11 de agosto de 2016

Capítulo oito


O quê?”, perguntou Isadora.
“Eu disse: 'Finalmente, quando o sol nasceu, o instrutor Genghis mandou que parássemos de dar voltas e nos deixou ir dormir'“, disse Klaus.
“Minha irmã não quis dizer que não havia escutado”, explicou Duncan. “Ela quis dizer que escutou mas não acreditou que tivesse escutado aquilo mesmo. E, para dizer a verdade, também custo a crer, apesar de ter visto com meus próprios olhos.”
“Nem eu consigo acreditar”, disse Violet franzindo a cara enquanto beliscava um naco da salada que os atendentes mascarados haviam servido como almoço. Era a tarde seguinte ao encontro, e os três órfãos Baudelaire estavam fazendo milhões de caretas, ou seja, franzindo a cara a toda hora num reflexo de susto, ou de medo, ou de sofrimento. Quando o instrutor Genghis dera o nome de D.O.R. às atividades da noite anterior, estava apenas abreviando “Disciplina para Órfãos Rápidos”, mas as três crianças acharam que D.O.R. tinha mais a ver com aqueles exercícios do que o nome oficial. Depois de uma noite inteira de D.O.R., passaram o dia todo sentindo dores no corpo. As pernas doíam por causa do tanto que correram. Quando enfim se recolheram ao Barraco dos Órfãos para dormir, o cansaço impediu que calçassem os sapatos barulhentos, e por isso tiveram os dedos dos pés feridos pelas pinças dos minúsculos caranguejos obsessivamente apegados ao território. E a cabeça também lhes doía, e não era só dor de cabeça como as provocadas por noites mal dormidas; era dor de cabeça por estarem incessantemente especulando qual teria sido a intenção do instrutor Genghis ao obrigá-los a correr aquelas voltas todas. As pernas doíam, os dedos dos pés doíam, a cabeça doía, e logo os músculos da boca também começaram a doer de tanto que franziram o rosto fazendo caretas.
Era hora do almoço, e as três crianças comentavam os acontecimentos da noite anterior com os trigêmeos Quagmire, que não sentiam aquelas dores, muito menos o cansaço que os abatia. Isso porque haviam ficado escondidos atrás do arco de pedra, de olho em Genghis e nos Baudelaire, em vez de correrem todas aquelas voltas em torno do círculo fosforescente. E também porque os Quagmire haviam feito a vigilância em turnos. Depois de os Baudelaire terem corrido as primeiras voltas e os amigos perceberem não haver sinal algum de que iriam parar, os dois trigêmeos resolveram alternar-se no posto, Duncan dormiu e Isadora vigiou, ou Duncan vigiou e Isadora dormiu. Os dois irmãos tinham combinado que o vigilante acordaria o adormecido se percebesse alguma coisa de anormal durante o seu turno.
“O último turno foi meu”, explicou Duncan, “de modo que minha irmã não presenciou o final de D.O.R. Mas não importa. Tudo o que aconteceu foi: o instrutor Genghis mandou que vocês parassem de correr e fossem dormir. Pensei que ele fosse insistir em ficar com a fortuna de vocês antes de permitir que parassem.”
“E eu pensei que o círculo fosforescente fosse servir como pista de pouso para algum helicóptero”, disse Isadora, “um helicóptero pilotado por um ajudante de Genghis, que aterrissaria e em seguida fugiria levando vocês. A única coisa que eu não conseguia entender era por que vocês precisavam correr todas aquelas voltas antes de o helicóptero aparecer.”
“Mas nenhum helicóptero apareceu”, disse Klaus, bebendo um gole d'água e franzindo o rosto. “Não apareceu nada.”
“Quem sabe o piloto perdeu o rumo”, disse Isadora.
“Ou talvez o instrutor Genghis tenha ficado tão cansado quanto vocês e tenha esquecido de exigir a fortuna”, disse Duncan.
Violet balançou sua cabeça dolorida. “Por maior que fosse o cansaço, ele jamais desistiria de pôr a mão em nossa fortuna”, disse ela. “Que ele está a fim de aprontar alguma, disso não há a menor dúvida, só não consigo imaginar o que possa ser.”
“Claro que não consegue imaginar”, disse Duncan. “Você está exausta. Ainda bem que Isadora e eu tivemos a ideia de nos revezar em turnos. Vamos usar todo o nosso tempo de folga para investigar. Vamos folhear todas as nossas anotações, e fazer mais alguma pesquisa na biblioteca. Tem que haver alguma coisa que nos ajude a descobrir.”
“Também vou pesquisar”, disse Klaus, bocejando. “Isso eu sei fazer bem.”
“Não resta dúvida”, disse Isadora, sorrindo. “Mas não hoje, Klaus. Nós vamos nos empenhar em descobrir o plano de Genghis, e vocês três podem aproveitar para pôr o sono em dia. Você está muito cansado para fazer algo que valha a pena numa biblioteca ou seja onde for.”
Violet e Klaus olharam para a cara cansada um do outro, e depois para a irmãzinha bebê, e viram que os trigêmeos Quagmire tinham razão. Violet estava tão cansada que se limitara a tomar umas poucas notas sobre as histórias tediosas do sr. Remora. Klaus estava tão cansado que errara nas medidas de quase todos os objetos trazidos pela sra. Bass. E, embora Sunny não houvesse contado o que fizera aquela manhã no gabinete de Nero, provavelmente não deve ter realizado um bom serviço como assistente administrativa, porque caiu no sono ali mesmo no refeitório, sua cabecinha tombando sobre a salada como se as verduras fossem um travesseiro macio em vez de folhas de alface, fatias de tomate, molho de mostarda e uns poucos croutons (que são cubinhos de torrada que dão ao prato um crocante especial). Violet gentilmente tirou a cabeça da irmã do meio da salada e expulsou alguns croutons que tinham aderido aos cabelos. Sunny fez uma careta, com um gemido meio fraco, e retomou o sono no colo de Violet.
“Talvez você tenha razão, Isadora”, disse Violet. “O jeito é levar esta tarde meio aos trancos e barrancos, depois, à noite, tentar um bom sono. Se tivermos sorte, hoje o vice-diretor Nero toca uma peça tranquila no concerto e a gente consegue dormir também durante o recital.”
Só por essa última frase vocês já podem ter uma ideia de como Violet estava realmente cansada, porque “Se tivermos sorte” não é uma frase que nem ela nem os irmãos usavam com frequência. Por motivos óbvios: os órfãos Baudelaire não tinham sorte. Eram espertos, sim. Encantadores, sim. Capazes de sobreviver a situações difíceis, sim. Porém não eram crianças “de sorte”, de modo que jamais usariam a frase “Se tivermos sorte”, assim como jamais diriam “Se nos tornarmos talos de aipo”, por não serem, nem uma nem outra, frases apropriadas. Se houvessem se tornado talos de aipo, não teriam sido crianças aflitas, e se houvessem tido sorte, Carmelita Spats não teria se aproximado da mesa, como fez naquele exato momento, e transmitido mais uma mensagem infeliz.
“Olá, seus bisbórrias”, disse ela, “se bem que, a julgar pela pirralhinha, 'fuçadores-de-saladas' talvez caia melhor como apelido, não sei. Tenho outra mensagem, outro recado, do instrutor Genghis. Ele me escolheu como Mensageira Especial por ser a garota mais engraçadinha, mais bonitinha e mais simpática de todo o colégio.”
“Se você fosse de fato a pessoa mais simpática de todo o colégio”, disse Isadora, “não estaria fazendo troça de um bebê com sono. Mas, deixa pra lá. Qual é o recado?”
“Na verdade, é o mesmo da última vez”, disse Carmelita, “mas repetirei caso vocês sejam estúpidos demais para se lembrar. Os três órfãos Baudelaire devem comparecer ao gramado da frente, logo depois do jantar.”
“O quê?”, perguntou Klaus.
“Vocês também são surdos, além de bisbórrias?”, perguntou Carmelita. “Eu disse...”
“Sim, sim, Klaus ouviu o que você disse”, Violet apressou-se em dizer. “Não foi esse tipo de 'O quê?' que ele perguntou. Você já nos deu o recado, Carmelita. Agora, por favor, vá embora.”
“Com esta, são duas gratificações que vocês me devem”, Carmelita disse, mas foi dizendo e sumindo na mesma hora.
“Não posso acreditar”, disse Violet. “Mais voltas! Minhas pernas doem demais só de andar, imagine correr!”
“Carmelita não falou de mais voltas”, observou Duncan. “Talvez o instrutor Genghis vá pôr em pratica o verdadeiro plano hoje à noite. Seja como for, tornaremos a escapulir do recital e de novo ficaremos de olho em vocês.”
“Revezando-nos em turnos”, acrescentou Isadora, concordando. “E aposto que então já teremos uma ideia clara de qual é o plano dele. Temos o resto do dia para pesquisar.” Isadora fez uma pausa e abriu o caderno de capa preta na página certa. Leu:

“Baudelaire, não se aflijam, já, já tudo muda
Quando os trigêmeos derem sua ajuda.”

“Obrigado”, disse Klaus, dirigindo a Isadora um sorriso cansado, de agradecimento. “Minhas irmãs e eu somos muito gratos pelo apoio de vocês. E vamos pôr nossas cabeças para trabalhar, ainda que estejamos cansados demais para uma pesquisa. Se tivermos sorte, com todos trabalhando juntos, poderemos vencer o instrutor Genghis.”
Lá estava mais uma vez aquela frase, “Se tivermos sorte”, saindo da boca de um Baudelaire, e mais uma vez parecia tão apropriada quanto “Se nos tornarmos talos de aipo”. A única diferença era que os órfãos Baudelaire não desejavam se tornar talos de aipo. Mesmo sendo verdade que se fossem talos de aipo não seriam órfãos porque aipo é uma planta e dele não se pode dizer que tenha pais, Violet, Klaus e Sunny não tinham a menor vontade de tornar-se uma erva fibrosa de baixa caloria. Infortúnios podem acontecer tanto ao aipo como a crianças. O aipo pode ser fatiado em pequenos pedaços e mergulhado em molho de mexilhões em festas requintadas. Pode ser coberto com pasta de amendoim e servido como tira-gosto. Pode simplesmente ser deixado no campo até apodrecer, caso os plantadores de aipo da região sejam preguiçosos ou estejam em férias. Todas essas coisas terríveis podem acontecer ao aipo, e os órfãos bem o sabiam, de modo que, se perguntassem aos Baudelaire se queriam ser talos de aipo, só poderia haver uma resposta: claro que não. Mas eles queriam ter sorte. Os Baudelaire não exigiam ser supersortudos, como alguém que num concurso ganha uma provisão de sorvete para toda a vida, ou como o homem – e, infelizmente, não foi o meu caso – que era tão sortudo que se casou com minha amada e viveu feliz com ela enquanto durou a curta vida da estimada Beatrice. Entretanto os Baudelaire desejavam ter uma sorte pelo menos razoável. Razoável a ponto de lhes permitir escapar das garras do instrutor Genghis, e a única chance – tudo levava a crer – dependia de ter essa sorte. Violet estava cansada demais para inventar o que quer que fosse, e Klaus cansado demais para ler o que quer que fosse, e Sunny, ainda adormecida no colo de Violet, cansada demais para morder o que ou quem quer que fosse. Tudo levava a crer que, mesmo com a dedicação dos trigêmeos Quagmire – entendam “dedicação” aqui como “capacidade de fazer boas anotações em cadernos com capa verde-vivo e negro como breu” –, eles precisavam ter sorte se quisessem continuar vivos. Como se no refeitório fizesse um frio tremendo, os Baudelaire estavam bem agarradinhos uns aos outros, os rostos franzidos de dor e preocupação. Os órfãos Baudelaire tinham a impressão de que jamais em toda a vida haviam desejado tanto um pouquinho de sorte.

Um comentário:

  1. Pior q nem eu to conseguindo pensar em um jeito deles sairem dessas

    Coitada da Sunny como alguem tem coragem de fazer isso com um bb

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