30 de agosto de 2016

Capítulo onze


Se você já viu o retrato de alguém que acabou de ter uma ideia, deve ter notado a lâmpada acima da cabeça do retratado. Não é usual uma lâmpada pairando no ar, mas essa imagem se tornou símbolo do pensamento, assim como a imagem de um olho se tornou símbolo do crime e do comportamento desonesto. Quando Violet e Quigley desceram de volta pelo escorregador de gelo, seus sapatos de alpinismo assistidos por garfos se cravando no gelo a cada passo, olharam para baixo e viram Klaus, iluminado pelos últimos raios do sol poente. Ele segurava um farolete acima da cabeça para ajudar os dois alpinistas a encontrar o caminho, mas parecia que ele tinha acabado de ter uma ideia.
“Ele deve ter encontrado um farolete no meio dos destroços”, disse Quigley. “Parece o que Jacques me deu de presente.”
“Espero que ele tenha encontrado informações suficientes para decodificar o Colóquio Secreto Criostático”, disse Violet, e bateu o candelabro no gelo abaixo dos pés. “Tenha cuidado aqui, Quigley. O gelo parece fino. Vamos contornar.”
“Quando subimos o gelo parecia estar mais sólido que agora”, disse Quigley.
“Não é de admirar”, disse Violet. “Na subida furamos o gelo com os nossos garfos. Quando chegar a Falsa Primavera, toda essa queda d’água estará meio descongelada.”
“Quando chegar a Falsa Primavera”, disse Quigley, “espero que estejamos a caminho do último santuário.”
“Eu também”, disse Violet, e os dois alpinistas não disseram mais nada até chegar ao pé da queda d’água e atravessar a lagoa congelada pelo caminho que Klaus indicava com o farolete.
“Estou tão contente por vocês terem voltado inteiros”, disse Klaus, iluminando os restos da sala de jantar. “Está frio, mas se nos sentarmos atrás da entrada da biblioteca estaremos protegidos do vento.”
Mas Violet estava tão ansiosa por contar quem eles tinham encontrado no cume da montanha que não podia esperar mais. “É Sunny”, disse ela. “É Sunny quem está lá em cima. Era ela que estava nos mandando sinais.”
“Sunny?”, disse Klaus, com os olhos tão arregalados quanto o sorriso. “Como ela foi parar lá? Ela está bem? Por que você não a trouxe?”
“Ela está bem”, disse Violet. “Está com o conde Olaf, mas está bem.”
“Ele a machucou?”, perguntou Klaus.
Violet sacudiu a cabeça. “Não”, disse. “Ele a obriga a cozinhar e a fazer toda a limpeza.”
“Mas ela é um bebê!”, disse Klaus.
“Não é mais”, disse Violet. “Nós nem percebemos, Klaus, mas ela cresceu um bocado. Ela é jovem demais para se encarregar de todas as tarefas domésticas, é claro, mas no meio de todo o sofrimento que passamos, ela deixou de ser um bebê.”
“Ela já tem idade suficiente para espionar”, disse Quigley. “Já descobriu quem ateou fogo na base de operações.”
“Foram duas pessoas horríveis, um homem e uma mulher de auras ameaçadoras”, disse Violet. “Até o Olaf tem medo deles.”
“O que eles estão fazendo lá em cima?”, perguntou Klaus.
“Uma espécie de reunião vilanesca”, disse Quigley. “Eles mencionaram um plano de recrutamento e uma grande rede.”
“Isso não me soa muito bem”, disse Klaus.
“Ainda há mais”, disse Violet. “O conde Olaf está com o dossiê Snicket e descobriu alguma coisa sobre um local secreto – o último santuário onde C.S.C., pode se reunir. E por isso que Sunny ficou lá. Se ouvir alguém comentar onde fica esse lugar, saberemos onde encontrar os outros voluntários.”
“Espero que ela consiga descobrir”, disse Klaus. “Sem ela, tudo o que eu descobri é inútil.”
“O que você descobriu?”, perguntou Quigley.
“Vou mostrar”, disse Klaus, e seguiu na frente até as ruínas da biblioteca, onde Violet reparou que ele estivera trabalhando. Seu caderno azul-escuro estava aberto, e várias páginas estavam cheias de anotações. Ali perto havia uma porção de pedaços de papel meio queimados, empilhados debaixo de uma xícara chamuscada que Klaus usou como peso de papel, e todo o conteúdo da geladeira estava disposto em semicírculo: o pote de mostarda, o vidro de azeitonas, três vidros de geleia e as cebolinhas semicongeladas. O pote da conserva de um pepino só e o suco de limão tinham sido postos de lado. “Essa é uma das pesquisas mais difíceis que já fiz”, disse Klaus, sentando-se junto ao seu caderno. “A biblioteca do juiz Strauss era confusa, e a biblioteca gramatical da tia Josephine era maçante, mas a biblioteca arrasada de C.S.C., é um desafio maior. Mesmo que soubesse que livro estou procurando, ele pode ter se desfeito em cinzas.”
“Você encontrou alguma coisa sobre o Colóquio Secreto Criostático?”, perguntou Quigley, sentando-se ao lado dele.
“No começo, não”, disse Klaus. “O pedaço de papel que nos levou até a geladeira estava no meio das cinzas, o que dificultou a busca. Mas depois encontrei uma página que devia ser do mesmo livro.” Ele pegou o seu caderno e ergueu o farolete para poder enxergar as páginas. “A página estava tão gasta”, disse, “que a copiei para o meu livro de lugar-comum. Ela explica o funcionamento do código.”
“Leia para nós”, disse Violet, e Klaus aquiesceu, uma palavra que aqui significa “aceitou a sugestão de Violet e leu em voz alta um parágrafo muito complicado”.
“O ‘Colóquio Secreto Criostático’“, leu ele, “‘é um sistema de comunicação de emergência que se vale dos produtos mais esotéricos que se pode encontrar em uma geladeira. Os voluntários saberão que o código está sendo usado pela presença de cebol... “ Ele ergueu os olhos do caderno. “A sentença acaba aqui”, disse, “mas suponho que ‘cebol’ seja a primeira parte de ‘cebolinhas semicongeladas’. Se houver alguma cebolinha semicongelada na geladeira, deverá haver também uma mensagem.”
“Entendi”, disse Violet, “mas o que quer dizer esotéricos?”
“Neste caso”, disse Klaus, “acho que quer dizer coisas que não são muito usadas, as coisas que ficam muito tempo na geladeira.”
“Como mostarda, geleias e coisas assim”, disse Violet. “Entendi.”
‘“O recipiente da mensagem encontrará as iniciais dele ou dela, conforme especificado por um dos nossos voluntários poetas, como se segue’“, continuou Klaus. “E então vem um poeminha:

Dos potes de geleia, o mais escuro
Contém o destinatário seguro.

“Isso é um dístico”, disse Quigley. “Como os que a minha irmã escreve.”
“Não creio que a sua irmã tenha escrito esse poema”, disse Violet. “O código deve ter sido inventado antes de ela nascer.”
“Foi o que pensei”, disse Klaus, “mas quem será que ensinou Isadora a fazer dísticos? Pode ter sido um voluntário.”
“Ela teve um professor de poesia quando éramos pequenos”, disse Quigley, “mas nunca cheguei a conhecê-lo. Sempre tive aulas de cartografia.”
“E a sua habilidade para fazer mapas”, disse Violet, “nos levou à base de operações.”
“E a sua habilidade de inventora”, disse Klaus, “possibilitou escalar o Cume das Aflições.”
“E a sua habilidade em pesquisas está nos ajudando agora”, disse Violet. “E como se estivéssemos em treinamento sem saber.”
“Nunca pensei que aprender cartografia fosse um treinamento”, disse Quigley. “Era apenas algo de que eu gostava.”
“Bem, eu nunca tive treinamento em poesia”, disse Klaus, “mas o dístico parece dizer que dentro do pote de geleia mais escuro está o nome da pessoa que deve receber a mensagem.”
Violet olhou para os três potes de geleia. “Tem de damasco, morango e amora-preta”, disse. “Amora-preta é a mais escura.”
Klaus desatarraxou a tampa do pote de geleia. “Olhem”, disse ele, e apontou o farolete para que Violet e Quigley pudessem ver. “Alguém escreveu duas letras na superfície da geleia com uma faca: J e S.”
“J.S.”, disse Quigley. “Jacques Snicket.”
“A mensagem não pode ser para ele”, disse Violet. “Jacques Snicket está morto.”
“Talvez quem escreveu a mensagem não soubesse”, disse Klaus, e continuou a ler o livro de lugar-comum. “‘Se necessário, o colóquio usará um calendário de dias da semana, baseado em frutos, a fim de anunciar um encontro. Domingo é representado por um solitário...’ Aqui a frase foi cortada, mas acho que significa que essas azeitonas são um código. Domingo é uma azeitona, segunda-feira, duas azeitonas, e assim por diante.”
“Quantas azeitonas há naquele vidro?”, perguntou Quigley.
“Cinco”, disse Klaus, franzindo o nariz. “Desde que os Squalor nos prepararam martínis aquosos, o sabor das azeitonas me enjoa.”
“Cinco azeitonas quer dizer quinta-feira”, disse Violet.
“Hoje é sexta”, disse Quigley. “O encontro dos voluntários vai ser daqui a menos de uma semana.”
Os dois Baudelaire assentiram com a cabeça, e Klaus abriu seu caderno de novo. “‘Os condimentos preparados à base de especiarias’“, leu, “‘devem trazer uma etiqueta codificada, remetendo os voluntários a poemas em código.’“
“Não entendi”, disse Quigley.
Klaus pegou o pote de mostarda. “É aqui que a coisa fica complicada. A mostarda é um condimento feito à base de especiarias e, conforme o código, deveria nos remeter a um poema.”
“Como a mostarda pode nos remeter a um poema?”, perguntou Violet.
Klaus sorriu. “No começo eu também fiquei confuso”, disse ele, “mas depois resolvi dar uma olhada na lista de ingredientes. Escutem só: ‘Vinagre, sementes de mostarda, sal, açafrão-da-índia, a quadra final da décima primeira estância de O jardim de Proserpina, de Algernon Charles Swinburne, e cálcio dissódico, um conservante supostamente natural’. Quatro linhas de um poema formam uma quadra, e uma estância é o mesmo que uma estrofe, ou seja, uma sequência de versos. Essa é a referência a um poema.”
“A lista de ingredientes de uma geleia é um lugar perfeito para esconder um código”, disse Violet. “Mas você encontrou o poema?”
Klaus franziu a testa e ergueu a xícara de chá.
“Encontrei uma pilha de papéis queimados quase se desintegrando”, disse ele, “mas aqui está o que restou dela. A quadra final da décima primeira estância de O jardim de Proserpina, de Algernon Charles Swinburne.”
“Conveniente”, disse Quigley.
“Um pouco conveniente demaisdisse Klaus. “A biblioteca inteira foi destruída, e o único poema que sobreviveu é aquele que precisamos. Seria muita coincidência.” Ele ergueu o pedaço de papel para que Violet e Quigley pudessem vê-lo. “Parece que alguém sabia que iríamos procurar por isso.”
“O que diz a quadra?”, perguntou Violet.
“Nada muito alegre”, disse Klaus, e iluminou o poema:

Que não há vida que sempre viva;
Que não há defunto que reviva;
Que mesmo exausto o rio à deriva
Tortuoso e seguro chega ao mar.

As crianças estremeceram e, sentadas no chão, chegaram ainda mais perto uma da outra. Havia escurecido, e só o que se enxergava era o farolete de Klaus. Se você já esteve no escuro munido de um farolete, talvez tenha sentido que alguma coisa na escuridão em volta do facho de luz estava à espreita. Mas se você resolver ler um poema sobre defuntos, com certeza não vai se sentir melhor.
“Gostaria que Isadora estivesse aqui”, disse Quigley. “Ela poderia nos dizer o que significa esse poema.”
“Que mesmo exausto o rio à deriva, tortuoso e seguro chega ao mar” repetiu Violet. “Você acha que isso se refere ao último santuário?”
“Não sei”, disse Klaus. “Não consegui encontrar mais nada que nos ajude a compreender o poema.”
“E o suco de limão?”, perguntou Violet. “E o pepino em conserva?”
Klaus sacudiu a cabeça. “Talvez houvesse algo mais na mensagem”, disse ele, “mas o fogo deu cabo de todo o resto. Não achei mais nada na biblioteca que parecesse útil.”
Violet pegou o pedaço de papel das mãos do irmão e leu mais uma vez a quadra. “Há alguma coisa meio apagada aqui”, disse ela. “Alguma coisa que foi escrita a lápis.”
Quigley enfiou a mão na sua mochila. “Esqueci que temos dois faroletes”, disse, e acendeu uma segunda luz sobre o papel. De fato havia uma palavra escrita a lápis, quase apagada. Violet, Klaus e Quigley se inclinaram o máximo que puderam para tentar ler. Os ventos noturnos fizeram o papel farfalhar, e as crianças tremeram com os faroletes nas mãos. Mas por fim conseguiram direcionar os fachos de luz sobre a quadra e ler o que estava escrito.
“Açucareiro”, disseram em uníssono, e se entreolharam.
“O que será que quer dizer?”, perguntou Klaus.
Violet suspirou. “Quando estávamos embaixo do carro de Olaf”, disse ela a Quigley, “um dos vilões disse alguma coisa sobre procurar um açucareiro. Lembra?”
Quigley assentiu e pegou o seu caderno roxo. “Jacques Snicket já mencionou um açucareiro”, disse ele, “quando estávamos na biblioteca do dr. Montgomery. Disse que era importante encontrá-lo. Anotei isso no topo de uma página do meu caderno de lugar-comum e deixei o resto da página em branco, para o caso de conseguir mais alguma informação.” Ele ergueu a página e os dois Baudelaire viram que não havia mais nada escrito. “Nunca mais soube de nada a respeito”, disse ele.
Klaus suspirou. “Parece que quanto mais sabemos, mais mistérios encontramos. Chegamos à base de operações de C.S.C., e decodificamos uma mensagem, mas tudo o que sabemos é que existe um último santuário e que os voluntários vão se reunir quinta-feira nesse lugar.”
“Pode ser o suficiente”, disse Violet, “caso Sunny descubra onde fica o santuário.”
“Mas como vamos tirar Sunny das garras do conde Olaf?”, perguntou Klaus.
“Com os nossos sapatos de alpinismo assistidos por garfos”, disse Quigley. “Podemos voltar lá em cima e resgatar Sunny.”
Violet sacudiu a cabeça. “Se Sunny desaparecer”, disse ela, “vão procurar por nós. Do Cume das Aflições é possível enxergar tudo, por quilômetros e quilômetros. E nós somos minoria absoluta.”
“É verdade”, admitiu Quigley. “Há dez vilões lá em cima contra apenas quatro de nós. O que faremos para salvá-la?”
“Olaf está com alguém que amamos”, disse Klaus, pensativo. “Se tivéssemos alguma coisa que ele ama, poderíamos trocá-la por Sunny. O que Olaf ama?”
“Dinheiro”, disse Violet.
“Incêndios”, disse Quigley.
“Nós não temos dinheiro”, disse Klaus, “e Olaf não trocaria Sunny por um incêndio. Deve haver alguma coisa que o deixaria muito infeliz se tirássemos dele.”
Violet e Quigley se entreolharam e sorriram.
“O conde Olaf ama Esmé Squalor”, disse Violet. “Se Esmé fosse nossa prisioneira poderíamos negociar uma troca.”
“É verdade”, disse Klaus, “mas Esmé não está em nosso poder.”
“Mas podemos fazê-la prisioneira”, disse Quigley, e todos se calaram. Fazer uma pessoa prisioneira é uma coisa vilanesca, e quando você pensa em fazer uma coisa vilanesca – mesmo que tenha uma boa razão para isso –, você se sente como um vilão. Nos últimos tempos os Baudelaire usaram disfarces e ajudaram a incendiar um parque de diversões, e com isso estavam começando a se sentir como vilões. Mas Violet e Klaus nunca tinham feito nada tão vilanesco como fazer alguém prisioneiro, e olhando para Quigley puderam perceber que ele se sentia igualmente desconfortável por estar ali sentado no escuro maquinando um plano vilanesco.
“Como agiríamos?”, perguntou Klaus.
“Poderíamos atraí-la”, disse Violet, “e fazê-la cair em uma armadilha.”
Quigley escreveu alguma coisa no seu livro de lugar-comum. “Poderíamos usar os Cilindros Sempre-verdes Combustíveis”, disse. “Esmé pensa que são cigarros e acha que cigarros são in. Se acendermos alguns, pode ser que ela desça até aqui.”
“Mas, e depois?”, perguntou Klaus.
Violet sentiu frio e enfiou a mão no bolso. Encontrou o que estava procurando. De dentro do bolso, ela tirou uma fita de cabelo que estava ao lado da faca de pão, esquecida ali dentro. A mais velha dos Baudelaire prendeu os cabelos e pensou que era estranho usar seus talentos de inventora para capturar alguém numa armadilha. “A armadilha mais fácil de construir”, disse ela, “é um buraco. Podemos cavar um buraco fundo e cobri-lo com um pouco dessa madeira queimada, para que Esmé não possa vê-lo. A madeira está enfraquecida pelo fogo, quando ela pisar...”
Violet não precisou terminar a sentença para que Klaus e Quigley concordassem. “Há séculos os caçadores usam armadilhas assim”, disse Klaus, “para capturar animais.”
“Isso não me consola. Continuo me sentindo mal por fazer isso”, disse Violet.
“Como poderíamos cavar um buraco desses?”, perguntou Quigley.
“Bem”, disse Violet, “nós não temos nenhuma ferramenta, mas podemos usar as mãos. À medida que o buraco for ficando mais fundo, removeremos a terra com a ajuda de algum instrumento.”
“Eu ainda tenho aquele jarro”, disse Klaus.
“Precisamos tomar cuidado para não cairmos em nossa própria armadilha”, disse Violet.
“Eu tenho uma corda na mochila”, disse Quigley. “Podemos amarrar uma ponta na arcada da biblioteca e usá-la para sair do buraco.”
Violet passou a mão na terra. Estava muito fria, porém solta, e ela percebeu que eles não teriam problemas para cavar o buraco. “Será que isso é certo?”, perguntou Violet. “Vocês acham que os nossos pais fariam a mesma coisa?”
“Os nossos pais não estão aqui”, disse Klaus. “Podem ter estado, mas não estão aqui agora.”
As crianças ficaram em silêncio e tentaram pensar um pouco, apesar do frio e da escuridão. Decidir qual a coisa certa a fazer é mais ou menos como decidir o que usar numa festa. É fácil perceber que vestir um equipamento de mergulho ou levar um par de travesseiros seria uma grande mancada. Mas decidir qual a coisa certa a fazer é muito mais delicado. Pode parecer certo vestir um terno azul-marinho, mas se você chegar lá e outra pessoa estiver com a mesma roupa, você pode acabar sendo confundido com aquela pessoa e algemado em seu lugar. Usar seus sapatos favoritos pode parecer certo, mas uma súbita inundação na festa pode estragá-los para sempre. Usar uma armadura nessa festa pode parecer certo, mas pode haver muitas outras pessoas usando a mesma coisa, e nesse caso você poderia acabar sendo pego em uma inundação devido a um caso de identidade trocada, e quando fosse arrastado pela fúria das águas até o mar, desejaria apenas ter vestido o equipamento para mergulho. A verdade é que você jamais pode ter certeza de ter decidido vestir a coisa certa até que seja tarde demais para voltar e mudar de ideia, e é por isso que o mundo está cheio de pessoas maléficas e malvestidas e carentes de voluntários capazes de impedi-las.
“Eu não sei qual a coisa certa a fazer”, disse Violet, “mas o conde Olaf raptou Sunny, e pode ser que tenhamos de capturar alguém para detê-lo.”
Klaus concordou. “Vamos combater fogo”, disse ele, “com fogo.”
“Então é melhor pôr mãos à obra”, disse Quigley, e pôs-se em pé. “Quando surgir o sol, acenderemos os Cilindros Sempre-verdes Combustíveis com a ajuda do espelho.”
“Se queremos que o buraco esteja pronto ao alvorecer”, disse Violet, “vamos ter de cavar a noite inteira.”
“Onde vamos cavar?”, perguntou Klaus.
“Na frente da entrada”, decidiu Violet. “Depois podemos nos esconder atrás da arcada da biblioteca, até que Esmé caia.”
“Como vamos saber se ela caiu”, perguntou Quigley, “sem enxergá-la?”
“Vamos ouvir”, respondeu Violet. “A madeira vai quebrar, e talvez Esmé grite.”
Klaus estremeceu. “Não será um som agradável.”
“Nossa situação é que não é agradável”, disse Violet, e a mais velha dos Baudelaire tinha razão. Não foi agradável se ajoelhar na frente da entrada destruída da biblioteca, nem cavar através das cinzas e da terra com as mãos nuas, enquanto as quatro correntezas do vale sopravam. Não foi agradável para Violet e seu irmão transportar a terra removida no jarro, enquanto Quigley amarrava sua corda na arcada para entrar e sair do buraco que cada vez ia ficando mais fundo. Não foi agradável nem mesmo fazer uma pausa para comer uma cenoura ou olhar para a reluzente queda d’água congelada e imaginar Esmé Squalor se aproximando da base de operações em busca de um Cilindro Sempre-verde Combustível. Mas a parte menos agradável da situação não foi a terra fria, nem os ventos gélidos, nem a exaustão de cavar o buraco noite adentro. A parte menos agradável foi imaginar que eles podiam estar fazendo uma coisa vilanesca. Os irmãos Baudelaire não tinham certeza de que cavar um buraco fundo para capturar uma vilã era algo que seus pais ou qualquer outro voluntário aprovariam, mas com tantos segredos de C.S.C., perdidos nas cinzas era impossível ter certeza de alguma coisa, e essa incerteza os perseguiu a cada jarro cheio de terra, a cada subida pela corda e a cada pedaço de madeira que puseram sobre o buraco para escondê-lo.
Quando os primeiros raios de sol apareceram no horizonte nevoento, os Baudelaire ergueram os olhos para o escorregador de gelo. No topo das Montanhas de Mão-Morta estava um grupo de vilões espionado por Sunny. Mas quando Violet e Klaus olharam para o buraco fundo e escuro que Quigley os ajudara a cavar, se perguntaram se não haveria um outro grupo de vilões, ao pé do escorregador. Observando a coisa vilanesca que tinham feito, os três voluntários se perguntaram se eles mesmos não eram também vilões, e essa era a pior sensação do mundo.

2 comentários:

  1. Pela minhas contas eles ja estao dois dias sem dormi

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    1. Nesse livro, dormir, comer e higiene pessoal não são coisas importantes. kkkkk'

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