21 de agosto de 2016

Capítulo nove


Não existem muitas pessoas no mundo que apreciem ser portadoras de más notícias, mas lamento dizer que a sra. Morrow era uma delas. Quando avistou os órfãos Baudelaire reunidos em torno de Jacques, ela se apressou até pátio, para contar os detalhes.
“Esperem só até que O Pundonor Diário fique sabendo disto!”, disse ela entusiasticamente, e apontou para Jacques com a manga do seu robe cor-de-rosa. “Antes que ele pudesse ser queimado na fogueira, o conde Omar foi assassinado misteriosamente na sua cela.”
“Conde Olaf”, corrigiu Violet automaticamente.
“Então você finalmente admite que sabe quem é ele!”, exclamou ela, triunfante.
“Nós não sabemos quem é ele!”, insistiu Klaus, pegando no colo a sua irmã bebê, que estava começando a chorar baixinho. “Só sabemos que ele é um homem inocente!”
A oficial Luciana avançou batendo as botas pretas e a multidão de cidadãos se dividiu para deixá-la passar diretamente até as crianças. “Não acho que este seja um assunto para ser discutido por crianças”, disse ela, e ergueu no ar as suas mãos enluvadas de branco para chamar a atenção da multidão. “Cidadãos de C.S.C.”, disse ela solenemente, “eu tranquei o conde Olaf na cadeia central esta noite, e quando cheguei aqui pela manhã ele tinha sido morto. Estou com a única chave da cadeia, portanto a sua morte é um mistério e tanto.”
“Um mistério!”, disse a sra. Morrow alvoroçada, enquanto a multidão murmurava por trás dela. “Que delícia, adoro mistérios!”
“Choart!”, disse Sunny chorosa. Ela queria dizer algo como “Um homem morto não é uma delícia!”, mas só os seus irmãos estavam prestando atenção.
“Vocês todos ficarão felizes em saber que o famoso detetive Dupin aceitou investigar este assassinato”, continuou a oficial Luciana. “Ele está agora lá dentro da cadeia, examinando a cena do crime.”
“O famoso detetive Dupin!”, disse o sr. Lesko. “Imaginem só!”
“Nunca ouvi falar dele”, disse um Ancião que estava por perto.
“Nem eu”, admitiu o sr. Lesko, “mas tenho certeza de que ele é muito famoso.”
“O que aconteceu?”, perguntou Violet, tentando não olhar para o lençol branco no chão. “Como Jacques foi morto? Não havia ninguém de guarda? Como poderia alguém ter entrado na cela dele se você a trancou?”
Luciana voltou-se e encarou Violet, que pôde ver o seu próprio reflexo atônito refletido no lustroso capacete da policial. “Como eu já disse antes”, Luciana disse de novo, “não acho que este seja um assunto a ser discutido por crianças. Talvez aquele homem de macacão devesse levar vocês para um parquinho, em vez de uma cena do crime.”
“Ou para fazer as tarefas matinais na cidade baixa”, disse outro Ancião balançando o seu chapéu de corvo. “Hector, leve os órfãos embora.”
“Não tão depressa”, bradou uma voz vinda da porta da cadeia central. Era uma voz, lamento dizer, que os órfãos Baudelaire reconheceram na hora. A voz era roufenha, e estridente, e possuía um quê de sorriso sinistro, como se a pessoa que falava estivesse contando uma piada. Mas não era uma voz que desse às crianças vontade de rir como depois de uma fala cômica. Era uma voz que as crianças reconheceram de todos os lugares por onde viajaram desde que seus pais tinham morrido, e uma voz que as crianças conheciam de todos os mais desagradáveis pesadelos. Era a voz do conde Olaf.
Com o coração nas mãos, as crianças se voltaram para ver Olaf em pé na soleira da porta, usando mais um dos seus absurdos disfarces. Ele estava usando uma japona turquesa tão brilhantemente colorida que fez os Baudelaire apertarem os olhos, e um par de calças prateadas e ornamentadas com espelhinhos que reluziam ao sol da manhã. Um par de enormes óculos de sol cobriam toda a parte superior do seu rosto, escondendo a sobrancelha única e os olhos muito, muito brilhantes. Em seus pés havia um par de cintilantes sapatos de plástico verde com raios de plástico amarelo saindo deles, cobrindo os tornozelos e escondendo a sua tatuagem. Mas o mais desagradável de tudo era o fato de que Olaf estava sem camisa, usando só uma grossa corrente de ouro com uma insígnia de detetive no meio. Os Baudelaire podiam ver o seu peito pálido e peludo olhando furtivamente para eles, o que somava uma camada extra de mal-estar ao seu medo.
“Simplesmente não é legal”, disse o conde Olaf, estalando os dedos para enfatizar a palavra “legal”, “dispensar suspeitos da cena do crime antes que o detetive Dupin dê o seu ‘de acordo’“.
“Mas certamente os órfãos não são suspeitos”, disse um dos Anciãos. “Afinal, são apenas crianças.”
“Simplesmente não é legal”, disse o conde Olaf, estalando os dedos mais uma vez, “discordar do detetive Dupin.”
“Concordo”, disse a oficial Luciana, e deu um grande sorriso de batom para Olaf quando ele atravessou a porta. “Agora vamos ao que interessa, Dupin. Você tem alguma informação importante?”
Nós temos uma informação importante”, disse Klaus audaciosamente. “Este homem não é o detetive Dupin.” Ouviram-se alguns arquejos no meio da multidão. “Ele é o conde Olaf.”
“Você quer dizer conde Omar”, disse a sra. Morrow.
“Nós queremos dizer Olaf”, disse Violet, e depois voltou-se para encarar o conde Olaf diretamente nos óculos de sol. “Esses óculos de sol podem estar escondendo a sua sobrancelha, e esses sapatos podem estar escondendo a sua tatuagem, mas você não pode esconder a sua identidade. Você é o conde Olaf, e você raptou os trigêmeos Quagmire e assassinou Jacques.”
“Quem diabo é Jacques?”, perguntou um Ancião. “Estou confuso.”
“Não é legal”, disse Olaf com um estalar de dedos, “estar confuso, portanto deixe-me ver se posso ajudá-lo.” Ele apontou para si mesmo com um floreio. “Eu sou o detetive Dupin. Estou usando estes sapatos de plástico e estes óculos porque eles são legais. Conde Olaf é o nome do homem que foi assassinado na noite passada, e estas três crianças...” – e aqui o conde Olaf fez uma pausa para se certificar de que todos estavam ouvindo – “são responsáveis pelo crime.”
“Não seja ridículo, Olaf”, disse Klaus, enojado.
Olaf deu um sorriso sórdido para os três Baudelaire. “Vocês estão cometendo um erro ao me chamar de conde Olaf”, disse ele, “e se continuarem a fazer isso, verão exatamente que grande erro estão cometendo.” O detetive Dupin voltou-se e ergueu os olhos para dirigir-se à multidão. “É claro que o maior erro que estas crianças cometeram foi achar que poderiam se safar impunes do assassinato.”
Ouviu-se um murmúrio de assentimento da multidão. “Eu nunca confiei nessas crianças”, disse a sra. Morrow. “Elas não fizeram um trabalho muito bom quando apararam as minhas cercas vivas.”
“Mostre as provas a eles”, disse a oficial Luciana, e o detetive Dupin estalou os dedos.
“Não é legal”, disse ele, “acusar pessoas de assassinato sem provas, mas por sorte encontrei algumas.” Ele enfiou a mão no bolso da japona e tirou de lá uma comprida fita cor-de-rosa decorada com margaridas de plástico. “Achei isto bem na frente da cela do conde Olaf”, disse ele. “É uma fita – exatamente o tipo de fita que Violet Baudelaire usa para prender o cabelo.”
Os cidadãos arquejaram e Violet voltou-se para ver que os cidadãos de C.S.C. estavam olhando para ela com suspeita e medo, o que não é um jeito agradável de ser olhado.
“Essa não é a minha fita!”, gritou Violet, tirando a sua própria fita de cabelo do bolso. “A minha fita está bem aqui!”
“Como podemos saber?”, perguntou um Ancião franzindo o cenho. “Todas as fitas de cabelo são parecidas.”
“Elas não são parecidas!”, disse Klaus. “A que foi encontrada na cena do crime é enfeitada e cor-de-rosa. Minha irmã prefere fitas simples, e ela detesta cor-de-rosa!”
“E dentro da cela”, continuou o detetive Dupin, como se Klaus não tivesse falado nada, “eu encontrei isto.” Ele ergueu um pequeno círculo feito de vidro. “Esta é uma das lentes dos óculos de Klaus.”
“Mas não está faltando lente nenhuma nos meus óculos!”, gritou Klaus quando todos se voltaram e olharam para ele com suspeita e medo. Ele tirou os óculos e mostrou à multidão. “Podem ver vocês mesmos.”
“Só porque vocês substituíram a sua fita e a sua lente”, disse a oficial Luciana, “isso não quer dizer que não sejam assassinos.”
“Na verdade, eles não são assassinos”, disse o detetive Dupin. “Eles são cúmplices.” Ele se inclinou para a frente de modo a ficar cara a cara com os Baudelaire, e as crianças puderam sentir o seu hálito azedo enquanto ele continuava falando. “Vocês órfãos não são suficientemente espertos para saber o que a palavra ‘cúmplice’ significa, mas ela significa ‘ajudante de assassinos’“.
“Nós sabemos o que significa a palavra ‘cúmplice’“, disse Klaus. “Do que você está falando?”
“Estou falando das quatro marcas de dentes no corpo do conde Olaf”, disse o detetive Dupin, com um estalar de dedos. “Só existe uma pessoa não legal o bastante para morder as pessoas até a morte, e essa pessoa é Sunny Baudelaire.”
“É verdade que os dentes dela são afiados”, disse um outro membro do Conselho. “Notei isso quando ela serviu o meu sundae com cobertura de chocolate.”
“A nossa irmã não mordeu ninguém até a morte”, disse Violet indignada, uma palavra que aqui quer dizer “em defesa de um bebê inocente”. “O detetive Dupin está mentindo!”
“Não é legal me acusar de mentir”, retrucou Dupin. “Em vez de acusar os outros de coisas, por que vocês três crianças não nos contam onde estavam na noite passada?”
“Estávamos na casa de Hector”, disse Klaus. “Ele mesmo pode confirmar.” O Baudelaire do meio ficou na ponta dos pés e gritou por cima da multidão. “Hector! Diga a todos que estávamos com você!”
Os cidadãos olharam para um lado e para outro, os chapéus de corvo dos Anciãos bamboleando enquanto eles aguardavam uma palavra de Hector. Mas não veio nenhuma palavra. As três crianças esperaram um momento no silêncio tenso, achando que Hector certamente iria vencer o seu desassossego a fim de salvá-los. Mas o factótum ficou em silêncio. Os únicos sons que as crianças podiam ouvir era o marulhar do Chafariz Corvídeo e o crocitar dos corvos empoleirados.
“Hector às vezes fica desassossegado na frente de multidões”, explicou Violet, “mas é verdade. Eu passei a noite trabalhando no seu ateliê, e Klaus estava lendo na biblioteca secreta, e...”
“Chega de disparates!”, disse a oficial Luciana. “Você realmente espera que nós acreditemos que o nosso excelente factótum está construindo dispositivos mecânicos e tem uma biblioteca secreta? Imagino que a seguir você vai dizer que ele está construindo coisas com penas!”
“Já é bastante ruim que vocês tenham matado o conde Olaf”, disse um Ancião, “mas agora estão tentando enquadrar Hector em outros crimes! Eu proponho que C.S.C. não sirva mais de tutora para esses órfãos tão terríveis!”
“Ouçam, ouçam!”, gritaram várias vozes dispersas na multidão, exatamente como as crianças tinham planejado fazer elas mesmas.
“Vou enviar uma mensagem ao sr. Poe imediatamente”, continuou o Ancião, “e o banqueiro virá retirá-los daqui dentro de alguns dias.”
“Alguns dias é demais para esperar!”, disse a sra. Morrow, e diversos cidadãos aplaudiram concordando. “É preciso dar um jeito nessas crianças o mais depressa possível.”
“Eu proponho que as queimemos na fogueira!”, gritou o sr. Lesko, que deu um passo à frente e sacudiu o dedo para as crianças. “A Regra nº 201 reza claramente: nada de assassinatos!”
“Mas nós não assassinamos ninguém!”, exclamou Violet. “Uma fita, uma lente e algumas marcas de mordida não são prova suficiente para acusar alguém de assassinato!”
“São provas suficientes para mim!”, gritou um Ancião. “Nós já temos as tochas – vamos queimá-los agora mesmo!”
“Esperem um momento”, disse outro Ancião. “Não podemos simplesmente queimar pessoas na fogueira à hora que nos dá vontade!” Os Baudelaire se entreolharam, aliviados porque um cidadão parecia imune à psicologia das turbas. “Tenho um compromisso muito importante daqui a dez minutos”, continuou o Ancião. “Portanto é muito tarde para fazer isso agora. Que tal hoje à noite, depois do jantar?”
“Não vai dar”, disse outro membro do Conselho. “Tenho um jantar de cerimônia hoje à noite. Que tal amanhã à tarde?”
“Sim”, disse alguém na multidão. “Logo depois do almoço! É a hora perfeita!”
“Ouçam, ouçam!”, gritou o sr. Lesko.
“Ouçam, ouçam!”, gritou a sra. Morrow.
“Glaji!”, gritou Sunny.
“Hector, ajude-nos!”, gritou Violet. “Por favor, diga a essas pessoas que nós não somos assassinos!”
“Eu já disse a vocês antes”, disse o detetive Dupin, sorrindo embaixo dos óculos de sol. “Somente Sunny é assassina. Vocês dois são cúmplices, e vou pôr vocês todos na cadeia, que é onde devem estar.” Dupin agarrou os pulsos de Violet e Klaus com uma mão descarnada e se inclinou para baixo para recolher Sunny com a outra. “Vejo vocês amanhã à tarde para queimá-los na fogueira!”, bradou ele para o resto da multidão, e arrastou os Baudelaire, se debatendo, pela porta da cadeia central.
As crianças foram arrastadas aos tropeções para um corredor mal iluminado e assustador, ouvindo os sons distantes da turba aplaudindo quando a porta bateu atrás delas.
“Vou pôr vocês na Cela de Luxo”, disse Dupin. “É a mais suja de todas.”
Ele os fez marchar por um corredor escuro com muitas voltas e curvas, e os Baudelaire puderam ver fileiras e mais fileiras de celas com as pesadas portas abertas. A única luz na cadeia vinha de uma minúscula janela gradeada no alto de cada cela, mas as crianças viram que todas as celas estavam vazias e cada qual parecia mais imunda que as outras.
“É você quem vai estar na cadeia dentro de pouco tempo, Olaf”, disse Klaus, esperando ter se expressado usando um tom muito mais seguro do que se sentia. “Você nunca vai se safar impune.”
“Meu nome é Detetive Dupin”, disse o detetive Dupin, “e a única coisa que me interessa é levar vocês três criminosos à Justiça.”
“Mas se você nos queimar na fogueira”, disse depressa Violet, “jamais porá as mãos na fortuna Baudelaire.”
Dupin virou a última esquina do corredor e empurrou os Baudelaire para dentro de uma pequena cela com apenas um banco de madeira à guisa de mobiliário. À luz da janela gradeada, os irmãos puderam ver que a cela era bem imunda, como Dupin prometera. O detetive estendeu a mão para fechar a porta, mas, com os óculos de sol, estava escuro demais para enxergar a maçaneta, de modo que ele teve de abrir mão da dissimulação – uma expressão que aqui significa “remover parte do seu disfarce por um momento” – e tirar os óculos de sol. Por mais que as crianças detestassem o disfarce ridículo de Dupin, era ainda pior ver a sobrancelha única do seu inimigo e os olhos muito, muito brilhantes que havia tanto tempo os acossavam.
“Não se preocupem”, disse ele com sua voz roufenha. “Vocês não serão queimados na fogueira – pelo menos não todos. Amanhã à tarde um de vocês fará uma fuga miraculosa – se é que vocês consideram ser levados clandestinamente por um dos meus assistentes para fora de C.S.C. como uma fuga. Os outros dois serão queimados na fogueira conforme planejado. Vocês, seus pirralhos órfãos, são bobos demais para perceber isto, mas um gênio como eu sabe que é preciso uma cidade para educar uma criança, mas basta uma só criança para herdar uma fortuna.” O vilão soltou uma gargalhada sonora e vulgar, e começou a fechar a porta da cela. “Mas eu não quero ser cruel”, disse ele, sorrindo para mostrar que na verdade queria ser tão cruel quanto possível. “Vou deixar vocês três decidirem quem terá a honra de passar o resto da sua vidinha insignificante comigo, e quem vai ser queimado na fogueira. Estarei de volta na hora do almoço para ouvir a sua decisão.”
Os órfãos Baudelaire ouviram a risadinha roufenha do seu inimigo quando ele bateu a porta da cela e foi andando de volta pelo corredor com seus sapatos de plástico, e sentiram uma sensação de peso no estômago, onde os huevos rancheros que Hector preparara para eles na noite anterior ainda estavam sendo digeridos. Quando alguma coisa está sendo digerida, é claro, ela vai ficando cada vez menor à medida que o organismo vai usando todos os nutrientes contidos na comida, mas não era assim que as três crianças se sentiam. Os jovens não se sentiam como se as batatinhas que tinham comido no jantar estivessem ficando menores. Os órfãos Baudelaire se agarraram uns nos outros na luz pálida e, ouvindo a risada reverberar nas paredes da cadeia central, se perguntaram até que tamanho ainda iriam crescer as batatas de suas vidas.

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