17 de agosto de 2016

Capítulo nove


Um dos maiores mitos do mundo – e a expressão “maiores mitos” é apenas um jeito sofisticado de dizer “grandes mentiras deslavadas” – é que as coisas desagradáveis vão ficando cada vez menos desagradáveis se você as repete mais e mais. Por exemplo, as pessoas dizem esse mito quando estão ensinando crianças a andar de bicicleta, como se cair de uma bicicleta e ralar o joelho fosse menos desagradável na décima quarta vez em que você faz isso do que na primeira. A verdade é que as coisas desagradáveis tendem a continuar desagradáveis não importa quantas vezes você as faça, e que deve-se evitar fazê-las a não ser que sejam absolutamente urgentes.
Claro, era absolutamente urgente que os órfãos Baudelaire levassem mais três horas para descer pela escuridão assustadora do poço de elevador. As crianças sabiam que os trigêmeos Quagmire estavam em sério perigo, e que usar a invenção de Violet para derreter as barras da jaula era o único jeito de os seus amigos escaparem antes que Gunther os escondesse dentro de um dos itens do Leilão In e os levasse clandestinamente para fora da cidade. Porém lamento dizer que a urgência absoluta da segunda descida dos Baudelaire não a tornou nem um pouco menos desagradável. A passagem ainda era escura como um tablete de chocolate extra-escuro dentro de um planetário coberto por um cobertor grosso e preto, mesmo com a pequenina incandescência das pontas aquecidas ao branco dos atiçadores de fogo, e a sensação de descer pelo poço de elevador ainda era como a de estar descendo pela boca adentro de alguma criatura terrível. Tendo para orientá-los apenas o plim! da última extensão elétrica batendo no cadeado da jaula, os três irmãos desceram pela corda ersatz com uma das mãos, segurando os seus soldadores com a outra, e a descida até o compartimento minúsculo e imundo onde os trigêmeos estavam presos ainda não estava nem um vinte e sete avos tudo bem.
Mas a pavorosa repetição da desagradável descida dos Baudelaire foi ananicada em comparação com a surpresa sinistra que encontraram no fundo, uma surpresa tão terrível que as três crianças simplesmente se recusaram a acreditar. Violet chegou ao término da extensão elétrica final e pensou que era uma alucinação. Klaus ficou olhando para a jaula e pensou que era uma aparição. E Sunny espiou para dentro através das barras e rezou para que fosse alguma combinação das duas coisas. Os jovens olharam para o compartimento minúsculo e imundo, e olharam para a jaula, mas precisaram de vários minutos até acreditar que os Quagmire não estavam mais lá dentro.
“Eles se foram”, disse Violet. “Eles se foram, e a culpa é toda minha!” Ela jogou o seu soldador num canto da sala minúscula, e ele chiou em contato com o chão. Voltou-se para os irmãos e eles puderam ver, à luz da incandescência branca dos seus atiçadores, que a sua irmã mais velha estava começando a chorar. “Minha invenção deveria salvá-los”, disse ela lamentosa, “e agora Gunther os arrebatou. Sou uma péssima inventora e uma amiga horrorosa.”
Klaus jogou o seu soldador no canto e deu um abraço na irmã. “Você é a melhor inventora que eu conheço”, disse ele, “e a sua invenção foi muito boa. Escute só como aqueles soldadores estão chiando. A ocasião não estava madura para a sua invenção, é só isso.”
“O que você quer dizer com isso?”, disse Violet, sentindo-se arrasada.
Sunny jogou o último soldador no canto e tirou a sua luva térmica para poder consolar a irmã com palmadinhas no tornozelo. “Noque, noque”, disse ela, o que significava “Tudo bem, tudo bem”.
“Tudo o que isto quer dizer”, disse Klaus, “é que você inventou uma coisa que não foi muito prática nesta ocasião em particular. A culpa não é sua se nós não os salvamos – é de Gunther.”
“Acho que sei disso”, disse Violet, enxugando os olhos. “Só estou triste porque a ocasião não estava madura para a minha invenção. Quem sabe se vamos voltar a ver nossos amigos?”
“Vamos, sim”, disse Klaus. “Só porque esta não é a ocasião certa para as suas habilidades de inventora, não quer dizer que não esteja madura para as minhas habilidades de pesquisador.”
“Duestau”, disse Sunny tristemente, o que queria dizer “Nem todas as pesquisas do mundo poderão ajudar Isadora e Duncan agora”.
“É aí que você está errada, Sunny”, retrucou Klaus. “Gunther pode tê-los arrebatado, mas nós sabemos aonde os está levando – ao Veblen Hall. Ele vai escondê-los dentro de um dos itens do Leilão In, está lembrada?”
“Sim”, disse Violet, “mas qual?”
“Se subirmos de volta à cobertura”, disse Klaus, “e formos até a biblioteca dos Squalor, acho que posso descobrir.”
“Meotze”, disse Sunny, o que queria dizer “Mas a biblioteca dos Squalor só tem aqueles livros emproados sobre o que é in e o que é out”.
“Você está esquecendo o mais recente acréscimo à biblioteca”, disse Klaus. “Esmé nos contou que Gunther deixou uma cópia do catálogo do Leilão In está lembrada? Onde quer que ele esteja planejando esconder os Quagmire, esse esconderijo há de estar listado no catálogo. Se conseguirmos descobrir em qual dos itens ele os está escondendo...”
“Poderemos tirá-los de lá”, terminou Violet, “antes que ele os leiloe. É uma ideia brilhante, Klaus!”
“Não é mais brilhante do que inventar dispositivos de solda”, disse Klaus. “Só espero que a ocasião esteja madura desta vez.”
“Eu também”, disse Violet. “Afinal, é a nossa única...”
“Vinung”, disse Sunny, o que queria dizer “Não diga nada”, e a sua irmã concordou. Não ajudava em nada dizer que aquela era a sua única esperança, deixando-os tão ansiosos quanto antes, razão pela qual os Baudelaire, sem mais palavra, içaram-se de volta à sua corda improvisada e começaram a subir de novo para a cobertura dos Squalor.
As trevas fecharam-se mais uma vez sobre eles, e as crianças começaram a se sentir como se tivessem passado a vida toda naquele buraco profundo e sombrio, e não em uma variedade de lugares que iam desde uma serraria em Paltryville até uma caverna à margem do Lago Lacrimoso e a mansão Baudelaire, cujos restos carbonizados jaziam a apenas alguns quarteirões da Avenida Sombria. Mas em vez de ficar pensando em todos os lugares sombrios do passado dos Baudelaire, ou no lugar ainda mais sombrio que estavam escalando agora, os três irmãos tentaram se concentrar nos lugares mais luminosos do futuro dos Baudelaire. Eles pensaram no apartamento de cobertura, que ia ficando cada vez mais perto deles à medida que iam subindo. Pensaram na biblioteca dos Squalor, que podia conter a informação certa de que precisavam para derrotar o plano de Gunther. E pensaram em tempos gloriosos ainda por vir, em que os Baudelaire e os Quagmire poderiam desfrutar sua amizade sem a sombra arrepiante do mal e da ganância que pairava sobre eles agora. Os órfãos Baudelaire tentaram manter suas cabeças naqueles pensamentos luminosos do futuro enquanto subiam pelo tenebroso poço de elevador, e no momento em que chegaram às portas deslizantes sentiram que talvez aqueles tempos gloriosos não estivessem assim tão distantes.
“Já deve ser quase de manhã”, disse Violet, ajudando Sunny a içar-se para fora das portas do elevador. “É melhor a gente desamarrar a nossa corda da maçaneta da porta, e fechar essas portas, senão os Squalor vão ver o que estávamos fazendo.”
“E por que não poderiam ver?”, perguntou Klaus. “Talvez assim acreditem no que dizemos sobre Gunther.”
“Ninguém nunca acredita no que dizemos sobre Gunther, ou qualquer um dos outros disfarces de Olaf”, disse Violet, “a não ser que tenhamos alguma prova. Tudo o que temos agora é um elevador ersatz, uma jaula vazia e três atiçadores de fogo esfriando. Isto não é prova de coisa nenhuma.”
“Você deve estar certa”, disse Klaus. “Bem, por que vocês duas não desamarram a corda enquanto eu vou direto para a biblioteca começar a ler o catálogo?”
“É um bom plano”, disse Violet.
“Reauhop!”, disse Sunny, o que queria dizer “E boa sorte!”.
Klaus abriu silenciosamente a porta da cobertura e entrou, e as irmãs Baudelaire começaram a puxar a corda de dentro do poço. A ponta da última extensão elétrica fazia plim! Plim! contra as paredes da passagem enquanto Sunny enrolava a corda ersatz até formar um rolo de extensões elétricas, puxadores de cortina e gravatas sofisticadas. Violet desfez o último nó duplo para soltá-lo da maçaneta da porta e voltou-se para a irmã.
“Vamos guardar isto debaixo da minha cama”, disse ela, “para o caso de precisarmos mais tarde. De qualquer jeito, fica a caminho da biblioteca.”
“Iallrel”, acrescentou Sunny, o que queria dizer “E vamos fechar as portas deslizantes do elevador, para que os Squalor não vejam que estivemos bisbilhotando dentro de um poço de elevador”.
“Bem pensado”, disse Violet, e apertou o botão de Subir. As portas deslizaram fechando-se de novo e, depois de dar uma boa olhada em volta para ver se não tinham deixado nada para trás, as duas Baudelaire entraram na cobertura e seguiram a trilha de migalhas passando por uma sala de café-da-manhã, descendo um corredor, atravessando uma sala de ficar em pé, descendo um corredor e, por fim, chegando ao quarto de Violet, onde guardaram a corda ersatz debaixo da cama. Estavam prestes a seguir direto para a biblioteca quando Sunny reparou num bilhete que tinha sido deixado em cima do travesseiro extrafofo de Violet.
Querida Violet”, leu Violet, “não consegui encontrá-la nem aos seus irmãos esta manhã para dizer até logo. Tive de sair cedo para comprar clipes de papel amarelos antes de ir para o Leilão In. Esmé levará vocês ao Veblen Hall às dez e meia em ponto, portanto estejam prontos para sair, senão ela ficará muito aborrecida. Vejo vocês lá! Atenciosamente, Jerome Squalor.”
“Iiques!”, disse Sunny, apontando para o mais próximo dos 612 relógios que os Squalor possuíam.
Iiques mesmo”, disse Violet. “Já são dez horas. Todas aquelas subidas e descidas pelo poço do elevador levaram muito mais tempo do que eu pensei.”
“Vrech”, acrescentou Sunny, o que queria dizer algo do tipo “Para não falar em fazer aqueles soldadores”.
“É melhor a gente ir para a biblioteca imediatamente”, disse Violet. “Talvez possamos de alguma maneira ajudar Klaus a apressar o processo de pesquisa.”
Sunny assentiu com a cabeça e as duas irmãs desceram o corredor até a biblioteca dos Squalor. Desde que Jerome a mostrara a elas pela primeira vez, Violet e Sunny tinham entrado lá raras vezes e parecia que mais ninguém a usara muito. Uma boa biblioteca nunca está muito arrumadinha, nem muito empoeirada, porque sempre há alguém lá tirando livros das estantes e ficando acordado lendo até tarde. Até as bibliotecas que não eram do gosto dos Baudelaire – a biblioteca da tia Josephine, por exemplo, só continha livros sobre gramática – eram lugares confortáveis para estar, porque os donos das bibliotecas as usavam muito. Mas a biblioteca dos Squalor era tão arrumadinha e empoeirada quanto é possível. Todos os livros chatos sobre o que era in e o que era out estavam em fileiras metódicas nas estantes, com camadas de poeira em cima, como se não tivessem sido perturbados desde a primeira vez em que foram postos lá. Os Baudelaire ficaram um pouco tristes de ver todos aqueles livros arrumados na biblioteca sem ser lidos nem notados, como vira-latas ou crianças perdidas que ninguém queria levar para casa. O único sinal de vida na biblioteca era o irmão delas, que estava lendo o catálogo tão atentamente que não ergueu os olhos até as irmãs estarem bem ao seu lado.
“Detesto perturbar você quando está pesquisando”, disse Violet, “mas havia um bilhete de Jerome sobre o meu travesseiro. Esmé vai nos levar para o Veblen Hall às dez e meia em ponto, e agora já são pouco mais de dez horas. Será que podemos ajudá-lo de algum modo?”
“Não vejo como”, disse Klaus, os olhos com uma expressão preocupada atrás dos óculos. “Só há um exemplar do catálogo, e ele é bastante complicado. Cada um dos itens do leilão é chamado de um lote, e o catálogo lista cada lote com uma descrição e um palpite de qual poderá ser o lance mais alto. Li até o Lote 49, que é um valioso selo do correio.”
“Bem, Gunther não pode esconder os Quagmire em um selo do correio”, disse Violet. “Você pode pular esse lote.”
“Estive pulando uma porção de lotes”, disse Klaus, “mas ainda não estou mais perto de descobrir onde poderão estar os trigêmeos. Será que Gunther os esconderia no Lote 14 – um globo enorme? Os esconderia debaixo da tampa do Lote 25 – um raro e valioso piano? Ele os esconderia no Lote 48 – a enorme estátua de um peixe escarlate?” Klaus parou e virou uma página do catálogo. “Ou será que ele os esconderia no Lote 50, que é...”
Klaus terminou a sentença inspirando de repente e sufocando um grito, mas as suas irmãs entenderam imediatamente que ele não queria dizer que o quinquagésimo item a ser vendido no Leilão In era uma brusca introdução de ar nos pulmões. Ele queria dizer que descobrira uma coisa insólita no catálogo, e elas se inclinaram para a frente para ler por cima do ombro dele e ver o que era.
“Eu não acredito”, disse Violet. “Eu simplesmente não acredito.”
“Tunsc”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como “Deve ser aí que os Quagmire vão ser escondidos”.
“Concordo com Sunny”, disse Klaus, “apesar de não haver uma descrição do item. Eles não escrevem nem mesmo o que significam as letras.”
“Vamos descobrir o que elas significam”, disse Violet, “porque vamos encontrar Esmé neste minuto e contar a ela o que está acontecendo. Quando ela descobrir, vai finalmente acreditar no que dizemos sobre Gunther, e vamos tirar os Quagmire do Lote 50 antes que eles saiam da cidade. Você estava certo, Klaus – a ocasião estava madura para as suas habilidades de pesquisador.”
“Acho mesmo que estava certo”, disse Klaus. “Mal posso acreditar na nossa sorte.”
Os Baudelaire olharam de novo para a página do catálogo, certificando-se de que não era uma alucinação, nem uma aparição. E não era. Bem ali, em caracteres pretos e nítidos debaixo do título “Lote 50”, havia três letras e três sinais de pontuação que pareciam indicar a solução dos problemas dos Baudelaire. As crianças se entreolharam e sorriram. Os três irmãos mal podiam acreditar na sua sorte. Os três órfãos Baudelaire mal podiam acreditar que naquelas três letras podiam ler o local onde estavam escondidos os Quagmire tão claramente quanto podiam ler “C.S.C.”.

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