que é uma coisa que Sunny já tinha feito muitas vezes com os dentes. Mas não havia um pedacinho de papel que fosse onde estivesse escrito “Snicket”. As crianças suspiraram, desapontadas, e fecharam a gaveta do arquivo de aço para que Klaus pudesse trancá-lo de volta.
“Vamos tentar o corredor J, de ‘Jacques’“, sugeriu Violet.
“Shh”, disse Sunny.
“Não, Sunny”, disse Klaus suavemente. “Não creio que H seja uma boa tentativa. Por que Hal haveria de arquivar isso em H?”
“Shh”, insistiu Sunny, apontando para a porta, e seus irmãos perceberam instantaneamente que a tinham entendido mal. Normalmente, quando Sunny dizia “Shh”, queria dizer alguma coisa na linha de: “Acho que o corredor H poderia ser um bom lugar para procurar essa pasta”, mas desta vez ela queria dizer uma coisa mais na linha de: “Fiquem quietos! Acho que ouvi alguém entrando na antessala da Biblioteca de Registros”. E realmente, quando os Baudelaire prestaram atenção, puderam ouvir as batidas de passos estranhos, claudicantes, como se alguém estivesse andando em cima de pernas de pau muito finas. Os passos foram chegando cada vez mais perto, e depois pararam; e enquanto as três crianças prendiam a respiração, a porta da biblioteca chacoalhou, como se alguém estivesse tentando abri-la.
“Talvez seja Hal”, sussurrou Violet, “tentando destrancar a porta com um clipe de papel.”
“Talvez seja Mattathias”, sussurrou Klaus, “procurando por nós.”
“Zelador”, sussurrou Sunny.
“Bem, quem quer que seja”, disse Violet, “é melhor irmos depressa para o corredor J.”
Os Baudelaire atravessaram a sala na ponta dos pés até o corredor J e desceram por ele rapidamente, lendo as etiquetas dos arquivos de aço.
“Jabaculê a Jaburu.”
“Jaca-do-Pará a Jack-in-the-box.”
“Nersai.”
“É isso!”, sussurrou Klaus. “‘Jacques’ vai estar entre ‘jackline e ‘jacutinga’.”
“Assim esperamos”, disse Violet, quando a porta chacoalhou de novo. Klaus apressou-se em encontrar a chave certa e as crianças abriram a gaveta de cima para procurar Jacques. Como Violet sabia, jackline é uma espécie de corda usada para velejar, e como Klaus sabia, jacutinga é um tipo de minério de ferro aurífero encontrado no Brasil, e mais uma vez havia uma grande quantidade de pastas entre essas duas, porém embora as crianças tivessem encontrado informações sobre Jack-in-the-box, ter-riers Jack Russel e drama jacobino, não havia nenhuma pasta intitulada “Jacques”.
“Fogo!”, sussurrou Klaus, fechando e trancando o arquivo. “Vamos para o corredor F.”
“E depressa”, disse Violet. “Parece que a pessoa na antessala está tentando forçar a fechadura.”
Era verdade. Os Baudelaire pararam por um momento e ouviram um som rascante e abafado atrás da porta, como se alguma coisa comprida e fina estivesse sendo enfiada no buraco da fechadura para tentar destravá-la. Violet sabia, desde a época em que ela e os irmãos moraram com o tio Monty, que uma gazua pode levar um bom tempo para funcionar direito, mesmo que tenha sido feita por uma das maiores inventoras do mundo, mas mesmo assim as crianças foram até o corredor F o mais depressa que as pontas dos seus pés podiam carregá-las.
“Fabiano a Fagócito.”
“Faina a Fanho.”
“Fatalismo a Faulkner.”
“Fealdade a Fermat.”
“Fícus a Filustria.”
Fin de siècle a Frufru. Aqui está!”
Mais uma vez, os Baudelaire se apressaram a encontrar a chave certa, depois a gaveta certa e depois a pasta certa. “Fin de siècle” é uma expressão que se usa para designar uma época na história em que um século está se aproximando do seu fim, e “frufru” é uma palavra fora de moda para um ruído farfalhante, como o que continuava vindo da porta trancada enquanto as crianças procuravam freneticamente por “fogo”. Mas os documentos pulavam direto de “fofoca” para “foice”, sem uma única palavra sobre fogo entre eles.
“O que vamos fazer?”, perguntou Violet quando a porta começou a chacoalhar de novo. “Onde mais poderia estar a pasta?”
“Vamos tentar pensar”, disse Klaus. “O que disse Hal sobre a pasta? Sabemos que tem a ver com Jacques Snicket e com fogo.”
“Prem!”, disse Sunny, o que queria dizer: “Mas nós já procuramos em ‘Snicket’, ‘Jacques’ e ‘fogo’“.
“Tem de haver mais alguma coisa”, disse Violet. “Temos de encontrar essa pasta. Ela contém informações cruciais sobre Jacques Snicket e os C.S.C.”
“E sobre nós”, disse Klaus. “Não se esqueça disso.”
As três crianças se entreolharam.
“Baudelaire!”, sussurrou Sunny.
Sem mais palavra, os órfãos dispararam para o corredor B, passaram chispando por Babbit a Babilônia, Bactéria a Balé e Bambu a Baskerville, e pararam em Bat mitzvah a Bávaro, Creme. Enquanto a porta continuava com o seu frufru atrás deles, Klaus experimentou nove chaves, uma atrás da outra, antes de conseguir, por fim, abrir o arquivo, e lá, entre o rito de passagem judaico para jovens mulheres e o delicioso recheio de certos pães doces, as crianças encontraram uma pasta intitulada “Baudelaire”.
“Está aqui”, disse Klaus, tirando-a da gaveta com as mãos trêmulas.
“O que diz aí? O que diz aí?”, perguntou Violet, excitada.
“Olhe”, disse Klaus. “Tem uma mensagem em cima.”
“Ler!”, disse Sunny num sussurro desesperado, quando a porta começou a ser sacudida violentamente nas dobradiças. Quem quer que estivesse do outro lado da porta estava obviamente ficando frustrado com as suas tentativas de forçar a fechadura.
Klaus ergueu a pasta para poder ver, à luz pálida da sala, o que estava escrito na mensagem.
“‘Todas as treze páginas do dossiê Snicket’“, leu ele, “‘foram removidas da Biblioteca de Registros para investigação oficial’“. Ele ergueu os olhos para as irmãs, e elas puderam ver que, por trás dos óculos, seus olhos estavam se enchendo de lágrimas. “Deve ter sido quando Hal viu a nossa fotografia”, disse ele. “Quando ele removeu o dossiê e o entregou aos investigadores oficiais.” Ele deixou a pasta cair no chão e sentou-se ao lado dela, em desespero. “Não há nada aqui.”
“Sim, há sim!”, disse Violet. “Olhe!”
Os Baudelaire olharam para a pasta, no lugar onde Klaus a deixara cair no chão. Lá, atrás da mensagem, havia uma única folha de papel.
“É a página treze”, disse Violet, olhando para o número datilografado no canto do papel. “Os investigadores devem tê-la deixado aí por engano.”
“É por isso que é preciso manter os clipes nos papéis que devem permanecer juntos”, disse Klaus, “até mesmo quando você os arquiva. Mas o que diz essa página?”
Com um prolongado crááác! e um estrondoso bum!, a porta da Biblioteca de Registros foi arrancada das dobradiças e caiu no chão da enorme sala, como se tivesse desmaiado. Mas as crianças não prestaram atenção. Violet, Klaus e Sunny permaneceram sentados, olhando para a página treze do dossiê, surpresos demais até para ouvir os estranhos passos claudicantes do intruso que entrou na sala e começou a andar pelos corredores de arquivos de aço.
A página treze do dossiê Baudelaire não era uma folha de papel totalmente preenchida. Havia apenas uma fotografia grampeada, abaixo de uma frase em letra de imprensa. Mas às vezes é preciso apenas uma fotografia e uma frase para fazer um autor chorar até dormir, mesmo anos depois que a fotografia foi tirada, ou para fazer três irmãos ficarem sentados olhando para uma página por um longo tempo, como se um livro inteiro tivesse sido impresso em uma única folha de papel.
Havia quatro pessoas em pé na fotografia, juntas, do lado de fora de um edifício que os Baudelaire reconheceram imediatamente. Era a Avenida Sombria 667, onde eles tinham morado com Jerome e Esmé Squalor por um breve período, até o prédio se transformar em um lugar traiçoeiro demais para as crianças ficarem. A primeira pessoa na fotografia era Jacques Snicket, olhando para o fotógrafo e sorrindo. Ao lado de Jacques, aparecia um homem que não estava de frente para a câmara, e as crianças não podiam ver seu rosto, apenas uma das mãos, que segurava um caderno e uma caneta, como se o homem escondido fosse algum tipo de escritor. As crianças nunca mais tinham visto Jacques Snicket depois que ele fora assassinado, é claro, e o escritor parecia ser alguém que elas nunca tinham visto mesmo. Mas ao lado dessas duas pessoas havia outras duas que as crianças Baudelaire pensavam que nunca mais veriam de novo. Embrulhados em casacos compridos, parecendo estar com frio, porém felizes, estavam os pais dos Baudelaire.
Devido às evidências discutidas na página nove, dizia a frase acima da fotografia, os peritos agora suspeitam que possa haver de fato um sobrevivente do incêndio, mas seu paradeiro é desconhecido.

4 comentários:

  1. É bom ter Dumbledore explicando as coisas... Dá saudade da boa...

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  2. Cade o resto dos capítulos??? D: que ansiedade!!!! Kkkk

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  3. NOSSA QUE BOM
    Espero q seja vdd

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  4. "entrando em uma livraria como quem não quer nada e pondo os meus livros no lugar mais alto da estante para que ninguém seja tentado a comprá-los e lê-los." Kkkkkkkkk
    Quem será que é essa pessoa?! Espero que não seja mais um daqueles inúteis que eles vivem encontrando

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