11 de agosto de 2016

Capítulo nove


Ocasionalmente, os acontecimentos da vida de uma pessoa tornam-se mais claros vistos do prisma da experiência. Em outras palavras: as coisas tendem a tornar-se mais claras com o passar do tempo. Por exemplo, uma pessoa recém-nascida não faz a menor ideia do que é cortina, e passa boa parte dos primeiros meses especulando por que cargas d'água Mamãe e Papai penduraram pesadas peças de pano sobre cada uma das janelas do quarto. Mas, à medida que a pessoa cresce, a ideia de cortina torna-se mais clara, vista sob o prisma da experiência. A pessoa aprenderá a palavra “cortina” e perceberá que ela é de fato muito conveniente para manter o quarto às escuras na hora de dormir, e que cumpre efeito decorativo numa área que de outro modo seria monótona e sem graça, como é o espaço ocupado pelas janelas. Por fim, aceitará por completo a ideia de cortina, e pode ser que até venha a comprar algumas, ou instale venezianas – tudo isso graças ao prisma da experiência.
O programa D.O.R. do instrutor Genghis, no entanto, era uma ocorrência que, fugindo à regra, não pareceu ganhar nenhuma clareza com a experiência dos órfãos Baudelaire. Muito pelo contrário, tornou-se cada vez mais difícil de entender, porque Violet, Klaus e Sunny foram ficando inteiramente exaustos conforme os dias – e sobretudo as noites – iam passando. Depois de terem recebido a segunda mensagem transmitida por Carmelita Spats, as crianças não conseguiram deixar de pensar o que o instrutor Genghis tinha em mente, o que os obrigaria a fazer aquela noite. Os Quagmire participaram com eles daquela preocupação, por isso a surpresa foi geral – dos Baudelaire, que foram de novo ao encontro de Genghis no gramado da frente do colégio logo que terminaram o jantar, e dos Quagmire, que saíram de mansinho do recital e ficaram no posto de vigilância observando os amigos atrás do arco de pedra, como na véspera – quando Genghis se pôs a soprar o apito e mandou que os órfãos Baudelaire começassem a correr. Para os Baudelaire e os Quagmire, Genghis com certeza tinha em mente algo muito mais sinistro do que repetir voltas e mais voltas pela pista.
Ainda que uma segunda noite de voltas fosse menos sinistro do que haviam previsto, Violet, Klaus e Sunny estavam exaustos demais para levar isso em conta. Mal conseguiam ouvir os ruídos estridentes do apito de Genghis e os gritos que ele dava – “Continuem correndo!” e “Mais uma volta!” –, encobertos pelo som arquejante do esforço para respirar. Os órfãos ficaram tão ensopados de suor que chegou um momento em que se sentiram capazes de desistir de toda a fortuna dos Baudelaire em troca de uma boa e longa chuveirada. E tinham as pernas tão traumatizadas que, mesmo valendo-se do prisma da experiência, eram incapazes de lembrar como era a sensação de não sentir dores em toda a extensão da perna, das coxas aos dedos dos pés.
Volta após volta, os Baudelaire prosseguiam na corrida esforçando-se para não desviar os olhos do círculo de tinta fosforescente que brilhava intensamente no gramado às escuras, e de certa forma olhar para o círculo era o pior de tudo. À medida que caía a noite, o círculo fosforescente era tudo o que os Baudelaire de fato conseguiam ver, e se imprimia de tal modo nos olhos que eles o viam até quando fitavam cegamente a escuridão. Se o flash de uma máquina já bateu na sua cara e a mancha luminosa persistiu nos olhos por alguns instantes mesmo depois de a lâmpada ter se apagado, então você tem uma ideia do que estava acontecendo com os Baudelaire. Mas o círculo brilhante persistiu por tanto tempo na mente das crianças que se tornou simbólico. Usei a palavra “simbólico” aqui para dizer que o círculo brilhante não estava representando apenas uma pista; o que ele queria representar era um zero. O zero fosforescente fulgurava na mente dos Baudelaire, e simbolizava o que sabiam sobre a situação. Eles não sabiam absolutamente nada, zero, sobre o que Genghis estava querendo aprontar. Eles não sabiam absolutamente nada, zero, do motivo de dar voltas e mais voltas no gramado. E a energia que tinham para pensar nisso era zero.
Até que o sol começou a nascer, e o instrutor Genghis dispensou a equipe de corredores. Tontos de sono, os Baudelaire foram cambaleando para o Barraco dos Órfãos, tão cansados que nem tiveram forças para checar se Duncan e Isadora estavam escapulindo para o alojamento depois de cumprir o último turno de vigilância. Tampouco tiveram energia para calçar os sapatos barulhentos, de modo que os dedos dos pés doíam o dobro quando os três acordaram, duas horas depois, para iniciar mais um dia “fora do ar”. Não gosto nem de pensar em dizer isso – mas não foi o último dia “fora do ar” para os órfãos Baudelaire. A horrível Carmelita Spats deu o recado habitual no almoço, e, após uma manhã inteira cabeceando de sono nas aulas e nas tarefas da secretaria, os Baudelaire deitaram a cabeça sobre a mesa do refeitório, desesperados com a ideia de enfrentar mais uma noite de corrida. Os Quagmire procuraram consolá-los, prometendo redobrar os esforços de pesquisa, porém Violet, Klaus e Sunny estavam cansados demais para manter uma conversa, mesmo com seus amigos mais íntimos. Ainda bem que seus amigos mais íntimos compreenderam e não viram no silêncio dos Baudelaire uma grosseria ou um desencorajamento.
Parece impossível acreditar que os três Baudelaire conseguissem sobreviver a mais uma noite de D.O.R., mas em casos de estresse extremo as pessoas encontram energia escondida nas áreas mais exaustas do corpo. Descobri isso por mim mesmo, quando me acordaram no meio da noite e uma multidão em fúria, armada com tochas, espadas e cães bravos, me perseguiu mais de vinte quilômetros. E os Baudelaire descobriram isso ao correr voltas e mais voltas, não só aquela noite, mas nas seis noites que se seguiram. Ao todo, uma soma espetacular de nove sessões de D.O.R., se bem que “espetacular” não parece ser a palavra adequada para noites intermináveis de respiração ofegante, corpo suado e pernas doloridas. Durante nove noites, o cérebro dos Baudelaire foi atormentado com o simbólico zero fosforescente brilhando intenso na mente de cada um deles, como uma gigantesca rosca de desespero. O sofrimento dos Baudelaire repercutiu no aproveitamento escolar. Você, leitor, sabe muito bem que uma boa noite de sono ajuda a ter um bom desempenho no colégio, e, se você é estudante, deveria cuidar para ter sempre uma noite bem-dormida – a não ser que esteja num capítulo interessante do livro que está lendo, e nesse caso o melhor é ficar acordado a noite inteira e que se dane o aproveitamento escolar.
Nos dias que se seguiram, os Baudelaire estavam muito mais exaustos do que alguém que houvesse passado a noite inteira lendo, e do aproveitamento escolar deles é pouco dizer que simplesmente deixou a desejar: danou-se – expressão que aqui tem significados diferentes para cada um dos órfãos. Para Violet, significava que ficou tão atordoada que não registrou no caderno nenhuma palavra das histórias contadas pelo sr. Remora. Para Klaus, significava que o cansaço foi tanto que ele não mediu nenhum dos objetos na aula da sra. Bass. E para Sunny significava que, exausta como se achava, foi incapaz de cumprir qualquer uma das tarefas que o vice-diretor Nero lhe determinou. Para os órfãos Baudelaire, sair-se bem no colégio era da maior importância, ainda que o colégio – como era o caso – fosse dirigido por um idiota tirânico, mas as corridas noturnas os haviam incapacitado para qualquer esforço nesse sentido. Com o passar do tempo, o círculo de tinta fosforescente não foi o único zero na vida dos Baudelaire. Violet viu um zero no alto da folha da prova quando não soube reproduzir nenhuma das histórias do sr. Remora. Klaus viu um zero no boletim onde a sra. Bass lançava suas notas quando, arguido sobre o comprimento exato de um pé de meia, foi pilhado tirando a maior soneca. E Sunny viu um zero quando abriu a gaveta para verificar o estoque de grampos e constatou que havia zero grampo.
“Isso está se tornando ridículo”, disse Isadora depois de ouvir Sunny pôr os irmãos e amigos a par de sua situação. Era o início de mais um almoço carregado de preocupações. “Veja o que está acontecendo, Sunny. Pra começar, não fazia sentido contratar você como assistente administrativa. E é simplesmente ridículo fazer você engatinhar à noite e depois obrigá-la a fabricar grampos durante o dia.”
“Não chame minha irmã de ridícula!”, exclamou Klaus.
“Não é ela que eu estou chamando de ridícula!”, disse Isadora. “Ridícula é a situação!”
“Ridículo é alguma coisa da qual a gente sente vontade de rir”, disse Klaus, que não se cansava nunca de definir palavras, “e não quero que você ria de nós”
“Não estou rindo de vocês”, disse Isadora. “Estou tentando ajudar.”
Klaus estendeu a mão sobre a mesa e agarrou o copo de água que estava em frente a Isadora. “Rir de nós não vai ajudar em nada, sua bisbórria.”
Isadora retirou das mãos de Klaus os talheres que emprestara. “Xingar também não ajuda em nada, Klaus.”
“Mambão!”, gritou Sunny.
“Ora, parem com isso, vocês dois”, disse Duncan. “Isadora, você não vê que Klaus está cansado? E Klaus, você não vê que Isadora está chateada?”
Klaus tirou os óculos e devolveu o copo para Isadora. “Estou cansado demais para ver qualquer coisa”, disse ele. “Desculpe, Isadora. O cansaço me deixa mal-humorado. Com mais alguns dias, vou estar um peste igual a Carmelita Spats.”
Isadora estendeu os talheres de volta a Klaus e tocou de mansinho a mão dele, em sinal de que o perdoava. “Você nunca será uma peste igual a Carmelita Spats”, disse.
“Carmelita Spats?”, disse Violet, erguendo a cabeça, que estivera deitada sobre a bandeja. Cochilara durante a discussão entre Isadora e Klaus, mas despertou ao ouvir o nome da Mensageira Especial. “Ela não está vindo aqui mandar a gente correr de novo, está?”
“Infelizmente, aí vem ela”, disse Duncan com pesar, palavra que aqui deve ser entendida como “com o dedo apontado na direção de uma garotinha grosseira, violenta e desbocada”.
“Olá, seus bisbórrias”, disse Carmelita Spats. “Hoje tenho duas mensagens, e deveria receber duas gratificações em vez de uma.”
“Ora, Carmelita”, disse Klaus. “Você não recebeu gratificação nenhuma nos últimos nove dias, e não vejo por que romper essa tradição.”
“Isso porque você é um órfão estúpido”, disse Carmelita sem hesitar. “De qualquer modo, a mensagem número um é a de sempre: encontrar o instrutor Genghis no gramado da frente logo depois do jantar.”
Violet soltou um gemido de exaustão. “E qual é a segunda mensagem?”, perguntou.
“A segunda mensagem é que vocês devem comparecer ao gabinete do vice-diretor Nero imediatamente.”
“Ao gabinete do vice-diretor Nero?”, perguntou Klaus. “E por quê?”
“Sinto muito”, disse Carmelita Spats com um sorriso cretino que indicava não estar sentindo coisíssima nenhuma. “Não respondo a perguntas de bisbórrias que não dão gratificações.”
Algumas crianças da mesa vizinha soltaram gargalhadas ao ouvir isso e começaram a bater os talheres na mesa. “Lugar de bisbórrias é no Barraco dos Órfãos! Lugar de bisbórrias é no Barraco dos Órfãos!”, entoavam em conjunto enquanto Carmelita Spats, saltitante e soltando risadinhas, voltava ao assento para terminar o almoço. “Lugar de bisbórrias é no Barraco dos Órfãos! Lugar de bisbórrias é no Barraco dos Órfãos!”, prosseguiu o coro, e os Baudelaire, entre suspiros, levantaram-se sobre as pernas doloridas.
“Melhor a gente ir até a sala de Nero”, disse Violet. “Duncan e Isadora, depois a gente se fala.”
“Nada disso”, disse Duncan. “Vamos com vocês. Carmelita Spats tirou o meu apetite, vamos pular o almoço e levar vocês até o prédio administrativo. Não entraremos – do contrário, os cinco ficaremos privados de talheres –, mas ficaremos esperando do lado de fora e depois vocês nos dizem o que aconteceu.”
“O que será que Nero está querendo?”, perguntou Klaus bocejando.
“Vai ver que ele descobriu sozinho que Genghis na verdade é Olaf”, disse Isadora, e os Baudelaire responderam-lhe com um sorriso. Eles não ousavam ter a esperança de que esse fosse o motivo da convocação ao gabinete do vice-diretor, mas estavam gratos aos amigos por tentar consolá-los. As cinco crianças mal haviam tocado no almoço. Devolveram a bandeja aos empregados do refeitório, que piscaram para eles silenciosamente por trás das máscaras de ferro. Em seguida andaram até o prédio administrativo. Os trigêmeos Quagmire desejaram boa sorte aos Baudelaire, que, com passos pausados, chegaram à porta do gabinete de Nero.
“Obrigado por encontrarem um tempinho na rotina atarefadíssima de órfãos”, disse o vice-diretor Nero, escancarando a porta antes mesmo que eles batessem. “Venham logo aqui para dentro. Cada minuto que gasto falando com vocês é um minuto que eu poderia aproveitar me exercitando no violino. E quando se trata de um gênio musical como eu, cada minuto é precioso.”
As três crianças entraram no minúsculo gabinete e começaram a bater palmas enquanto Nero jogava os braços para o alto. “Há duas coisas que eu queria falar com vocês”, disse ele quando cessaram os aplausos. “Vocês sabem quais são?”
“Não senhor”, respondeu Violet.
“Não senhor”, arremedou Nero, mostrando certo desapontamento porque as crianças não deram uma resposta mais longa de que ele pudesse debochar. “Pois bem, a primeira coisa é que vocês três perderam nove dos meus recitais de violino, e cada um me deve um saco de balas por recital. Nove sacos de balas vezes três é igual a vinte e nove. Além disso, Carmelita Spats me disse que transmitiu dez recados para vocês – se incluírem os dois de hoje – e vocês nunca lhe deram nenhuma gratificação. Um absurdo. Bem, eu acho que um belo par de brincos com pedras preciosas seria uma boa ideia. Ou seja, vocês lhe devem dez pares de brincos. O que têm a me dizer sobre isso?”
Os órfãos Baudelaire se entreolharam com os olhos muito, muito sonolentos. Não tinham nada a dizer. Tinham, sim, muito o que pensar sobre aquilo: que só faltaram aos concertos de Nero porque foram obrigados pelo instrutor Genghis, que nove sacos de bala vezes três é igual a vinte e sete, não vinte e nove, e que gratificações são sempre opcionais e em geral dadas em dinheiro, não em brincos. No entanto, Violet, Klaus e Sunny estavam cansados demais para dizer qualquer coisa. Tal atitude provocou novo desapontamento no vice-diretor Nero, que ficou coçando os tufos esparsos de cabelo à espera de que alguma das crianças dissesse algo que ele pudesse repetir com voz debochada e irritante. Mas, passado o momento de silêncio, o vice-diretor passou à segunda coisa.
“A segunda coisa”, prosseguiu, “é que vocês três se tornaram os piores alunos que já frequentaram a Escola Preparatória Prufrock. Violet, o sr. Remora me disse que você não passou num teste. Klaus, a sra. Bass me falou da sua incapacidade de lidar com uma fita métrica. E Sunny, eu reparei que você não fabricou um grampo sequer! O sr. Poe me disse que vocês eram crianças inteligentes e esforçadas, mas eu vejo que não passam de um bando de bisbórrias!”
Ao ouvir isso, os Baudelaire não se contiveram mais.
“Estamos indo mal no colégio porque estamos exaustos!”, exclamou Violet.
“E estamos exaustos porque corremos à volta do gramado todas as noites!”, exclamou Klaus.
“Galuca!”, gritou Sunny, querendo dizer: “Grite com o instrutor Genghis, não conosco!”.
O vice-diretor Nero abriu um imenso sorriso para as crianças, encantado por poder responder daquela sua maneira predileta: “Estamos indo mal no colégio porque estamos exaustos!”, disse com a voz bem aguda. “E estamos exaustos porque corremos à volta do gramado todas as noites! Galuca! Estou farto das tolices de sempre! A Escola Preparatória Prufrock prometeu-lhes uma excelente educação, e uma excelente educação é o que vocês vão ter – ou, no caso de Sunny, um excelente emprego como assistente administrativa. Pois muito bem: pedi ao sr. Remora e à sra. Bass que apliquem testes gerais e rigorosos amanhã, testes minuciosos sobre absolutamente tudo o que vocês aprenderam até hoje. Violet, você trate de se lembrar de todos os detalhes das histórias do sr. Remora, e você, Klaus, vá tratando de se lembrar do comprimento, largura e altura dos objetos da sra. Bass, do contrário eu os expulsarei do colégio. E tem mais: encontrei uma batelada de papéis que devem ser grampeados até amanhã. Sunny, você vai grampeá-los todos, com grampos de fabricação caseira, ou será despedida. Amanhã de manhã esta será a primeira coisa do dia: o teste e o grampeamento, e, se vocês não tiverem nota dez e não fabricarem uma quantidade satisfatória de grampos, serão postos para fora da Escola Preparatória Prufrock. Por sorte, o instrutor Genghis já se ofereceu para cuidar do alojamento e da educação de vocês. Ele está a fim de ser treinador, professor e tutor de vocês, tudo ao mesmo tempo. É uma oferta muito generosa, e se eu fosse vocês daria uma gratificação a ele também, se bem que neste caso um par de brincos não me parece ser o mais apropriado.”
“Não vamos dar uma gratificação ao conde Olaf!”, explodiu Violet.
Klaus olhou horrorizado para a irmã mais velha. “Violet está se referindo ao instrutor Genghis”, ele apressou-se em dizer a Nero.
“Não estou não!”, exclamou Violet. “Klaus, nossa situação é desesperadora demais para continuarmos fingindo que não o reconhecemos!”
“Raifiju!”, concordou Sunny.
“Acho que você tem razão”, disse Klaus. “Afinal, o que temos a perder?”
“Afinal, o que temos a perder?”, arremedou Nero com deboche. “Do que é que vocês estão falando?”
“Estamos falando do instrutor Genghis”, disse Violet. “Ele não se chama realmente Genghis. Ele nem sequer é instrutor. Ele é o conde Olaf disfarçado.”
“Tolice!”, disse Nero.
Klaus teve vontade de repetir “Tolice!” com o mesmo ar de troça tão ao gosto do vice-diretor, mas engoliu a língua e disse apenas: “É verdade. Ele colocou um turbante para tapar a sobrancelha e calçou caríssimos tênis de corrida para tapar a tatuagem, mas não deixa de ser o conde Olaf”.
“Ele usa o turbante por motivos religiosos”, disse Nero, “e tênis de corrida porque é um instrutor de ginástica. Venham cá ver.” Dirigiu-se com passadas largas até o computador e apertou um botão. A tela começou a luzir daquela maneira instável que produz náuseas no observador, e mais uma vez mostrou a imagem do conde Olaf. “Vocês estão vendo? O instrutor Genghis não se parece nada com o conde Olaf, e o meu computador de última geração está aí para provar.”
“Uxilo!”, exclamou Sunny, querendo dizer: “Isso não prova nada!”, ou algo do gênero.
“Uxilo!', repetiu, de gozação, o vice-diretor. “Em quem devo acreditar? Num computador de última geração ou em dois péssimos alunos e um bebê idiota incapaz de fazer grampos? Vamos, parem de tomar o meu tempo! Amanhã supervisionarei pessoalmente os exames rigorosos, que serão realizados no Barraco dos Órfãos! Ou vocês obtêm um desempenho excelente, ou irão de mala e cuia com o instrutor Genghis! Sayonara, Baudelaire!”
Sayonara é a palavra japonesa para dizer “adeus”, e estou certo de que qualquer um dos milhões de habitantes do Japão morreria de vergonha de ver seu idioma usado por uma pessoa tão revoltante. Porém os Baudelaire não tinham tempo de alimentar pensamentos internacionais como esse. Estavam entregues à tarefa de contar as últimas notícias para os Quagmire.
“Mas isso é péssimo!”, exclamou Duncan, enquanto as cinco crianças atravessavam o gramado a passos lentos, dando um tempo para refletir com calma sobre a situação. “Não há como vocês tirarem nota dez nesses exames, especialmente se tiverem de repetir as corridas esta noite!”
“Isso é horrível!”, exclamou Isadora. “E não dá para fazer todos esses grampos! Logo, logo estarão vivendo sob o mesmo teto que o instrutor Genghis, abrigados e educados por ele!”
“O instrutor Genghis não nos dará abrigo e educação”, disse Violet, lançando o olhar para o gramado da frente, onde o zero fosforescente estava à espera deles. “Ele vai fazer algo muito, muito pior. Vocês não percebem? Foi com essa intenção que ele nos obrigou a correr voltas e mais voltas! Ele sabia que ficaríamos exaustos. Ele sabia que iríamos mal nas aulas, ou que não daríamos conta de nossas tarefas administrativas. Ele sabia que seríamos expulsos da Prep Prufrock e que então poderia nos pegar.”
Klaus comentou, pesaroso: “E nós todo esse tempo esperando que o plano dele ficasse claro... Agora está. Só que pode ser tarde demais”.
“Não é tarde demais”, insistiu Violet. “Os exames rigorosos serão apenas amanhã de manhã. Até lá precisamos traçar um plano.”
“Plano!”, concordou Sunny.
“Terá que ser um plano elaborado”, disse Duncan. “Precisamos preparar Violet para o teste do sr. Remora, e Klaus para o teste da sra. Bass.”
“E temos que produzir grampos”, disse Isadora. “Sem falar que os Baudelaire ainda vão enfrentar corridas.”
“E temos que esperar acordados”, disse Klaus.
As crianças se entreolharam, depois olharam para o gramado da frente. O sol da tarde brilhava intensamente, mas os cinco jovens sabiam que ele não tardaria a se pôr atrás dos prédios em forma de lápides, e que então chegaria a hora da D.O.R. Não dispunham de muito tempo. Violet prendeu os cabelos com uma fita para afastá-los dos olhos. Klaus limpou a lente dos óculos e colocou-os no nariz. Sunny afiou os dentes uns nos outros, para certificar-se de que estariam prontos para qualquer tarefa. E os dois trigêmeos tiraram do bolso do suéter os cadernos. O plano maléfico do instrutor Genghis tornara-se claro sob o prisma da experiência dos Baudelaire e dos Quagmire, e agora eram eles que precisavam usar a experiência para tecer um plano.

Um comentário:

  1. Por que ele aceitaram de mão beijada correr em círculos? Eu mesma não iria e ele que se entendesse com o Vice-diretor Nero!

    Geovana.

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