8 de agosto de 2016

Capítulo doze


“Klaus!”, gritou Violet. “Klaus, não faça isso!”
O capataz Flacutono virou-se, com os olhos redondos e miúdos faiscando sobre a máscara cirúrgica. “Ora, vejam só, as outras duas anãs”, disse ele. “Chegaram bem a tempo de assistir ao acidente.”
“Não é nenhum acidente”, disse Violet. “Você está fazendo de propósito!”
“Não vamos discutir por questões de lana-caprina”, disse o capataz, usando uma expressão que aqui significa “discutir sobre algo que não tem a menor importância”.
“Você esteve envolvido nisso o tempo todo!”, gritou Violet. “Você está mancomunado com a dra. Orwell e com Shirley!”
“E daí?”, provocou o capataz Flacutono.
“Deluni!”, gritou Sunny estridentemente, querendo dizer: “Você não é apenas um mau capataz, você é uma pessoa do mal!”.
“Não sei o que você quer dizer, anãzinha”, falou o capataz Flacutono, “e estou pouco ligando. Klaus, seu sortudo, continue, por favor.”
“Não, Klaus!”, pediu Violet. “Não!”
“Quiutu!”, gritou Sunny.
“Suas palavras de nada adiantarão”, disse o capataz Flacutono. “Estão vendo?”
Sunny viu: seu irmão caminhava descalço para a tora, como se as irmãs não lhe houvessem dito nada. Mas Violet não estava prestando atenção em Klaus. Ela olhava para o capataz Flacutono e pensava em tudo o que ele falara. O terrível capataz tinha razão, é claro. As palavras das duas Baudelaire não hipnotizadas de nada adiantariam. No entanto, Violet sabia que algumas palavras ajudariam. O livro que estava segurando lhe havia dito, em meio aos hmmms, que existia uma palavra para impor obediência a Klaus e uma outra palavra para tirá-lo da hipnose. A Baudelaire mais velha raciocinou que o capataz Flacutono devia ter usado a palavra para impor obediência justo naquela ocasião, e ela estava tentando lembrar-se de tudo o que ele dissera. Ele chamou Klaus de “porcariazinho”, mas não parecia provável que “porcariazinho” fosse a palavra-chave. Ele falou “tora” e falou “empurre”, mas tanto uma como outra não pareciam ser a palavra mágica. Então ela apercebeu-se, com desespero, de que a palavra para impor obediência poderia ser qualquer uma.
“Isso mesmo”, disse o capataz Flacutono quando Klaus chegou junto à tora. “Agora, em nome da Serraria Alto-Astral, empurre a tora em direção à serra.”
Violet cerrou os olhos e fez o cérebro funcionar a todo o vapor, expressão que aqui significa “tentou pensar em outras ocasiões em que a palavra-chave deve ter sido usada”. O capataz Flacutono deve tê-la usado quando Klaus provocou o primeiro acidente, aquele que quebrou a perna de Phil. Violet lembrou-se do capataz ter dito: “Você, seu anão sortudo, é quem vai operar a máquina”, e Klaus respondera “Sim, senhor” naquela mesma voz fraca, hipnotizada, da noite anterior.
“Egu!”, Sunny berrou de medo, à medida que o hmmm da serra tornava-se mais forte e mais áspero. Klaus empurrara a tora para a serra, e os olhos de Charles ficaram ainda mais esgazeados quando a lâmina começou a retalhar a madeira, chegando cada vez mais perto de onde estava amarrado.
Ao lembrar-se de que Klaus respondera “Sim, senhor” logo antes de dormir, Violet se deu conta de que devia ter usado, ela própria, a palavra de impor obediência. Acelerou o cérebro mais uma vez, esforçando-se por lembrar a conversa. Klaus chamara a irmã menor de Susan, em vez de Sunny, e então perguntou se realmente se sentiria melhor de manhã. E o que foi que Violet respondeu?
“Continue empurrando, seu anão sortudo”, disse o capataz Flacutono, e Violet lembrou-se na mesma hora.
Sortudo.
“Sortudo!”, gritou a Baudelaire mais velha, sem se dar ao trabalho de esconder a palavra numa frase, como fazia o capataz. “Empurre a tora para longe da serra, Klaus!”
“Sim, senhor”, disse Klaus de modo sereno, e as irmãs Baudelaire viram, aliviadas, que ele afastava a tora da lâmina giratória bem no momento em que os dedos dos pés de Charles estavam na iminência de ser cortados. O capataz Flacutono virou-se e encarou Violet com seus olhos miúdos explodindo de raiva. Ela soube que ele sabia que ela sabia.
“Sortudo!”, rosnou ele. “Empurre a tora de volta para a serra, Klaus!”
“Sim, senhor”, murmurou Klaus.
“Sortudo!”, gritou Violet. “Afaste a tora!”
“Sortudo!”, rugiu o capataz Flacutono. “Ponha a madeira na serra!”
“Sortudo! Afaste!”
“Sortudo! Vire para a serra!”
“Sortudo! Afaste!”
“Sortudo! Vire para a serra!”
“SORTUDO!”, berrou outra voz do vão da porta, e todos – incluindo Violet, Klaus, Sunny e o capataz Flacutono – se viraram. Até Charles fez o que pôde para ver a dra. Orwell, que surgira na entrada acompanhada de Shirley, à espreita por trás da hipnotizadora.
“Viemos dar uma passadinha aqui para certificar-nos de que está tudo em ordem”, disse a dra. Orwell, apontando sua bengala negra para a serra. “E ainda bem que resolvemos fazer isso. Sortudo!”, gritou para Klaus. “Não dê ouvidos a suas irmãs!”
“Que boa ideia”, disse o capataz Flacutono para a doutora. “Não tinha pensado nisso.”
“Isso explica por que você não passa de um capataz”, respondeu a dra. Orwell com o maior esnobismo. “Sortudo, Klaus! Empurre a tora em direção à serra!”
“Sim, senhor”, disse Klaus, e começou a empurrar a tora outra vez.
“Por favor, Klaus!”, exclamou Violet. “Não faça isso!”
“Jaiss!”, gritou Sunny estridentemente, querendo dizer: “Não machuque Charles!”.
“Por favor, dra. Orwell!”, exclamou Violet. “Não force meu irmão a fazer esse ato terrível!”
“E terrível, eu sei muito bem”, disse a dra. Orwell. “Mas também é terrível que a fortuna dos Baudelaire vá para vocês, seus três idiotas, e não para mim e para Shirley. Vamos repartir o dinheiro, metade para cada uma.”
“Descontados os gastos já feitos, Georgina”, Shirley fez questão de lembrar.
“Sim, descontados os gastos”, disse a dra. Orwell.
hmmm da serra começou a produzir um som mais forte e áspero assim que a lâmina reiniciou os cortes na tora. Os olhos de Charles se encheram de lágrimas, que começaram a escorrer pela corda que o amarrava à tora. Violet olhou para o irmão, em seguida para a dra. Orwell, e num desabafo de suas frustradas intenções atirou ao chão o pesado livro. Ela precisava agora, e desesperadamente, da palavra capaz de anular a hipnose de seu irmão, mas não tinha a menor ideia de qual poderia ser. A palavra para imposição de obediência fora usada uma porção de vezes, e graças à repetição Violet conseguira descobrir qual era. No entanto, Klaus só saíra do transe hipnótico uma única vez – depois do acidente com a perna de Phil. Ela e sua irmã perceberam que ele retornou à normalidade na mesma hora em que começara a definir uma palavra para os funcionários da serraria. E quem saberia dizer que palavra fez ele parar de seguir as ordens do capataz Flacutono? Violet desviou os olhos das lágrimas de Charles para as lágrimas que surgiam nos olhos de Sunny à medida que o acidente fatal se tornava cada vez mais próximo. Num instante, tudo fazia crer, eles presenciariam Charles submeter-se a uma morte horrível, e em seguida com absoluta certeza ficariam sob a guarda de Shirley. Depois de tantas vezes terem escapado por um triz das perfídias do conde Olaf, aquele parecia ser o momento do terrível triunfo dele (ou, no caso, dela). De todas as situações em que ela e seus irmãos se viram envolvidos, aquela parecia ser a mais desgraçadamente irregular, pensou Violet.
Era a mais desgraçadamente desproporcional. A mais desgraçadamente extravagante. A mais desgraçadamente excessiva. E, ao pensar em todas essas palavras, ocorreu-lhe aquela que tirara Klaus da hipnose, aquela que simplesmente poderia salvar a vida de todos eles.
“Exorbitante!”, gritou, o mais alto que pôde, a fim de que o som da palavra se sobrepusesse à barulheira terrível produzida pela serra. “Exorbitante! Exorbitante! Exorbitante!”
Klaus piscou, e em seguida olhou em toda a sua volta como se alguém tivesse acabado de lançá-lo no meio da serraria. “Onde estou?”, perguntou.
“Oh, Klaus”, disse Violet aliviada. “Você está aqui conosco!”
“Droga!”, disse a dra. Orwell. “Ele saiu da hipnose! Como é que pode essa criança saber uma palavra tão complicada como 'exorbitante'?”
“Esses idiotas sabem um monte de palavras”, disse Shirley na sua ridícula voz de falsete. “São viciados em livros. Mas ainda podemos criar um acidente e ficar com a fortuna!”
“Não podem, não!”, exclamou Klaus, e avançou para afastar Charles do alcance da máquina.
“Veja só como podemos!”, disse o capataz Flacutono, e mais uma vez estendeu a perna no caminho de Klaus. Vocês devem estar imaginando que essa jogada funcionaria no máximo duas vezes, porém estão enganados, porque Klaus tornou a ir ao chão, batendo com a cabeça na pilha de decorticadores e caixinhas verdes.
“Não podem, não!”, exclamou Violet, e avançou com o intuito de, ela própria, afastar Charles do alcance da máquina.
“Veja só como podemos!”, disse Shirley com sua voz boba de falsete, e agarrou o braço de Violet. O capataz Flacutono mais que depressa agarrou o outro braço, e a Baudelaire mais velha viu-se encurralada.
“Oh, dunum!”, gritou Sunny, e engatinhou na direção de Charles. Ela não tinha força suficiente para afastar a tora da serra, porém pensou em roer a corda e libertá-lo.
“Veja só como podemos!”, disse a dra. Orwell, e abaixou o braço estendido para agarrar a Baudelaire mais jovem. Contudo Sunny estava alerta. No mesmo instante abriu a boca e mordeu a mão da hipnotizadora com toda a força de que foi capaz.
“Gack!”, berrou a dra. Orwell, usando uma expressão numa língua inexistente. Mas em seguida sorriu e usou uma expressão francesa: “En garde!”.
En garde!, talvez vocês saibam, é uma expressão usada para anunciar o início de uma luta de esgrima; com um sorriso malvado, a dra. Orwell apertou a pedra vermelha no alto de sua bengala negra, fazendo surgir uma lâmina reluzente na outra ponta. Em apenas um segundo, sua bengala se tornara uma espada, que ela então apontou para a Baudelaire caçula. Sunny, não sendo mais do que uma criança pequena, não tinha espada. Só podia contar com seus quatro dentes afiados; encarando a dra. Orwell olhos nos olhos, abriu a boca e apontou os quatro dentes para aquele ser tão perverso.
Quando uma espada bate contra outra – ou, nesse caso, num dente – há um som agudo: clink!; sempre que o ouço me lembro de uma luta de espadas que fui forçado a travar com um técnico por causa de um conserto na minha televisão, muito tempo atrás. A Sunny, entretanto, só ocorreu lembrar que não queria ser cortada em pedaços. A dra. Orwell brandiu sua bengala-espada contra Sunny, e Sunny brandiu seus dentes contra a dra. Orwell. Logo os sons de clink! se fizeram tão fortes quanto os da máquina de serrar que continuava serrando a tora em direção a Charles. Clink! Sempre mais perto, mais perto, a lâmina da serra chegou a estar por um fio de cabelo – não entendam ao pé da letra, imaginem uma distância mínima – dos pés de Charles.
“Klaus!”, gritou Violet, debatendo-se sem conseguir soltar-se das garras de Shirley e do capataz Flacutono. “Faça alguma coisa!”
“Não há nada que seu irmão possa fazer!”, observou Shirley com uma risadinha perturbadora. “Ele acaba de sair da hipnose – está tonto demais para fazer qualquer coisa. Capataz Flacutono, vamos puxar a menina cada um para o seu lado. Acabaremos com os braços de Violet!”
Shirley estava certa quanto ao estrago nos braços de Violet, mas errada a propósito de Klaus. Sim, ele acabara de sair da hipnose, e que estava tonto estava, porém não tonto demais para ser incapaz de fazer qualquer coisa. O problema era que simplesmente não sabia o que fazer. Klaus fora jogado no canto onde estavam os decorticadores e os chicletes, e se quisesse ir em direção a Charles teria que cruzar o duelo de espadas entre Sunny e a dra. Orwell; só de ouvir mais um clink! da espada nos dentes de Sunny deu para sentir que sairia gravemente ferido se tentasse abrir passagem entre as duelistas. Sobrepondo-se aos sons agudíssimos de clink!, chegou-lhe ainda mais forte e mais brutal o barulho da máquina de serrar, e Klaus viu com horror que a lâmina estava começando a cortar a sola dos sapatos de Charles. O sócio de Senhor tentou mover os pés para afastá-los da lâmina, mas a corda estava apertada demais, e pequenas aparas da sola começaram a cair no chão da serraria. Num instante a lâmina daria conta dos sapatos e começaria a agir nas plantas dos pés de Charles. Klaus precisava inventar algo que fizesse a máquina parar, e precisava agir o quanto antes.
Klaus olhou para a lâmina circular da serra e começou a sentir um desânimo atroz. Como Violet fazia para inventar? Klaus tinha algum interesse por coisas mecânicas, porém no fundo era um leitor, não um inventor. Simplesmente não tinha a espantosa aptidão para inventar. Olhava para a máquina e via apenas um aparelho mortífero, mas sabia que se estivesse naquele canto da serraria, e não sendo destroncada pelos puxões de Shirley e do capataz Flacutono, Violet descobriria uma maneira de ajudá-los a sair daquela situação. Klaus começou a imaginar como a irmã procederia para inventar algo com os parcos recursos que tinha à sua disposição, e tentou adivinhar seus métodos.
Clink! Klaus olhou à sua volta para improvisar materiais, entretanto não viu nada além de decorticadores e caixinhas verdes de chiclete. Na mesma hora rasgou e abriu uma das caixas e meteu uma porção de chicletes dentro da boca, mascando ferozmente. A ideia era travar a máquina entupindo suas engrenagens com o grude do chiclete, e assim deter o avanço mortífero da lâmina.
Clinkl O terceiro dente de Sunny bateu na lâmina da espada da dra. Orwell no mesmo instante em que Klaus cuspia a massa de chiclete na palma da mão e atirava-a sobre a máquina com toda a força de que era capaz. Só que a massa grudenta limitou-se a cair no chão ao som de um plop! molhado. Klaus compreendeu que aquela goma não tinha peso suficiente para alcançar a serra. Como acontece com uma pluma ou um pedaço de papel, não havia jeito de arremessar muito longe a matéria gosmenta.
Ráquita, ráquita, ráquita! A máquina começou a fazer o barulho mais forte e mais brutal que Klaus já ouvira. Charles fechou os olhos e Klaus percebeu que a lâmina devia ter tocado na planta do pé. Empunhou uma quantidade maior de chiclete e jogou tudo para dentro da boca, sem ter certeza de que a quantidade fosse suficiente para dar peso à ideia. Não aguentava mais ficar olhando para a máquina; então baixou os olhos e, ao dar com um dos decorticadores dispostos no chão, percebeu de relance que a invenção estava ali à sua espera.
Quando Klaus olhou para a ferramenta da serraria, lembrou-se de uma época em que ficara ainda mais chateado do que quando esteve trabalhando na Alto-Astral. Aquele período especialmente tedioso acontecera muito tempo atrás, com os Baudelaire pais ainda vivos. Klaus lera um livro sobre diferentes espécies de peixe, e pediu aos pais que o levassem para uma pescaria. Sua mãe lhe avisara que pescar era uma das atividades mais chatas do mundo, mas encontrou duas varas no porão e concordou em levá-lo para um lago das redondezas. Klaus esperara conseguir ver os diferentes tipos de peixe sobre os quais havia lido, entretanto, em vez disso, ele e a mãe sentaram-se num barco a remo no meio do lago e não fizeram nada a tarde inteira. Ele e a mãe tinham que ficar em silêncio, para não espantar os peixes, só que não houve peixe, nem conversa, nem divertimento algum. Vocês podem imaginar que Klaus não achava a menor graça em lembrar-se de uma ocasião tão chata, quanto mais no auge de uma situação desesperadora, mas um único detalhe daquela tarde tediosa revelou-se bastante útil. Enquanto Sunny lutava com a dra. Orwell, Violet lutava com Shirley e o capataz Flacutono, e o pobre Charles lutava com a serra, Klaus lembrou-se da parte da pescaria que se chama arremesso. Arremesso consiste em usar a vara de pesca para lançar a isca no meio do lago e assim pegar mais facilmente o peixe. No caso de Klaus e sua mãe, o arremesso não adiantou, porém agora Klaus não pretendia pegar um peixe. Queria salvar a vida de Charles.
Mais que depressa, o garoto Baudelaire apanhou o decorticador e cuspiu a massa gosmenta de chiclete numa das pontas. O plano dele era usar a goma como uma espécie de linha de pesca e o decorticador como uma espécie de vara de pescar, e assim conseguir que a goma lançada transpusesse toda a distância até a serra. A invenção de Klaus parecia mais uma tira de metal com uma massa gosmenta do que uma vara de pescar de verdade, mas Klaus não estava preocupado com aparências. Respirou fundo e lançou o decorticador tal como sua mãe o ensinara a lançar a linha de pesca.
Plop! Para a satisfação de Klaus, a gosma alongou-se, formando um fio bem comprido, e passou sobre a dra. Orwell e Sunny, que continuavam lutando – exatamente como uma linha de pesca se projeta e ganha distância sobre a superfície de um lago. Contudo, para horror de Klaus, a goma não aterrissou na serra. Aterrissou na corda que amarrava Charles, que se debatia preso à tora. Quando olhou para Charles se debatendo, mais uma vez o que veio à lembrança de Klaus foi a imagem de um peixe, e ocorreu-lhe que talvez sua invenção tivesse de fato funcionado. Juntando toda a sua força – depois de haver trabalhado algum tempo na serraria, ele se tornara um garoto bastante forte para a sua idade –, Klaus segurou firme sua invenção e puxou-a. Puxou o decorticador, o decorticador puxou a goma, e a goma puxou a tora; para alívio dos três órfãos Baudelaire, a tora moveu-se para o lado. Não se deslocou muito, nem muito depressa, e certamente não foi um movimento gracioso, mas moveu-se o quanto bastava. O ruído horrível cessou, e a lâmina da serra continuou rodando, porém a tora estava fora do seu alcance e a máquina cortava o ar. Charles olhou para Klaus, e seus olhos encheram-se de lágrimas; quando Sunny virou-se, viu que Klaus também estava chorando.
Mas, no instante em que Sunny se virou, a dra. Orwell percebeu sua oportunidade. Impulsionando para a frente uma de suas botas feias e enormes, jogou Sunny no chão e prendeu a menina apoiando o pé em cima dela. Em seguida, sobre o corpo da criança, levantou a espada bem alto e soltou uma gargalhada maldosa, horrível.
“Agora estou acreditando”, disse ela, sempre com seu riso malvado, “que haverá mesmo um acidente na Serraria Alto-Astral!”
E a dra. Orwell estava certa. Houve mesmo um acidente, um acidente fatal – expressão que se usa quando ocorre a morte de alguém. Justamente quando a dra. Orwell estava para baixar sua espada sobre o pescoço da pequena Sunny, a porta da serraria se abriu e Senhor entrou no recinto. “Que diabos está havendo?”, rosnou, e a dra. Orwell virou-se para ele estupefata. Quando as pessoas ficam estupefatas, às vezes dão um passo para trás, e dar um passo para trás pode às vezes levar a um acidente. Foi o que aconteceu naquele caso, pois quando a dra. Orwell recuou um passo entrou na serra giratória, e o acidente que se seguiu foi realmente tétrico.

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