8 de agosto de 2016

Capítulo oito


Os órfãos Baudelaire cruzaram o portão da Serraria Alto-Astral e olharam para a ambulância que passou por eles na maior velocidade levando Phil para o hospital. Olharam para as letras de chiclete mascado que compunham a placa da serraria. E baixaram os olhos para o calçamento rachado da rua de Paltryville. Em suma, olharam para toda parte, menos para a casa em forma de olho.
“Não precisamos ir”, disse Violet. “Poderíamos fugir. Poderíamos nos esconder até a chegada do próximo trem, e seguir nele o mais longe possível. Agora sabemos como trabalhar numa serraria, poderíamos arranjar serviço em alguma outra cidade.”
“Mas e se ele nos descobrisse?”, disse Klaus, fixando na irmã seus olhos semicerrados. “Quem nos protegeria do conde Olaf, se estivéssemos sozinhos?”
“Poderíamos nos proteger sozinhos”, respondeu Violet.
“Como podemos nos proteger”, perguntou Klaus, “se um de nós é um bebê e outro mal consegue ver?”
“Nós já nos protegemos antes”, disse Violet.
“Sempre por um triz, mal e porcamente”, respondeu Klaus. “Toda vez foi por um triz que escapamos do conde Olaf. Não dá para fugirmos e tentarmos nos virar sozinhos; estou sem meus óculos. Temos de torcer para que dê certo.”
Sunny deixou escapar um gritinho estridente de medo. Violet, é claro, já tinha idade bastante para não gritar estridentemente a não ser em situações de emergência, mas ainda não tinha tanta idade assim para não se sentir amedrontada. “Não sabemos o vai acontecer conosco lá dentro”, disse ela, olhando para a porta preta na pupila do olho. “Pense, Klaus. Tente pensar. O que foi que aconteceu quando você entrou lá?”
“Não sei”, disse Klaus na maior tristeza. “Lembro de ter tentado falar com Charles para não me levar ao oftalmologista, mas ele ficava repetindo que os médicos eram meus amigos, e que eu não deveria ter medo.”
“Ah!”, gritou estridentemente Sunny, o que significava: “Ah!”.
“E depois, do que você se lembra?”, perguntou Violet.
Klaus fechou os olhos para concentrar-se. “Gostaria de conseguir dizer. Porém é como se uma parte do meu cérebro tivesse sido apagada sem deixar vestígios. E como se eu tivesse adormecido desde o momento em que entrei naquela casa até já estar na serraria.”
“Mas você não estava dormindo”, disse Violet. “Estava andando de um lado para o outro como se fosse um zumbi. Até causar aquele acidente que machucou o coitado do Phil.”
“Mas não me lembro dessas coisas”, disse Klaus. “E como se...” Sua voz deixou a frase em suspenso, e por um momento ele ficou olhando perdidamente para o vazio.
“Sim, Klaus?”, perguntou Violet, preocupada.
“... como se eu estivesse hipnotizado”, Klaus concluiu. Olhou para Violet, depois para Sunny, e suas irmãs perceberam que ele estava descobrindo algo. “Claro. A hipnose explicaria tudo.”
“Eu pensei que hipnose só existisse em filmes de terror”, disse Violet.
“Nada disso”, respondeu Klaus. “Estive lendo a Enciclopédia de hipnose no ano passado. Li a descrição de todos os casos famosos de hipnose ao longo da história. Houve um rei do Egito antigo que foi hipnotizado. Bastava o hipnotizador gritar 'Ramsés!' e o rei na mesma hora começava a cacarejar e imitar uma galinha, apesar de estar diante da corte real.”
“É interessante, não resta dúvida”, disse Violet, “mas...”
“Um comerciante chinês que viveu durante a dinastia Ling foi hipnotizado. Bastava o hipnotizador gritar 'Mao!' e o comerciante começava a tocar violino, apesar de nunca ter visto o instrumento antes.”
“São histórias curiosas”, disse Violet, “mas...”
“Um homem que viveu na Inglaterra na década de 20 foi hipnotizado. Bastou o hipnotizador gritar 'Bloomsbury!' e ele na mesma hora se tornou um brilhante escritor, apesar de mal saber ler.”
“Mazê!”, gritou estridentemente Sunny, talvez com o sentido de: “Não temos tempo para ouvir todas essas histórias, Klaus!”.
Klaus abriu um sorriso. “Desculpem”, disse, “era um livro muito interessante, e que vem tão a propósito.”
“Bem, e o que o livro dizia sobre como tirar a pessoa da hipnose?”, perguntou Violet.
O sorriso de Klaus se apagou. “Nada”, disse ele.
“Nada?”, repetiu Violet. “Uma enciclopédia inteira sobre hipnose não dizia nada sobre isso?”
“Se dizia, deve ter sido em alguma parte que não li. Achei mais interessantes as partes sobre casos famosos. Essas eu li, mas pulei algumas das partes chatas.”
Pela primeira vez depois de terem deixado para trás o portão da serraria, os órfãos Baudelaire olharam para a casa em forma de olho; tinham a impressão de que a casa lhes retribuía o olhar. Para Klaus, naturalmente, a mensagem que o consultório poderia transmitir não passava de um grande borrão, contudo para suas irmãs aquela imagem criava a expectativa de novos problemas. A porta redonda, pintada de preto para parecer a pupila do olho, parecia ser um buraco sem fim; as crianças tinham a impressão de que iam cair nele.
“Nunca mais tornarei a pular as partes chatas de um livro”, lamentou Klaus, e foi andando de modo cauteloso em direção à casa.
“Imagino que você não esteja pretendendo entrar!?”, disse Violet incredulamente, palavra que aqui significa “num tom de voz que indicava que Klaus estava agindo como um tolo”.
“O que mais podemos fazer?”, disse Klaus, resignado. E começou a tatear as paredes da casa para localizar a porta.
A esta altura da história dos órfãos Baudelaire, gostaria de fazer uma breve interrupção para responder a uma pergunta que vocês com toda a certeza devem estar se fazendo. É uma pergunta importante, que muitas e muitas pessoas já fizeram muitas e muitas vezes em muitos lugares do mundo. Os órfãos Baudelaire fizeram a pergunta, é claro. O sr. Poe fez a pergunta. Eu fiz a pergunta. Minha amada Beatrice, antes de sua morte prematura, fez a pergunta, só que tarde demais. A pergunta é: Onde está o conde Olaf?
Se vocês vêm seguindo a história desses três órfãos desde o comecinho, sabem que o conde Olaf está sempre à espreita dessas pobres crianças, com planos e estratagemas para apossar-se da fortuna dos Baudelaire pais. Em geral, passados alguns dias da chegada a um novo lar, o conde Olaf e seus nefandos ajudantes – aqui a palavra “nefandos” significa “que detestam os Baudelaire” – aparecem por perto, dissimulados, tramando perversidades. E, no entanto, até aqui não houve sinal dele em parte alguma. De modo que, enquanto os três órfãos se dirigem relutantemente para o consultório, sei que vocês devem estar se perguntando por onde andará esse desprezível vilão. A resposta é: Muito perto.
Violet e Sunny caminharam até a casa em forma de olho e ajudaram o irmão a subir os degraus em frente à porta, mas, antes que chegassem a abri-la, a pupila preta escancarou-se revelando uma pessoa com um longo jaleco branco com um crachá de identificação preso à lapela: “Dra. Orwell”.
Doutora!
A dra. Orwell era uma mulher alta de cabelos louros presos atrás num coque bem justo. Calçava grandes botas negras e segurava uma longa bengala negra com um castão de rubi rutilante.
“Olá, Klaus”, disse a dra. Orwell, com um cumprimento formal de cabeça para os Baudelaire. “Não esperava tê-lo de volta tão cedo. Não me diga que quebrou seus óculos de novo.”
“Infelizmente, sim”, disse Klaus.
“Lamento”, disse a dra. Orwell. “Mas até que você está com sorte. Temos poucas consultas marcadas para hoje, por isso você pode entrar já; farei os exames necessários.”
Os órfãos Baudelaire se entreolharam, nervosos.
Não era nada do que estavam esperando. Imaginaram a dra. Orwell como uma figura bem mais sinistra – um conde Olaf disfarçado de dr. Orwell, por exemplo, ou um de seus terríveis asseclas. Esperavam ser capturados para dentro da casa em forma de olho e talvez nunca mais voltar. Em vez disso, a dra. Orwell parecia realmente profissional, e os convidava gentilmente a entrar.
“Entrem”, disse ela, mostrando o caminho com sua bengala negra. “Shirley, minha recepcionista, preparou alguns biscoitinhos que vocês, meninas, podem comer na sala de espera enquanto faço os óculos de Klaus. Não vai demorar tanto quanto ontem.”
“Klaus vai ser hipnotizado?”, perguntou Violet.
“Hipnotizado?”, repetiu a dra. Orwell, sorrindo. “Ora, hipnose só acontece em filmes de terror.”
As crianças, é claro, sabiam que isso não era verdade, mas imaginaram que, se a dra. Orwell achava que era verdade, era mais provável que não fosse uma hipnotizadora. Adentraram com cuidado na casa em forma de olho e seguiram a dra. Orwell por um corredor todo decorado com diplomas médicos.
“Por aqui, por favor”, disse ela. “Klaus me contou que gosta muito de ler. Vocês também são grandes leitoras?”
“Ah, sim”, disse Violet. Ela estava começando a relaxar. “Sempre que surge uma ocasião, aproveitamos para ler.”
“Em suas leituras vocês já encontraram alguma vez”, disse a dra. Orwell, “a expressão: 'Não é com vinagre que se apanham as moscas, as moscas se apanham com mel'?”
“Tuzmo”, respondeu Sunny, o que significava: “Não acredito nisso”, ou algo do gênero.
“Não li muitos livros sobre moscas”, admitiu Violet.
“Bem, na verdade, a expressão não tem nada a ver com moscas”, explicou a dra. Orwell. “É uma forma elegante de dizer que é mais provável a pessoa conseguir o que quer agindo com doçura, como a do mel, do que com acidez, como a do vinagre.”
“É interessante”, disse Klaus, pensando que razões a dra. Orwell teria para trazer à conversa aquele provérbio.
“Imagino que vocês estejam pensando por que foi que puxei esse assunto”, disse a dra. Orwell, parando em frente a uma porta com a inscrição: “Sala de Espera”. “Mas acho que ficará claro para vocês em poucos instantes. Klaus, por favor, venha comigo para o consultório, e vocês, meninas, passem à sala de espera do outro lado desta porta.”
As crianças hesitaram.
“Serão só alguns minutinhos”, disse a dra. Orwell, e acariciou a cabeça de Sunny.
“Está bom”, disse Violet, e fez um aceno para o irmão quando ele seguiu a oftalmologista até o fundo do corredor.
Violet e Sunny empurraram a porta e entraram na sala de espera, verificando logo que a dra. Orwell falara a verdade. Na mesma hora tudo passou a fazer sentido. A sala de espera era pequena, e era parecida com a maioria das salas de espera. Tinha um sofá, umas poucas cadeiras, umas revistas antigas amontoadas sobre uma mesa, e uma recepcionista sentada diante de uma escrivaninha, exatamente como nas salas de espera em que vocês ou eu já estivemos. Mas quando Violet e Sunny olharam para a recepcionista, viram algo que eu espero que vocês jamais tenham visto numa sala de espera. Numa placa sobre a escrivaninha estava escrito “Shirley”, porém não havia nenhuma Shirley ali, apesar de a recepcionista estar usando um vestido marrom-claro e sapatos bege confortáveis para trabalhar. Porque, acima do batom claro e abaixo da peruca loura, havia um par de olhos muito, mas muito brilhantes que as duas meninas reconheceram de imediato. A dra. Orwell, ao comportar-se com tanta delicadeza e finura, tinha sido o mel, em lugar do vinagre. As crianças, infelizmente, eram as moscas. E o conde Olaf, sentado na escrivaninha da recepcionista com um sorriso malvado, conseguira enfim apanhá-las.

Um comentário:

  1. O pior é q elas ja sabiam q ele estaria la !

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