25 de agosto de 2016

Capítulo nove


“Recazier?”, perguntou Sunny estupefata. A palavra “estupefata” aqui significa “perguntando a si mesma por que diabos Klaus queria tomar sopa de letrinhas em um momento como aquele”, e “Recazier?” aqui significa “Klaus, por que diabos você quer tomar sopa de letrinhas em um momento como este?
“Nós não vamos tomar a sopa”, disse Klaus passando uma das latas para Sunny. “Vamos despejar quase tudo na pia.”
“Pietrisycamollaviadelrechiotemexity”, disse Sunny, o que, como você provável- mente se recorda, significa alguma coisa na linha de: “Devo admitir que não tenho a mais pálida ideia do que está acontecendo”. Com essa, Sunny tinha dito isso três vezes no decorrer da sua vida, e estava começando a se perguntar se não era algo que ela iria dizer cada vez mais e mais, à medida que fosse ficando mais velha.
“Na última vez que você disse isso”, disse Klaus com um sorriso, “nós três estávamos tentando decifrar as páginas de caderno que os Quagmire deixaram para trás.” Ele segurou a página para que Sunny a visse e então apontou para as palavras “Ana Grama”. “Nós pensamos que este era o nome de alguém”, disse Klaus, “mas na verdade é uma espécie de código. Um anagrama é quando você mistura as letras de uma ou mais palavras para formar outra palavra ou palavras.”
“Ainda pietrisycamollaviadelrechiotemexity”, disse Sunny com um suspiro.
“Vou dar um exemplo”, disse Klaus. “É o exemplo que os Quagmire encontraram. Veja, na mesma página eles escreveram ‘Al Funcoot’. Este é o nome do homem que escreveu O casamento maravilhoso, a peça horrorosa da qual o conde Olaf nos forçou a participar.”
“Fu!”, disse Sunny, o que queria dizer: “Nem me lembre disso!”.
“Mas veja”, disse Klaus. “‘Al Funcoot’ tem exatamente as mesmas letras que ‘Count Olaf’, que é ‘conde Olaf’ em inglês. Olaf simplesmente reorganizou as letras do seu nome para esconder o fato de que foi ele quem realmente escreveu a peça sozinho. Percebe?”
“Phromein”, disse Sunny, o que queria dizer algo como: “Acho que estou entendendo, mas é difícil para alguém tão jovem como eu”.
“É difícil para mim também”, disse Klaus. “É por isso que a sopa de letrinhas vai ser útil. O conde Olaf usa anagramas quando quer esconder alguma coisa, e neste momento ele está escondendo a nossa irmã. Aposto que ela está em algum lugar nesta lista, mas o nome dela foi embaralhado. A sopa vai ajudar a desembaralhar.”
“Mas como?”, perguntou Sunny.
“É difícil decifrar anagramas se você não tem como ir mudando as letras de lugar”, disse Klaus. “Normalmente, cubos alfabéticos ou peças de jogo com letras seriam perfeitos, mas num aperto como este, o macarrão de letrinhas vai ter de servir. Agora abra uma lata de sopa, depressa.”
Sunny arreganhou um sorriso mostrando todos os seus dentes afiadíssimos e depois jogou a cabeça para baixo, em cima da lata de sopa, lembrando-se do dia em que aprendera a abrir latas sozinha. Não fazia tanto tempo assim, embora tivesse a sensação de que havia sido em um passado muito distante, pois acontecera antes de a mansão Baudelaire ser destruída no incêndio, quando a família inteira estava reunida e feliz. Era o aniversário da mãe dos Baudelaire, e ela estava dormindo até mais tarde, enquanto todo mundo preparava um bolo para ela. Violet estava batendo os ovos, a manteiga e o açúcar com um dispositivo de bater ovos, manteiga e açúcar que ela mesma inventara. Klaus estava peneirando a farinha com a canela, parando a cada poucos minutos para limpar os óculos. E o pai dos Baudelaire estava fazendo o seu famoso glacê de requeijão cremoso, o qual seria espalhado numa camada espessa em cima do bolo. Tudo estava indo muito bem até o momento em que o abridor de latas elétrico quebrou, e Violet não tinha as ferramentas apropriadas para consertá-lo. O pai dos Baudelaire precisava desesperadamente abrir uma lata de leite condensado para fazer o seu glacê e, por um instante, pareceu que o bolo estava arruinado. Mas Sunny, que estivera brincando em silêncio aquele tempo todo, disse a sua primeira palavra, “Morde”, e mordeu a lata, furando quatro buraquinhos para que o leite doce e espesso pudesse ser despejado. Os Baudelaire riram e aplaudiram, a mãe das crianças desceu as escadas, e daí em diante eles passaram a usar Sunny sempre que precisavam abrir latas de qualquer coisa, exceto beterrabas. Agora, enquanto ia mordendo ao longo da borda da lata de sopa de letrinhas, a mais jovem dos Baudelaire se perguntava se um de seus pais teria realmente sobrevivido ao incêndio, e se ela se atreveria a reavivar as esperanças só por causa de uma frase na página treze do dossiê Snicket. Sunny se perguntava se a família Baudelaire voltaria a se reunir algum dia, rindo, batendo palmas e trabalhando unida para fazer algo doce e delicioso.
“Feito”, disse Sunny por fim.
“Bom trabalho, Sunny”, disse Klaus. “Agora vamos tentar encontrar as letrinhas que formam o nome de Violet.”
“V?”, perguntou Sunny.
“Certo”, disse Klaus. “V-I-O-L-E-T-B-A-U-D-E-L-A-I-R-E.”
Os dois Baudelaire mais jovens enfiaram a mão na lata de sopa e começaram a remexer no meio dos cubinhos de cenoura, aipo picado, batatas escaldadas, pimentões assados e ervilhas no vapor, tudo isso dentro de um caldo rico e cremoso feito segundo uma receita secreta de ervas e especiarias, para encontrar os macarrõezinhos de que precisavam. A sopa estava fria de ficar tantos meses guardada no closet, e por isso, quando ocasionalmente eles achavam a letra certa, ela se desfazia em pedaços ou escapulia dos seus dedos melados de volta para a lata, mas até que não demorou tanto assim para que encontrassem um V, um I, um O, um L, um E, um T, um B, um A, um U, um D, um E, outro L, outro A, outro I, um R, e um pedaço de cenoura, que decidiram usar no lugar de um terceiro E, que não foi encontrado.
“Agora”, disse Klaus depois que eles espalharam todas as letras em cima de outra lata para que pudessem movimentá-las, “vamos dar mais uma olhada na lista de pacientes. Mattathias anunciou que a operação teria lugar na Ala Cirúrgica, portanto vamos olhar naquela parte da lista e tentar ver se algum nome parece promissor.”
Sunny despejou o resto da sopa na pia e assentiu. Klaus encontrou rapidamente a seção da Ala Cirúrgica na lista e leu os nomes dos pacientes:

LISA N. LOOTNDAY
ALBERT E. DEVILOEIA
LINDA RHALDEEN
ADA O. UBERVILLET
ED VALIANTBRUE
LAURA V. BLEEDIOTIE
MONTY KENSICLE
NED H. RIRGER
ERIQ BLUTHETTS
RUTH DÉRCROUMP
AL BRISNOW
CARRIE E. ABELABUDITE

“Céus!” disse Klaus. “Todos os pacientes desta lista têm nomes que parecem anagramas. De que jeito vamos conferir todos esses nomes antes que seja tarde demais?”
“V!”, disse Sunny.
“Você tem razão”, concordou Klaus. “Qualquer nome que não tenha um V, em algum lugar, não pode ser anagrama de ‘Violet Baudelaire’. Podemos riscar esses nomes da lista. Isto é, se tivermos uma caneta.”
Pensativa, Sunny enfiou a mão dentro de um dos aventais brancos, perguntando-se o que os médicos costumam ter nos bolsos. Ela achou uma máscara cirúrgica, que é perfeita para cobrir o rosto de uma pessoa, e um par de luvas de borracha, que são perfeitas para proteger as mãos de uma pessoa, e bem no fundo do bolso ela encontrou uma caneta esferográfica, que é perfeita para riscar nomes que não são os anagramas que você procura. Com um sorriso, Sunny entregou a caneta a Klaus, que rapidamente riscou os nomes sem V. Agora a lista ficara com esta aparência:

LISA N. LOOTNDAY
ALBERT E. DEVILOEIA
LINDA RI IALDEEN
ADA O. UBERVILLET
ED VALIANTBRUE
LAURA V. BLEEDIOTIE
MONTY KENSICLE
NED II. RIRGER
ERIQ BLUTIIETTS
RUTII DERCROUMP
AL DRISNOW
CARRIE E. ADELADUDITE

“Isto torna as coisas muito mais fáceis”, disse Klaus. “Agora, vamos trocar a posição das letras do nome de Violet e ver se conseguimos escrever Albert E. Deviloeia.”
Com todo o cuidado para não quebrar as letrinhas de macarrão que ele e Sunny tinham tirado da sopa, Klaus começou a movê-las e logo percebeu que “Albert E. Deviloeia” e “Violet Baudelaire” não eram exatamente anagramas. Eram quase, mas não tinham exatamente as mesmas letras nos nomes.
“Albert E. Deviloeia deve ser um paciente real”, disse Klaus, desapontado. “Vamos tentar com ‘Ada O. Ubervillet’.”
Mais uma vez, o closet de suprimentos foi preenchido pelo som das letrinhas mudando de lugar, um som fraco e molhado que fazia as crianças pensarem em alguma coisa viscosa emergindo de um pântano. Era, porém, muito mais agradável do que o som que interrompeu a sua decifração de anagramas.
Atenção! Atenção!” A voz de Mattathias soou especialmente arrogante e desdenhosa ao pedir atenção pelo alto-falante quadrado acima das cabeças dos Baudelaire. “A Ala Cirúrgica será fechada agora para a craniectomia. Somente o dr. Flacutono e os seus parceiros estarão autorizados a entrar na ala, até que a paciente esteja morta... quero dizer, até que a operação tenha terminado. Isso é tudo.”
“Chispa!”, berrou Sunny.
“Eu sei que temos de correr!”, gritou Klaus. “Estou movendo estas letrinhas o mais depressa que posso! Ada O. Ubervillet’ também não dá certo!” Ele voltou-se novamente para a lista de pacientes para ver qual era o seguinte e, sem querer, bateu em uma letra com o cotovelo, derrubando-a no chão com um barulhinho molhado. Sunny a recolheu, mas com a queda ela se partira em dois pedaços. Em vez de O, os Baudelaire tinham agora dois parênteses.
“Tudo bem”, disse Klaus apressadamente. “O próximo nome da lista é ‘Ed Valiantbrue’, que não tem mesmo nenhum O.”
“O!”, gritou Sunny.
“O!”, concordou Klaus.
“O!”, insistiu Sunny.
“Oh!”, gritou Klaus. “Entendi o que você quer dizer! Se não tem nenhum O, então não pode ser um anagrama de ‘Violet Baudelaire’. Com isso, só resta um nome na lista: ‘Laura V. Bleediotie’. Deve ser o que estamos procurando.”
“Checa!”, disse Sunny, e prendeu a respiração enquanto Klaus movia as letrinhas de macarrão. Em poucos segundos, o nome da Baudelaire mais velha foi transformado em ‘Laura V. Bleediotie’, a não ser pelo O, cujos pedaços Sunny ainda segurava em seu minúsculo punho fechado, e pelo último E, que ainda era um pedaço de cenoura.
“É ela, sem dúvida”, disse Klaus com um sorriso de triunfo. “Encontramos Violet.”
“Asklu”, disse Sunny, o que queria dizer: “Nós nunca a teríamos encontrado se você não tivesse descoberto que Olaf estava usando anagramas”.
“Na verdade, foram os trigêmeos Quagmire que descobriram”, disse Klaus, erguendo a página do caderno, “e foi você que abriu as latas de sopa, o que tornou as coisas muito mais fáceis. Mas antes de nos congratularmos, vamos salvar a nossa irmã.” Klaus deu uma olhada na lista de pacientes. “Vamos encontrar a suposta Laura V. Bleediotie no quarto 922 da Ala Cirúrgica.”
“Gwito”, ressaltou Sunny, o que queria dizer: “Mas Mattathias fechou a Ala Cirúrgica”.
“Então teremos de abri-la”, disse Klaus soturnamente, e deu uma boa olhada no closet de suprimentos. “Vamos vestir um desses aventais brancos de médico”, disse ele. “Quem sabe, se ficarmos parecidos com médicos, poderemos entrar na ala. Podemos usar essas máscaras cirúrgicas que estão no bolso para esconder os nossos rostos, exatamente como fez o parceiro de Olaf na serraria.”
“Quagmire”, disse Sunny em tom de dúvida, o que queria dizer: “Quando os Quagmire usaram disfarces, eles não conseguiram enganar Olaf”.
“Mas quando Olaf usou disfarces”, disse Klaus, “ele conseguiu enganar todo mundo.”
“Nós”, disse Sunny.
“Menos nós”, concordou Klaus, “mas não temos de enganar a nós mesmos.”
“Verdade”, disse Sunny, e estendeu a mão para pegar dois aventais brancos. Como os médicos, na maioria, são adultos, os aventais brancos eram exageradamente grandes para as crianças, que se lembraram dos enormes ternos risca de giz que Esmé Squalor comprara para eles quando era sua tutora. Klaus ajudou Sunny a enrolar as mangas do avental e Sunny ajudou Klaus a amarrar a máscara no rosto, e em poucos instantes as crianças tinham acabado de vestir os seus disfarces.
“Vamos embora”, disse Klaus, e pôs a mão na porta do closet de suprimentos. Mas não a abriu. Em vez disso, voltou-se novamente para a irmã, e os dois Baudelaire se entreolharam. Muito embora os irmãos estivessem usando aventais brancos, e tivessem máscaras cirúrgicas encobrindo os rostos, eles não estavam parecidos com médicos. Seus disfarces pareciam espúrios, uma palavra que aqui significa “não os deixavam nem um pouco parecidos com médicos de verdade”, e no entanto, não eram mais espúrios do que os disfarces que Olaf vinha usando desde a sua primeira tentativa de roubar a fortuna dos Baudelaire. Klaus e Sunny se entreolharam, esperançosos de que os métodos de Olaf funcionassem para eles e os ajudassem a roubar a sua irmã, e sem mais palavra abriram a porta e saíram do closet de suprimentos.
“Dúvida?”, perguntou Sunny, o que queria dizer: “Mas como vamos achar a Ala Cirúrgica se os mapas deste hospital são tão confusos?”.
“Temos de achar alguém que esteja indo para lá”, disse Klaus. “Procurar alguém com cara de quem está a caminho da Ala Cirúrgica.”
“Silata”, disse Sunny. Ela queria dizer alguma coisa no gênero de: “Mas há tanta gente aqui”, e tinha razão. Muito embora os Combatentes pela Saúde do Cidadão não estivessem visíveis em lugar nenhum, os corredores do Hospital Heimlich estavam cheios de gente. Um hospital precisa de muitas pessoas diferentes e muitos tipos diferentes de equipamento para funcionar de modo apropriado, e enquanto tentavam encontrar a Ala Cirúrgica, Klaus e Sunny viram toda sorte de funcionários e dispositivos do hospital passando apressados pelos corredores. Havia clínicos carregando estetoscópios, com pressa de ouvir o coração das pessoas, e havia obstetras carregando bebês, com pressa de entregar os filhos aos pais. Havia radiologistas carregando máquinas de raios X, com pressa de ver as entranhas das pessoas, e havia oftalmologistas carregando tecnologia a laser, com pressa de ficar por dentro da visão das pessoas. Havia enfermeiras carregando seringas hipodérmicas, com pressa de dar injeções nas pessoas, e havia administradores carregando pranchetas, com pressa de pôr a papelada em dia. Mas não importa para onde os Baudelaire olhassem, não conseguiam ver ninguém com cara de estar com pressa de ir à Ala Cirúrgica.
“Não estou vendo nenhum cirurgião”, disse Klaus, em desespero.
“Peipix”, disse Sunny, o que queria dizer: “Nem eu”.
“Abram caminho, todo mundo!”, ordenou uma voz no final do corredor. “Sou a cirurgiã-assistente, levando equipamentos para o doutor Flacutono!”
Os outros funcionários do hospital pararam e abriram caminho para a pessoa que tinha falado, uma pessoa alta, usando avental branco de laboratório e máscara cirúrgica, que vinha vindo pelo corredor em passos estranhos e claudicantes.
“Preciso ir para a Ala Cirúrgica imediatamente!”, bradou a pessoa, passando pelos Baudelaire sem nem sequer dirigir-lhes um olhar. Mas Klaus e Sunny olharam para aquela pessoa. Eles viram, por baixo da barra do avental branco, o par de sapatos com saltos de estilete que aquela pessoa estava usando, e viram a bolsa em forma de olho que aquela pessoa estava segurando numa das mãos. As crianças viram o véu preto do chapéu daquela pessoa, caindo na frente da máscara cirúrgica, e viram borrões de batom que emergira dos lábios daquela pessoa, manchando a parte de baixo da máscara.
A pessoa, é claro, estava fingindo ser cirurgiã-assistente, e estava carregando uma coisa que fingia ser equipamento cirúrgico, mas as crianças não precisaram mais que um olhar rápido para enxergar os disfarces espúrios. Ao ver a pessoa que claudicava pelo corredor, os dois Baudelaire perceberam imediatamente que ela era, na verdade, Esmé Squalor, a vil namorada do conde Olaf. E ao ver a coisa que ela estava carregando, lampejando à luz do corredor do hospital, os dois Baudelaire perceberam que aquilo nada mais era que um grande facão enferrujado, com uma longa fileira de dentes de serra e simplesmente perfeita para uma craniectomia.

Um comentário:

  1. Como existe pessoas com tanta maldade:-(

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!