4 de agosto de 2016

Capítulo seis


O sr. Poe franziu a testa, sentou-se à mesa e puxou o lenço do bolso. “Falsificação?”, repetiu. Os órfãos Baudelaire tinham lhe mostrado a janela espatifada na biblioteca. Tinham lhe mostrado o bilhete que fora pregado à porta com uma tachinha. Tinham lhe mostrado o cartão com o erro ortográfico. “Falsificação é uma acusação muito grave”, disse com severidade, e assoou o nariz.
“Não tão grave quanto assassinato”, observou Klaus. “E foi isso que o capitão Sham fez. Ele assassinou tia Josephine e falsificou um bilhete.”
“Mas por que esse tal de capitão Sham”, perguntou o sr. Poe, “iria se envolver a esse ponto só para ficar com a guarda de vocês?”
“Já lhe dissemos”, disse Violet, tentando esconder sua impaciência. “O capitão Sham é na verdade o conde Olaf disfarçado.”
“Essas são acusações muito graves”, disse o sr. Poe com firmeza. “Entendo que vocês três viveram experiências terríveis, mas espero que não deixem sua imaginação passar por cima do seu bom senso. Lembram-se quando moraram com o tio Monty? Estavam convencidos de que o seu assistente, Stephano, era na verdade o conde Olaf disfarçado.”
“Mas Stephano era o conde Olaf disfarçado!”, exclamou Klaus.
“Não é isso que interessa”, disse o sr. Poe. “O que interessa é que vocês não podem tirar conclusões precipitadas. Se realmente acham que o bilhete é uma falsificação, temos que parar de falar em disfarces e proceder a uma investigação. Em algum lugar desta casa, tenho certeza de que encontraremos algo escrito por sua tia Josephine. Então poderemos comparar a letra com a deste bilhete e verificar se são iguais.”
Os órfãos Baudelaire se entreolharam.
“É claro”, disse Klaus. “Se a letra do bilhete que encontramos na biblioteca não corresponder à letra de tia Josephine, obviamente o bilhete foi escrito por outra pessoa. Não pensamos nisso.”
O sr. Poe sorriu. “Estão vendo? Vocês são crianças muito inteligentes, mas até mesmo as pessoas mais inteligentes do mundo muitas vezes precisam da ajuda de um banqueiro. Então, onde podemos encontrar uma amostra da letra de tia Josephine?”
“Na cozinha”, disse Violet prontamente. “Ela deixou sua lista de compras na cozinha quando voltamos do mercado.”
“Chuni!”, gritou Sunny, o que provavelmente queria dizer: “Vamos até a cozinha pegá-la”, e foi exatamente o que fizeram. A cozinha de tia Josephine era muito pequena e tinha um enorme lençol branco cobrindo o forno e o fogão – por medida de segurança, tia Josephine explicara, quando mostrou a casa para eles. Havia um balcão, onde ela preparava a comida, uma geladeira, onde a comida era armazenada, e uma pia, em cujo ralo era jogada a comida que ninguém houvesse comido. Num dos lados do balcão estava um pedacinho de papel em que tia Josephine tinha feito sua lista, e Violet atravessou a cozinha para ir buscá-lo. O sr. Poe acendeu as luzes, e Violet ergueu a lista de compras à altura do bilhete para ver se as letras eram iguais.
Há homens e mulheres que são especialistas em analisar letras. São chamados de grafólogos, e frequentam escolas de grafologia para obter seu diploma de especialistas. Vocês podem pensar que essa situação exigiria a opinião de um grafólogo, mas há ocasiões em que a opinião de um especialista é desnecessária. Por exemplo, se uma amiga de vocês traz o cachorrinho dela e diz que está preocupada porque ele não põe ovos, vocês não precisam ser veterinários para lhe explicar que cachorros não põem ovos e, portanto, não há motivo para preocupação.
Pois é, há perguntas que são tão simples que qualquer um pode responder a elas, e assim o sr. Poe e os órfãos Baudelaire não precisaram pensar nem um instante para saber a resposta à pergunta “A letra na lista de compras é a mesma do bilhete?”. A resposta era sim. Quando tia Josephine escreveu “Vinagre” na lista de compras, ela curvou as pontas do V, fazendo minúsculas espirais – as mesmas espirais que ornamentavam as pontas do em “Violet”, no bilhete. A ligação entre o P e o em “Pepino”, na lista, era igualzinha à que fora feita entre o P e o em “capitão Sham”, no bilhete. E o pingo do I, numa palavra e noutra, era uma oval, e não um círculo. Não havia a menor dúvida que era de tia Josephine a letra que se via nos dois pedaços de papel que o sr. Poe e os Baudelaire examinavam.
“Indubitavelmente”, disse o sr. Poe, “a letra, em ambos os papéis, é a de tia Josephine.”
“Mas...”, começou Violet.
“Não cabe nenhum ‘mas’ neste assunto”, disse o sr. Poe. “Vejam as curvas nas pontas dos V. Vejam como os Ps se ligam aos Is. Vejam os pingos ovais nos Is. Não sou nenhum grafólogo, mas posso afirmar com toda a certeza que foi a mesma pessoa que escreveu nos dois papéis.”
“Tem razão”, disse Klaus, desolado. “Sei que de alguma maneira o capitão Sham está por trás disto, mas decididamente foi a tia Josephine quem escreveu este bilhete.”
“E isso”, disse o sr. Poe, “o torna um documento legal.”
“Quer dizer que teremos que morar com o capitão Sham?”, perguntou Violet, arrasada.
“Isso”, disse o sr. Poe. “A última vontade de alguém, assim como seu testamento, é uma declaração oficial dos desejos do morto. Vocês foram confiados à guarda de tia Josephine, o que deu a ela o direito de apontar outro tutor para vocês, antes de pular da janela. É bastante chocante, concordo, mas inteiramente legal.”
“Nós não vamos morar com ele”, disse Klaus veementemente. “Ele é a pior pessoa que existe no mundo.”
“Ele fará qualquer coisa de terrível, sei disso”, disse Violet. “Só está interessado na fortuna Baudelaire.”
“Gind!”, gritou Sunny, querendo dizer algo como: “Por favor, não nos obrigue a ir morar com esse homem malvado!”.
“Sei que vocês não gostam desse tal de capitão Sham”, disse o sr. Poe, “mas não há muita coisa que eu possa fazer a respeito disso. Infelizmente, a lei determina que vocês morem com ele.”
“Nós vamos fugir”, disse Klaus.
“Vocês não vão fazer nada disso”, disse o sr. Poe com firmeza. “Seus pais me incumbiram de entregá-los a quem cuidaria direito dos três. Vocês querem honrar o compromisso com a vontade de seus pais, não querem?”
“Sim, é claro”, disse Violet, “mas...”
“Por favor, não arranjem encrencas”, disse o sr. Poe. “Pensem no que diriam sua mãe e seu pai se soubessem que vocês ameaçam fugir do seu tutor.” Naturalmente, os pais dos Baudelaire ficariam horrorizados se soubessem que seus filhos seriam confiados à guarda do capitão Sham, mas antes que as crianças pudessem dizer isso ao sr. Poe, ele já havia mudado de assunto. “Acho que o mais simples a fazer é ir ao encontro do capitão Sham e discutir alguns detalhes. Onde está o cartão dele? Vou telefonar para ele já.”
“Na mesa da sala de jantar”, disse Klaus, desconsolado, e o sr. Poe saiu da cozinha para ir telefonar.
Os Baudelaire olharam para a lista de compras de tia Josephine e para o bilhete de suicídio.
“Não dá para acreditar”, disse Violet. “Tenho certeza que estávamos na pista certa com a teoria da falsificação.”
“Eu também”, disse Klaus. “Alguma o capitão Sham aprontou aqui – eu sei que aprontou –, mas foi ainda mais esperto que de costume.”
“O jeito é nós também sermos mais espertos que de costume”, disse Violet, “porque temos que convencer o sr. Poe antes que seja tarde demais.”
“Bem, o sr. Poe disse que precisaríamos discutir alguns detalhes”, disse Klaus. “Talvez isso leve bastante tempo.”
“Consegui falar com o capitão Sham”, disse o sr. Poe, de volta à cozinha. “Ele ficou chocado ao saber da morte de tia Josephine, mas exultou com a perspectiva de cuidar de vocês, crianças. Vamos encontrá-lo daqui a meia hora para almoçar num restaurante da cidade, e depois do almoço discutiremos os detalhes da adoção. A noite vocês já deverão estar na casa dele. Tenho certeza de que para vocês é um alívio resolver tão depressa essa questão.”
Violet e Sunny encararam o sr. Poe, desanimadas demais para falar. Klaus também estava em silêncio, mas olhava fixo noutra direção. Olhava para o bilhete de tia Josephine. Seus olhos mostravam uma atenção concentrada, atrás dos óculos, enquanto ele olhava e olhava para o bilhete, sem piscar. O sr. Poe tirou do bolso seu lenço branco e tossiu nele por um bom tempo, eu diria até que com muito gosto e entusiasmo. Mas nenhum dos Baudelaire abriu a boca para dizer nada.
“Bem”, disse finalmente o sr. Poe, “chamarei um táxi. Não tem sentido descermos a pé este morro enorme. Crianças, penteiem o cabelo e ponham um casaco. Está ventando muito lá fora, e esfriou. Acho que uma tempestade se aproxima.”
O sr. Poe foi telefonar, e os Baudelaire se arrastaram em direção ao seu quarto. Em vez de pentear o cabelo, entretanto, Sunny e Violet se viraram no mesmo instante para Klaus.
“E então?”, perguntou Violet.
“Então o quê?”, disse Klaus.
“Não me venha com isso de então o quê!”, respondeu Violet. “Você descobriu alguma coisa, é esse o então o quê. Sei que descobriu. Você releu o bilhete de tia Josephine pela enésima vez, e ficou com a expressão de quem acabou de descobrir alguma coisa. Vamos, diga logo o que é.”
“Não tenho certeza”, disse Klaus, passando os olhos no bilhete mais uma vez. “Pode ser que eu tenha começado a descobrir alguma coisa. Alguma coisa capaz de nos ajudar. Mas preciso de mais tempo.”
“Mas nós não temos mais tempo!”, exclamou Violet. “Vamos almoçar com o capitão Sham agora!”
“Então nós vamos ter que fabricar mais tempo, de algum jeito”, disse Klaus, determinado.
“Venham, crianças!”, chamou o sr. Poe do corredor. “O táxi chegará a qualquer momento! Peguem seus casacos e vamos indo!”
Violet suspirou, mas foi até o armário e pegou os casacos dos três Baudelaire. Estendeu a Klaus o casaco dele, enfiou Sunny no dela e o abotoou enquanto conversava com o irmão. “Como é que se faz para fabricar mais tempo?”, perguntou.
“Não é você a inventora?”, disse Klaus, abotoando o casaco.
“Mas não dá para inventar coisas como o tempo”, disse Violet. “Dá para inventar coisas como pipoqueiras automáticas, ou como limpadores de vidraças a vapor. Mas não dá para inventar mais tempo.” Violet estava tão convencida de que não poderia inventar mais tempo, que nem sequer prendeu o cabelo com uma fita para não atrapalhar sua visão. Limitou-se a lançar um olhar de frustração e confusão para Klaus, e começou a vestir o casaco. Mas à medida que o abotoava de baixo para cima, entendeu que não havia necessidade de prender o cabelo, porque já tinha a resposta na palma da mão.

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