4 de agosto de 2016

Capítulo onze


“Oh, não”, disse tia Josephine.
As crianças nem prestaram atenção. O pior do Furacão Hermano já havia passado, e a travessia do lago escuro no barco a vela não parecia oferecer grande perigo. Violet movimentava a vela com facilidade, agora que o vento se acalmara. Klaus, olhando para trás, orientava-se pela luz lavanda do farol e guiava Confiantemente o barco de volta ao Cais de Dâmocles. E Sunny movia a cana do leme com a mestria de quem não havia feito outra coisa na vida. Só tia Josephine estava apavorada. Ela usava dois coletes salva-vidas em vez de um, e a cada instante gemia: “Oh, não”, embora nada de atemorizador estivesse acontecendo.
“Oh, não”, disse tia Josephine, “e agora estou falando sério.”
“Qual é o problema, tia Josephine?”, disse Violet, já sem paciência. O barco estava quase no meio do lago. As águas continuavam razoavelmente calmas, e ainda se via o brilho do farol, como uma cabeça de alfinete cor de púrpura clara. Não parecia haver motivo para alarme.
“Estamos prestes a entrar no território das sanguessugas”, disse tia Josephine.
“Tenho certeza que vamos passar sem problemas”, disse Klaus, olhando pela luneta para ver se já dava para enxergar o Cais de Dâmocles. “Você disse para nós que as sanguessugas eram inofensivas e só atacavam peixes miúdos.”
“A não ser que a pessoa tenha comido recentemente”, disse tia Josephine.
“Mas faz horas que comemos”, disse Violet, tranquilizadora. “A última coisa que mastigamos foram balas de hortelã-pimenta no Palhaço Ansioso. Isso foi de tarde, e agora já estamos no meio da noite.”
Tia Josephine baixou os olhos e se afastou do flanco do barco. “Mas eu comi uma banana”, sussurrou, “pouco antes de vocês chegarem.”
“Oh, não”, disse Violet. Sunny parou de manobrar a cana do leme e ficou olhando aflita para a água.
“Tenho certeza que não há nenhum motivo para nos preocuparmos”, disse Klaus. “Sanguessugas são animais muito pequenos. Se estivéssemos dentro d’água, haveria o que temer, mas não acredito que elas ataquem um barco a vela. Além do mais, é bem possível que o Furacão Hermano as tenha afugentado para longe de seu território. Aposto como as sanguessugas do lago não vão nem aparecer.”
Klaus pensou que não teria mais o que dizer depois disso, mas no instante seguinte acrescentou outra frase: “É falar do diabo...”. Usa-se essa expressão quando se está falando de alguma coisa e, em seguida, essa coisa aparece (a expressão completa é: “É falar do diabo, que ele aparece”). Por exemplo, se você estivesse num piquenique e dissesse: “Espero que não chova”, e logo depois caísse a maior chuva, seria o caso de você dizer: “É falar do diabo...” antes de recolher a toalha e a salada de batatas, pôr tudo no carro e se mandar para um bom restaurante. No caso dos órfãos Baudelaire, tenho certeza de que vocês podem adivinhar o que aconteceu e levou Klaus a usar essa expressão.
“É falar do diabo...”, disse Klaus, olhando para dentro das águas do lago. Das obscuras profundezas, irromperam umas formas magrinhas se agitando para o alto; quase não dava para vê-las ao luar. As formas eram pouco maiores que um dedo, e à primeira vista se podia supor que alguém que nadava no lago estava tamborilando com os dedos na superfície da água. Mas a maioria das pessoas tem apenas dez dedos, e nos poucos minutos que se seguiram havia centenas dessas formas minúsculas, agitando-se famintas para o alto, de todos os lados do barco. As sanguessugas do lago produziam sussurros em surdina na água quando nadavam, como se os órfãos Baudelaire estivessem cercados por pessoas que murmurassem segredos terríveis. As crianças olhavam em silêncio o bando se aproximar do barco, cada sanguessuga marcando sua presença com leves esbarrões no casco. As minibocas das sanguessugas se contraíam de decepção a cada tentativa de provar o sabor do barco. Sanguessugas são cegas, mas não são idiotas, e as sanguessugas do lago sabiam muito bem que não estavam comendo banana.
“Estão vendo?”, disse Klaus, nervoso, enquanto prosseguiam os leves impactos no casco. “Não há o menor risco.”
“É”, disse Violet. Ela não tinha tanta certeza de que não havia o menor risco, mas parecia que o melhor era dizer a tia Josephine que não havia o menor risco. “Não há o menor risco”, disse.
O som continuado dos esbarrões foi se tornando mais pesado e mais alto. A frustração é um estado emocional interessante, porque tende a fazer surgir o que há de pior no frustrado. Bebês frustrados tendem a atirar comida e fazer sujeira. Cidadãos frustrados tendem a executar reis e rainhas e criar uma democracia. E mariposas frustradas tendem a se jogar contra as lâmpadas e empoeirar os acessórios de iluminação. Mas, diversamente dos bebês, dos cidadãos e das mariposas, as sanguessugas já são por si sós desagradáveis. E agora que as sanguessugas do lago estavam ficando frustradas, todos a bordo do barco estavam ansiosos para ver o que aconteceria quando a frustração fizesse surgir o que havia de pior nas sanguessugas. Por algum tempo, as criaturinhas tentaram e tentaram comer a madeira, mas o máximo que seus dentes minúsculos conseguiam era produzir aquele som desagradável dos impactos no casco. Até que de repente, todas de uma vez, as sanguessugas desistiram, e os Baudelaire viram o bando se contorcer para se afastar do barco.
“Estão indo embora”, disse Klaus, esperançoso, mas elas não estavam indo embora. Assim que as sanguessugas alcançaram uma distância considerável, subitamente deram meia-volta e arremeteram com todo o ímpeto contra o barco. Com um violento tuac!, chocaram-se todas mais ou menos ao mesmo tempo no casco, fazendo o barco balançar perigosamente, isto é, de um modo que quase levou a vida de tia Josephine e dos jovens Baudelaire a um desfecho cruel. Os quatro passageiros foram sacudidos para a frente e para trás, e faltou pouco para caírem nas águas do lago, onde as sanguessugas mais uma vez se contorciam, preparando-se para um novo ataque.
“Iadec!”, gritou Sunny, e apontou para um dos flancos do barco. “Iadec”, é claro, não é gramaticalmente correto, mas até mesmo tia Josephine entendeu que a caçula dos Baudelaire queria dizer: “Vejam só a rachadura que as sanguessugas fizeram no barco!”. A rachadura era pequena, do comprimento de um lápis e da largura de um fio de cabelo humano, e se curvava para baixo de tal maneira que parecia que o barco franzia a cara para eles. Se as sanguessugas continuassem batendo naquele flanco do barco, o franzimento ia se alastrar cada vez mais.
“Temos que velejar muito mais depressa”, disse Klaus, “ou este barco vai se desmantelar.”
“Mas velejar depende do vento”, observou Violet. “Não temos como fazer o vento ir mais depressa.”
“Estou com medo!”, gritou tia Josephine. “Por favor, não me joguem do barco!”
“Ninguém vai jogá-la do barco!”, disse Violet, impaciente, embora eu lamente ter que dizer a vocês que Violet estava enganada a esse respeito. “Pegue um remo, tia Josephine. Klaus, pegue o outro. Se usarmos a vela, a cana do leme e os remos, certamente iremos mais depressa.”
Tuac! As sanguessugas do lago acertaram um dos flancos do barco, aumentando a rachadura e balançando outra vez a embarcação. Uma das sanguessugas foi lançada, com o impacto, por cima de uma das bordas, e ficou se mexendo de um lado para outro no chão, exibindo seus dentinhos enquanto procurava por comida. Com uma careta, Klaus foi cautelosamente até onde ela estava e tentou atirá-la do barco com um pontapé, mas ela se grudou no sapato dele e começou a devorar o couro. Com um grito de repugnância, Klaus sacudiu a perna, e a sanguessuga foi atirada ao chão do barco novamente, esticando seu mínimo pescoço e abrindo e fechando a boca. Violet pegou a vara comprida com a rede de pesca na ponta, recolheu a sanguessuga e a arremessou no lago.
Tuac! A rachadura aumentou o suficiente para que um pouco de água começasse a escorrer para dentro do barco, formando uma pequena poça no chão. “Sunny”, disse Violet, “fique de olho nessa poça. Quando ela crescer, use o balde para despejar a água de volta no lago.”
“Mofi!”, gritou Sunny, querendo dizer: “Farei isso com certeza!”. Seguiu-se o som de sussurros das sanguessugas tomando distância do barco para uma nova investida. Klaus e tia Josephine começaram a remar com toda a força que tinham, enquanto Violet controlava a vela com uma das mãos e mantinha a rede de pesca na outra para o caso de mais sanguessugas entrarem na embarcação.
Tuac! Tuac! Agora eram dois sons fortes, um num dos flancos do barco e outro no fundo, que rachou imediatamente. As sanguessugas estavam divididas em dois grupos, o que é bom quando se está a fim de jogar futebol, mas ruim quando se está sendo atacado. Tia Josephine soltou um grito de terror. Agora, a água estava penetrando no barco por dois lugares, e Sunny abandonou a cana do leme para baldear a água para o lago. Klaus parou de remar e levantou o remo com a pá para cima, sem dizer nada. A pá estava coberta de marcas de pequenas dentadas, efeito da ação das sanguessugas do lago.
“Remar não vai mais adiantar”, comunicou ele a Violet, solenemente. “Se continuarmos, esses remos serão inteiramente comidos.”
Violet olhou para Sunny, que se arrastava para lá e para cá com o balde cheio d’água.
“De qualquer maneira, nem é mais o caso”, disse. “Este barco está afundando. Precisamos de ajuda.”
Klaus olhou para as águas escuras e calmas em volta, desertas, a não ser pelo barco a vela e o bando de sanguessugas. “Onde vamos conseguir ajuda no meio de um lago?”, perguntou.
“Vamos ter que fazer sinais pedindo socorro”, disse Violet, e enfiou a mão no bolso, de onde tirou uma fita. Estendendo a Klaus a rede de pesca, prendeu o cabelo com a fita, para não atrapalhar sua visão. Klaus e Sunny ficaram olhando para ela na maior expectativa, pois sabiam que Violet só prendia o cabelo dessa maneira quando estava pensando em alguma invenção, e naquele exato momento eles precisavam desesperadamente de uma invenção.
“É isso mesmo”, disse tia Josephine para Violet, “feche os olhos. É o que eu faço quando estou com medo, e pôr o medo para fora sempre me ajuda a me sentir melhor.”
“Ela não está querendo pôr nada para fora”, disse Klaus, contrariado. “Ela está se concentrando.”
Klaus tinha razão. Violet se concentrou o máximo possível, escavando o cérebro atrás de uma boa maneira de sinalizar um pedido de socorro. Lembrou dos alarmes de incêndio. Com suas luzes piscando e sirenes estridentes, os alarmes de incêndio eram uma forma excelente de sinalizar um pedido de socorro. Ainda que, é claro, os órfãos Baudelaire soubessem tristemente que às vezes os carros de bombeiros chegavam tarde demais para salvar a vida das pessoas, o alarme de incêndio não deixava de ser uma boa invenção, e Violet tentou pensar como poderia imitá-lo usando os materiais que tinha à sua volta. Precisava produzir um som forte para chamar a atenção de alguém. E precisava produzir uma luz intensa para que esse alguém soubesse onde eles estavam.
Tuac! Tuac! Os dois grupos de sanguessugas voltaram a se chocar contra o barco, e o som de mais água se infiltrando nas rachaduras se fez ouvir. Sunny começou a encher o balde, mas Violet se abaixou e o tomou das mãos dela.
“Biro?”, gritou Sunny, querendo dizer: “Está maluca?”, mas Violet não teve tempo de responder: “Não, na verdade, não”. Por isso, respondeu apenas: “Não”, e segurando o balde numa das mãos, começou a subir no mastro. Já é bastante difícil subir no mastro de um barco, mas fica três vezes mais difícil se o barco está sendo balançado por um bando de sanguessugas famintas, de modo que, permitam-me avisá-los, esta é outra coisa que não devem tentar fazer em nenhuma circunstância. Mas Violet Baudelaire era uma Wunderkind, palavra alemã que aqui quer dizer “alguém capaz de subir rapidamente em mastros de barcos que estão sendo atacados por sanguessugas”, e em pouco tempo ela estava no topo do mastro oscilante do barco. Pegou o balde e o pendurou pela alça na ponta do mastro, e o balde ficou balançando para lá e para cá, como faria um sino numa torre.
“Não quero interrompê-la, Violet”, gritou Klaus, recolhendo na rede de pesca uma sanguessuga furiosa e atirando-a o mais longe que pôde, “mas este barco está afundando mesmo. Por favor, apresse-se.”
Violet se apressou. Mais que depressa, agarrou-se a um canto da vela e, respirando fundo para se preparar, pulou para o chão do barco. Como ela esperava, a vela se rasgou com o pulo, amortecendo sua queda e deixando-a com um grande pedaço de pano rasgado nas mãos. A essa altura, a embarcação estava inundada, e Violet abriu caminho na água para chegar até tia Josephine, desviando-se das muitas sanguessugas que Klaus expulsava do barco com a máxima presteza possível.
“Preciso do seu remo”, disse Violet, fazendo uma bola com o pedaço da vela, “e da sua rede de cabelo.”
“Pode ficar com o remo”, disse tia Josephine, estendendo-o. “Mas a rede vai me fazer falta. Sem ela, o meu coque despenca.”
“Dê logo a rede para ela!”, gritou Klaus, ficando numa perna só sobre um dos bancos, para fugir de uma sanguessuga que tentava morder seu joelho.
“Mas tenho medo que o cabelo cubra meu rosto!”, choramingou tia Josephine, bem no momento em que outro par de tuacs atingiu o barco.
“Não tenho tempo para discutir com você!”, gritou Violet. “Estou tentando salvar nossas vidas! Me dê essa rede imediatamente!”
“O correto”, disse tia Josephine, “é dizer ‘dê-me’, e não ‘me dê’“, mas Violet já não tinha paciência para ouvi-la. Esparramando água para todo lado e evitando um par de sanguessugas agitadas, a mais velha dos Baudelaire estendeu a mão e arrancou a rede da cabeça de tia Josephine. Envolveu com a rede o pedaço amarrotado da vela, pegou a vara de pescar e prendeu a bola de pano no anzol afiado. Parecia que ela ia tentar pescar algum tipo de peixe que gostava de se alimentar de barcos a vela e acessórios para o cabelo.
Tuac! Tuac! O barco adernou para um lado, depois para o outro. As sanguessugas quase haviam conseguido destruir o que restava da madeira do flanco do barco. Violet pegou o remo e começou a esfregá-lo para cima e para baixo na borda da embarcação, com o máximo possível de força e velocidade.
“O que está fazendo?”, perguntou Klaus, apanhando três sanguessugas com um único movimento da rede.
“Estou tentando criar atrito”, disse Violet. “Se conseguir esfregar um pedaço de madeira em outro com força e rapidez suficientes, criarei atrito. O atrito cria centelhas. Assim que obtiver uma centelha, vou pôr fogo no pano e na rede de cabelo, e usar isso como sinal.”
“Você quer provocar um incêndio?”, gritou Klaus. “Mas um incêndio significa ainda mais perigo.”
“Não se eu acenar com o fogo acima de minha cabeça, usando a vara de pescar”, disse Violet. “Farei isso e baterei no balde como se fosse um sino: é um sinal de alarme que deve funcionar para conseguirmos socorro.” Esfregou insistentemente o remo no flanco do barco, mas não surgiu nenhuma centelha. A triste realidade é que a madeira ficara úmida demais sob a ação do Furacão Hermano e do Lago Lacrimoso, e não permitia que se criasse atrito suficiente para o fogo começar. Era uma boa ideia, mas Violet se convenceu, à medida que esfregava sem resultado, de que era a ideia errada. Tuac! Tuac! Violet olhou de relance para tia Josephine e para os irmãos apavorados, e sentiu a esperança se escoar de seu coração tão rapidamente quanto a água penetrava no barco. “Não está funcionando”, disse, na maior tristeza, e lágrimas rolaram no rosto dela. Pensou na promessa que havia feito aos pais, pouco antes de eles morrerem na catástrofe, de que sempre cuidaria de seus irmãos menores. Sanguessugas aos montes invadiam o barco que naufragava, e Violet temia não ter sido capaz de cumprir a promessa. “Não está funcionando”, repetiu, e, desesperada, deixou o remo cair. “Precisamos de fogo, mas não dá para inventar um jeito de consegui-lo.”
“Tudo bem”, disse Klaus, embora nada estivesse bem. “Vamos pensar num jeito.”
“Tintet”, disse Sunny, querendo dizer: “Não chore, você se esforçou ao máximo”, ou algo no gênero, mas Violet chorou assim mesmo. É muito fácil dizer que o importante é se esforçar ao máximo, mas quando se está numa situação de perigo, o mais importante não é se esforçar ao máximo, e sim salvar-se. O barco balançava para a frente e para trás, a água penetrava pelas rachaduras, e Violet chorava porque tudo levava a crer que eles nunca se salvariam. Com os ombros sacudidos pelos soluços, ela pegou a luneta para ver se por acaso não havia uma embarcação nas proximidades, ou se o fluxo das águas não levara o barco para junto da margem. Mas tudo o que viu foi o luar se refletindo nas águas encrespadas do lago. Essa foi a sua sorte. Pois, ao ver o reflexo tremulante, lembrou-se dos princípios científicos da convergência e refração da luz.
Os princípios científicos da convergência e refração da luz são muito complicados, e para ser franco, não os entendo bem, nem mesmo quando meu amigo dr. Lorenz os explica para mim. Mas Violet os entendia perfeitamente. No mesmo instante pensou numa história que seu pai lhe contara havia muito tempo, quando ela estava começando a se interessar por ciência. No tempo em que seu pai era garoto, ele andava com uma prima detestável que gostava de queimar formigas e que acendia o fogo concentrando o foco da luz do sol com sua lupa. Queimar formigas, não resta dúvida, é um passatempo abominável – a palavra abominável está aqui usada com o sentido de “habitual do conde Olaf quando ele tinha mais ou menos a idade de vocês” –, mas ao lembrar da história, Violet se deu conta de que poderia usar a lente da luneta para concentrar o foco do luar e fazer fogo. Sem perda de tempo, segurou a luneta e retirou a lente; em seguida, erguendo os olhos para a lua, deu à lente um ângulo de inclinação que ela rapidamente calculou de cabeça.
O luar atravessou a lente e se concentrou numa longa e fina faixa de luz, que, como um fio brilhante, passou a fazer a ligação diretamente com o pedaço da vela preso em forma de bola na rede de cabelo de tia Josephine. Num instante, o fio de luz provocou uma pequena chama.
“Milagre!”, gritou Klaus, quando a chama se firmou.
“Incrível!”, gritou tia Josephine.
“Fonti!”, berrou Sunny.
“São os princípios científicos da convergência e refração da luz!”, gritou Violet, enxugando os olhos. Andando com todo o cuidado para evitar as sanguessugas que se achavam a bordo e para evitar também que o fogo se apagasse, deslocou-se até a frente do barco. Com uma das mãos, pegou o remo e bateu com ele no balde, produzindo um som bem forte para chamar a atenção de alguém. Com a outra mão, levantou bem alto a vara de pescar, exibindo um ponto de luz que permitiria à pessoa que tivesse ouvido o som localizá-los. Violet ergueu os olhos e ficou observando por um tempo o seu sinal de pedido de socorro de fabricação caseira que finalmente pegara fogo graças a uma história boba contada anos atrás pelo pai dela. A queimadora de formigas, prima do pai, parecia ser uma pessoa terrível, mas se ela de repente aparecesse ali no barco, receberia de Violet um belo abraço de gratidão.
Com o desenrolar da história, entretanto, revelou-se que esse sinal de pedido de socorro tinha sido uma bênção “de dois gumes”, digamos assim: algo que é metade bom, metade ruim. Alguém viu o sinal quase imediatamente, alguém que já estava velejando no lago, e no mesmo instante tomou o rumo do barco dos Baudelaire. Violet, Klaus, Sunny e até mesmo tia Josephine, todos estamparam um enorme sorriso no rosto ao ver outro barco aparecer no horizonte e vir em sua direção. Eles estavam sendo salvos, e essa era a metade boa. Mas seus sorrisos começaram a murchar à medida que o barco se aproximava e eles perceberam quem se encontrava nele. Tia Josephine e os órfãos viram a perna de pau, o gorro azul de marinheiro e a venda no olho, e descobriram quem vinha socorrê-los. Claro que era o capitão Sham, provavelmente a pior metade que havia no mundo.

Um comentário:

  1. Tanto esforço pra nada
    Espero q o sr Poe esteja com ele pelo menos!

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