17 de agosto de 2016

Capítulo oito


“Eu estou sonhando”, disse Duncan Quagmire. Sua voz era um sussurro rouco de choque total. “Eu devo estar sonhando.”
“Mas como você pode estar sonhando”, perguntou-lhe Isadora, “se eu estou tendo o mesmo sonho?”
“Uma vez eu li sobre uma jornalista”, sussurrou Duncan, “que estava cobrindo uma guerra, foi capturada pelo inimigo e ficou presa durante três anos. Todas as manhãs, ela olhava pela janela da sua cela e pensava ter visto os avós chegando para salvá-la. Mas eles não estavam lá de verdade. Era uma alucinação.”
“Eu me lembro de ter lido a respeito de um poeta”, disse Isadora, “que via seis adoráveis donzelas na sua cozinha nas noites de terça-feira, mas a cozinha na verdade estava vazia. Era uma aparição.”
“Não”, disse Violet, e estendeu a mão por entre as barras da jaula. Os trigêmeos Quagmire se encolheram no canto oposto da jaula, como se Violet fosse uma aranha venenosa em vez de uma amiga há muito perdida. “Não é uma alucinação. Sou eu, Violet Baudelaire.”
“E eu sou realmente Klaus”, disse Klaus. “Não sou uma aparição.”
“Sunny!”, disse Sunny.
Os órfãos Baudelaire piscaram na escuridão, forçando os olhos para ver o máximo possível. Agora que não estavam mais pendurados na ponta de uma corda, conseguiram dar uma boa olhada no ambiente tenebroso à sua volta. Sua longa descida terminara em uma sala minúscula e imunda, sem nada dentro a não ser a jaula enferrujada contra a qual batera a extensão elétrica, mas os Baudelaire viram que a passagem continuava em um corredor comprido, tão escuro quanto o poço de elevador, que virava e se desviava para dentro das trevas. As crianças também deram uma boa olhada nos Quagmire, e o que viram não era menos tenebroso. Eles estavam vestidos em trapos e os rostos estavam tão lambuzados de sujeira que os Baudelaire poderiam não tê-los reconhecido se os dois trigêmeos não estivessem segurando os cadernos que levavam com eles aonde quer que fossem. Mas não era só a sujeira nos rostos deles, ou as roupas em seus corpos, que faziam os Quagmire parecerem tão diferentes. Era o olhar. Os trigêmeos Quagmire pareciam exaustos, e pareciam famintos, e pareciam muito, muito assustados. Porém, mais que tudo, Isadora e Duncan pareciam assombrados. A palavra “assombrado”, tenho certeza que vocês sabem, geralmente se aplica a uma casa, cemitério ou supermercado onde vivem fantasmas, mas a palavra também pode ser usada para descrever pessoas que viram e ouviram coisas tão horríveis que se sentem como se houvesse fantasmas vivendo dentro delas, assombrando a cabeça e o coração com desgraças e desespero. Os Quagmire estavam com essa aparência, e ver os seus amigos tão desesperadamente tristes partiu o coração dos Baudelaire.
“São mesmo vocês?”, disse Duncan, apertando os olhos para os Baudelaire lá do canto oposto da jaula. “Podem mesmo ser vocês?”
“Somos nós, sim”, disse Violet, e descobriu que os seus olhos estavam se enchendo de lágrimas.
“São realmente os Baudelaire”, disse Isadora, esticando a mão para tocar a de Violet. “Não estamos sonhando, Duncan. Eles estão realmente aqui.”
Klaus e Sunny também estenderam as mãos para dentro da jaula, e Duncan saiu do seu canto para tocar os Baudelaire o melhor possível por trás das grades. As cinco crianças se abraçaram na medida do possível, meio rindo e meio chorando porque estavam todas juntas mais uma vez.
“Como diabo vocês sabiam onde nós estávamos?”, disse Isadora. “Nem nós mesmos sabemos onde estamos.”
“Vocês estão dentro de uma passagem secreta na Avenida Sombria 667”, disse Klaus, “mas não sabíamos que vocês estavam aqui. Estávamos só tentando descobrir o que Gunther – é como Olaf chama a si mesmo agora – estava tramando, e a nossa busca nos trouxe todos aqui para baixo.”
“Eu sei como ele está chamando a si mesmo”, disse Duncan, “e sei o que ele está tramando.” Ele encolheu os ombros e abriu o seu caderno que, pelo que se lembravam os Baudelaire, era verde-escuro, mas parecia preto na penumbra. “Tudo o que ele faz em todos os segundos que passamos com ele é se gabar dos seus planos horríveis e, quando ele não está olhando, tomo nota de tudo o que ele conta, para não esquecer. Apesar de ser uma vítima de sequestro, ainda sou um jornalista.”
“E eu ainda sou uma poeta”, disse Isadora, e abriu o seu caderno que, pelo que se lembravam os Baudelaire, era preto, mas agora parecia ainda mais preto. “Escutem isto:

No Dia do Leilão, na hora crepuscular
Gunther, sorrateiro, irá nos levar?”

“Como ele vai fazer isso?”, perguntou Violet. “A polícia foi informada do sequestro, e está de prontidão.”
“Eu sei”, disse Duncan. “Gunther quer nos levar clandestinamente para fora da cidade e nos esconder em alguma ilha onde a polícia não possa nos achar. Vai nos manter prisioneiros na ilha até chegarmos à maioridade, para poder roubar as safiras Quagmire. Assim que estiver com a nossa fortuna, diz ele, nos pegará e...”
“Não diga nada”, exclamou Isadora, tampando os ouvidos. “Ele nos disse tantas coisas horríveis. Eu não poderia suportar ouvi-las de novo.”
“Não se preocupe, Isadora”, disse Klaus. “Vamos alertar as autoridades, e elas o prenderão antes que possa fazer qualquer coisa.”
“Mas já é quase tarde demais”, disse Duncan. “O Leilão In é amanhã de manhã. Ele vai nos esconder dentro de um dos itens que vão ser leiloados e fazer com que um dos seus ajudantes dê o lance mais alto.”
“Que item?”, perguntou Violet.
Duncan folheou as páginas do caderno e seus olhos se arregalaram quando releu algumas das coisas deploráveis que Gunther dissera. “Eu não sei”, disse ele. “Ele nos contou tantos segredos tão angustiantes, Violet. Tantos planos horríveis – todas as traições que ele cometeu no passado, e todas as que está planejando cometer no futuro. Está tudo aqui neste caderno. De C.S.C. até este terrível plano do leilão.”
“Teremos tempo à vontade para discutir tudo isso”, disse Klaus, “mas nesse meio-tempo, vamos tirar vocês desta jaula antes que Gunther volte. Violet, você acha que consegue forçar este cadeado?”
Violet segurou o cadeado nas mãos e apertou os olhos para enxergar no escuro. “É bastante complicado”, disse ela. “Ele deve ter comprado alguns cadeados superdifíceis, depois que eu forcei aquela mala dele quando estávamos morando com o tio Monty. Se eu tivesse algumas ferramentas, talvez pudesse inventar alguma coisa, mas não há absolutamente nada aqui embaixo.”
“Aguen?”, perguntou Sunny, o que queria dizer qualquer coisa como “Você conseguiria serrar as barras da jaula?”.
“Não serrar”, disse Violet tão baixinho que era como se estivesse falando sozinha. “Não tenho tempo para fazer uma serra. Mas quem sabe...” Sua voz foi sumindo, mas as outras crianças puderam ver na penumbra que ela estava prendendo o cabelo com uma fita, para impedi-lo de cair nos olhos.
“Olhe, Duncan”, disse Isadora, “ela está bolando alguma invenção! Vamos sair daqui em três tempos!”
“Todas as noites, desde que fomos raptados”, disse Duncan, “sonhamos com o dia em que veríamos Violet Baudelaire inventando alguma coisa para nos salvar.”
“Se quisermos salvá-los a tempo”, disse Violet, pensando furiosamente, “então meus irmãos e eu teremos de subir de volta para a cobertura imediatamente.”
Isadora correu nervosamente os olhos pelo compartimento minúsculo e escuro. “Vocês vão nos deixar sozinhos?”, perguntou ela.
“Se é para eu inventar alguma coisa que tire vocês desta jaula”, retrucou Violet, “vou precisar de toda a ajuda que puder conseguir, portanto Klaus e Sunny terão de vir comigo. Sunny, comece a subir. Klaus e eu seguiremos logo atrás de você.”
“Onossu”, disse Sunny, o que queria dizer “Sim, senhora”, e Klaus ergueu-a até a ponta da corda, para que pudesse começar a longa e tenebrosa escalada de volta ao apartamento dos Squalor. Klaus começou a subir logo atrás dela e Violet segurou as mãos dos amigos.
“Estaremos de volta assim que pudermos”, prometeu ela. “Não se preocupem. Vocês estarão fora de perigo antes que se deem conta.”
“No caso de alguma coisa dar errado”, disse Duncan, folheando o caderno até uma determinada página, “como aconteceu da última vez, deixe-me contar a você...”
Violet pôs o dedo na boca de Duncan. “Psiu”, disse ela. “Nada vai dar errado desta vez. Eu juro.”
“Mas se der”, disse Duncan, “você precisa saber a respeito de C.S.C. antes que o leilão comece.”
“Não me conte agora”, disse Violet. “Não temos tempo. Você pode contar quando estivermos todos sãos e salvos.” A mais velha dos Baudelaire agarrou a ponta da extensão elétrica e começou a seguir os irmãos. “Vejo vocês logo mais”, disse ela aos Quagmire, que já estavam começando a desaparecer na escuridão enquanto ela começava a sua ascensão. “Vejo vocês logo mais”, disse ela de novo, bem no momento em que os perdeu totalmente de vista.
A subida de volta pela passagem secreta foi muito mais cansativa, porém muito menos aterrorizante, simplesmente porque eles sabiam o que iriam encontrar na outra ponta da sua corda ersatz. Quando estavam descendo pelo poço de elevador, os Baudelaire não tinham ideia do que os estaria aguardando no fundo, ao final de uma jornada tão escura e cavernosa, mas Violet, Klaus e Sunny sabiam que todos os setenta e um quartos de dormir da cobertura dos Squalor estariam no topo. E eram aqueles quartos de dormir – juntamente com as salas de estar, salas de jantar, salas de café-da-manhã, salas de lanche, salas de sentar, salas de ficar em pé, salões de baile, banheiros, cozinhas e um sortimento de salas que pareciam não ter nenhuma serventia – que seriam úteis para o salvamento dos Quagmire.
“Escutem”, disse Violet aos irmãos depois que eles subiram por alguns minutos. “Quando chegarmos lá em cima, quero que vocês dois vasculhem a cobertura.”
“Agoula?”, perguntou Sunny, o que queria dizer “para quê?”
“Acho que o jeito mais fácil de tirar os Quagmire daquela jaula será usando um dispositivo de solda”, disse Violet. “Solda é quando você usa alguma coisa muito quente para derreter metal. Se cortarmos algumas das barras da jaula com um soldador, poderemos criar uma porta e tirar Duncan e Isadora de lá.”
“Esta é uma boa ideia”, concordou Klaus. “Mas eu pensava que para soldar era necessário um monte de equipamentos complicados.”
“Normalmente sim”, disse Violet. “Numa situação comum de soldagem eu usaria um maçarico, que é um dispositivo que produz uma chama muito pequena para derreter o metal. Mas os Squalor não têm um maçarico – trata-se de uma ferramenta, e as ferramentas estão out. Portanto vou inventar algum outro método. Quando vocês acharem objetos compridos e finos feitos de ferro, me encontrem na cozinha mais próxima à porta da frente.”
“Selrep”, disse Sunny, o que queria dizer algo como “É aquela que tem um forno azul-claro”.
“Certo”, disse Violet, “e eu vou usar aquele forno azul-claro para esquentar os objetos de ferro e deixá-los o mais quentes possível. Quando eles estiverem ardendo, ardendo de quentes, vamos levá-los até a jaula e usá-los para derreter as barras.”
“Será que vão ficar quentes por tempo suficiente para funcionar, depois de uma descida tão longa?”, perguntou Klaus.
“É melhor que fiquem”, respondeu Violet, soturna. “É a nossa única esperança.”
Ouvir a frase “nossa única esperança” sempre deixa uma pessoa ansiosa, porque significa que se a única esperança não der certo, não resta mais nada, e nunca é agradável pensar isto, por mais verdadeiro que possa ser. Os três Baudelaire ficaram ansiosos com o fato de que a invenção de Violet era a sua única esperança de salvar os Quagmire, e eles se mantiveram em silêncio durante o resto de sua ascensão pelo poço de elevador, sem querer considerar o que poderia acontecer com Duncan e Isadora caso essa única esperança não desse certo. Por fim, começaram a ver a luz pálida que vinha das portas deslizantes abertas, e afinal se viram novamente diante da porta da frente do apartamento dos Squalor.
“Lembrem-se”, sussurrou Violet, “objetos compridos e finos feitos de ferro. Não podemos usar bronze ou prata, nem mesmo ouro, porque esses metais se derreteriam no forno. Vejo vocês na cozinha.”
Os Baudelaire mais jovens assentiram movendo a cabeça solenemente e seguiram duas trilhas diferentes de migalhas em direções opostas, enquanto Violet seguia direto para a cozinha com o forno azul-claro e olhava em volta, indecisa. Cozinhar nunca fora o seu forte – uma frase que aqui significa “era algo que ela não sabia fazer muito bem, com exceção de torradas, e às vezes não era capaz de fazer nem isso sem deixá-las esturricadas” – e ela estava um pouco nervosa com a ideia de usar o forno sem a supervisão de nenhum adulto. Mas então ela pensou nas coisas que fizera recentemente sem supervisão de adultos – espalhar migalhas pelo chão, comer manteiga de maçã, descer por um poço vazio de elevador usando uma corda ersatz feita de extensões elétricas, puxadores de cortina e gravatas amarrados uns nos outros com a língua-do-diabo – e sentiu a sua determinação se endurecer. Ela girou o botão azul-claro da temperatura do forno para o máximo – 250 graus centígrados – e então, enquanto o forno se aquecia lentamente, começou a abrir e fechar silenciosamente as gavetas da cozinha, à procura de três luvas térmicas reforçadas. Luvas térmicas, como vocês provavelmente sabem, são acessórios de cozinha que servem como mãos ersatz que permitem pegar objetos que queimariam os seus dedos se vocês os tocassem diretamente. Violet deu-se conta de que os Baudelaire teriam de usar luvas térmicas quando os objetos compridos e finos estivessem quentes o bastante para usar como maçaricos. Bem quando os seus irmãos iam entrando na cozinha, Violet encontrou três luvas térmicas adornadas com as letras sofisticadas e rebuscadas da Butique In, enfiadas no fundo da nona gaveta que ela abrira.
“Acertamos na mosca”, sussurrou Klaus, e Sunny assentiu com a cabeça. Os dois Baudelaire mais jovens estavam usando uma expressão que aqui significa “Olhe para estes atiçadores de lareira – são perfeitos!” e estavam absolutamente certos. “Em alguma época, as lareiras devem ter estado in”, explicou Klaus, apresentando três pedaços de ferro finos e compridos, “porque Sunny se lembrou daquela sala de estar com seis lareiras entre o salão de baile com paredes verdes e o banheiro com aquela pia engraçada. Junto às lareiras havia seis atiçadores – você sabe, aqueles pedaços de ferro compridos que as pessoas usam para mexer nas achas de lenha e manter o fogo aceso. Imaginei que, se eles podem tocar em lenha ardente, podem também sobreviver a um forno quente.”
“Vocês realmente acertaram na mosca”, disse Violet. “Atiçadores de fogo são perfeitos. Agora, quando eu abrir a porta do forno, você os põe lá dentro, Klaus. Sunny, afaste-se. Bebês não devem ficar perto de fornos quentes.”
“Pravotol”, disse Sunny. Ela queria dizer algo como “As crianças mais velhas também não devem ficar perto de fornos quentes, especialmente sem a supervisão de um adulto” ou coisa do gênero, mas entendeu que se tratava de uma emergência e engatinhou para o lado oposto da cozinha, de onde poderia observar com segurança enquanto os irmãos mais velhos punham os atiçadores compridos e finos dentro do forno quente.
Como a maioria dos fornos, o forno azul-claro dos Squalor tinha sido projetado para assar bolos e gratinados, não atiçadores de fogo, e era impossível fechar a porta do forno com os compridos pedaços de ferro dentro. Assim, enquanto os órfãos Baudelaire aguardavam que os pedaços de ferro se aquecessem a ponto de poder ser usados como maçaricos, a cozinha toda também se aqueceu, pois uma parte do ar quente do forno escapou pela porta aberta. Quando Klaus perguntou se os soldadores já estavam prontos, parecia que a cozinha era um forno, em vez de simplesmente conter um.
“Ainda não”, respondeu Violet, espiando cautelosamente pela porta aberta do forno. “As pontas dos atiçadores estão só começando a ficar amarelas. Precisamos que elas fiquem brancas com o calor, portanto ainda vai levar alguns minutos.”
“Estou nervoso”, disse Klaus, e logo se corrigiu. “Quero dizer, estou ansioso. Não gosto de deixar os Quagmire sozinhos lá embaixo.”
“Eu também estou ansiosa”, disse Violet, “mas a única coisa que podemos fazer agora é esperar. Se tirarmos o ferro do forno agora, não vai servir para nada depois que tivermos feito toda a descida até a jaula.”
Klaus e Sunny suspiraram, mas assentiram concordando com a irmã e se acomodaram para esperar até que os dispositivos de solda estivessem prontos e, enquanto esperavam, sentiram-se como se aquela cozinha em particular na cobertura dos Squalor estivesse sendo reformada bem na frente dos seus olhos. Quando os Baudelaire vasculharam o apartamento para ver se Gunther estava escondido lá, deixaram cair migalhas em uma variedade de quartos de dormir, salas de estar, salas de jantar, salas de café-da-manhã, salas de lanche, salas de sentar, salas de ficar em pé, banheiros, salões de baile e cozinhas, bem como naquelas salas que pareciam não ter nenhuma serventia, mas o único tipo de sala que faltava na cobertura dos Squalor era uma sala de espera. Salas de espera, como tenho certeza de que vocês sabem, são pequenas salas com uma porção de cadeiras para esperar, bem como pilhas de revistas velhas e chatas para ler e algumas pinturas insípidas – a palavra “insípidas” aqui significa “normalmente retratando cavalos num campo ou cachorrinhos numa cesta” – enquanto você aguenta o tédio que os médicos e dentistas infligem aos seus pacientes antes de fazê-los entrar para cutucá-los e picá-los e fazer todas aquelas coisas malvadas que essas pessoas são pagas para fazer. É muito raro alguém ter uma sala de espera em casa, porque nem mesmo uma casa tão enorme quanto a dos Squalor contém um consultório de médico ou dentista, e também porque as salas de espera são tão desinteressantes que você nunca ia querer uma no lugar onde mora. Os Baudelaire com certeza nunca tinham desejado que os Squalor tivessem uma sala de espera na sua cobertura, mas enquanto ficavam sentados aguardando que a invenção de Violet ficasse pronta para o uso, sentiram-se como se as salas de espera de repente estivessem in e Esmé tivesse mandado construir uma bem ali na cozinha. Os armários da cozinha não tinham pinturas de cavalos num campo ou de cachorrinhos numa cesta, e não havia artigos de revistas velhas e chatas impressos no fogão azul-claro, mas enquanto as três crianças esperavam que os objetos de ferro se tornassem amarelos e depois cor de laranja e depois vermelhos à medida que ficavam cada vez mais quentes, elas sentiram o mesmo nervosismo incômodo que sentiam quando estavam aguardando ser atendidas por um profissional médico treinado.
Mas por fim os atiçadores de fogo ficaram brancos de quentes e prontos para a sua missão nas grossas barras de ferro da jaula. Violet entregou uma luva térmica para cada um dos irmãos e depois colocou a terceira na sua própria mão para remover cautelosamente os atiçadores do forno.
“Segurem com muito, muito cuidado”, disse ela, entregando um soldador ersatz para cada um dos seus irmãos. “Eles estão suficientemente quentes para derreter metal, então imaginem só o que poderão fazer se encostarem em nós. Mas tenho certeza de que daremos um jeito.”
“Desta vez será mais difícil descer”, disse Klaus, acompanhando as irmãs para a porta da frente da cobertura. Estava segurando o seu atiçador apontado para cima, como se fosse uma tocha e não um soldador, de olho na parte que estava branca de tão quente, para que ela não esbarrasse em nada nem em ninguém. “Cada um de nós terá de ficar com uma das mãos livre para segurar o atiçador. Mas tenho certeza de que conseguiremos.”
“Zelestim”, disse Sunny quando as crianças chegaram às portas deslizantes do elevador ersatz. Ela estava querendo dizer alguma coisa no gênero de “Vai ser assustador ter de descer por aquela passagem horrível de novo”, mas depois de dizer “Zelestim” ela acrescentou a palavra “Enipi”, que significava “Mas tenho certeza de que conseguiremos”, e a mais nova dos Baudelaire tinha tanta certeza disso quanto os irmãos.
As três crianças estavam em pé à beira da passagem escura, mas não pararam para pegar coragem, como fizeram antes da sua primeira descida pelo poço cavernoso. Seus soldadores estavam quentes, como dissera Violet, e a descida seria difícil, como dissera Klaus, e a subida seria aterrorizante, como dissera Sunny, mas os irmãos se entreolharam e tiveram certeza de que conseguiriam. Os trigêmeos Quagmire contavam com eles, e os órfãos Baudelaire estavam seguros de que esta única esperança ia dar certo, afinal.

3 comentários:

  1. Tem q dar certo

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  2. Suspeito que não dará certo, que o Conde Olaf já pegou os trigêmeos =/

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  3. Eu acho q provavelmente não vai funcionar, o narrador falou que de nada adiantaria eles entrarem no elevador, então acho q eles nao vão conseguir... :´(

    Giovanna

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