4 de agosto de 2016

Capítulo oito


Quando a língua de alguém está inchada por causa de uma reação alérgica, muitas vezes é difícil entender o que ele diz.
“Blá blá blá blá blá”, disse Klaus, quando as três crianças saíram do táxi e se dirigiram para a porta branca com a pintura descascando da casa de tia Josephine.
“Não consigo entender o que você diz”, disse Violet, coçando o pescoço, que tinha uma placa cujo formato era idêntico ao do estado do Amazonas.
“Blá blá blá blá blá”, repetiu Klaus, ou talvez já estivesse dizendo outra coisa; não tenho a menor ideia.
“Deixa pra lá, deixa pra lá”, disse Violet, abrindo a porta e introduzindo os irmãos na casa. “Agora você tem o tempo que precisa para descobrir o que quer que esteja descobrindo.”
“Blá blá blá”, blablablou Klaus.
“Continuo sem conseguir entender o que você diz”, disse Violet. Tirou o casaco de Sunny, depois o dela, e jogou ambos no chão. Normalmente, é claro, devemos pendurar o casaco num cabide ou num armário, mas placas que coçam são muito irritantes e tendem a nos fazer desistir desses procedimentos. “Vou fazer de conta, Klaus, que você concordou comigo. Agora, se você não precisa da nossa ajuda, vou preparar um banho com bicarbonato de sódio para Sunny e para mim a fim de dar um jeito nestas placas.”
“Blá!”, gritou Sunny. Mas o que queria gritar mesmo era “Gans!”, que queria dizer: “Ainda bem, porque minhas placas estão me deixando maluca!”, ou algo do gênero.
“Blá!”, disse Klaus, assentindo com a cabeça vigorosamente, e disparou pelo corredor. Klaus não tinha tirado o casaco, mas não era por causa do seu estado alérgico, e sim porque estava indo para um lugar frio.
Quando Klaus abriu a porta da biblioteca, surpreendeu-se com as mudanças que ela havia sofrido. O vento provocado pela aproximação do furacão arrancara o que tinha sobrado do vidro da janela, e a chuva encharcara algumas das confortáveis poltronas de tia Josephine, deixando nelas manchas escuras que continuavam a crescer. Alguns livros haviam caído das estantes, e o vento os arrastara para a janela, onde foram engolidos pelo aguaceiro. Poucas visões são tão entristecedoras quanto a de um livro estragado, mas Klaus não tinha tempo para ficar triste. Sabia que o capitão Sham viria buscar os Baudelaire o mais depressa possível, portanto precisava entrar em ação rapidamente. Primeiro tirou do bolso o bilhete de tia Josephine e o pôs em cima da mesa, firmando-o sob o peso de alguns livros para que não fosse levado pelo vento. Depois foi até as estantes e procurou entre os volumes dispostos nas prateleiras. Escolheu três: Reflexões sobre a língua, Novas reflexões sobre a língua e Grafia correta de toda e qualquer palavra existente na língua em todos os tempos. Cada um dos livros era grande como uma melancia, e Klaus cambaleou ao carregar os três. Com um estrondoso tump!, deixou-os cair sobre a mesa.
“Blá blá blá, blá blá blá blá”, murmurou consigo mesmo, e logo descobriu uma caneta e se pôs a trabalhar.
Uma biblioteca é normalmente um ótimo lugar para se trabalhar à tarde, mas não se a vidraça da janela tiver sido arrebentada e um furacão estiver para chegar. O vento soprava cada vez mais frio, e chovia cada vez mais forte, e a sala se tornava cada vez mais desagradável. Mas Klaus não se importava com nada disso. Abriu todos os livros e fez copiosas – a palavra copiosas significa aqui “uma porção de” – anotações, detendo-se vez por outra para traçar um círculo em torno de alguma parte do que tia Josephine havia escrito. Lá fora começou a trovejar, e a cada série de trovoadas a casa inteira tremia, no entanto Klaus continuava folheando os livros e escrevendo coisas. Até que os raios começaram a riscar o céu, e ele olhou fixo para o bilhete por um bom tempo, franzindo a testa deliberadamente. Por fim, escreveu uma palavra na parte de baixo do bilhete de tia Josephine, de tal modo concentrado em seus pensamentos, que quando Violet e Sunny entraram na biblioteca e o chamaram, faltou pouco para ele pular da cadeira.
“Blá susto!”, gritou ele, com o coração batendo forte e a língua um pouco menos inchada.
“Desculpe”, disse Violet. “Não queria assustá-lo.”
“Blá blá banho com bicarbonato blá?”, perguntou ele.
“Não”, respondeu Violet. “Não conseguimos tomar banho com bicarbonato de sódio. Tia Josephine não tinha bicarbonato de sódio, porque ela nunca assava bolo. Tomamos um banho simples mesmo. Mas isso não importa, Klaus. O que foi que você ficou fazendo nesta sala depois que ela se transformou num congelador? Por que traçou todos esses círculos no bilhete de tia Josephine?”
“Blablando ortografia”, respondeu ele, apontando para os livros.
“Blá?”, gritou Sunny, provavelmente querendo dizer: “Glá?”, que significava: “Por que você perde esse tempo valioso estudando ortografia?”, ou algo do gênero.
“Blorque”, explicou Klaus, impaciente, “acho que blá Josephine deixou uma mensagem para nós no blá bilhete.”
“Ela estava infeliz e se atirou pela janela”, disse Violet, tremendo por causa do vento frio. “Que outra mensagem poderia haver no bilhete?”
“Há muitos erros de ortografia no blá”, disse Klaus. “E tia Josephine adorava gramática, não seria capaz de cometer tantos erros nunca, a não ser que tivesse um blá motivo. Foi por isso que anotei blá os erros de ortografia.”
“Blá”, disse Sunny, querendo dizer: “Por favor, continue, Klaus”, ou algo do gênero.
Klaus enxugou uns pingos de chuva que haviam caído nos óculos dele e baixou os olhos para ler suas anotações. “Bem, já sabemos que blá na primeira frase tem aquele erro – própio em vez de próprio. Acho que isso foi para chamar nossa atenção. Mas vejam a segunda blase: ‘Meu coração está frio como Belo, e a vida para mim tornou-se repussiva’.”
“O correto é repulsiva com L e S”, disse Violet. “Isso você já disse.”
“Blá acho que tem mais uma coisa nessa frase”, disse Klaus. “‘Meu coração está frio como Belo’ não me soa bem. Lembram que tia Josephine contou para blá que gostava de pensar que o marido dela estava num lugar muito quente?”
“É verdade”, disse Violet, lembrando. “Ela disse isso aqui mesmo, nesta sala. Ela disse que Belo gostava dos raios do sol e que por isso o imaginava em algum lugar ensolarado.”
“É por isso que eu acho que tia Blosephine quis dizer ‘frio como gelo”, disse Klaus.
“Tudo bem. Então, temos próprio, gelo e repulsiva. Para mim, isso não quer dizer nada”, disse Violet.
“Para mim também não”, disse Klaus. “Mas veja o que blá depois: ‘Sei que, como crianças, não podem compreender o coração urlulante...’ Vi no Grafia correta de toda e qualquer palavra etc. etc. que o certo é ululante, e significa ‘que grita de aflição e de dor’.”
“Seu próprio fim, frio como gelo”, disse Violet, contando nos dedos, “vida repulsiva, coração ululante. Meio insatisfatório como mensagem, Klaus.”
“Deixe-me terminar”, disse Klaus. “Descobri outros erros de ortoblafia. Logo depois de ‘coração urlulante’, vem ‘tristre viúva’. Nem é preciso consultar um livro para saber que o correto é triste. E, quanto a ‘um acto tão desesperado’, Reflexões sobre a língua diz que já se escreveu assim mas não se escreve mais: agora se escreve ato.”
“Cói!”, gritou Sunny, o que queria dizer: “Estou ficando tonta de pensar em tudo isso!”.
“Eu também, Sunny”, disse Violet, erguendo a irmã para que ela pudesse sentar na mesa. “Mas vamos deixar que ele termine.”
“Blá terminei”, disse Klaus.
“Mas e daí?”, perguntou Violet. “O que significam todos esses erros?”
Klaus sorriu e mostrou para as irmãs a palavra que ele havia escrito na parte de baixo do bilhete. “PGRUTA”, leu em voz alta.
“Uquim?”, perguntou Sunny, querendo dizer: “O que?”.
“PGRUTA”, repetiu Klaus. “Se juntarem todas as letras iniciais das palavras que contêm erros de ortografia, elas formam esse nome. Vejam: P de próprio, própio no bilhete; G de gelo, Belo no bilhete; R de repulsiva, repussiva no bilhete; U de ululante, urlulante no bilhete; T de triste, tristre no bilhete; A de ato, acto no bilhete. Essas letras formam PGRUTA. Percebem? Tia Josephine sabia que estava cometendo erros de ortografia e que nós iríamos descobri-los. Ela estava deixando uma mensagem, e a mensagem é PGRU...”
Uma forte rajada de vento interrompeu Klaus, penetrando pela janela arrebentada, sacudindo a biblioteca e fazendo portas e portinholas matraquearem sob seu impacto devastador. Poltronas e pufes foram revirados, ficando de pernas para o ar. As estantes balançaram tanto que alguns dos livros mais pesados da coleção de tia Josephine giraram no ar e se precipitaram nas poças d’água formadas pela chuva no assoalho. Os próprios Baudelaire foram atirados violentamente no chão quando um raio riscou o céu quase escuro.
“Vamos sair daqui!”, gritou Violet, mais alto que as trovoadas, e puxou Klaus e Sunny pelas mãos. O vento soprava com tal furor que parecia que os Baudelaire estavam escalando uma enorme montanha, em vez de estarem simplesmente andando até a porta da biblioteca. Os órfãos tinham perdido completamente o fôlego quando conseguiram fechar a porta e encararam, trêmulos, o corredor.
“Coitada da tia Josephine”, disse Violet. “Sua biblioteca desmoronou.”
“Mas eu tenho que voltar lá”, disse Klaus, mostrando o bilhete. “Acabamos de descobrir o código usado por tia Josephine em sua mensagem e a palavra que ela quis formar; agora precisamos procurar o significado de PGRUTA, e isso só consultando livros na biblioteca.”
“Não nessa biblioteca”, observou Violet. “Tudo o que havia nessa biblioteca eram livros de gramática. Temos que procurar nos livros da tia Josephine sobre o Lago Lacrimoso.”
“Por quê?”, perguntou Klaus.
“Porque sou capaz de apostar qualquer coisa que essa PGRUTA tem a ver com o Lago Lacrimoso”, disse Violet. “Lembram quando ela disse que conhecia todas as ilhas em meio às suas águas e todas as grutas ao longo de suas margens? Aposto que essa PGRUTA é uma das tais grutas.”
“Mas por que sua mensagem secreta seria sobre uma gruta?”, perguntou Klaus.
“Você ficou tão absorvido em decifrar a mensagem”, disse Violet, “que não parou para pensar no que ela significa. Tia Josephine não morreu. Apenas quer que as pessoas pensem que ela morreu. Mas para nós, especial e exclusivamente, ela quis contar que estava escondida. Temos que encontrar seus livros sobre o Lago Lacrimoso e descobrir onde fica essa PGRUTA.”
“Mas primeiro precisamos saber onde estão os livros”, disse Klaus. “Ela nos contou que tinha resolvido evitá-los, lembram?”
Sunny gritou qualquer coisa para dizer que estava de acordo, mas seus irmãos não conseguiram escutá-la por causa de uma forte trovoada.
“Vejamos”, disse Violet. “Onde vocês esconderiam uma coisa que não quisessem ver nunca mais?”
Os órfãos ficaram em silêncio, pensando nos lugares onde haviam escondido coisas que não queriam mais ver, no tempo em que moravam com os pais no lar dos Baudelaire. Violet pensou numa gaita automática que tinha inventado e que produzia sons tão detestáveis que ela precisou escondê-la para esquecer seu fracasso. Klaus pensou num livro sobre a Guerra Franco-Prussiana que era tão difícil, mas tão difícil, que só mesmo o escondendo ele apagaria da lembrança o fato de ainda não ter idade para lê-lo. E Sunny pensou numa lasca de pedra que, por ser dura demais até para o mais afiado de seus dentes, teve de esconder para não sentir mais as dores no queixo que sentia toda vez (e foram muitas) que tentava derrotá-la. E todos os três órfãos Baudelaire lembravam muito bem o lugar que escolheram para esconderijo.
“Debaixo da cama”, disse Violet.
“Debaixo da cama”, concordou Klaus.
“Sicsic”, concordou Sunny, e sem mais nenhuma palavra as três crianças saíram em disparada pelo corredor em direção ao quarto de tia Josephine.
A boa educação determina que não se deve entrar no quarto de uma pessoa sem bater na porta, mas pode-se abrir uma exceção no caso de a pessoa ter morrido ou ter fingido que morreu, e foi o que os Baudelaire fizeram. O quarto de tia Josephine era semelhante ao dos órfãos, com uma colcha azul-marinho na cama e uma pilha de latas num canto. Havia uma janelinha que dava para o morro alagado pela chuva e, junto à cabeceira da cama, uma pilha de livros novos de gramática que tia Josephine ainda não tinha começado a ler e que, lamento dizer, não leria nunca. Mas a única parte do quarto que interessava às crianças era debaixo da cama, e as três ajoelharam no chão para dar uma espiada.
Aparentemente, tia Josephine tinha uma porção de coisas que desejara nunca mais ver. Debaixo da cama havia panelas e caçarolas que ela não queria mais ver porque lhe lembravam o fogão. Havia meias feias demais que alguém lhe dera de presente e que desafiavam o senso estético de qualquer olho humano. E os Baudelaire ficaram tristes ao olhar para uma fotografia emoldurada de um homem simpático com um punhado de bolachas numa das mãos e os lábios franzidos e espichados como se ele estivesse assobiando. Era Belo, e os Baudelaire entenderam que ela pusera o retrato ali porque olhar para ele lhe dava uma tristeza muito grande. Por fim, atrás de uma das panelas maiores, havia uma pilha de livros, e os órfãos imediatamente a trouxeram para junto de si.
Fluxos e refluxos do Lago Lacrimoso’, disse Violet, lendo o título do volume que estava em cima de todos. “Este não vai ajudar.”
O fundo do Lago Lacrimoso’, disse Klaus, lendo a lombada logo abaixo. “Também não serve.”
A truta do Lago Lacrimoso’, leu Violet.
História da região do Cais de Dâmocles”, leu Klaus.
Ivan Lacrimoso, o Explorador do Lago”, leu Violet.
Do que é feita a água’, leu Klaus.
Atlas do Lago Lacrimoso’, disse Violet.
“Atlas? Perfeito!”, exclamou Klaus. “Um atlas é um livro com uma coleção de mapas.”
Houve um clarão do lado de fora da janela, e a chuva apertou: os pingos pareciam bolas de gude caindo no telhado. Sem dizer nada, os Baudelaire abriram o atlas e começaram a folheá-lo. Percorreram vários mapas do lago e não conseguiram encontrar a PGRUTA.
“Este livro tem quatrocentas e setenta e oito páginas!”, exclamou Klaus, dando uma olhada na última página do atlas. “Vai levar uma eternidade para localizarmos a PGRUTA.”
“Não temos uma eternidade à nossa disposição”, disse Violet. “O capitão Sham já deve estar vindo para cá. Procure pela letra P no índice do final do livro. Olhe bem, porque esse P pode ser uma abreviatura, e então estará escrito P. GRUTA.”
Klaus foi direto ao índice, que, tenho certeza, vocês sabem que é uma lista de todas as coisas que o livro contém, com as páginas em que aparecem. Com a ponta do dedo ele começou a percorrer, de alto a baixo, a lista de palavras iniciadas por P, e logo topou com “‘P’, Gruta do”. “Achei! Gruta do ‘P’, página 104.” Mais que depressa, Klaus folheou o livro até a página indicada e examinou o mapa detalhado. “Gruta do ‘P’, Gruta do ‘P’, vejamos... Onde está?”
“Aqui, olha!” Violet mostrou com um dedo no mapa um pontinho onde estava escrito GRUTA DO “P”. “Atravessando diretamente para o outro lado do Cais de Dâmocles e bem a oeste do Farol Lavanda. Vamos lá.”
Vamos lá?”, repetiu Klaus, estranhando. “Mas como vamos atravessar o lago?”
“A barca nos leva”, disse Violet, indicando uma linha pontilhada no mapa. “Veja, a barca nos deixa no Farol Lavanda, e de lá podemos ir a pé.”
“E vamos andando até o Cais de Dâmocles com essa chuva?”, perguntou Klaus.
“Não temos escolha”, respondeu Violet. “Precisamos provar que tia Josephine continua viva, do contrário o capitão Sham vai nos levar com ele.”
“Espero que ela realmente continue...”, começou Klaus a dizer, mas se interrompeu e apontou para a janela. “Olhem!”
Violet e Sunny olharam. A janela do quarto de tia Josephine dava vista para o morro, e os órfãos viram uma das estacas metálicas com formato de patas de aranha que impediam a casa de tia Josephine de despencar e cair no lago. Mas também viram que aquela estaca tinha sofrido um sério impacto com a tempestade que acabara de se desencadear. Havia uma enorme marca de queimadura, sem dúvida produzida pelos raios, e o vento dobrara a estaca a ponto de ela se curvar de maneira pouco segura. Em meio à fúria da tempestade, os órfãos assistiam à luta da estaca para se manter presa ao morro.
“Tafca!”, gritou Sunny, querendo dizer: “Precisamos sair daqui já!”.
“Sunny tem razão”, disse Violet. “Pegue o atlas e vamos.”
Klaus pegou o Atlas do Lago Lacrimoso, sem querer nem imaginar o que estaria acontecendo se ainda estivessem folheando o livro e não houvessem olhado para a janela. Quando os garotos se levantaram, o vento alcançou seu auge, o que aqui quer dizer “balançou a casa e atirou com os três órfãos no chão”. Violet se chocou com um dos pés da cama e machucou o joelho. Klaus se chocou com o aquecedor frio e machucou o pé. E Sunny se chocou contra a pilha de latas e se machucou toda. O quarto parecia estar meio cambado quando os órfãos conseguiram se reerguer.
“Vamos!”, gritou Violet, e agarrou Sunny. Os órfãos dispararam pelo corredor em direção à porta da frente. Um pedaço do teto tinha desabado, e a água da chuva se derramava sobre o tapete, batendo em cheio nos órfãos quando eles passaram correndo. A casa foi sacudida mais uma vez, e as crianças tornaram a ir ao chão. A casa de tia Josephine começava a se desprender do morro. “Vamos!”, gritou Violet novamente, e os órfãos aos trancos e barrancos seguiram até a porta pelo corredor inclinado, escorregando em poças e também por conta de seus próprios pés amedrontados. Klaus foi o primeiro a alcançar a porta da frente, e a abriu com um safanão no exato momento em que a casa teve outro estremecimento, acompanhado de um rangido apavorador. “Vamos!”, gritou Violet mais uma vez, e os Baudelaire saíram se arrastando para o morro, bem abraçados para se proteger da chuva gelada. Tinham muito frio. Muito medo. Mas haviam escapado.
Vi muitas coisas surpreendentes ao longo da tumultuada história de minha vida. Vi séries de corredores construídos inteiramente de crânios humanos. Vi um vulcão entrar em erupção e despejar um mar de lava que avançava lentamente sobre uma pequena aldeia. Vi uma mulher que eu amava ser apanhada por uma águia enorme e ser levada para o ninho dessa ave no alto de uma montanha. Mesmo assim, não consigo imaginar o efeito da visão da casa de tia Josephine despencando e caindo no Lago Lacrimoso. Por minha pesquisa fiquei sabendo que as crianças olharam em pasmo silêncio a porta branca com a pintura descascando se fechar com estrondo e em seguida começar a se encolher, tal qual um pedaço de papel que amassássemos até fazer dele uma bola. Contaram-me que as crianças se abraçaram ainda mais forte depois que ouviram o ruído violento, de romper os tímpanos, de sua casa se soltando da encosta do morro. Mas não dá para dizer o que sentiram ao ver a construção inteira se precipitar morro abaixo, caindo e caindo, até ir se chocar com as águas escuras e tormentosas do lago.

3 comentários:

  1. "Poucas visões são tão entristecedoras quanto a de um livro estragado"
    Verdade
    Meus deuses, como essas crianças são inteligentes!

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  2. esse livro é o melhor <3

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  3. Sunny é a que mais se ferra! kkkkk Coitadinha...

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