11 de agosto de 2016

Capítulo quatro


Se vocês entraram num museu recentemente – para ver uma exposição ou para se esconder de alguém – devem ter notado um tipo de pintura conhecido como tríptico. Um tríptico tem três painéis, e em cada painel há uma pintura diferente. Por exemplo, um amigo, o professor Reed, fez um tríptico para mim: num dos painéis representou o fogo, noutro uma máquina de escrever e no terceiro o rosto de uma bela e inteligente mulher. O tríptico intitula-se O que aconteceu a Beatrice, e não consigo olhar para ele sem chorar.
Sou um escritor e não um pintor, mas se eu fosse tentar pintar um tríptico intitulado As infelizes experiências dos órfãos Baudelaire na Prep Prufrock, pintaria o sr. Remora num dos painéis, uma caixa de grampos no outro e a sra. Bass no terceiro, e o resultado me deixaria tão triste que só de ficar olhando do tríptico de Beatrice para o tríptico dos Baudelaire, não pararia de chorar o dia inteiro.
O sr. Remora era o professor de Violet, e ele era tão terrível que ela quase preferia ficar no Barraco dos Órfãos durante toda a manhã e fazer suas refeições com as mãos amarradas às costas a apressar-se para chegar a tempo na Sala 1 e assistir à aula desse homem abominável. O sr. Remora tinha um bigode escuro e espesso, como se alguém houvesse cortado o polegar de um gorila e colado acima dos lábios do professor; e, assim como um gorila, o sr. Remora estava constantemente comendo bananas. Bananas são frutas deliciosas e contêm um saudável teor de potássio, mas Violet nunca mais quis ver bananas em sua vida depois que viu o sr. Remora engolir banana atrás de banana deixando cascas aos montes pelo chão e besuntando de banana o queixo e o bigode. No intervalo entre as mordidas de banana, o sr. Remora ditava histórias, as crianças as escreviam no caderno, e volta e meia havia um teste.
“Um belo dia fui ao supermercado e comprei leite”, dizia o sr. Remora mastigando uma banana. “Quando cheguei em casa, despejei o leite num copo e tomei tudinho. Depois fiquei vendo televisão. Fim.” Ou: “Uma bela tarde um homem chamado Edward entrou num caminhão verde e saiu dirigindo até chegar a uma fazenda. A fazenda tinha gansos e vacas. Fim”. O sr. Remora ficava puxando história após história, comendo banana após banana, e cada vez se tornava mais difícil prestar atenção. Para melhorar as coisas, Duncan sentava-se ao lado de Violet e os dois ficavam trocando bilhetinhos nos dias especialmente tediosos. Mas, para piorar as coisas, Carmelita Spats sentava-se logo atrás de Violet e a cada minuto cutucava-a com um pedaço de pau que havia encontrado na relva. “Ei, órfã”, sussurrava ela, cutucando Violet com o pedaço de pau. Violet se distraía e se esquecia de escrever no caderno algum detalhe da história contada pelo sr. Remora.
Do outro lado do corredor, na Sala 2, estava a professora de Klaus, a sra. Bass. Seus cabelos pretos eram tão longos que faziam com que também ela mostrasse vaga semelhança com um gorila. A sra. Bass era fraca como professora, e não uso “fraca” aqui no sentido de “sem forças”, e sim no sentido de “uma professora obcecada pelo sistema métrico decimal”. O sistema métrico decimal, como vocês talvez saibam, é o sistema que a maior parte do mundo usa para medir as coisas. Assim como é perfeitamente razoável comer uma banana ou duas, é perfeitamente razoável interessar-se por medir coisas. Klaus lembrava-se bem de uma vez, quando tinha cerca de oito anos de idade, em que mediu a largura de todas as portas da mansão dos Baudelaire numa tarde chuvosa em que morria de chateação dentro de casa. No entanto, com chuva ou com sol, tudo o que a sra. Bass queria fazer era medir coisas e anotar as medidas no quadro-negro. Todas as manhãs ela entrava na Sala 2 carregando uma mochila repleta de objetos do dia-a-dia – uma frigideira, uma moldura de quadro, o esqueleto de um gato – e punha um objeto em cada carteira. “Meçam!”, gritava, e todos apanhavam suas réguas e mediam o que quer que fosse que a professora houvesse posto em suas carteiras. Eles diziam as medidas em voz alta para a sra. Bass, que em seguida escrevia os números no quadro e mandava os alunos trocarem os objetos. A rotina se prolongava pela manhã inteira, chegando a deixar Klaus com os olhos doídos e embaciados de puro tédio. Do outro lado da sala, os olhos de Isadora Quagmire também padeciam do mesmo mal, e vez por outra os dois se entreolhavam e punham a língua para fora como se dissessem: A sra. Bass é de uma chatice insuportável, não é?
Com Sunny era diferente. Em vez de frequentar aulas, ela tinha que trabalhar no prédio administrativo, e devo dizer que a situação dela talvez fosse a pior de todo o tríptico. Como secretária do vice-diretor Nero, Sunny era chamada para desempenhar numerosas tarefas que simplesmente eram impossíveis de ser cumpridas por um bebê. Por exemplo, ela era encarregada de atender o telefone, mas as pessoas que ligavam para o vice-diretor Nero nem sempre sabiam que “Seltepia!” era a sua maneira de dizer “Bom dia, aqui é do gabinete do vice-diretor Nero, em que posso ajudá-lo?”. No segundo dia, Nero estava furioso com Sunny por ela ter criado tantas trapalhadas com o pessoal que ligava para ele. Além disso, Sunny era incumbida de datilografar, grampear e pôr no correio todas as cartas do vice-diretor Nero, o que exigia experiência e habilidade em máquina de escrever, grampeador e selos, objetos concebidos, como vocês sabem, para adultos. Ao contrário de muitos bebês, Sunny até que estava acostumada a trabalhos pesados – afinal, durante algum tempo ela e os irmãos haviam prestado serviços na Serraria Baixo-Astral –, mas o tipo de equipamento com que lidava agora era simplesmente inadequado para os seus dedos tão miúdos. Sunny mal era capaz de mover as teclas da máquina de escrever e, mesmo quando conseguia, não tinha noção de como escrever a maioria das palavras que Nero ditava. Nunca usara antes um grampeador, de modo que muitas vezes grampeava os próprios dedos por engano, o que doía pra caramba. E vez por outra um dos selos colava na sua língua e não havia jeito de se soltar.
Na maioria das escolas, por mais rigorosas que sejam, as crianças têm uma chance de se refazer nos fins de semana, quando aproveitam para descansar e brincar em vez de assistir a aulas mortificantes; e os órfãos Baudelaire não viam a hora de fazer uma pausa para interromper a rotina de olhar bananas, réguas e artigos de escritório. Foi uma grande decepção quando numa sexta-feira ficaram sabendo pelos Quagmire que na Prep Prufrock não havia folga no fim de semana. Sábados e domingos eram dias de aulas normais, supostamente por fidelidade ao lema da escola (“Lembra-te de que morrerás”). Essa regra na verdade não fazia o menor sentido – afinal de contas, lembrar-se de que vai morrer não depende de ter aulas ou não –, contudo assim eram as coisas na Prep Prufrock, e os Baudelaire nunca sabiam direito em que dia da semana estavam, tão repetitiva era a rotina diária. Por isso, lamento, mas não tenho como contar para vocês exatamente o dia em que Sunny reparou que o estoque de grampos estava terminando; só posso contar que Nero lhe disse que, por ter desperdiçado tanto tempo com o aprendizado das funções de secretária, ele havia resolvido que não renovaria o estoque de grampos. Sunny teria que fazer, ela própria, os grampos, usando uns arames que Nero guardava numa gaveta.
“Isso é ridículo!”, exclamou Violet quando Sunny lhe revelou a última determinação de Nero. Foi depois do jantar, e os órfãos Baudelaire estavam no Barraco dos Órfãos com os trigêmeos Quagmire atirando sal ao teto. Violet havia encontrado pedaços de metal atrás do refeitório e fabricara cinco pares de sapatos barulhentos: três para os Baudelaire e dois para os Quagmire. Assim os caranguejos não os incomodariam quando fizessem visitas ao Barraco. O problema do fungo bege-claro, entretanto, ainda estava por ser resolvido. Com a ajuda de Duncan, Klaus descobrira um livro sobre fungos na biblioteca e nele havia lido que o sal fazia secar e definhar esse tipo específico de fungo que existia no teto. Certo dia, os Quagmire deixaram suas bandejas cair no chão, desviando a atenção de alguns dos empregados mascarados do refeitório; enquanto Nero gritava com eles por causa da bagunça que haviam feito, os Baudelaire aproveitaram para passar a mão em três saleiros e enfiá-los no bolso. Agora, na breve pausa que se seguia ao jantar, as cinco crianças achavam-se sentadas em pilhas de feno, tentando jogar sal no fungo e conversando sobre o dia na escola.
“Claro que é ridículo”, concordou Klaus. “Como se não bastasse a cretinice de obrigar Sunny a ser uma secretária, agora era o que faltava ela ter de fabricar grampos!... Nunca ouvi falar de nada tão injusto.”
“Que eu saiba, os grampos são feitos em fábricas”, disse Duncan, folheando seu caderno verde para conferir se havia alguma anotação a respeito do assunto. “Não creio que alguém tenha feito grampos à mão depois do século XV.”
“Se desse para você pegar um pouco de arame, Sunny”, disse Isadora, “todos poderíamos ajudar a fazer grampos depois do jantar. Se nós cinco pudéssemos trabalhar juntos, o problema seria muito menor. E, por falar em problema, estou trabalhando num poema sobre o conde Olaf, mas não sei se conheço palavras terríveis o bastante para descrevê-lo.”
“E imagino que seja difícil encontrar palavras que rimem com 'Olaf'“, disse Violet.
“Realmente é bastante difícil”, admitiu Isadora. “Só me vem à cabeça palavras que rimam com 'conde': 'bonde', 'esconde-esconde', 'monge'. Além disso, nem são rimas perfeitas”.
“Quem sabe um dia você consiga publicar seu poema sobre o conde Olaf”, disse Klaus, “e todo mundo ficará sabendo a peste que ele é.”
“E eu escreverei um artigo de jornal só sobre ele”, ofereceu-se Duncan.
“Acho que eu poderia construir sozinha uma máquina impressora”, disse Violet. “Talvez, quando alcançar a maioridade, possa usar uma parte da fortuna dos nossos pais para comprar o material necessário.”
“Poderíamos imprimir livros também?”, perguntou Klaus.
Violet sorriu. Violet sabia que seu irmão estava sonhando em imprimir uma biblioteca inteira só para eles. “Livros também”, disse.
“Fortuna? Como assim?”, perguntou Duncan. “Seus pais também deixaram uma fortuna? Os nossos possuíam as famosas safiras Quagmire, que não foram danificadas pelo incêndio. Quando formos maiores de idade, essas pedras preciosas nos pertencerão. Poderíamos iniciar juntos nossa gráfica.”
“Que ideia maravilhosa!”, exclamou Violet. “Poderíamos dar o nome de Quagmire & Baudelaire Associados.”
“Poderíamos dar o nome de Quagmire & Baudelaire Associados!” As crianças ficaram tão surpreendidas ao ouvir a voz sarcástica do vice-diretor Nero que deixaram cair os saleiros no chão. No mesmo instante, os minúsculos caranguejos no Barraco dos Órfãos se apossaram dos saleiros e sumiram com eles tão rápido que nem deu tempo de Nero perceber nada. “Lamento interrompê-los no meio de uma importante reunião de negócios”, disse, embora os garotos pudessem ver que ele não lamentava coisa nenhuma. “O novo professor de ginástica chegou e está interessado em conhecer nossa população de órfãos antes de ter início o meu concerto. Ao que parece, os órfãos costumam ter excelente estrutura óssea, ou algo do gênero. Não foi isso o que o senhor disse, instrutor Genghis?”
“Isso mesmo”, respondeu um homem alto e magricela que deu um passo à frente para mostrar-se às crianças. Vestia calça e blusa leves, folgadas, próprias para exercícios esportivos, como se espera de qualquer professor de ginástica. Seus pés estavam calçados com tênis de corrida que pareciam ter custado caro, tênis de cano alto; em volta do pescoço, tinha um reluzente apito prateado. No alto da cabeça, havia um pano enrolado preso por uma brilhante pedra vermelha. É um tipo de adorno conhecido como “turbante”, que algumas pessoas usam por motivos religiosos, mas Violet, Klaus e Sunny, só de olharem uma vez para aquele homem, perceberam que estava usando o turbante por motivo inteiramente diverso.
“Isso mesmo”, tornou a dizer o homem. “Todos os órfãos têm pernas perfeitas para a corrida, e eu não via a hora de observar os espécimes que estavam à minha espera aqui nesse barraco.”
“Crianças”, disse Nero, “levantem-se aí do feno e cumprimentem o instrutor Genghis.”
“Olá, instrutor Genghis”, disse Duncan.
“Olá, instrutor Genghis”, disse Isadora.
Os trigêmeos Quagmire apertaram a mão ossuda do instrutor Genghis e em seguida viraram-se e lançaram aos Baudelaire um olhar desconcertado. Estavam surpresos em ver que os três irmãos continuavam sentados no feno com os olhos pregados no instrutor Genghis em vez de obedecer às ordens de Nero. Mas, se eu estivesse lá no Barraco dos Órfãos, com certeza não ficaria surpreendido, e sou capaz de apostar O que aconteceu a Beatrice, meu tríptico que tanto aprecio, que, se vocês estivessem ali, também não se surpreenderiam. Porque vocês já devem ter adivinhado, como os Baudelaire adivinharam, por que o homem que se apresentara como instrutor Genghis estava usando um turbante. Um turbante cobre o cabelo das pessoas, o que é capaz de alterar bastante a aparência, e se o turbante estiver cobrindo toda a testa, como era o caso do professor, as dobras de pano podem cobrir até mesmo as sobrancelhas – ou sobrancelha, no caso. Porém o turbante não é capaz de cobrir os olhos muito, muito brilhantes de uma pessoa, ou o olhar ganancioso e sinistro que pode surgir quando uma pessoa vê três crianças relativamente indefesas.
Claro que era um absurdo aquilo que o homem que se apresentara como instrutor Genghis havia dito sobre todos os órfãos terem pernas perfeitas para correr, mas, quando os Baudelaire ergueram os olhos para o novo professor de ginástica, desejaram que não fosse absurdo. Quando o homem que se apresentara como instrutor Genghis lhes retribuiu o olhar com os olhos muito, muito brilhantes, os órfãos Baudelaire desejaram mais do que qualquer outra coisa que suas pernas pudessem levá-los para longe, para bem longe daquele homem que na verdade era o conde Olaf.

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