4 de agosto de 2016

Capitulo nove


O Correio dos Estados Unidos tem um lema: “Nem chuva, nem granizo, nem nevasca justificam a suspensão da entrega de correspondência”. Isso quer dizer que, mesmo quando o tempo está horrível e o carteiro quer ficar em casa tomando uma xícara de chocolate, ele tem obrigação de enfrentar o que der e vier e entregar suas cartas de qualquer maneira. O Correio não aceita que tempestades falem mais alto que os seus deveres.
Os órfãos Baudelaire tiveram a maior decepção ao saber que a barca do Lago Lacrimoso não seguia essa política. Violet, Klaus e Sunny desceram o morro com enorme dificuldade. A tempestade aumentava, e dava para as crianças perceberem que tudo o que o vento e a chuva mais queriam era pegá-los e jogá-los nas águas turbulentas do Lago Lacrimoso. Violet e Sunny não tiveram tempo de pegar seus casacos ao escapar da casa, assim os três se revezaram no uso do casaco de Klaus ao avançarem aos trambolhões pelo caminho alagado. Uma ou duas vezes um carro passou por eles, e os Baudelaire tiveram que correr a se esconder nos arbustos lamacentos, na dúvida se era o capitão Sham que tinha vindo buscá-los. Quando os órfãos finalmente chegaram ao Cais de Dâmocles, seus dentes batiam e seus pés estavam tão frios que eles mal conseguiam sentir os dedos, e ver na bilheteria da barca a placa que dizia FECHADO foi demais para eles.
“Está fechado’, gritou Klaus, levantando a voz com desespero e a fim de soar mais alto que o Furacão Hermano. “E agora, como faremos para chegar à Gruta do ‘P’?”
“Teremos que esperar até que abra”, respondeu Violet.
“Mas não abrirá antes da tempestade passar”, observou Klaus, “e então o capitão Sham já terá nos achado e levado para longe. Temos que ir ao encontro de tia Josephine o mais rápido possível.”
“Não sei como”, disse Violet, trêmula de frio. “O atlas diz que a gruta fica do outro lado do lago, e não dá para atravessarmos nadando toda essa distância com este tempo.”
“Entro!”, gritou Sunny, o que queria dizer: “E também não temos tempo para caminhar toda a volta do lago”, ou algo do gênero.
“Deve haver outros barcos nesse lago”, disse Klaus. “Lanchas motorizadas, ou barcos de pesca, ou...” Hesitou em concluir, e seus olhos encontraram os das irmãs. Os três órfãos estavam pensando a mesma coisa.
“Ou barcos a vela”, completou Violet para ele. “Os Barcos a Vela do Capitão Sham. Ele disse que os alugava justamente no Cais de Dâmocles.”
Os Baudelaire ficaram sob a marquise da bilheteria da barca e dali perscrutaram o cais deserto até enxergarem um portão de ferro que era bastante alto e tinha proteções pontiagudas e reluzentes na parte de cima. Pendurada no portão havia uma placa com dizeres que eles não conseguiram ler, e junto à placa um casebre quase invisível sob a chuva, com uma luz trêmula na janela. As crianças olharam para aquele casebre com o coração tomado de terror. Caminhar até o posto de aluguel dos Barcos a Vela do Capitão Sham para encontrar tia Josephine seria o mesmo que caminhar até a cova de um leão para escapar de um leão.
“Não podemos ir lá”, disse Klaus.
“Temos que ir”, disse Violet. “Sabemos que o capitão Sham não está lá, porque ou está a caminho da casa de tia Josephine ou continua no Palhaço Ansioso.”
“Mas quem quer que esteja lá”, disse Klaus, apontando para a luz trêmula, “não alugará um barco para nós.”
“Não sabem que somos os Baudelaire”, replicou Violet. “Diremos a quem quer que esteja lá que somos os filhos dos Jones, e que queremos dar uma volta de barco a vela.”
“No meio de um furacão?”, replicou Klaus, por sua vez. “Não vão acreditar.”
“Vão ter que acreditar”, disse Violet resolutamente – palavra que aqui significa “como se acreditasse no que dizia, embora não estivesse tão certa disso” –, e foi em frente, seguida pelos irmãos, rumo ao casebre. Klaus apertava o atlas contra o peito, e Sunny, a quem cabia a vez de usar o casaco de Klaus, envolveu-se toda nele, até que pouco depois os Baudelaire chegaram, na maior tremedeira, debaixo da placa que dizia: BARCOS A VELA DO CAPITÃO SHAM – CADA BARCO TEM SUA PRÓPIA VELA. Mas o alto portão de ferro estava fechado a sete chaves, e os Baudelaire tiveram que parar por ali, apreensivos quanto à maneira de entrar no casebre.
“Vamos dar uma olhada”, sussurrou Klaus, apontando para uma janela que, entretanto, ficava muito no alto para ele ou Sunny poderem espiar por ela. Pondo-se na ponta dos pés, Violet olhou pela janela do casebre, e um único olhar bastou para ela perceber que não haveria jeito de conseguirem alugar um barco.
O casebre era muito pequeno, com espaço apenas para uma escrivaninha mínima e uma lâmpada, que era de onde partia a luz trêmula. Mas diante da escrivaninha, dormindo numa cadeira, achava-se uma pessoa tão maciça que era como se uma imensa bolha ocupasse todo o casebre, roncando a sono solto, com uma garrafa de cerveja numa das mãos e um molho de chaves na outra. O ronco da criatura fazia a garrafa balançar, as chaves tilintarem e a porta do casebre se entreabrir poucos centímetros, mas embora esses ruídos fossem meio fantasmagóricos, não foram eles que amedrontaram Violet. O que amedrontou Violet foi que não dava para saber se essa pessoa era homem ou mulher. Não existem muitas pessoas assim no mundo, e Violet logo reconheceu aquela criatura singular. Talvez vocês já tenham esquecido dos amigos perversos do conde Olaf, mas os Baudelaire os conheceram em carne e osso – muita carne, no caso desse amigo em particular –, e retinham na memória suas imagens chocantes, detalhe por detalhe. Eram uma gente brutal, sorrateira, e faziam tudo o que o conde Olaf – ou, na presente situação, o capitão Sham – mandava, e os órfãos nunca sabiam quando eles iam surgir. E, agora, um deles tinha surgido bem ali no casebre, perigoso, traiçoeiro e roncando.
Violet deve ter demonstrado seu desapontamento na expressão do rosto, porque assim que ela deu uma olhada, Klaus perguntou: “Qual é o problema, além do Furacão Hermano, de tia Josephine forjar sua própria morte, do capitão Sham estar atrás de nós, e de tudo o mais, claro?”.
“Um dos amigos do conde Olaf está no casebre”, disse Violet.
“Qual deles?”, perguntou Klaus.
“Aquele que não parece nem homem nem mulher”, respondeu Violet.
Klaus estremeceu. “É o mais assustador.”
“Discordo”, disse Violet. “Acho que o careca é mais assustador.”
“Vass!”, sussurrou Sunny, querendo provavelmente dizer: “Vamos deixar essa discussão para outra hora”.
“Ele ou ela chegou a vê-la?”, perguntou Klaus.
“Não”, disse Violet. “Ele ou ela está dormindo. Mas ele ou ela está segurando um molho de chaves. Vamos precisar delas, tenho certeza, para destrancar o portão e pegar um barco.”
“Você está querendo dizer que nós vamos roubar um barco?”, perguntou Klaus.
“Não temos escolha”, disse Violet. Roubar, não resta dúvida, é um crime, e é próprio de quem não tem nenhuma educação. Mas como a maioria das coisas que faz quem não tem nenhuma educação, é desculpável dependendo das circunstâncias. Roubar não é desculpável, por exemplo, se a pessoa está num museu, resolve que um determinado quadro ficaria melhor em sua casa e simplesmente leva o quadro para casa. Mas se a pessoa está morrendo de fome e não tem outro meio de conseguir dinheiro, é desculpável que ela leve o quadro para casa e o coma. “Temos que chegar à Gruta do ‘P’ o mais rápido possível”, continuou Violet, “e só há um jeito de fazermos isso: roubando o barco.”
“Eu sei”, disse Klaus, “mas como vamos fazer para pegar as chaves?”
“Não sei”, admitiu Violet. “A porta do casebre range, e tenho medo que, se a abrirmos um pouco mais, ele ou ela acorde.”
“Você pode entrar pela janela”, disse Klaus, “subindo nos meus ombros. Sunny podia ficar vigiando.”
“Onde está Sunny?”, perguntou Violet, nervosa.
Violet e Klaus olharam para o chão e viram o casaco de Klaus abandonado logo adiante, formando um montinho. Olharam para o cais, mas viram apenas a bilheteria da barca e as águas espumantes do lago, escurecendo na melancolia do fim de tarde.
“Ela sumiu!”, gritou Klaus, mas Violet pôs o dedo indicador nos lábios e ficou na ponta dos pés para olhar pela janela mais uma vez. Sunny estava se esgueirando pela porta aberta do casebre, achatando seu corpinho o suficiente para não abrir mais a porta.
“Ela está lá dentro”, murmurou Violet.
No casebre?”, disse Klaus, sufocando um grito de horror. “Isso não, temos que impedi-la.”
“Ela está se arrastando bem devagarinho na direção da pessoa”, disse Violet, com medo até de piscar.
“Prometemos a nossos pais que cuidaríamos dela”, disse Klaus. “Não podemos deixar que faça isso.”
“Ela está estendendo a mão para alcançar o molho de chaves”, disse Violet, sem respirar. “Está tentando bem de leve fazer o molho se soltar da mão da pessoa.”
“Não me conte mais nada”, disse Klaus, ao mesmo tempo que um raio riscou o céu. “Não, vai, conta. O que está acontecendo?”
“Ela pegou as chaves”, disse Violet. “Pôs as chaves na boca para poder trazê-las. Está se arrastando de volta para a porta, achatando o corpo e se esgueirando.”
“Ela conseguiu”, disse Klaus, espantado. Sunny veio se arrastando triunfantemente até os órfãos, com as chaves na boca. “Violet, ela conseguiu”, disse Klaus, dando um abraço em Sunny no mesmo instante em que o bum! de um trovão ecoava pelo céu.
Violet sorriu para Sunny, mas parou de sorrir assim que olhou de novo para dentro do casebre. A trovoada tinha despertado o (a) amigo (a) do conde Olaf, e Violet observou aflita a pessoa encarando a mão vazia onde antes havia estado o molho de chaves, e depois seguindo no chão o rastro de Sunny, que estava ensopada, e depois erguendo os olhos até a janela, onde cruzaram com os de Violet.
“Ela acordou!”, gritou Violet. “Ele acordou! A pessoa acordou! Depressa, Klaus, abra o portão, enquanto eu tento distrair a criatura.”
Sem dizer mais nada, Klaus pegou o molho de chaves na boca de Sunny e correu para o alto portão de ferro. Havia três chaves no molho – uma fininha, outra mais grossa e uma terceira denteada que lembrava as intimidantes proteções pontiagudas no alto do portão. Ele pôs o atlas no chão e começou a experimentar a chave fininha na fechadura; nesse mesmo instante, o(a) pesado(a) e modorrento(a) amigo(a) do conde Olaf saiu do casebre.
Com o coração na mão, Violet se viu frente a frente com a criatura e lhe deu um sorriso falso.
“Boa tarde”, disse, não sabendo se acrescentava “senhor” ou “senhora”. “Acontece que me perdi neste cais. Será que poderia me dizer como chego na barca?”
O(A) amigo(a) do conde Olaf não respondeu, mas continuou indo na direção dos órfãos, sem levantar os pés do chão. A chave fininha coube na fechadura, mas não se moveu, e Klaus experimentou a mais grossa.
“Perdão”, disse Violet, “mas não escutei o que disse. Será que poderia me dizer...”
Sem dizer nada, aquela montanha de pessoa agarrou Violet pelos cabelos e, com um único impulso do braço, ergueu-a em cima de seus ombros fedorentos com a mesma facilidade com que alguém jogaria uma mochila nas costas. Klaus não conseguiu fazer a chave mais grossa entrar na fechadura e experimentou a denteada; nesse mesmo instante, a pessoa, com a mão que lhe sobrava, pegou Sunny e a suspendeu no ar como se segurasse uma casquinha de sorvete.
“Klaus!”, gritou Violet. “Klaus!”
A chave denteada tampouco entrou na fechadura. Klaus, frustrado, sacudiu repetidamente o portão de ferro. Violet dava pontapés nas costas da criatura e Sunny mordia o seu pulso, mas a pessoa era tão encouraçada – termo que aqui quer dizer “incrivelmente vigorosa e resistente” – que as crianças não conseguiam lhe causar dor nenhuma. Com seu andar arrastado, o(a) amigo(a) do conde Olaf avançou em direção a Klaus, sem soltar as duas outras órfãs. Em desespero, Klaus voltou a experimentar a chave fininha na fechadura, e, para sua surpresa e alívio, ela girou e o alto portão de ferro se abriu. A dois, três metros de distância, estavam seis barcos a vela amarrados ao final do cais com uma corda grossa – barcos que poderiam levá-los até tia Josephine. Mas Klaus chegara tarde demais. Sentiu algo agarrando a parte de trás de sua camisa e levantando-o no ar. Algo viscoso se deslocava pelas suas costas, e Klaus percebeu com horror que a pessoa o segurava na boca.
“Ponha-me no chão!”, gritou Klaus. “Ponha-me no chão!”
“Ponha-me no chão!”, berrou Violet. “Ponha-me no chão!”
“Poda riche!”, esgoelou Sunny. “Poda riche!”
Mas a criatura de andar arrastado não ligava a mínima para os desejos dos órfãos Baudelaire. Com grandes passos pausados deu meia-volta e começou a carregar os garotos de volta ao casebre. As crianças ouviram o som pegajoso de suas patas de elefante chapinhando na água da chuva, plash, plash, plash, plash. Mas, de repente, em vez de um plash, surgiu um esquitlauás: a pessoa pisou no atlas de tia Josephine, e este deslizou embaixo dos seus pés. O(A) amigo(a) do conde Olaf agitou os braços para se equilibrar, derrubando Violet e Sunny; em seguida caiu ele (a) próprio (a), abrindo a boca, espantado(a), e derrubando Klaus. Os órfãos, que estavam razoavelmente em forma, levantaram-se mais rápido que a desprezível criatura e, atravessando em disparada o portão aberto, dirigiram-se ao barco mais próximo. A criatura se ergueu com enorme esforço e saiu atrás deles, mas a essa altura Sunny já havia mordido e rompido a corda que amarrava o barco ao cais. Quando a criatura chegou ao portão de ferro, os órfãos já se achavam em plenas águas tormentosas do Lago Lacrimoso.
Na escassa luz do fim de tarde, Klaus removeu a marca de sujeira deixada pelo pé da criatura na capa do atlas e começou a lê-lo. O livro de mapas de tia Josephine os salvara uma primeira vez, ao lhes mostrar a localização da Gruta do “P”, e agora os salvava novamente.

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