27 de agosto de 2016

Capítulo doze


Quando os órfãos Baudelaire abriram os olhos, estavam na entrada da Barraca do Destino de madame Lulu, bem em frente às iniciais C.S.C. A maior parte dos visitantes do parque estava perto do fosso dos leões, portanto os irmãos estavam sozinhos ao anoitecer, e mais uma vez não havia ninguém os observando quando pararam na frente da barraca, tremendo e chorando. Na última vez que ficaram parados ali por tanto tempo, a pintura pareceu modificar-se diante de seus olhos, até que, por trás da pintura do que imaginavam ser um olho, surgiu a insígnia de uma organização que poderia ajudá-los. Agora estavam ali outra vez, e esperavam que alguma coisa surgisse diante de seus olhos e lhes mostrasse o que fazer. Mas nada aparecia, não importa o quão intensamente olhassem. O parque estava em silêncio, a tarde continuava a se arrastar a caminho da noite, e a insígnia na barraca simplesmente olhava de volta para os Baudelaire.
“Gostaria de saber onde foi parar a correia de ventilador”, disse Violet por fim. Sua voz era débil e quase rouca, mas suas lágrimas tinham cessado. “Gostaria de saber se ela caiu no chão, ou se foi jogada sobre os trilhos da montanha-russa, ou se acabou...”
“Como você pode pensar em correia de ventilador num momento como este?”, perguntou Klaus, embora não estivesse zangado. Como Violet, ele ainda tremia dentro da camisa do disfarce, e sentia-se cansado, como é comum depois de chorar muito.
“Não quero pensar em mais nada”, disse Violet. “Não quero pensar na madame Lulu e nos leões, e não quero pensar no conde Olaf e na multidão, e não quero pensar se fizemos ou não a coisa certa.”
“Certa”, disse Sunny, gentilmente.
“Concordo”, disse Klaus. “Fizemos o possível.”
“Não tenho certeza”, retrucou Violet. “Eu estava com a correia de ventilador na mão. Era só o que precisávamos para terminar a invenção e escapar deste lugar horroroso.”
“Você não poderia ter concluído a invenção”, disse Klaus. “Estávamos cercados por uma multidão sedenta por ver alguém cair na boca dos leões. Não é nossa culpa se Lulu caiu em nosso lugar.”
“Mais careca”, acrescentou Sunny.
“Mas deixamos a multidão agitada”, disse Violet. “Primeiro atrasamos o espetáculo, e depois usamos a psicologia das massas para agitar e instigar as pessoas a jogar alguém no fosso.”
“Foi o conde Olaf que tramou esse plano assustador”, disse Klaus. “O que aconteceu com madame Lulu é culpa dele, e não nossa.”
“Prometemos levá-la conosco”, insistiu Violet. “Ela cumpriu sua promessa de não contar a Olaf quem éramos nós, mas nós não cumprimos a nossa parte.”
“Nós tentamos”, disse Klaus. “Tentamos cumprir a nossa parte.”
Tentar não é o suficiente”, disse Violet. “Será que nós vamos tentar encontrar um de nossos pais? Será que nós vamos tentar derrotar o conde Olaf?”
“Conseguir”, disse Sunny com firmeza, e agarrou-se à perna da irmã, que a mirou com os olhos cheios de lágrimas.
“Por que estamos aqui?”, perguntou Violet. “Pensamos que escaparíamos dos problemas com esses disfarces, mas estamos pior do que quando começamos. Não sabemos o que significa C.S.C., não sabemos onde está o dossiê Snicket e não sabemos se um de nossos pais está vivo.”
“Podemos não saber algumas coisas”, disse Klaus, “mas isso não significa que devemos desistir. Ainda podemos descobrir o que precisamos, podemos descobrir qualquer coisa.”
Violet sorriu em meio às lágrimas. “Você fala como um pesquisador”, disse.
O Baudelaire do meio enfiou a mão no bolso e pegou seus óculos. “Eu sou um pesquisador”, disse, e avançou até a entrada da barraca. “Mãos à obra.”
“Ghede!”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “Quase me esqueci da biblioteca de arquivos históricos!”, e seguiu os irmãos barraca adentro.
Assim que os Baudelaire entraram, depararam com os preparativos para a fuga que madame Lulu arrumara, e ficaram muito tristes ao pensar que ela nunca mais retornaria à barraca para apanhar aquelas coisas. Seu kit de disfarces estava todo empacotado, aguardando junto à porta para ser levado na viagem. Havia uma caixa de papelão perto do armário, cheia de comida para a jornada. E sobre a mesa, ao lado da bola de cristal sobressalente e algumas peças do dispositivo de relâmpagos, havia um grande pedaço de papel rasgado e muito velho, mas que parecia poder ajudar os Baudelaire.
“É um mapa”, disse Violet. “É um mapa das Montanhas de Mão-Morta. Devia estar no meio dos papéis dela.”
Klaus colocou os óculos para examinar de perto o papel. “Deve fazer muito frio por lá nessa época do ano”, disse. “Não tinha me dado conta de que a altitude era tanta.”
“Não ligue para a altitude”, disse Violet. “Você consegue encontrar a base de operações que Lulu mencionou?”
“Vamos ver”, disse Klaus. “Há uma estrela junto ao desfiladeiro de Plath, mas a legenda diz que uma estrela indica um camping.”
“Legenda?”, perguntou Sunny.
“Essa tabela no canto do mapa é chamada de legenda”, explicou Klaus. “Está vendo? Quem fez o mapa explicou o que quer dizer cada símbolo, para evitar que o mapa fique abarrotado de observações.”
“Há um retângulo preto aqui na Cordilheira Richter”, disse ela. “Aqui para o leste, está vendo?”
“Um retângulo preto indica uma área de hibernação”, disse Klaus. “Deve haver um bocado de ursos nas Montanhas de Mão-Morta. Veja, há cinco áreas de hibernação perto das Nascentes Silenciosas e um agrupamento delas no topo do Pico da Penuna.”
“E também aqui”, disse Violet, “no Vale das Correntezas que Sopram Constantes, onde parece que a madame Lulu derramou café.”
“Correntezas que Sopram Constantes!”, disse Klaus.
“C.S.C.!”, gritou Sunny.
Os Baudelaire examinaram juntos aquele ponto do mapa. O Vale das Correntezas que Sopram Constantes ficava no alto das Montanhas de Mão-Morta, onde devia fazer muito frio. O Arroio Enamorado começava nesse ponto e seguia sinuoso pelo sertão afora, até alcançar o mar. Durante esse percurso, o mapa mostrava muitas e muitas áreas de hibernação. Havia uma pequena mancha marrom no centro do vale, onde quatro gargantas da montanha se juntavam e onde madame Lulu devia ter derramado café, mas não havia nenhum sinal claro no mapa que indicasse uma base de operações ou qualquer coisa do gênero.
“Você acha que estamos na pista certa?”, perguntou Violet. “Ou será que esse novo C.S.C., é mais uma coincidência?”
“Eu achava que C.S.C., era algum tipo de organização de voluntários”, disse Klaus. “É o que estava escrito no caderno dos Quagmire, e o que disse Jacques Snicket.”
“Joiotrigo?”, perguntou Sunny, o que queria dizer: “Mas onde mais poderia ficar a base de operações? Não existem outras marcas no mapa”.
“Bem, se C.S.C, é uma organização secreta”, disse Violet, “eles podem não indicar a localização de sua base de operações no mapa.”
“Ou pode haver marcas secretas”, disse Klaus, e inclinou-se para dar uma boa olhada na mancha. “Talvez isso não seja uma reles mancha de café”, disse ele. “Talvez seja uma marca secreta. Madame Lulu pode ter deixado cair um pouco de café aqui de propósito, para poder encontrar a base de operações sem que mais ninguém possa.”
“Acho que temos de viajar para lá”, disse Violet com um suspiro, “e descobrir.”
“Como vamos para lá?”, disse Klaus. “Não sabemos onde está a correia de ventilador.”
“Podemos não ter algumas peças”, respondeu Violet, “mas isso não quer dizer que devemos desistir. Posso construir alguma outra coisa.”
“Você fala como uma inventora”, disse Klaus.
Violet sorriu e tirou a fita de cabelo do bolso. “Eu sou uma inventora”, disse. “Vou dar uma olhada e ver se encontro algo que possa ser útil. Klaus, você procura na biblioteca de arquivos históricos.”
“Mas antes é melhor a gente tirar esse disfarce”, disse Klaus, “ou não poderemos ir para lados diferentes ao mesmo tempo.”
“Ingredi”, disse Sunny, o que queria dizer: “Enquanto isso vou checar se essa comida é suficiente para toda a viagem”.
“Boa ideia”, disse Violet. “É melhor andar depressa, antes que alguém nos pegue aqui.”
“Aí estão vocês!”, gritou alguém na entrada da barraca, e os Baudelaire deram um pulo. Com medo de ser reconhecidos, Violet enfiou rapidamente sua fita de volta no bolso e Klaus tirou os óculos. Conde Olaf e Esmé Squalor estavam diante da entrada de braços entrelaçados, como se fossem um casal de pais cansados mas felizes que chegasse em casa depois de um longo dia de trabalho, e não um cruel vilão e a sua ardilosa namorada que entravam numa Barraca do Destino depois de uma tarde de violência. Esmé Squalor tinha nas mãos um ramalhete de hera, provavelmente um presente de seu namorado, e o conde Olaf segurava uma tocha flamejante, que brilhava tão forte quanto os seus olhos perversos.
“Procurei vocês dois por toda parte”, disse ele. “O que estão fazendo aqui?”
“Decidimos que todas as aberrações podem se juntar a nós”, disse Esmé, “apesar de vocês não terem sido muito corajosos no fosso dos leões.”
“É uma oferta muito gentil”, disse Violet depressa, “mas vocês não gostariam de ter covardes como nós na sua trupe.”
“É claro que gostaríamos”, disse Olaf com um sorriso perverso. “Perdemos assistentes o tempo todo, é sempre bom ter alguns de reserva. Convidei até a mulher que cuida do trailer dos presentes para juntar-se a nós, mas ela estava preocupada demais com suas estatuetas para perceber que a oportunidade batia à sua porta.”
“Além disso”, disse Esmé, fazendo um cafuné na cabeça de Olaf, “vocês não têm escolha. Vamos tocar fogo neste parque de diversões e eliminar todas as provas de que estivemos aqui. A maioria das barracas já está em chamas, e os visitantes e trabalhadores do parque estão correndo para salvar suas vidas. Se vocês não se juntarem a nós, para onde vão?”
Os Baudelaire se entreolharam, desalentados.
“Acho que vocês estão certos”, disse Klaus.
“É claro que estamos certos”, disse Esmé. “Agora deem o fora daqui e ajudem-nos a arrumar o porta-malas.”
“Espere um minuto”, disse Olaf, e foi até a mesa. “O que é isso?”, perguntou. “Parece um mapa.”
“É um mapa”, admitiu Klaus com pesar, desejando tê-lo escondido no bolso. “Um mapa das Montanhas de Mão-Morta.”
“Das Montanhas de Mão-Morta?”, disse o conde Olaf, ansioso por examinar o mapa. “Ora, é para lá que estamos indo! Lulu disse que, se um dos pais dos Baudelaire estiver vivo, está escondido lá! O mapa mostra alguma base de operações?”
“Acho que os retângulos pretos indicam bases de operações”, disse Esmé, por cima do ombro de Olaf. “Sou muito boa em interpretar mapas.”
“Não, eles representam campings”, disse Olaf, checando a legenda, e então abriu um sorriso. “Espere um minuto”, disse, e apontou para a suposta mancha de café. “Não vejo uma dessas há muito tempo”, declarou, alisando o queixo descarnado.
“Uma mancha marrom?”, perguntou Esmé. “Você viu hoje mesmo, no café-da-manhã.”
“Esta é uma mancha codificada”, explicou Olaf. “Ainda menino me ensinaram a usar isso em mapas. Serve para marcar um local secreto sem que ninguém perceba.”
“Exceto um gênio”, disse Esmé. “Aposto que estamos indo para o Vale das Correntezas que Sopram Constantes.”
“C.S.C.”, disse o conde Olaf, e deu uma risadinha. “Esse mapa veio mesmo a calhar. Bem, vamos embora. Existe mais alguma coisa útil por aqui?”
Os Baudelaire olharam para a mesa, onde estava escondida a biblioteca de arquivos históricos. Embaixo da toalha preta decorada com estrelas prateadas estavam todas as informações que madame Lulu reunira para dar aos seus visitantes o que eles queriam. As crianças sabiam que todos os segredos importantes podiam ser encontrados no meio daquela papelada, mas estremeceram só de pensar no que o conde Olaf faria se tivesse acesso àquelas informações.
“Não”, disse Klaus. “Não há mais nada útil.”
O conde Olaf se ajoelhou na altura de Klaus e o encarou bem de perto com uma carranca horrível. Mesmo sem óculos, o Baudelaire do meio constatou que o conde Olaf não lavava a sua única sobrancelha há um bom tempo, e pôde sentir bem de perto o seu hálito quando ele falou: “Acho que você está mentindo”, e agitou a tocha acesa na cara de Klaus.
“O que a minha outra cabeça falou é verdade”, disse Violet.
“Então o que é essa comida aqui?”, perguntou o conde Olaf, apontando para a caixa de papelão. “Você não acha que ela seria útil numa viagem longa?”
Os Baudelaire suspiraram de alívio.
“Grr!”, rosnou Sunny.
“Chabo lhe dá os parabéns pela sua inteligência, senhor”, disse Klaus, “e nós também. Não tínhamos reparado na caixa.”
“É por isso que eu sou o chefe”, disse Olaf, “porque sou esperto e tenho ampla visão das coisas.” Então deu uma risada perversa e pôs a tocha na mão de Klaus. “E agora”, disse, “quero que você toque fogo nesta barraca e depois traga a caixa de comida para o carro. Chabo, venha comigo. Tenho certeza de que vou encontrar alguma coisa em que você possa cravar os dentes.”
“Grr”, disse Sunny, duvidando.
“Chabo prefere ficar conosco”, disse Violet.
“Tanto faz o que Chabo prefere”, rosnou Olaf, e agarrou a mais jovem dos Baudelaire como se ela fosse uma melancia. “E agora, mãos à obra.”
O conde Olaf e Esmé Squalor saíram da barraca com Chabo, deixando os Baudelaire mais velhos com a tocha flamejante.
“É melhor pegar a caixa primeiro”, disse Klaus, “e atear fogo na barraca pelo lado de fora. Caso contrário, vamos acabar cercados pelas chamas.”
“Vamos mesmo seguir as ordens de Olaf?”, perguntou Violet, olhando para a mesa. “Podemos ficar e conseguir todas as respostas que procuramos na biblioteca de arquivos históricos.”
“Acho que não temos escolha”, disse Klaus. “Olaf ateou fogo em quase todo o parque, e viajar com ele é a única possibilidade de chegar às Montanhas de Mão-Morta. Nem você tem tempo para inventar alguma coisa nem eu tenho tempo para pesquisar na biblioteca.”
“Podíamos encontrar um empregado do parque”, disse Violet, “e pedir ajuda.”
“Todo mundo pensa que somos aberrações, ou então assassinos”, disse Klaus. “Às vezes, até eu penso.”
“Se nos juntarmos ao conde Olaf”, disse Violet, “talvez fiquemos ainda mais aberrantes e sanguinários.”
“Mas e se não nos juntarmos a ele”, perguntou Klaus, “para onde podemos ir?”
“Não sei”, disse Violet, tristemente, “mas isso não pode ser a coisa certa a fazer, pode?”
“Talvez esse seja o tipo da atitude doida varrida”, disse Klaus, ”como disse Olívia.”
“Talvez”, disse Violet, e foi desajeitadamente com o irmão até a caixa de comida. Enquanto Klaus segurava a tocha acesa, Violet pegou a caixa, e os dois Baudelaire deixaram a Barraca do Destino pela última vez.
Quando pisaram do lado de fora, parecia que a noite já tinha caído, mas em vez do famoso crepúsculo azul, o céu do sertão estava preto de fumaça. Olhando em volta, Violet e Klaus viram que muitas barracas e trailers já estavam em chamas, como dissera o conde Olaf, e as labaredas golfavam espirais de fumo negro para cima. Rente aos Baudelaire, os últimos visitantes corriam para escapar da traição de Olaf, enquanto os leões, ainda presos no fosso, soltavam rugidos de desespero.
“Esse não é o tipo de violência de que eu gosto!”, gritou o homem das espinhas, tossindo no meio da fumaça. “Gosto quando os outros estão em perigo!”
“Eu também!”, disse a repórter d’O Pundonor Diário, correndo ao lado dele. “Olaf me contou que os Baudelaire são os responsáveis! Já posso ver a manchete: ‘ÓRFÃOS BAUDELAIRE PROSSEGUEM EM VIDA DE CRIMES!’“
“Que tipo de criança faria algo tão horrível?”, perguntou o homem das espinhas, mas antes que
Violet e Klaus pudessem ouvir a resposta, a voz do conde Olaf se impôs.
“Depressa, aberração de duas cabeças!”, gritou ele da esquina. “Se não vier aqui neste minuto, vamos embora sem você!”
“Grr!”, Sunny rosnou, e sob o reverberar da voz espúria da irmãzinha, os Baudelaire mais velhos atiraram a tocha acesa na Barraca do Destino e correram na direção de Olaf sem olhar para trás, embora não fosse fazer diferença se tivessem olhado. Havia tanto fogo e tanta fumaça que uma barraca em chamas a mais não teria alterado nem um pouco a aparência do parque. A única diferença seria ter a consciência de que uma parte do incêndio lhes concernia, uma frase que aqui significa “saber que ajudaram Olaf a botar fogo no parque”, e embora nem Violet nem Klaus tivessem visto com seus próprios olhos o que fizeram, no fundo sabiam, e duvido que jamais tenham se esquecido.
Quando os Baudelaire mais velhos dobraram a esquina, os outros comparsas de Olaf aguardavam-nos junto ao automóvel preto. Hugo, Colette e Kevin estavam no banco de trás com as duas mulheres de cara branca, e Esmé Squalor estava na frente, com Sunny no colo. Enquanto o homem de mãos de gancho colocava a caixa de comida no porta-malas, o conde Olaf apontou para o trailer das aberrações com o chicote, agora muito mais curto e desgastado nas pontas.
“Você vai viajar ali”, disse. “Vamos amarrar o trailer no carro e rebocá-lo.”
“Será que não tem lugar no carro?”, perguntou Violet, nervosa.
“Não seja ridícula”, disse o homem de mãos de gancho com desdém. “Já tem gente demais. Ainda bem que Colette é contorcionista, assim ela pode viajar como uma bola nos nossos pés”.
“Chabo já roeu o meu chicote para transformá-lo em corda”, disse o conde Olaf. “Vou amarrar o trailer com um nó qualquer no carro, e então podemos partir na direção do poente.”
“Desculpe”, disse Violet, “mas conheço um nó chamado Língua do Diabo que talvez possa segurar melhor.”
“E, se estou lembrado do mapa”, disse Klaus, “devemos seguir na direção do nascente, até o Arroio Enamorado; portanto devemos ir na outra direção, afastando-nos do poente.”
“Sim, sim, sim”, disse depressa o conde Olaf. “Foi o que eu quis dizer. Trate de amarrar sozinho, se quiser. Vou dar partida no motor.”
Olaf jogou a corda para Klaus, e o homem de mãos de gancho procurava no porta-malas um par de walkie-talkies, o mesmo que as crianças viram na época em que moraram na casa de Olaf.
“Pegue um, aberração de duas cabeças”, disse ele, pondo um dos aparelhos na mão de Violet, “assim poderemos manter contato.”
“Depressa!”, latiu Olaf, pegando o outro walkie-talkie. “O ar está se enchendo de fumaça.”
O vilão e seus comparsas entraram no automóvel, e Violet e Klaus se ajoelharam para amarrar o trailer.
“Não acredito que estou usando este nó para ajudar o conde Olaf”, disse ela. “Tenho a sensação de estar usando meus talentos de inventora para uma coisa maligna.”
“Todos nós”, disse Klaus, taciturno. “Sunny usou os dentes para fazer uma corda daquele chicote, e eu usei meus conhecimentos cartográficos para guiar Olaf.”
“Pelo menos, vamos chegar lá”, disse Violet, “e talvez um de nossos pais esteja aguardando por nós. Pronto. Está amarrado. Vamos para o trailer.”
“Eu gostaria que Sunny viajasse conosco”, disse Klaus.
“Ela vai”, respondeu Violet. “Não estamos indo para as Montanhas de Mão-Morta do jeito que queríamos, mas estamos indo, e é isso o que importa.”
“Espero”, disse Klaus, e ele e sua irmã entraram no trailer das aberrações.
Olaf deu partida no motor e o trailer começou a oscilar levemente enquanto o automóvel o rebocava para longe do parque de diversões. As redes balançavam e a arara de roupas rangia, mas o nó que Violet amarrara aguentou firme, e os veículos começaram a viajar na direção indicada por Klaus.
“Acho que podemos nos acomodar”, disse Violet. “Vamos viajar durante um bom tempo.”
“Por toda a noite, pelo menos”, disse Klaus, “e provavelmente pela maior parte do dia de amanhã. Espero que eles dividam a comida conosco.”
“Talvez possamos fazer chocolate quente mais tarde”, disse Violet.
“Com canela”, disse Klaus, sorrindo ao se lembrar da receita de Sunny. “Mas o que vamos fazer enquanto isso?”
Violet suspirou e sentou-se com Klaus numa mesma cadeira. Embalada pelo leve sacolejar do trailer, repousou a cabeça na mesa e largou o walkie-talkie ao lado do jogo de dominó. “Vamos nos sentar”, disse, “e pensar um pouco.”
Klaus concordou e os dois Baudelaire ficaram pensando durante o resto da tarde, enquanto o automóvel os arrastava para cada vez mais longe do parque de diversões em chamas. Violet tentou imaginar como seria a base de operações de C.S.C., esperando que um de seus pais estivesse lá. Klaus tentou imaginar sobre o que Olaf e sua trupe conversavam, esperando que Sunny estivesse bem. E ambos pensaram sobre o que lhes acontecera no Parque Caligari, e se perguntaram se estariam ou não fazendo as coisas certas. Tinham se disfarçado para responder às suas perguntas, e agora essas respostas ardiam junto com a mesa de madame Lulu e toda a sua biblioteca de arquivos históricos. Eles tinham encorajado seus colegas de trabalho a trabalhar onde não fossem considerados aberrações, e agora faziam parte da trupe maligna do conde Olaf. Tinham prometido à madame Lulu que a levariam C.S.C., para que ela voltasse a ser nobre, mas ela caíra no fosso dos leões e agora não passava de um petisco. Violet e Klaus pensaram em todas as dificuldades que enfrentavam, e se perguntaram se tudo aquilo era um simples infortúnio, ou se eles eram culpados de alguma coisa. Pensar naquilo tudo não era agradável, mas ainda assim era preferível a se esconder e mentir e elaborar planos frenéticos. Era tranquilo ficar sentados no trailer das aberrações, pensando no que aconteceu, mesmo quando o trailer se inclinou um pouco para começar a subir as Montanhas de Mão-Morta. Ficar sentado pensando era tão tranquilo que tanto Violet quanto Klaus tiveram a sensação de estar despertando quando a voz do conde Olaf ressoou no walkie-talkie.
“Vocês estão aí?”, perguntou. “Apertem o botão vermelho e falem!”
Violet esfregou os olhos, pegou o walkie-talkie e segurou-o numa posição em que tanto ela quanto o irmão pudessem ouvir. “Estamos aqui”, disse.
“Acho bom”, retrucou Olaf, “porque eu queria dizer a vocês que aprendi mais uma coisa com madame Lulu.”
“O quê?”, quis saber Klaus.
Houve uma pausa, e as crianças ouviram as gargalhadas cruéis que vinham do pequeno dispositivo. “Fiquei sabendo que vocês são os Baudelaire!”, gritou o conde Olaf, triunfante. “Fiquei sabendo que vocês três fedelhos me seguiram até aqui e me enganaram com disfarces vis. Mas eu sou esperto demais para vocês!”
Olaf começou a rir de novo, mas por trás de suas gargalhadas os dois irmãos ouviram outro som que os deixou tão cambaleantes quanto o trailer em que estavam. Era Sunny, que chorava de medo.
“Não a machuque!”, gritou Violet. “Não se atreva a machucá-la!”
“Machucá-la?”, rosnou Olaf. “Ora, eu nem sonharia em machucá-la! Afinal, preciso de um órfão para me apoderar da fortuna. Primeiro quero ter certeza de que seus pais estão mortos, e depois vou usar Sunny para ficar muito, muito rico! Não, eu não me preocuparia com essa coisinha insignificante de dentes afiados, não ainda. Se eu fosse vocês, me preocuparia com vocês mesmos! Digam adeus à irmãzinha, Baudepirralhos!”
“Mas estamos presos um ao outro”, disse Klaus. “Atrelamos o trailer ao seu carro.”
“Olhem pela janela”, disse o conde Olaf, e desligou o walkie-talkie. Violet e Klaus se entreolharam, depois se puseram em pé, cambaleantes, e afastaram a cortina da janela. A cortina se abriu como num palco de teatro, e se eu fosse você, faria de conta que isso é uma peça de teatro – talvez uma tragédia de William Shakespeare – e que você está saindo antes do final para se esconder debaixo do sofá, porque vai se lembrar de que existe uma expressão que, lamento dizer, deve ser usada três vezes antes que esta história termine, e é no décimo terceiro capítulo que ela será usada pela terceira vez. O capítulo é curto, porque o fim desta história aconteceu tão depressa que não é preciso muitas palavras para descrevê-lo, mas de fato o capítulo descreve a terceira situação que pede a expressão “barriga da fera”, e seria sensato que você fosse embora antes de o capítulo começar, porque o tempo aqui pouco importa.

Um comentário:

  1. Q FDP a madane lulu entregou eles
    Pelo menos agora ela ta na barriga dos leoes

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