21 de agosto de 2016

Capítulo doze


Se você chegou até aqui na história, precisa parar agora. Se você der um passo atrás e olhar para o livro que está lendo, verá como falta pouco para acabar esta desventurada história, mas se você pudesse saber quanto pesar e infortúnio estão contidos nestas últimas poucas páginas, daria mais um passo atrás, e depois mais um, e continuaria dando passos atrás até A Cidade Sinistra dos Corvos ficar tão pequena e distante quanto a figura do detetive Dupin se aproximando enquanto os órfãos Baudelaire abraçavam seus amigos, cheios de alívio e júbilo.
Os órfãos Baudelaire, lamento dizer, não podiam parar agora, e para mim não há como viajar para trás no tempo e avisar os Baudelaire de que o alívio e o júbilo que estavam vivenciando junto ao Chafariz Corvídeo eram os últimos instantes de alívio e júbilo que iriam vivenciar por um longo, longo tempo. Mas eu posso avisar vocês. Vocês, diferentemente dos órfãos Baudelaire e dos trigêmeos Quagmire, e de mim e da minha falecida Beatrice, podem parar esta história fatídica neste exato momento, e olhar, em vez disso, o que acontece no final de O menorzinho dos elfos.
“Não podemos ficar aqui”, alertou Violet. “Não é que eu queira interromper esta reunião, mas já estamos no começo da tarde e o detetive Dupin vem vindo por esta rua.”
As cinco crianças olharam na direção que Violet estava apontando e puderam ver a manchinha turquesa da japona de Dupin e o pequenino ponto de luz de sua tocha enquanto ele ia chegando mais perto do pátio.
“Você acha que ele está nos vendo?”, perguntou Klaus.
“Não sei”, disse Violet, “mas não vamos ficar para conferir. A turba de C.S.C. só pode ficar pior quando as pessoas descobrirem que fugimos da cadeia.”
“O detetive Dupin é o último disfarce do conde Olaf”, explicou Klaus para os Quagmire, “e...”
“Já sabemos tudo sobre o detetive Dupin”, disse Duncan rapidamente, “e sabemos o que aconteceu com vocês.”
“Nós ouvimos tudo o que aconteceu ontem, de dentro do chafariz”, disse Isadora. “Quando ouvimos vocês limpando o chafariz, tentamos fazer o maior barulho que éramos capazes de fazer, mas vocês não podiam nos escutar por causa do ruído daquela água toda.”
Duncan espremeu uma poça inteira de água dos pontos de tricô encharcados da manga esquerda do seu suéter. Ele então enfiou a mão por baixo da camisa e tirou de lá um caderno verde. “Tentamos manter os nossos cadernos tão secos quanto possível”, explicou ele. “Afinal, temos informações cruciais aqui.”
“Temos todas as informações sobre C.S.C.”, disse Isadora, pegando o seu caderno, que era preto como piche. “O verdadeiro C.S.C., quero dizer, não a cidade de Cultores Solidários de Corvídeos.”
Duncan abriu o seu caderno e soprou em algumas das páginas ensopadas. “E nós sabemos a história completa do pobre Jac...”
Duncan foi interrompido por um grito atrás dele, e as cinco crianças se voltaram para ver dois membros do Conselho dos Anciãos olhando fixamente para o buraco na cadeia central. Rapidamente, os Baudelaire e os Quagmire se agacharam atrás do Chafariz Corvídeo para não ser vistos.
Um dos Anciãos gritou de novo e tirou o chapéu de corvo para enxugar a testa com um lenço de papel. “Eles fugiram!”, gritou ele. “A Regra nº 1742 reza claramente que ninguém está autorizado a fugir da cadeia. Como eles se atrevem a desobedecer esta regra!”
“E o que devíamos esperar de uma assassina e seus dois cúmplices”, disse o outro Ancião. “E vejam – eles danificaram o Chafariz Corvídeo. O bico está todo escancarado. O nosso lindo chafariz está arruinado!”
“Aqueles três órfãos são os piores criminosos da história”, disse o primeiro. “Olhem, lá vem o detetive Dupin descendo aquela rua. Vamos contar a ele o que aconteceu. Talvez ele consiga descobrir aonde eles foram.”
“Vá você contar a Dupin”, disse o segundo Ancião, “e eu vou ligar para O Pundonor Diário. Quem sabe eles publicam o meu nome no jornal.”
Os dois membros do Conselho saíram apressados para espalhar as novas, e as crianças suspiraram de alívio.
“Peto”, disse Sunny.
“Perto demais”, replicou Klaus. “Logo este distrito inteiro vai se encher de cidadãos à nossa caça.”
“Bem, ninguém está caçando a nós”, disse Duncan. “Isadora e eu vamos andando na frente, para que vocês não sejam reconhecidos.”
“Mas aonde podemos ir?”, perguntou Isadora. “Esta cidade sinistra fica no meio de coisa nenhuma.”
“Eu ajudei Hector a terminar a sua casa móvel autossustentável a ar quente”, disse Violet, “e ele prometeu que a deixaria aguardando por nós. Tudo o que temos de fazer é chegar até os subúrbios da cidade, e poderemos escapar.”
“E viver para sempre flutuando no ar?”, disse Klaus com uma careta.
“Talvez não seja para sempre”, retrucou Violet.
“Scylla!”, disse Sunny, o que queria dizer “E ou casa móvel autossustentável a ar quente, ou ser queimados na fogueira!”.
“Já que você coloca as coisas nestes termos”, disse Klaus, “estou convencido.”
Todos concordaram, e Violet olhou em volta do pátio para ver se mais alguém tinha chegado. “Em um lugar tão plano como este”, disse ela, “dá para ver as pessoas chegando desde muito longe, e nós vamos tirar vantagem disto. Vamos caminhar por qualquer rua vazia que pudermos encontrar, e se virmos alguém chegando, dobramos uma esquina. Não conseguiremos chegar lá em voo de corvo, mas acabaremos conseguindo chegar à Árvore do Nunca Mais.”
“Por falar em corvos”, disse Klaus aos dois trigêmeos, “como vocês conseguiram entregar aqueles poemas via corvo? E como sabiam que íamos recebê-los?”
“Vamos andando”, respondeu Isadora. “Vou contar a história inteira enquanto caminhamos.”
As crianças foram andando. Com os trigêmeos Quagmire à frente, o grupo de jovens perscrutou uma rua após a outra até encontrar uma onde não havia sinal de ninguém se aproximando, e eles saíram apressados do pátio.
“Olaf nos levou clandestinamente naquele item do Leilão In com a ajuda de Esmé Squalor”, começou Duncan, referindo-se à última vez em que ele e a irmã tinham sido vistos pelos Baudelaire. “E ele nos escondeu por algum tempo no quarto da torre da sua casa horrorosa.”
Violet estremeceu. “Eu não pensava naquele quarto há um bom tempo”, disse ela. “É difícil acreditar que chegamos a morar com um homem tão odioso.”
Klaus apontou para a figura distante que caminhava na direção deles, e as três crianças entraram em outra rua vazia. “Esta rua não leva à casa de Hector”, disse ele, “mas tentaremos voltar sobre os nossos passos. Prossiga, Duncan.”
“Olaf ficou sabendo que vocês três iriam morar com Hector nos arredores desta cidade”, continuou Duncan, “e ele e os seus parceiros construíram aquele chafariz pavoroso.”
“Ele então nos colocou lá dentro”, disse Isadora, “e mandou nos instalar no pátio da cidade alta, para que pudesse ficar de olho em nós enquanto tentava caçá-los. Nós sabíamos que vocês eram a nossa única chance de escapar.”
As crianças chegaram a uma esquina e pararam, enquanto Duncan espiava em volta para se certificar de que ninguém se aproximava. Ele fez sinal de que estava tudo bem e continuou a história. “Precisávamos mandar uma mensagem para vocês, mas tínhamos medo de que caísse nas mãos erradas. Isadora teve a ideia de escrever em dísticos, com a nossa localização oculta na primeira letra de cada verso.”
“E Duncan bolou o jeito de fazer os corvos chegarem à casa de Hector”, disse Isadora. “Ele tinha feito um pouco de pesquisa sobre os padrões de migração dos grandes pássaros pretos, portanto sabia que os corvos iriam se empoleirar todas as noites na Árvore do Nunca Mais – bem do lado da casa de Hector. Eu escrevia um dístico todas as manhãs, e nós dois o levávamos para cima através do bico do chafariz.”
“Havia sempre um corvo empoleirado bem no topo do chafariz”, disse Duncan, “portanto nós enrolávamos a tirinha de papel em volta da perna dele. O papel estava todo molhado por causa do chafariz, e se colava com facilidade.”
Certíssimo estava Duncan, com sua pesquisa/À noite o papel caía, seco pela brisa”, recitou Isadora.
“Foi um plano arriscado”, disse Violet.
“Não mais arriscado do que fugir da cadeia e pôr as suas vidas em perigo para nos salvar”, disse Duncan, e lançou aos Baudelaire um olhar de gratidão. “Vocês salvaram as nossas vidas – mais uma vez.”
“Não iríamos deixar vocês para trás”, disse Klaus. “Nos recusamos a alimentar esse pensamento.”
Isadora sorriu e acariciou a mão de Klaus. “Nesse meio-tempo”, disse ela, “enquanto tentávamos contatar vocês, Olaf engendrou um plano para roubar a sua fortuna – e se livrar de um velho inimigo ao mesmo tempo.”
“Você quer dizer Jacques”, disse Violet. “Quando o vimos com o Conselho dos Anciãos, ele estava tentando nos contar alguma coisa. Por que ele tem a mesma tatuagem que Olaf? Quem é ele?”
“Seu nome completo”, disse Duncan folheando o seu caderno, “é Jacques Snicket.”
“Soa familiar”, disse Violet.
“Não me surpreende”, disse Duncan. “Jacques Snicket é irmão de um homem que...”
“Lá estão eles!”, gritou uma voz, e num instante as crianças se deram conta de que tinham se descuidado de olhar atrás delas, bem como na frente delas e atrás de cada esquina. Uns dois quarteirões atrás deles estava o sr. Lesko à frente de um pequeno grupo de cidadãos carregando tochas, vindo diretamente para eles. Estava entardecendo, e as tochas projetavam sombras longas e estreitas nas calçadas, como se a turba estivesse sendo liderada por serpentes negras rastejantes, em vez de um homem de calças axadrezadas. “Lá estão os órfãos!”, bradou o sr. Lesko, triunfante. “Atrás deles, cidadãos!”
“Quem são aqueles outros dois?”, perguntou um Ancião na multidão.
“Quem se importa?”, disse a sra. Morrow, e acenou com a sua tocha. “Provavelmente são mais cúmplices! Vamos queimá-los na fogueira também!”
“Por que não?”, disse outro Ancião. “Nós já temos tochas e lenha, e não temos mais nada o que fazer agora.”
O sr. Lesko parou em uma esquina e gritou para uma rua que as crianças não podiam ver. “Ei, todos vocês!”, bradou ele. “Eles estão aqui!”
As cinco crianças estavam olhando fixamente para o grupo de cidadãos, aterrorizadas demais para ir andando de novo. Sunny foi a primeira a se recuperar. “Lililc!”, gritou ela, e começou a engatinhar pela rua o mais rápido que podia. Ela queria dizer alguma coisa tipo “Vamos embora! Não olhem para trás! Vamos tentar chegar até Hector e a sua casa móvel autossustentável a ar quente antes que a turba nos alcance e nos queime na fogueira!”, mas seus companheiros não precisavam de nenhum encorajamento. Saíram correndo rua abaixo, sem prestar atenção nos passos e brados atrás deles, que pareciam estar ficando mais numerosos à medida que cada vez mais gente ouvia a notícia de que os prisioneiros de C.S.C. estavam fugindo. As crianças correram por becos estreitos e amplas artérias, atravessando parques e pontes, tudo recoberto de penas pretas. De vez em quando eles tinham de voltar sobre seus passos, uma expressão que aqui significa “fazer meia-volta e correr na direção oposta ao ver os cidadãos se aproximando”, e muitas vezes tiveram de esquivar-se para vãos de portas ou agachar-se debaixo de arbustos enquanto cidadãos irados passavam correndo, como se as crianças estivessem brincando de esconde-esconde em vez de correr para salvar a própria vida. A tarde foi avançando, e as sombras nas ruas de C.S.C. iam ficando cada vez mais longas. As calçadas reverberavam com os sons dos gritos da turba, e as janelas dos edifícios refletiam as chamas das tochas que os cidadãos estavam carregando. Por fim, as cinco crianças chegaram aos limites da cidade e encararam a paisagem achatada e descalvada. Os Baudelaire procuraram desesperadamente por algum sinal do factótum e sua invenção, mas somente as silhuetas da casa de Hector, do celeiro e da Árvore do Nunca Mais estavam visíveis no horizonte.
“Onde está Hector?”, perguntou Isadora, frenética.
“Não sei”, disse Violet. “Ele disse que estaria no celeiro, mas não estou vendo ninguém.”
“Aonde podemos ir?”, exclamou Duncan. “Não dá para se esconder em lugar nenhum por aqui. Os cidadãos vão nos localizar num segundo.”
“Caímos numa armadilha”, disse Klaus, a voz rouca de pânico.
“Vireo!”, gritou Sunny, o que queria dizer “Vamos correr – ou, no meu caso, engatinhar – o mais depressa que pudermos!”.
“Nunca vamos conseguir correr suficientemente depressa”, disse Violet, apontando atrás deles. “Olhem.”
Os jovens se voltaram e viram toda a cidade de Cultores Solidários de Corvídeos marchando unida em um enorme grupo. Eles tinham contornado a última esquina e estavam agora se encaminhando diretamente para as cinco crianças, suas passadas reboando alto como uma trovoada rolando na direção deles. Mas os jovens não tinham a sensação de que uma trovoada vinha rolando na direção deles. Enquanto centenas de ferozes e irados cidadãos se aproximavam, eles tinham a sensação de que uma batatona gigantesca vinha rolando na direção deles. A sensação era de uma batata que poderia esmagar todos os répteis da coleção do tio Monty em cinco segundos, ou que poderia absorver até a última gota d’água do Lago Lacrimoso num instante. A turba se aproximando dava a sensação de uma batata que deixaria todas as árvores da Floresta Finita parecidas com gravetos minúsculos, que deixaria a enorme lasanha servida na Escola Preparatória Prufrock parecida com um lanchinho leve, e deixaria o arranha-céu da Avenida Sombria 667 parecido com uma casa de bonecas feita para crianças anãs brincarem, uma batata que, de tão tremendamente grande, poderia ganhar todas as medalhas de primeiro lugar em todos os concursos de safras tuberosas em feiras de todos os estados e todos os países do mundo inteiro de agora até o fim dos tempos. A marcha da turba portadora de tochas, ansiosa por capturar Violet e Klaus e Sunny e Duncan e Isadora e queimar cada um deles na fogueira, dava a sensação de ser a maior batata que os órfãos Baudelaire e os trigêmeos Quagmire já tinham encontrado.

Um comentário:

  1. Continua correndo eles sao todos velhos vao se cansar primeiroo kk

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