4 de agosto de 2016

Capítulo doze


“Bem-vindos a bordo”, disse o capitão Sham, com um sorriso malvado que deixava ver seus dentes repulsivos. “Fico feliz por encontrá-los. Pensei que tivessem morrido quando a casa da velha desmoronou morro abaixo, mas ainda bem que meu sócio me contou que vocês haviam roubado um barco e fugido. E quanto a você, Josephine, achei que tinha tido mesmo o bom senso de pular da janela.”
“Tentei fazer o que me ditava o bom senso”, disse tia Josephine com amargura. “Mas essas crianças vieram e me pegaram.”
O capitão Sham sorriu. Com extrema habilidade, ele havia manobrado sua embarcação para encostá-la no barco roubado pelos Baudelaire, e assim tia Josephine e as crianças puderam passar por cima das sanguessugas e efetuar o transbordo. Com um gorgolejante uooouch! o barco abandonado foi engolido pelas águas e rapidamente afundou nas profundezas do lago. As sanguessugas acorreram aos montes ao barco que naufragava, rilhando os dentinhos de frustração.
“Vocês não vão agradecer, órfãos?”, perguntou o capitão Sham, apontando para o redemoinho no lugar onde o barco acabara de afundar. “Se não fosse eu, a esta hora vocês todos estariam em pedaços nos estômagos dessas sanguessugas.”
“Se não fosse você”, disse Violet, desafiadora, “antes de mais nada não estaríamos no Lago Lacrimoso.”
“A culpa é da velha”, disse ele, apontando para tia Josephine. “Forjar a própria morte foi um lance de esperteza, mas nem tanto. A fortuna dos Baudelaire e, infelizmente, os fedelhos que vêm junto com ela agora me pertencem.”
“Não seja ridículo”, disse Klaus. “Não pertencemos a você, nem pertenceremos nunca. Quando contarmos ao sr. Poe o que aconteceu, ele o porá na cadeia.”
“É mesmo?”, disse o capitão Sham, fazendo o barco dar meia-volta e seguir em direção ao Cais de Dâmocles. Seu único olho visível brilhava intensamente, como se ele estivesse contando uma piada. “Quer dizer que o sr. Poe vai me pôr na cadeia, é? Que nada! Neste momento o sr. Poe está dando os retoques finais nos documentos da adoção de vocês. Daqui a poucas horas, vocês, órfãos, serão Violet, Klaus e Sunny Sham.”
“Neirrá!”, gritou Sunny, querendo dizer: “Eu sou Sunny Baudelaire, e serei sempre Sunny Baudelaire, a não ser que eu própria resolva mudar legalmente meu nome!”.
“Quando explicarmos que você forçou tia Josephine a escrever aquele bilhete”, disse Violet, “o sr. Poe rasgará os documentos de adoção em mil pedaços.”
“O sr. Poe não vai acreditar em vocês”, disse o capitão Sham com uma risadinha de troça. “Por que iria acreditar em três moleques fujões que andam por aí roubando barcos?”
“Porque estamos dizendo a verdade!”, gritou Klaus.
“Ah, a verdade”, disse o capitão, com a mesma risadinha de troça. “Pois eu acho que, verdade por verdade, é mais provável que o sr. Poe acredite na verdade de um respeitável proprietário de barcos para alugar que atravessou o lago no meio de um furacão para salvar três míseros e ingratos ladrões de barco que afirmam estar dizendo a verdade.”
“Só roubamos o barco”, disse Violet, “para ir buscar tia Josephine em seu esconderijo e ela poder contar a todos o plano terrível de um respeitável proprietário de barcos para alugar.”
“Mas ninguém vai acreditar na velha, também”, disse o capitão Sham, perdendo a paciência. “Ninguém acredita numa morta.”
“Você está cego dos dois olhos?”, perguntou Klaus. “Tia Josephine não morreu!”
O capitão Sham sorriu mais uma vez e olhou para o lago. A poucos metros de distância, a superfície da água se encrespava com a movimentação das sanguessugas, que agora nadavam em direção ao barco do capitão Sham. Depois de haver dado busca em cada centímetro do barco roubado pelos Baudelaire sem encontrar comida alguma, as sanguessugas perceberam que haviam sido enganadas, e outra vez seguiam o cheiro de banana que continuava emanando de tia Josephine. “Ainda não morreu”, disse o capitão Sham com uma voz terrível, e deu um passo em direção a ela.
“Oh, não”, disse tia Josephine. Seus olhos estavam esgazeados de medo. “Não me jogue do barco”, implorou. “Por favor!”
“Você não vai revelar o meu plano ao sr. Poe”, disse o capitão Sham, dando mais um passo em direção à mulher apavorada, “porque estará fazendo companhia a seu amado Belo no fundo do lago.”
“Não, senhor! Não vai acontecer nada disso”, disse Violet, agarrando uma corda. “Eu vou levar este barco até o cais, e nós vamos pisar em terra antes que você possa fazer qualquer coisa.”
“E eu vou ajudá-la”, disse Klaus, correndo para a parte de trás da embarcação e agarrando a cana do leme.
“Igal!”, gritou Sunny, o que queria dizer: “E eu vou proteger tia Josephine!”, ou algo do gênero. Ela engatinhou até a tutora dos Baudelaire, postou-se diante dela e mostrou os dentes para o capitão Sham.
“Prometo não contar nada ao sr. Poe!”, disse tia Josephine, em desespero. “Vou para algum lugar e me escondo, e nunca mais apareço! Pode dizer a ele que morri! Pode ficar com a fortuna! Pode ficar com as crianças! Mas não me atire às sanguessugas!”
Os Baudelaire olharam horrorizados para sua tutora. “Você deveria querer cuidar de nós”, disse Violet, pasma, a tia Josephine, “e não querer se livrar de nós a qualquer preço!”
O capitão Sham hesitou por alguns momentos, durante os quais pareceu refletir sobre a proposta de tia Josephine. “Você tem razão”, disse. “Não é necessário que eu a mate. Basta que as pessoas pensem que você morreu.”
“Eu vou mudar de nome!”, disse tia Josephine. “Vou tingir o cabelo! Vou usar lentes de contato coloridas! E vou para bem longe, mas muito longe mesmo! Ninguém nunca mais vai ouvir falar em mim!
“Mas e nós, tia Josephine?”, perguntou Klaus, horrorizado. “O que vai ser de nós?”
“Cale a boca, órfão”, disse o capitão brutalmente. As sanguessugas alcançaram o barco e começaram a dar seus esbarrões num dos flancos. “Não interrompa os adultos. Pois é, velha, eu gostaria de poder acreditar em você. Mas você não foi uma pessoa muito digna de confiança.”
“Tem sido”, corrigiu tia Josephine, enxugando uma lágrima no canto do olho.
“Quê?”, perguntou o capitão Sham.
“Você cometeu um erro gramatical”, disse tia Josephine. “Você disse: ‘Mas você não foi uma pessoa muito digna de confiança’, quando deveria ter dito: ‘Mas você não tem sido uma pessoa muito digna de confiança’.”
O olho brilhante do capitão Sham piscou, e sua boca se crispou num sorriso terrível.
“Obrigado pela observação”, disse, e deu um último passo em direção a tia Josephine. Sunny rosnou para ele; o capitão olhou para baixo e, com um rápido movimento da perna de pau, chutou Sunny para o outro extremo do barco. “Deixe-me ter certeza de que entendi bem a lição de gramática”, disse à trêmula tutora dos Baudelaire, como se nada houvesse acontecido. “Você não diria: ‘Josephine Anwhistle foi atirada às sanguessugas’, porque seria incorreto. Mas se você dissesse: ‘Josephine Anwhistle será atirada às sanguessugas’, estaria cem por cento correto, não é?”
“Sim”, disse tia Josephine. “Quer dizer, não. Quer dizer...”
Mas tia Josephine nunca chegou a dizer o que queria dizer. O capitão Sham a encarou e, usando ambas as mãos, empurrou-a por cima do flanco do barco. Com um grito sufocado na garganta e um grande esparrame de água, Josephine Anwhistle caiu no Lago Lacrimoso.
“‘Tia Josephine?’, gritou Violet. “Tia Josephine!”
Klaus se debruçou sobre o flanco do barco e estendeu a mão o mais longe que pôde. Graças a seus dois coletes salva-vidas, tia Josephine flutuava na água e acenava com as mãos no ar enquanto as sanguessugas nadavam em direção a ela. Mas o capitão Sham já puxava as cordas da vela, e Klaus não conseguiu alcançá-la. “Seu demônio!”, gritou ele para o capitão Sham. “Seu demônio do inferno!”
“Isso não é maneira de falar com seu pai”, disse o capitão tranquilamente.
Violet tentou arrancar uma das cordas que o capitão Sham segurava. “Faça o barco voltar!”, gritou ela. “Dê meia-volta com o barco!”
“Nem pensar”, respondeu ele, sem se alterar. “Deem adeus à velha, órfãos. Vocês nunca mais irão vê-la.”
Klaus se debruçou, esticando o tronco até onde era possível. “Tenha calma, tia Josephine!”, gritou para ela, mas sua voz revelava que ele próprio não estava nem um pouco calmo. O barco já se afastara consideravelmente de tia Josephine, e a única coisa que ainda dava para os órfãos verem era o branco das mãos dela acenando acima da superfície escura do lago.
“Ela tem chance”, disse Violet em voz baixa para Klaus, enquanto o barco tomava o rumo do cais. “Está com aqueles dois coletes salva-vidas e é uma nadadora resistente.”
“É verdade”, disse Klaus, com voz vacilante e triste. “Morou a vida inteira junto ao lago. É bem capaz que ela encontre uma saída.”
“Legru”, disse Sunny em voz baixa, o que significava: “Só nos resta ter esperança”.
Os três órfãos se abraçaram bem apertado, tremendo de frio e de medo, enquanto o capitão Sham cuidava sozinho de manejar a vela. Eles não ousavam fazer nada, a não ser ter esperança. Seus sentimentos com relação à tia Josephine eram por demais confusos. Na verdade, os Baudelaire não tinham gostado da maior parte do tempo que passaram com ela – não porque ela preparasse aquelas horríveis refeições frias, nem porque lhes desse presentes de que eles não gostavam, nem porque estivesse sempre corrigindo a gramática das crianças, mas porque tinha um medo tão grande de tudo, que era impossível para ela gostar de qualquer coisa. E o pior foi que o medo de tia Josephine fez dela uma péssima tutora. Espera-se de uma tutora que fique do lado das crianças e cuide da segurança delas, mas tia Josephine fugiu ao primeiro sinal de perigo. Espera-se de uma tutora que ajude as crianças em momentos difíceis, mas tia Josephine praticamente teve que ser arrastada da Gruta do “P” quando os órfãos precisaram dela. E espera-se de uma tutora que proteja as crianças do perigo, mas tia Josephine ofereceu os garotos ao capitão Sham em troca de sua própria segurança.
No entanto, apesar de todas as falhas de tia Josephine, os órfãos tinham carinho por ela. Ela lhes ensinara muitas coisas, ainda que em sua maioria fossem chatas. Dera um lar para eles, ainda que frio e incapaz de resistir a furacões. E as crianças sabiam que tia Josephine, da mesma forma que os próprios Baudelaire, passara por experiências terríveis. Assim, quando perderam de vista sua tutora, e as luzes do Cais de Dâmocles foram ficando cada vez mais próximas, Violet, Klaus e Sunny não pensaram em tia Josephine com pouco-caso. Pensaram: “Esperamos que tia Josephine se salve”.
O capitão Sham conduziu o barco até a margem e o amarrou com habilidade no cais. “Venham, idiotinhas”, disse, e levou os Baudelaire até o alto portão com grades de ferro e proteções pontiagudas na parte de cima. Perto do portão, o sr. Poe esperava com o lenço na mão e uma expressão de alívio no rosto. Junto ao sr. Poe, estava a criatura encouraçada, que os encarou com ar de triunfo.
“Vocês estão salvos!”, disse o sr. Poe. “Graças a Deus! Ficamos tão preocupados com vocês! Quando o capitão Sham e eu chegamos à casa da sra. Anwhistle e vimos que a construção havia despencado e caído no lago, nós os demos por perdidos!”
“A sorte foi meu sócio ter me contado que eles tinham roubado um barco”, disse o capitão Sham ao sr. Poe. “O barco foi praticamente destruído pelo Furacão Hermano e por um bando de sanguessugas. Salvei-os na hora exata.”
“Nada disso!”, gritou Violet. “Ele jogou tia Josephine no lago! Temos que voltar lá para salvá-la!”
“As crianças estão abaladas e confusas”, disse o capitão Sham, com o olho brilhando. “Na qualidade de pai delas, acho que estão precisando de uma boa noite de sono.”
“Ele não é nosso pai!”, gritou Klaus. “É o conde Olaf, e é um assassino! Por favor, sr. Poe, avise a polícia! Temos que salvar tia Josephine!”
“Meu Deus”, disse o sr. Poe, tossindo no lenço. “Você está realmente confuso, Klaus! Esqueceu-se de que sua tia Josephine morreu? Ela se jogou pela janela.”
“Nada disso”, disse Violet. “Seu bilhete de suicida tinha nas entrelinhas uma mensagem secreta que Klaus decifrou. Ela dizia: GRUTA DO ‘P’. Na verdade, dizia: PGRUTA. Mas estava nessa ordem porque a primeira letra era de uma palavra colocada logo no início para chamar nossa atenção.”
“Isso que vocês estão dizendo não tem o menor sentido”, disse o sr. Poe. “Que mensagem secreta é essa? Que gruta é essa?”
“Klaus”, disse Violet, “mostre o bilhete para o sr. Poe.”
“Vocês podem mostrar o bilhete para ele amanhã de manhã”, disse o capitão Sham, num tom falsamente apaziguador. “Estão precisando de uma boa noite de sono. Meu sócio vai levá-los até o meu apartamento, enquanto eu fico aqui e termino de ver a papelada de adoção com o sr. Poe.”
“Mas...”, disse Klaus.
“Nem mas, nem meio mas”, disse o capitão Sham. “Vocês estão muito transtornados, palavra que significa ‘abalados’.”
“Eu sei o que significa”, disse Klaus.
“Por favor, escute-nos”, implorou Violet ao sr. Poe. “É questão de vida ou morte. Por favor, dê só uma olhada no bilhete.”
“Vocês podem mostrar o bilhete para ele”, disse o capitão Sham, elevando a voz com irritação, “amanhã de manhã. Agora, façam o favor de acompanhar meu sócio até a minha minivan e ir direto para a cama.”
“Um momento, capitão Sham”, disse o sr. Poe. “Se negar-lhes isso é motivo de tão grande contrariedade para as crianças, darei uma olhada no bilhete. É coisa de um instante.”
“Obrigado”, disse Klaus com alívio, e enfiou a mão no bolso para pegar o bilhete. Mas tão logo meteu a mão lá dentro, a decepção transpareceu em seu rosto, e tenho certeza de que vocês já adivinharam por quê. Quando alguém guarda um pedaço de papel no bolso, e em seguida fica encharcado, o pedaço de papel, por mais importante que seja, vira um lixo pegajoso. Klaus puxou do bolso a paçoca úmida, e os órfãos olharam para o que restava do bilhete de tia Josephine. Mal dava para perceber que aquilo havia sido um pedaço de papel, quanto mais ler o bilhete ou deduzir o segredo que ele continha.
“Isto era o bilhete”, disse Klaus, estendendo-o para o sr. Poe. “Você terá que confiar na nossa palavra: tia Josephine ainda estava viva.”
“E pode ser que ela ainda esteja viva!”, gritou Violet. “Por favor, sr. Poe, mande alguém ir salvá-la!”
“Ah, meus filhos”, disse o sr. Poe. “Vejo que estão muito tristes e preocupados. Mas não precisam se preocupar mais. Sempre prometi que olharia por vocês, e acho que o capitão Sham irá criá-los melhor do que ninguém. Tem uma profissão estável e não me parece ser do tipo de pessoa que se joga pela janela. E é óbvio que tem o maior carinho por vocês: meu Deus, ele enfrentou sozinho um furacão para procurá-los!”
“A única coisa que interessa a ele”, disse Klaus amargamente, “é nossa fortuna.”
“Ah, não, isso não é verdade”, disse o capitão Sham. “Não quero um centavo da fortuna de vocês. Exceto o que me devem, é claro, como indenização pela perda de meu barco, que vocês roubaram e destruíram.”
O sr. Poe franziu a testa e tossiu no lenço. “Bem, não deixa de ser uma reivindicação surpreendente”, disse, “mas acho que isso pode ser resolvido. Agora, crianças, façam o favor de ir para seu novo lar, enquanto acerto os detalhes finais com o capitão Sham. Quem sabe amanhã não dá tempo de tomarmos o café da manhã juntos, antes de eu voltar para a cidade?”
“Por favor”, gritou Violet. “Por favor, escute o que temos para dizer...”
“Por favor”, gritou Klaus. “Por favor, acredite em nós...”
Sunny não disse nada. Sunny não dizia nada fazia muito tempo, e se seus irmãos não estivessem tão ocupados em tentar convencer o sr. Poe a ouvi-los, teriam notado que ela nem sequer se interessara pelo que eles conversavam. Durante toda a conversa, Sunny ficou olhando fixo para a frente, e, para um bebê, “olhar para a frente” significa “olhar para as pernas das pessoas”. A perna para a qual ela olhava era a do capitão Sham. Não olhava para sua perna direita, que era perfeitamente normal, mas para sua perna de pau. Ela olhava para o toco de madeira escura envernizada fixado no joelho esquerdo do capitão por uma dobradiça curva de metal. Era para isso que Sunny olhava, e refletia, muito concentrada.
Pode ser que vocês fiquem surpresos ao saber que nesse momento Sunny se assemelhava ao famoso conquistador grego Alexandre, o Grande. Alexandre, o Grande, viveu há mais de dois mil anos, e seu sobrenome não era na verdade “o Grande”. “O Grande” era como ele exigia que as pessoas o chamassem depois que chegava nas terras delas com uma leva de soldados e se proclamava rei. Além de invadir os países de outras pessoas e forçá-las a fazer o que ele mandava, Alexandre, o Grande, ficou famoso por uma coisa chamada “nó górdio”. O nó górdio era um nó que um rei chamado Górdio fez com grande habilidade num pedaço de corda. Górdio disse que se Alexandre fosse capaz de desatá-lo, poderia governar o reino inteiro. Mas Alexandre, que era ocupado demais com a conquista de lugares e portanto não tinha tempo para aprender a desatar nós, simplesmente puxou sua espada e cortou o nó górdio no meio. Foi uma trapaça, não resta dúvida, mas Alexandre tinha soldados demais para Górdio ousar discutir, e breve todo mundo em Górdio teve que fazer reverências a Você-Sabe-Quem, o Grande. Desde então, pode-se chamar um problema difícil de “um nó górdio”, e se alguém resolve o problema de maneira simples – ainda que brutal –, diz-se que ele está cortando o nó górdio.
O problema que os órfãos Baudelaire estavam enfrentando poderia certamente ser chamado de um nó górdio, porque parecia impossível resolvê-lo. O problema, claro, era que o abominável plano do capitão Sham estava prestes a dar certo, e o modo de resolvê-lo era convencer o sr. Poe do que realmente estava acontecendo. Mas, tendo tia Josephine sido atirada no lago e tendo o seu bilhete virado um lixo pegajoso, Violet e Klaus não foram capazes de convencer o sr. Poe de coisa alguma. Sunny, no entanto, olhou para a perna de pau do capitão Sham e pensou num meio muito simples, ainda que brutal, de resolver o problema.
Enquanto as pessoas mais altas discutiam e não prestavam nenhuma atenção em Sunny, a caçula dos Baudelaire engatinhou até chegar o mais perto possível da perna de pau, abriu a boca e mordeu com toda a força o objeto de sua atenção. Sorte dos Baudelaire que os dentes de Sunny eram afiados como a espada de Alexandre, o Grande, e a perna de pau do capitão Sham se partiu bem no meio com um craque! que fez todos olharem para baixo.
Como, tenho certeza, vocês já adivinharam, a perna de pau era falsa, e quando se partiu no meio revelou o que continha: a perna verdadeira do capitão, branquela e suarenta do joelho aos dedos dos pés. Mas o que atraiu o interesse de todos não foi nem o joelho nem os dedos dos pés. Foi o tornozelo. Pois ali, sobre a branquela e suarenta pele do capitão Sham, estava a solução do problema deles. Ao morder a perna de pau, Sunny cortou o nó górdio, pois quando os pedaços de madeira da perna falsa caíram no chão do Cais de Dâmocles, todos viram a tatuagem de um olho.

2 comentários:

  1. PQP agora esse idiota so sr Poe vai acreditar
    BOA SUNNY !

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  2. Na boa, estou odiando esse Sr. Poe, ele é um tapado. ¬¬

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