17 de agosto de 2016

Capítulo doze


Vários anos antes de os Baudelaire nascerem, o Veblen Hall ganhara o prestigioso Galardão da Porta, um prêmio oferecido todos os anos à abertura mais bem construída da cidade, e se você algum dia estiver diante do Veblen Hall, como os órfãos Baudelaire estavam naquela manha, perceberá imediatamente por que o comitê concedeu o lustroso troféu cor-de-rosa àquela porta, com suas tábuas de madeira polida, suas requintadas dobradiças de latão e sua esplêndida, rebrilhante maçaneta feita com o segundo cristal mais fino do mundo. Mas os três irmãos não estavam em condições de apreciar detalhes arquitetônicos. Violet subiu na frente as escadas do Veblen Hall e agarrou a maçaneta sem sequer pensar na mancha de cinza gordurosa que iria deixar na sua superfície polida. Se eu estivesse com os Baudelaire, jamais teria aberto a porta premiada. Teria me considerado um sortudo por ter conseguido sair da rede suspensa no meio do poço do elevador, e por ter escapado do plano perverso de Gunther, e teria fugido para algum canto remoto do mundo e me escondido de Gunther e seus asseclas pelo resto da vida para não arriscar outro encontro com esse vilão traiçoeiro – um encontro que, lamento dizer, só trará mais desventuras às vidas dos três órfãos. Mas essas três crianças eram de longe mais corajosas do que eu jamais serei, e pararam só por um momento para reunir toda essa coragem e usá-la.
“Para além desta maçaneta”, disse Violet, “está a nossa última chance de revelar a verdadeira identidade de Gunther e os seus planos terríveis.”
“Passando estas dobradiças de latão”, disse Klaus, “está a nossa oportunidade final de salvar os Quagmire de serem levados clandestinamente para fora do país.”
“Sorusu”, disse Sunny, o que queria dizer “Atrás destas tábuas polidas jaz a resposta ao mistério do C.S.C., e o porquê de a passagem secreta ter nos trazido ao lugar onde a mansão Baudelaire se incendiou até ficar reduzida a cinzas, matando os nossos pais e dando início às desventuras em série que nos perseguem onde quer que estejamos”.
Os Baudelaire se entreolharam e endireitaram o corpo o máximo que conseguiram, como se a sua espinha dorsal fosse tão forte quanto a sua coragem, e Violet abriu a porta do Veblen Hall; e de repente os órfãos se viram no meio de um burburinho, uma palavra que aqui significa “uma enorme multidão de pessoas em um salão gigantesco e sofisticado”.
O Veblen Hall tinha um teto muito alto, um chão muito lustroso, e uma janela imponente que tinha sido a segunda colocada no Galardão da Janela do ano anterior. Pendurados no teto, havia três enormes estandartes, um com a palavra “Leilão”, outro com a palavra “In”, e um último, duas vezes maior que os outros, com um enorme retrato de Gunther. Havia pelo menos duzentas pessoas em pé no salão, e os Baudelaire podiam notar que era uma multidão muito in. Quase todo mundo estava usando ternos risca-de-giz, bebericando refrigerante de salsa em copos altos e gelados e comendo folhados de salmão oferecidos por alguns garçons fantasiados do Café Salmonela, que aparentemente tinham sido contratados para fornecer seus serviços ao leilão. Os Baudelaire estavam usando roupas comuns em vez de risca-de-giz, e estavam cobertos de sujeira do compartimento minúsculo e imundo no fundo do poço do elevador, e de cinzas do terreno dos Baudelaire, aonde tinham sido levados pelo corredor. A multidão in teria franzido o nariz para tal indumentária se as pessoas tivessem reparado nas crianças, mas estavam todas ocupadas demais olhando para o outro lado do salão, incapazes de fazer meia-volta e olhar quem tinha acabado de passar pela porta premiada.
Pois do outro lado do Veblen Hall, embaixo do estandarte maior e na frente da janela imponente, Gunther, em pé no meio de um pequeno palco, falava ao microfone. De um lado dele havia um pequeno vaso de vidro com flores azuis pintadas, e do outro lado estava Esmé, sentada em uma cadeira sofisticada e olhando fixamente para Gunther como se ele estivesse usando a pele do cordeiro, expressão que aqui significa “como se ele fosse um cavalheiro elegante e encantador em vez de um vilão cruel e desonesto”.
“Lote 46, faz favor”, Gunther estava falando ao microfone. Com toda aquela exploração de passagens escuras, os Baudelaire tinham quase esquecido que Gunther estava fingindo não ser fluente em inglês. “Faz favor, cavalheiros e damas, vejam vaso com flores azuis. Vasos in. Flores in, faz favor, especialmente flores que são azuis. Quem faz lance?”
“Cem”, gritou uma voz na multidão.
“Cento e cinquenta”, disse outra voz.
“Duzentos”, disse mais uma.
“Duzentos e cinquenta”, rebateu a pessoa que fizera o primeiro lance.
“Duzentos e cinquenta e três”, disse outra.
“Chegamos bem a tempo”, sussurrou Klaus para Violet. “C.S.C. é o Lote 50. Vamos esperar até chegar a hora, ou confrontamos Gunther agora mesmo?”
“Não sei”, sussurrou Violet em resposta. “Estávamos tão concentrados em chegar ao Veblen Hall a tempo que esquecemos de pensar em um plano de ação.”
“Duzentos e cinquenta e três é último lance de pessoas, faz favor?”, perguntou Gunther ao microfone. “Faz favor. Aqui está vaso, faz favor. Entregar dinheiro, faz favor, para sra. Squalor.” Uma mulher de risca-de-giz foi até perto do palco e entregou um maço de notas a Esmé, que sorriu gananciosa e entregou-lhe o vaso em troca. Ver Esmé contar a pilha de notas e depois colocá-la calmamente em sua bolsa risca-de-giz, enquanto em algum lugar nos bastidores os Quagmire estavam presos dentro do que quer que fosse C.S.C., deixou os Baudelaire nauseados.
“Evomer”, disse Sunny, o que queria dizer “Não posso aguentar mais. Vamos contar a todos neste salão o que está realmente acontecendo”.
“Com licença”, disse alguém, e as três crianças olharam para cima e viram um homem de aparência severa, olhando para elas de cima para baixo atrás de uns óculos escuros muito grandes. Estava segurando um folhado de salmão com uma das mãos e apontando para os Baudelaire com a outra. “Vou ter de pedir a vocês que saiam imediatamente do Veblen Hall”, disse ele. “Este é o Leilão In. Não é lugar para criancinhas encardidas como vocês.”
“Mas nós temos de estar aqui”, disse Violet, pensando depressa. “Viemos nos encontrar com os nossos tutores.”
“Não me façam rir”, disse o homem, embora desse a impressão de que jamais rira na vida. “Que espécie de gente cuidaria de crianças tão sujas?”
“Jerome e Esmé Squalor”, disse Klaus. “Estamos morando na cobertura deles.”
“Isto é o que nós vamos ver”, disse o homem. “Jerry, venha cá!”
Ao som da voz exaltada do homem, algumas pessoas se voltaram e olharam para as crianças, mas quase todas continuaram ouvindo Gunther dar início ao leilão do Lote 47, que ele explicou ser um par de sapatilhas de balé, faz favor, feitas de chocolate. Jerome separou-se de um pequeno círculo de pessoas e veio na direção do homem severo para ver o que estava havendo. Quando avistou os órfãos, ele só faltou cair de costas, expressão que aqui significa que ele pareceu feliz porém extremamente surpreso em vê-los.
“Estou muito feliz em vê-los”, disse ele, “porém extremamente surpreso. Esmé me contou que vocês não estavam se sentindo muito bem.”
“Então você conhece estas crianças, Jerome?”, disse o homem de óculos escuros.
“É claro que os conheço”, replicou Jerome. “Eles são os Baudelaire. Estava contando a você sobre eles agora há pouco.”
“Ah, sim”, disse o homem, perdendo o interesse. “Bem, se eles são órfãos, acho que tudo bem eles estarem aqui. Mas Jerry, você precisa comprar umas roupas novas para eles!”
O homem afastou-se antes que Jerome pudesse responder. “Não gosto de ser chamado de Jerry”, admitiu ele para as crianças, “mas também não gosto de discutir com ele. Bem, jovens Baudelaire, estão se sentindo melhor?”
As crianças ficaram um momento olhando para o seu tutor. Notaram que ele tinha um folhado de salmão meio comido na mão, mesmo tendo contado a eles que não gostava de salmão. Jerome provavelmente também não queria discutir com os garçons vestidos de salmão. Os Baudelaire olharam para ele, depois se entreolharam. Eles não se sentiam nem um pouco melhor. Sabiam que Jerome não iria querer discutir com eles se lhe contassem mais uma vez sobre a verdadeira identidade de Gunther. Ele não iria querer discutir com Esmé se lhe contassem sobre a parte dela no plano traiçoeiro. E ele não iria querer discutir com Gunther se lhe contassem que os Quagmire estavam presos dentro de um dos itens do Leilão In. Os Baudelaire não se sentiram nem um pouco melhor quando se deram conta de que a única pessoa que poderia ajudá-los era de uma fragilidade que só faltava cair para trás.
“Menrov?”, disse Sunny.
“Menrov?”, repetiu Jerome, sorrindo para a menorzinha dos Baudelaire. “O que ‘Menrov?’ quer dizer?”
“Vou lhe explicar o que quer dizer”, disse Klaus, pensando depressa. Talvez houvesse um meio de fazer com que Jerome os ajudasse, sem fazê-lo discutir com ninguém. “Quer dizer ‘Você nos faria um favor, Jerome?’“
Violet e Sunny olharam para o irmão, curiosas. “Menrov?” não significava “Você nos faria um favor, Jerome?” e Klaus muito certamente sabia disso. “Menrov?” significava alguma coisa mais parecida com “Devemos tentar contar a Jerome sobre Gunther e Esmé, e os trigêmeos Quagmire?”, mas as irmãs ficaram quietas, pois sabiam que Klaus devia ter uma boa razão para mentir ao seu tutor.
“É claro que eu faria um favor a você”, disse Jerome. “O que é?”
“Minhas irmãs e eu realmente gostaríamos de possuir um dos lotes deste leilão”, disse Klaus. “Estávamos nos perguntando se você não o compraria para nós, de presente.”
“Imagino que sim”, disse Jerome. “Eu não sabia que vocês se interessavam por itens in.”
“Oh, sim”, disse Violet, entendendo imediatamente o que Klaus tinha em mente. “Estamos muito ansiosos por possuir o Lote 50 – C.S.C.”
“C.S.C?” perguntou Jerome. “O que quer dizer isso?”
“É uma surpresa”, disse Klaus depressa. “Você daria um lance por ele?”
“Se é tão importante para vocês”, disse Jerome, “suponho que sim, mas não quero vê-los mimados demais. Vocês certamente chegaram a tempo. Parece que Gunther está a ponto de encerrar os lances para aquelas sapatilhas de balé, portanto estamos quase chegando ao Lote 50. Vamos assistir ao leilão do lugar onde eu estava. Teremos uma excelente vista do palco, e há um amigo de vocês lá comigo.”
“Um amigo nosso?”, perguntou Violet.
“Vocês vão ver”, disse Jerome, e eles viram. Quando seguiram Jerome através do salão enorme para assistir ao leilão embaixo do estandarte “In”, encontraram o sr. Poe, segurando um copo de refrigerante de salsa e tossindo no seu lenço branco.
“Vocês quase me fizeram cair para trás”, disse o sr. Poe, depois que acabou de tossir. “O que vocês Baudelaire estão fazendo aqui?”
“O que o senhor está fazendo aqui?”, perguntou Klaus. “O senhor nos disse que estaria fazendo uma viagem de helicóptero para o pico de uma montanha.”
O sr. Poe fez uma pausa para tossir de novo no seu lenço branco. “Descobriram que os relatos a respeito do pico da montanha eram falsos”, disse o sr. Poe, depois que passou o ataque de tosse. “Agora sei com certeza que os gêmeos Quagmire estão sendo forçados a trabalhar em uma fábrica de cola aqui por perto. Estou indo para lá mais tarde, mas queria dar uma passada no Leilão In. Agora que sou Vice-Presidente Encarregado dos Assuntos de Órfãos, estou ganhando mais dinheiro, e a minha mulher queria ver se dava para eu comprar um pouco de decoração praiana.”
“Mas...”, começou Violet, mas o sr. Poe a interrompeu pedindo silêncio.
“Silêncio”, disse ele. “Gunther está começando com o Lote 48, e é para este que quero dar um lance.”
“Lote 48, faz favor”, anunciou Gunther. Seus olhos brilhantes encaravam a multidão por trás do monóculo, mas ele aparentemente não reparou nos Baudelaire. “Está grande estátua de peixe, pintada de vermelha, faz favor. Muito grande, muito in. Tão grande que dá para dormir dentro desta peixe, se você tem vontade, faz favor. Quem dá lance?”
“Eu quero dar um lance, Gunther”, gritou o sr. Poe. “Cem.”
“Duzentos”, gritou outra voz na multidão.
Klaus inclinou-se para o sr. Poe, de modo a falar com ele sem que Jerome ouvisse. “Sr. Poe, tem uma coisa que o senhor precisa saber a respeito de Gunther”, disse ele, achando que, caso conseguisse convencer o sr. Poe, os Baudelaire não precisariam continuar com aquela farsa, uma palavra que aqui significa “mentira de querer possuir C.S.C., para que Jerome desse um lance e salvasse os Quagmire sem perceber”. “Na verdade, ele é...”
“Um leiloeiro in!” o sr. Poe completou para ele, e deu outro lance. “Duzentos e seis.”
“Trezentos”, replicou a outra voz.
“Não, não”, disse Violet. “Na verdade, ele não é leiloeiro nenhum. Ele é o conde Olaf disfarçado.”
“Trezentos e doze”, o sr. Poe gritou e depois franziu o cenho para as crianças. “Não sejam ridículos”, ele lhes disse. “O conde Olaf é um criminoso. Gunther é apenas um estrangeiro. Não consigo me lembrar da palavra certa para o medo de estrangeiros, mas fico surpreso por vocês crianças terem esse medo.”
“Quatrocentos”, gritou a outra voz.
“A palavra é ‘xenofobia’“, disse Klaus, “mas ela não se aplica neste caso, porque Gunther não é realmente um estrangeiro. Ele não é realmente nem mesmo Gunther!”
O sr. Poe pegou o seu lenço de novo, e os Baudelaire ficaram esperando enquanto ele tossia no lenço antes de responder. “O que vocês estão dizendo não faz nenhum sentido”, disse ele afinal. “Podemos por favor discutir isto depois que eu comprar essa decoração praiana? Meu lance é quatrocentos e nove!”
“Quinhentos”, gritou a outra voz.
“Desisto”, disse o sr. Poe, e tossiu no seu lenço. “Quinhentos é demais pela estátua de um grande arenque.”
“Quinhentos é o lance mais alto, faz favor”, disse Gunther, e sorriu para alguém na multidão. “Ganhador entregar dinheiro para sra. Squalor, faz favor.”
“Ora, vejam só, crianças”, disse Jerome. “O porteiro comprou aquele grande peixe vermelho.”
“O porteiro?”, disse o sr. Poe quando o porteiro entregou a Esmé um saco de moedas e, com dificuldade, ergueu do palco aquela enorme estátua de peixe, as mãos ainda escondidas pelas mangas muito, muito compridas. “Me surpreende que um porteiro possa se dar ao luxo de comprar o que quer que seja no Leilão In.”
“Uma vez ele me contou que também era ator”, disse Jerome. “É um sujeito interessante. Gostaria de conhecê-lo?”
“Muito gentil da sua parte”, disse o sr. Poe, e tossiu no seu lenço. “Certamente tenho conhecido todo tipo de pessoas interessantes desde a minha promoção.”
O porteiro estava tentando passar pelas crianças com o seu arenque escarlate quando Jerome bateu de leve nas costas dele.
“Venha conhecer o sr. Poe”, disse ele.
“Não tenho tempo para conhecer ninguém”, retrucou o porteiro. “Preciso levar isto para a caminhonete do chefe e...” O porteiro se interrompeu no meio da frase ao avistar as crianças Baudelaire. “Vocês não deviam estar aqui!”, disse ele. “Vocês não deviam nem ter saído da cobertura.”
“Ah, mas eles estão se sentindo melhor agora”, disse Jerome, porém o porteiro não estava ouvindo. Ele tinha feito meia volta – atingindo diversos presentes de risca-de-giz com a sua estátua de peixe ao fazer isso – e estava gritando para as pessoas no palco. “Ei, chefe!”, disse ele, e tanto Esmé quanto Gunther se voltaram para olhar quando ele apontou para os três Baudelaire. “Os órfãos estão aqui!”
Esmé engasgou, e ficou tão perturbada com o elemento surpresa que quase derrubou o saco de moedas, mas Gunther apenas virou a cabeça e olhou diretamente para as crianças. Seus olhos brilharam muito, muito forte, inclusive o que estava atrás do monóculo, e os Baudelaire ficaram horrorizados ao reconhecer a sua expressão. Gunther estava sorrindo como se tivesse acabado de contar uma piada, e aquela era uma expressão que ele usava quando a sua mente traiçoeira estava trabalhando a todo vapor.
“Órfãos in”, disse ele, e insistindo em fingir que não sabia falar inglês direito: “Tudo bem para órfãos estar aqui, faz favor”. Esmé olhou para Gunther, curiosa, depois deu de ombros e fez um gesto com a mão de unhas compridas para o porteiro de que estava tudo bem. O porteiro encolheu os ombros para ela em resposta e depois deu um estranho sorriso aos Baudelaire e saiu pela porta premiada. “Vamos pular Lote 49, faz favor”, continuou Gunther. “Vamos dar lance para Lote 50, faz favor, e depois, faz favor, leilão acabou.”
“Mas, e todos os outros itens?”, gritou alguém.
“Esqueçam”, disse Esmé desdenhosamente. “Já ganhei dinheiro que chegue por hoje.”
“Nunca pensei que ainda ouviria Esmé dizer isso”, murmurou Jerome.
“Lote 50, faz favor”, anunciou Gunther, e empurrou uma enorme caixa de papelão para o palco. Era tão grande quanto a estátua de peixe – o tamanho exato para guardar duas crianças pequenas. Na caixa, estavam desenhadas em grandes caracteres pretos as letras “C.S.C.”, e os Baudelaire viram que no topo tinham sido furadas algumas pequenas aberturas para entrada de ar. Os três irmãos podiam imaginar os amigos, presos dentro daquela caixa e aterrorizados por estar prestes a ser levados clandestinamente para fora da cidade. “C.S.C, faz favor”, disse Gunther. “Quem dá lance?”
“Dou vinte”, disse Jerome, e piscou para as crianças.
“Que diabo é ‘C.S.C.’?”, perguntou o sr. Poe.
Violet sabia que não tinha tempo para tentar explicar ao sr. Poe. “É uma surpresa”, disse ela. “Fique por aqui e verá.”
“Cinquenta”, disse outra voz, e os Baudelaire se voltaram e viram que aquele segundo lance tinha vindo do homem de óculos escuros que os mandara sair.
“Aquele não parece ser um dos assistentes de Gunther”, sussurrou Klaus para as irmãs.
“Nunca se sabe”, retrucou Violet. “Eles são difíceis de reconhecer.”
“Cinquenta e cinco”, gritou Jerome. Esmé fez uma carranca para ele e lançou um olhar cheio de perversidade aos Baudelaire.
“Cem”, disse o homem de óculos escuros.
“Meu Deus, crianças”, disse Jerome. “Isto está ficando muito caro. Vocês têm certeza de que querem esse C.S.C?”
“Está comprando isso para as crianças?”, disse o sr. Poe. “Por favor, sr. Squalor, não mime estes jovens.”
“Ele não está nos mimando!”, disse Violet, com medo de que Jerome parasse de dar lances. “Por favor, Jerome, por favor, compre o Lote 50 para nós. Depois nós explicamos tudo.”
Jerome suspirou. “Muito bem”, disse ele. “Acho natural que vocês queiram algumas coisas in depois de conviver com Esmé. Meu lance é cento e oito.”
“Duzentos”, disse o homem de óculos escuros. Os Baudelaire esticaram o pescoço para tentar dar uma olhada melhor, mas o homem de óculos escuros não lhes pareceu mais familiar por isso.
“Duzentos e quatro”, disse Jerome, e então olhou para as crianças. “Não vou dar nenhum lance mais alto, crianças. Isto está ficando caro demais, e dar lances é uma coisa que se parece demais com uma discussão para que eu a aprecie.”
“Trezentos”, disse o homem de óculos escuros, e as crianças Baudelaire se entreolharam horrorizadas. O que poderiam fazer? Seus amigos estavam prestes a escorregar-lhes por entre os dedos.
“Por favor, Jerome”, disse Violet, “eu imploro, por favor, compre isso para nós.”
Jerome sacudiu a cabeça. “Um dia vocês vão entender”, disse ele. “Não compensa gastar dinheiro em bobagens in.”
Klaus voltou-se para o sr. Poe. “Sr. Poe”, disse ele, “o senhor poderia nos emprestar algum dinheiro do banco?”
“Para comprar uma caixa de papelão?”, disse o sr. Poe. “Eu diria que não. Decorações praianas são decorações praianas, mas não quero que vocês crianças fiquem desperdiçando dinheiro em uma caixa de uma coisa qualquer, seja lá o que for.”
“Último lance trezentos, faz favor”, disse Gunther, virando-se para Esmé com uma piscadela monocular. “Faz favor, senhor, se...”
“Mil!”
Gunther interrompeu-se ao ouvir a voz de um novo pretendente ao Lote 50. Os olhos de Esmé se arregalaram, e ela sorriu pensando em pôr uma quantia tão enorme na sua bolsa risca-de-giz. A multidão in olhou em volta tentando descobrir de onde viera aquela nova voz, mas ninguém suspeitou que uma palavra tão curtinha e valiosa pudesse ter se originado na boca de um bebezinho que não era maior que um salame.
“Mil!”, gritou Sunny outra vez, e os seus irmãos prenderam a respiração. Sabiam, é óbvio, que a irmã não possuía tamanha soma de dinheiro, mas esperavam que Gunther não pudesse ver de onde viera aquele lance, e estivesse cobiçoso demais para descobrir. O leiloeiro ersatz olhou para Esmé e depois de novo para a multidão.
“Onde diabos Sunny foi arrumar esse tipo de dinheiro?”, perguntou Jerome ao sr. Poe.
“Bem, quando as crianças estavam no colégio interno”, respondeu o sr. Poe, “Sunny trabalhou como recepcionista, mas eu não fazia ideia de que o salário fosse tão alto.”
“Mil!”, insistiu Sunny e, por fim, Gunther deu-se por vencido.
“O maior lance agora é de mil”, disse ele, e então lembrou-se de fingir que não era fluente em inglês. “Faz favor”, acrescentou.
“Bom Deus!”, disse o homem de óculos escuros. “Não vou pagar mais de mil por uma caixa de C.S.C. Ela não vale tanto assim.”
“Agora é conosco”, disse Violet impetuosamente, e as três crianças se dirigiram ao palco. Todos os olhares na multidão caíram sobre os irmãos enquanto eles se encaminhavam para a caixa de papelão, deixando uma trilha de cinzas atrás de si. Jerome ficou olhando, confuso. O sr. Poe parecia estupefato, uma palavra que aqui significa “tão confuso quanto Jerome”. Esmé parecia enfurecida. O homem de óculos escuros parecia alguém que acabou de perder em um leilão. E Gunther continuava sorrindo, como se uma piada que ele tivesse contado estivesse ficando cada vez mais engraçada. Violet e Klaus subiram ao palco e depois puxaram Sunny para cima, ao lado deles, e os três órfãos encararam ferozmente o homem horrível que aprisionara os seus amigos.
“Entregar seus mil, faz favor, para sra. Squalor”, disse Gunther com um sorriso malévolo para as crianças. “Depois, leilão acabou.”
“A única coisa que acabou”, disse Klaus, “é o seu plano horroroso.”
“Silko!”, concordou Sunny, e então, usando seus dentes apesar de ainda estarem doloridos da escalada pelo poço do elevador, a mais jovem dos Baudelaire mordeu a caixa de papelão e começou a rasgá-la, na esperança de que não estivesse machucando Duncan e Isadora Quagmire no processo.
“Um momento, crianças!”, rosnou Esmé levantando-se da sua cadeira sofisticada, e foi pisando duro até a caixa de papelão. “Vocês não podem abrir a caixa enquanto não me derem o dinheiro. Isto é ilegal!”
“Ilegal”, disse Klaus, “é leiloar crianças. E logo todos neste salão vão ver que você violou a lei!”
“O que é isto?”, perguntou o sr. Poe, marchando para o palco. Jerome foi atrás dele, olhando ora para os órfãos, ora para a mulher, em total confusão.
“Os trigêmeos Quagmire estão nesta caixa”, explicou Violet, ajudando a irmã a rasgá-la. “Gunther e Esmé estão tentando levá-los clandestinamente para fora do país.”
“O quê?”, exclamou Jerome. “Esmé, isto é verdade?”
Esmé não respondeu, mas dentro de um instante todo mundo iria ver se era verdade ou não. As crianças tinham arrancado um grande pedaço da caixa de papelão e puderam ver uma camada de papel branco dentro dela, como se Gunther tivesse embrulhado os Quagmire do mesmo modo como você mandaria o açougueiro embrulhar um par de peitos de frango.
“Aguente firme, Duncan!”, gritou Violet para o papel. “Só mais alguns segundos, Isadora! Estamos tirando vocês daí!”
O sr. Poe franziu o cenho e tossiu no seu lenço branco. “Agora escutem, jovens Baudelaire”, disse ele severamente, depois que passou o ataque de tosse. “Eu tenho informações confiáveis de que os Quagmire estão em uma fábrica de cola, e não dentro de uma caixa de papelão.”
“Isto é o que nós vamos ver”, disse Klaus, e Sunny deu mais uma grande dentada na caixa. Com um ruído forte de papelão rasgado, ela se dividiu bem no meio, e o seu conteúdo derramou-se pelo palco inteiro. Será preciso usar uma expressão em inglês, “a red herring”, para descrever o que havia dentro da caixa de papelão. “A red herring” significa “um arenque vermelho”, o que, naturalmente, é um tipo de peixe. Porém, em inglês, “a red herring” é também uma expressão que significa “uma pista falsa para confundir e enganar”. Gunther usara as iniciais C.S.C. na caixa para enganar os Baudelaire, fazendo-os pensar que seus amigos estavam presos lá dentro e, lamento dizer, os Baudelaire não perceberam que era um red herring até que olharam em volta do palco e viram o que a caixa continha.

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