30 de agosto de 2016

Capítulo quatro


Aquela noite foi um dia escuro. É claro, todas as noites são dias escuros, porque a noite não passa de uma versão mal iluminada do dia, que por sua vez nada mais é do que os diversos rodopios que a Terra dá em torno do Sol até lembrar a todos que é hora de sair da cama e começar o dia com uma xícara de café ou um aviãozinho de papel com uma mensagem secreta que sai voando para além das grades de um posto da Guarda Florestal. Mas neste caso, a expressão “um dia escuro” significa “um momento triste na história das crianças Baudelaire, C.S.C., e todas as pessoas corajosas e lidas do mundo”. Mas Violet e Klaus não tinham ideia do que acontecia logo acima deles, no Vale das Correntezas que Sopram Constantes. Tudo o que sabiam era que a voz que ouviam agora era a mesma que desejaram um dia nunca mais ouvir.
“Vão embora, seus bisbórrias!”, disse a voz. “Esta é uma caverna particular!”
“Com quem você está falando, Carmelita?”, perguntou outra voz. Essa era mais forte, e parecia vir de um homem adulto.
“Posso ver duas sombras na entrada da caverna, tio Bruce”, disse a primeira voz, “e para mim, parecem sombras de bisbórrias.”
Do fundo da caverna ecoaram risadinhas, e Violet e Klaus se entreolharam desolados. A voz pertencia a Carmelita Spats, a detestável menina que os Baudelaire tinham conhecido na Escola Preparatória Prufrock. Naquela época, Carmelita antipatizou de cara com os três irmãos, e não poupou xingamentos nem esforços para transformar suas vidas na escola num grande martírio. Se você já foi estudante sabe que existe uma pessoa dessas em cada escola e que, depois da formatura, você deseja nunca mais reencontrá-la. Os dois Baudelaire já tinham problemas suficientes nas Montanhas de Mão-Morta antes de cruzar com uma pessoa tão desagradável, e ao som da sua voz eles quase preferiram os mosquitos da neve que enxameavam do lado de fora.
“Duas sombras?”, perguntou a segunda voz. “Identifiquem-se, por favor.”
“Somos viajantes das montanhas”, gritou Violet da entrada. “Nos perdemos e demos de cara com um enxame de mosquitos da neve. Por favor, deixem-nos descansar aqui um pouco, enquanto o cheiro da fumaça os espanta. Depois iremos embora.”
“De jeito nenhum!”, respondeu Carmelita, ainda mais antipática que de costume. “É aqui que os Escoteiros da Neve estão acampados, descansando antes de continuar seu caminho rumo à celebração da Falsa Primavera, quando deverão me coroar rainha. Não precisamos de nenhum bisbórria para estragar a diversão.”
“Vamos, Carmelita”, disse o homem adulto. “Espera-se que os Escoteiros da Neve sejam corteses, está lembrada? Faz parte do Juramento Alfabético do Escoteiro da Neve. E seria muito cortês da nossa parte oferecer a esses estranhos o abrigo da nossa caverna.”
“Eu não quero ser cortês”, disse Carmelita. “Sou a Rainha da Falsa Primavera, faço o que bem entender.”
“Você ainda não é a Rainha da Falsa Primavera”, disse uma voz paciente de menino pequeno. “Não até que dancemos em volta do Mastro da Primavera. Entrem, viajantes, e sentem-se junto ao fogo. Ficamos felizes em recebê-los.”
“Assim é que se diz, garoto”, disse a voz do homem adulto. “Vamos, Escoteiros da Neve, recitemos juntos o Juramento Alfabético do Escoteiro da Neve.”
No mesmo instante a caverna reverberou com o som de muitas vozes falando em perfeito uníssono, uma expressão que aqui significa “recitando uma lista de palavras muito estranha, todos ao mesmo tempo”.
“Os Escoteiros da Neve”, recitaram os Escoteiros da Neve, “são amorosos, bonzinhos, corteses, delicados, emblemáticos, felizes, grandiosos, humanos, imbatíveis, jovens, limitados, modestos, nacionalistas, oficiais, perfeitos, queridos, recentes, sabidos, talentosos, unânimes, varonis, xilofones e zipados. De manhã, de tarde e de noite, o dia inteiro!”
Os dois Baudelaire ficaram confusos. Como muitos juramentos, o Juramento Alfabético do Escoteiro da Neve não fazia muito sentido, e Violet e Klaus tentaram imaginar como um escoteiro poderia ser “bonzinho” e “delicado”, e ao mesmo tempo “imbatível” e “varonil”, ou por que precisavam jurar ser “humanos” e “jovens” se já eram humanos e jovens. Eles não entendiam por que o juramento acrescentava que os Escoteiros da Neve eram todas aquelas coisas “o dia inteiro” se já tinham dito que eram “de manhã”, “de tarde” e “de noite”. Ou por que a estranha palavra “xilofone” aparecia no juramento. Mas eles não tiveram tempo para estranhar mais nada, porque assim que acabou o juramento, todos os escoteiros inspiraram fundo e soltaram um prolongado barulho de vento, ou algo parecido, como se quisessem imitar a natureza, o que pareceu ainda mais estranho.
“Essa é a minha parte predileta”, disse o homem adulto quando o som se extinguiu. “Nada como encerrar o Juramento Alfabético do Escoteiro da Neve com um som de neve. Aproximem-se, viajantes, para que possamos vê-los.”
“Vamos segurar o casaco por cima do rosto”, sussurrou Klaus para a irmã. “Carmelita pode nos reconhecer.”
“E os outros escoteiros já devem ter visto nossas fotografias n’O Pundonor Diário”, disse Violet, e enfiou a cabeça embaixo do casaco. O Pundonor Diário era um jornal que publicara uma reportagem culpando os três Baudelaire pelo assassinato de Jacques Snicket. É claro que a matéria era uma asneira total, mas parece que todo mundo acreditara nela e queria ver os Baudelaire na cadeia. Mas quando os dois irmãos se aproximaram dos Escoteiros da Neve, perceberam que não eram os únicos preocupados em esconder o rosto.
O fundo da caverna era um grande salão circular, com teto muito alto e paredes de rocha que refletiam a luz alaranjada das chamas. Sentadas em círculo ao redor do fogo havia quinze ou vinte pessoas, todas com os olhos erguidos para os dois Baudelaire. Através do pano do casaco, as crianças viram que a pessoa mais alta de todas – tio Bruce, provavelmente – usava um feio casaco xadrez e segurava um charuto. Sentados de frente para ele, havia alguém com um suéter de lã cheio de bolsos e os Escoteiros da Neve em seus uniformes brancos e brilhantes, com zíperes na frente e diferentes emblemas de flocos de neve bordados ao longo das mangas compridas e bufantes. Nas costas dos uniformes vinham bordadas em grandes letras cor-de-rosa as palavras do Juramento Alfabético dos Escoteiros da Neve. No topo das cabeças, todos usavam uma faixa branca decorada com pompons imitando flocos de neve, com a palavra “Brr!” escrita em letras de gelo. Mas Violet e Klaus não estavam olhando para as nevascas de plástico, nem para os amorosos, bonzinhos, corteses, delicados, emblemáticos, felizes, grandiosos, humanos, imbatíveis, jovens, limitados, modestos, nacionalistas, oficiais, perfeitos, queridos, recentes, sabidos, talentosos, unânimes, varonis, xilofones e zipados uniformes que usavam. Estavam interessados nas máscaras escuras e redondas que cobriam os rostos dos escoteiros. As máscaras tinham furinhos minúsculos na frente, como as máscaras usadas em esgrima, um esporte em que as pessoas duelam com espadas por diversão e não pela honra, ou a fim de resgatar um escritor que foi colado na parede com fita adesiva. Mas iluminadas pela luz cintilante da caverna as máscaras não pareciam ter furinhos, e pareceu aos Baudelaire que os rostos de Bruce e dos Escoteiros da Neve haviam desaparecido, dando lugar a um buraco escuro e vazio acima de cada pescoço.
“Vocês estão ridículos, bisbórrias”, disse alguém entre os escoteiros, e os Baudelaire identificaram Carmelita Spats no meio dos mascarados. “Não podemos enxergar seus rostos.”
“E que nós somos modestos”, disse Violet, pensando depressa. “Tão modestos que quase nunca mostramos o rosto.”
“Então vocês vão se dar muito bem aqui”, disse Bruce por trás da máscara. “Meu nome é Bruce, mas vocês podem me chamar de tio Bruce, embora eu não seja seu tio de verdade. Bem-vindos aos Escoteiros da Neve, viajantes, onde somos todos modestos. E também amorosos, bonzinhos, corteses, delicados...”
Os outros Escoteiros da Neve fizeram coro no juramento, e os dois Baudelaire tiveram de aguentar mais uma vez aquela lista absurda. O escoteiro de suéter se levantou e caminhou na direção deles.
“Temos algumas máscaras de reserva”, murmurou baixinho, e apontou para um monte de equipamentos empilhados ao lado de um mastro de madeira muito alto. “As máscaras mantêm os mosquitos da neve afastados quando saímos da caverna. Peguem uma para cada um de vocês.”
“Obrigada”, retrucou Violet, enquanto os escoteiros prometiam ser jovens, limitados e modestos. Antes que os escoteiros terminassem de recitar o juramento, ela e o irmão agarraram as máscaras e as colocaram por baixo dos casacos para que, quando os escoteiros jurassem ser varonis, xilofones e zipados, os Baudelaire tivessem uma aparência tão sem cara quanto os outros.
“Isso foi divertido, garotada”, disse Bruce, assim que o som de neve se extinguiu e o juramento terminou. “Que tal vocês se juntarem aos Escoteiros da Neve, viajantes? Somos uma organização dedicada a proporcionar diversão e aprendizado aos jovens. Neste momento estamos em meio a uma Excursão A Pé dos Escoteiros da Neve. Vamos escalar toda a montanha e atingir o Cume das Aflições, onde vamos celebrar a Falsa Primavera.”
“O que é a Falsa Primavera?”, perguntou Violet, sentada entre o irmão e o escoteiro de suéter.
“Qualquer um que não seja um bisbórria sabe o que é a Falsa Primavera”, disse Carmelita com um tom desdenhoso. “É quando faz muito calor antes de ficar muito frio de novo. Nós a celebramos com uma linda dança em torno do Mastro da Primavera.” Quando ela apontou para o mastro de madeira, os Baudelaire notaram que as luvas dos Escoteiros da Neve eram aquelas que mantêm quatro dedos juntos e o polegar separado. Eram brancas e brilhantes como os uniformes, e ainda tinham as iniciais EN estampadas. “Quando a dança acaba, escolhemos a melhor escoteira e a coroamos Rainha da Falsa Primavera. Dessa vez vou ser eu. Na verdade, sou sempre eu.”
“Isso é só porque o tio Bruce é seu tio de verdade”, disse um dos outros Escoteiros da Neve.
“Não, não é por isso”, insistiu Carmelita. “É porque sou a mais amorosa, boazinha, cortês, delicada, emblemática, feliz, grandiosa, humana, imbatível, jovem, limitada, modesta, nacionalista, oficial, perfeita, querida, recente, sabida, talentosa, unânime, varonil, xilofone e zipada.”
“Como alguém pode ser ‘xilofone’?”, Klaus não aguentou e perguntou. “‘Xilofone’ não é sequer um adjetivo.”
“O tio Bruce não conseguiu se lembrar de nenhuma outra palavra que começasse com X”, explicou o Escoteiro da Neve de suéter, denunciando com seu tom de voz que ele não achava aquela uma boa desculpa.
“Que tal ‘xenófilo’?”, sugeriu Klaus. “É uma palavra que significa...”
“Não podemos mudar as palavras do Juramento Alfabético dos Escoteiros da Neve”, interrompeu Bruce, levando o charuto ao rosto como se fosse fumar através da máscara. “O objetivo dos Escoteiros da Neve é repetir sempre a mesma coisa, de novo e de novo. Celebramos a Falsa Primavera de novo e de novo no Cume das Aflições, junto à nascente do Arroio Enamorado. Minha sobrinha Carmelita é a Rainha da Falsa Primavera de novo e de novo. E de novo e de novo paramos aqui nesta caverna para a Hora das Histórias dos Escoteiros da Neve.”
“Pelo que eu li, as cavernas das Montanhas de Mão-Morta são muito utilizadas por animais em hibernação”, disse Klaus. “Tem certeza que é seguro parar aqui?”
O escoteiro que usava suéter em vez de uniforme voltou a cabeça rapidamente para os Baudelaire, como se fosse falar, mas Bruce respondeu primeiro. “Agora é seguro”, disse ele. “Aparentemente, anos atrás essas montanhas eram infestadas de ursos. Os ursos eram tão inteligentes que foram treinados como soldados. Mas eles desapareceram, e ninguém sabe por quê.”
“Ursos, não”, disse muito baixo o escoteiro de suéter, e os dois Baudelaire se inclinaram para ouvi-lo. “Eram leões. E eles não eram soldados. Eram detetives felinos voluntários – conhecidos como Caçadores de Segredos Criminais.” Ele se voltou para os dois irmãos, que perceberam estar sendo encarados através dos furos. “Caçadores de Segredos Criminais”, repetiu, e os Baudelaire quase engasgaram.
“Você disse...”, ia dizer Violet, mas o escoteiro de suéter sacudiu a cabeça, indicando que era perigoso falar do assunto. Violet olhou para o irmão e depois para o escoteiro, e desejou poder ver seus rostos por trás das máscaras. As iniciais de Caçadores de Segredos Criminais, é claro, eram C.S.C., o nome da organização que procuravam. Mas seriam aquelas iniciais outra coincidência, como tantas que já apareceram? Ou seria algum tipo de sinal daquele Escoteiro da Neve de suéter?
“Não sei o que vocês tanto resmungam, garotos”, disse Bruce, “mas parem agora mesmo. Não é hora de conversa. E a Hora das Histórias dos Escoteiros da Neve, momento em que um Escoteiro da Neve conta uma história para os outros Escoteiros da Neve, enquanto todos comemos marshmallows até enjoar e dormir sobre uma pilha de cobertores, como fazemos todos os anos. Por que os novos escoteiros não contam a primeira história?”
“Eu é que devia contar a primeira história”, queixou-se Carmelita. “Afinal, sou a Rainha da Falsa Primavera.”
“Mas tenho certeza de que os viajantes têm uma história maravilhosa para contar”, disse o escoteiro de suéter. “Eu adoraria ouvir um Conto Surpreendente e Cativante.”
Klaus viu que a irmã colocara as mãos para o alto e começara a sorrir. Ele sabia que Violet queria amarrar o cabelo com uma fita para ajudá-la a pensar, mas era impossível fazer isso com aquela máscara. As cabeças dos dois Baudelaire estavam aceleradas, tentando inventar um jeito de se comunicar com o escoteiro misterioso, e ficaram tão absortos em seus pensamentos que mal ouviram os insultos de Carmelita Spats.
“Não fiquem aí sentados, seus bisbórrias”, disse Carmelita. “Se vão contar uma história, comecem de uma vez.”
“Desculpe a demora”, disse Violet, escolhendo as palavras com cuidado. “Passamos o dia Completamente Sem Comer, por isso é difícil pensar em uma boa história.”
“Eu não tinha percebido que este era um momento difícil”, disse o escoteiro de suéter.
“Ah, é verdade”, disse Klaus. “Não comemos nada o dia inteiro, a não ser umas Coxinhas Sabor Cominho.”
“E, além disso, havia os mosquitos da neve”, disse Violet. “Eles pareciam Coleópteros Sedentos Congelados.”
“Quando eles atacaram formando uma flecha”, disse Klaus, “ficaram parecidos com uma Caveira de Serpente Cuspidora.”
“Ou um Comedor Satânico de Capim”, disse o escoteiro de suéter, indicando que tinha entendido a mensagem.
“Essa é a história mais chata que já ouvi”, disse Carmelita Spats. “Tio Bruce, diga a esses dois que eles não passam de uns bisbórrias.”
“Bem, isso não seria muito cortês”, disse Bruce, “mas devo admitir que a história de vocês era bem maçante, garotos. Quando Escoteiros da Neve contam histórias, eles pulam todas as partes aborrecidas e contam só as partes interessantes. Desse modo a história fica mais amorosa, boazinha, cortês, delicada, emblemática, feliz, grandiosa, humana, imbatível, jovem, limitada, modesta, nacionalista, oficial, perfeita, querida, recente, sabida, talentosa, unânime, varonil, xilofone e zipada.”
“Vou mostrar a esses bisbórrias o que é uma história interessante”, disse Carmelita. “Era uma vez eu. Um dia eu acordei, olhei no espelho e vi a menina mais linda, mais inteligente e mais gracinha de todo o mundo. Eu vesti um encantador vestido cor-de-rosa para ficar ainda mais linda e fui saltitando para a escola, onde a professora me disse que eu era a pessoa mais adorável que já tinha visto, e me deu um presente especial, um pirulito que...”
Nesse ponto me permito pegar emprestada uma página de um livro alheio, expressão que aqui significa “fazer uma coisa que alguém já fez antes”. Se, por exemplo, alguém lhe dissesse que o melhor jeito de escrever um bilhete de agradecimento é comendo um biscoito cada vez que quiser escrever um, você poderia tomar emprestada uma página desse livro e deixar uma travessa de biscoitos à mão depois do seu aniversário, ou em qualquer outra data em que se costuma agradecer pelos presentes que ganhamos. Se uma garota dissesse a você que o melhor jeito de sair escondido de casa tarde da noite é se certificando de que todos dormem, você poderia tomar emprestada uma página do livro dela e misturar um sonífero no cafezinho servido depois do jantar e escapulir pela hera plantada do lado de fora do seu quarto. Se você andou lendo esta história deplorável, então da próxima vez em que estiver dentro de um trailer descontrolado tome emprestada uma página de O escorregador de gelo e use uma combinação de substâncias pegajosas para jogar nas rodas e um drag chute, depois recupere do trailer diversas peças de roupa para se proteger do frio e dos mosquitos e se abrigue em uma caverna cheia de Escoteiros da Neve reunidos em volta de uma fogueira.
Eu vou pegar uma página do livro de Bruce, em que ele sugere que um contador de histórias só deve contar as partes interessantes e pular tudo o que possa ser maçante. Nem é preciso dizer que os dois Baudelaire mais velhos desejavam pular essa parte maçante da sua própria história e sair da caverna para retomar a busca de Sunny. No entanto eles não podiam sair da caverna antes de conversar com o misterioso escoteiro de suéter, nem conversar com ele na frente dos outros. Portanto resignaram-se ao pé do fogo enquanto Carmelita Spats tagarelava sem parar sobre como ela era linda, inteligente, gracinha, e como todo mundo que ela conhecia lhe dizia que ela era adorável. Muito embora os Baudelaire tivessem de aguentar essas partes chatas da sua própria história, você não tem essa obrigação, por isso vou pular direto para depois da interminável história de Carmelita, do absurdo juramento que Bruce obrigou todo mundo a fazer um monte de vezes e da refeição de marshmallow que os escoteiros compartilharam com os Baudelaire. Também vou me furtar a contar o quanto foi desgastante para Violet e Klaus virar o rosto e erguer rapidamente a máscara para enfiar os marshmallows na boca antes que alguém os reconhecesse. Depois da longa e exaustiva jornada, as crianças teriam preferido uma ceia mais nutritiva e menos angustiante, mas essas partes da sua história não puderam ser puladas, portanto os Baudelaire aguardaram até que anoitecesse e todos os Escoteiros da Neve, com exceção do misterioso escoteiro de suéter, ficassem enjoados de marshmallow e fossem se deitar ao lado do Mastro da Primavera. Nem mesmo quando Bruce puxou mais um Juramento Alfabético como forma de dizer boa-noite, Violet e Klaus se atreveram a conversar com o escoteiro de suéter. Temiam que alguém pudesse ouvi-los, por isso aguardaram curiosos e ansiosos a fogueira se apagar e a caverna reverberar ao som dos roncos dos Escoteiros da Neve. Mas novamente tomo emprestada uma página do livro de Bruce e pulo para a próxima coisa interessante que aconteceu. E aconteceu muito, muito tarde da noite, na hora em que a maior parte das coisas interessantes acontecem nas histórias e muita gente não vê porque está dormindo ou se escondendo no armário das vassouras em uma fábrica de mostarda, disfarçada de pá de lixo para enganar a vigilante noturna.
Na hora mais escura daquele dia escuro, tão tarde que os Baudelaire já tinham quase desistido de continuar acordados, ainda mais depois de um dia tão exaustivo, os irmãos sentiram um toque em seus ombros. Sem demora eles se viraram e encararam o rosto mascarado do escoteiro de suéter.
“Venham comigo”, disse o garoto em um tom de voz muito baixo. “Conheço um atalho que leva à base de operações.” E claro que essa foi uma parte bastante interessante da história.

Um comentário:

  1. Quem sera essa garoto de sueter e porq ele ajudou eles e como ele sabe?????

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