8 de agosto de 2016

Capítulo dois


É muito, mas muito pior receber más notícias por escrito do que quando alguém chega e nos dá de cara a má notícia. Estou certo de que vocês entendem perfeitamente por quê. Quando alguém nos fala uma má notícia, ouvimos aquela única vez e acabou-se. Porém quando a má notícia vem por escrito, seja numa carta ou num jornal, ou traçada com uma caneta de ponta de feltro em nosso braço, temos a sensação de estar recebendo a notícia continuamente, sem parar. Por exemplo, há muito tempo gostei de uma mulher que por diversos motivos não pôde se casar comigo. Se ela tivesse se limitado a me dizer isso pessoalmente, eu teria ficado triste, não resta dúvida, mas depois de um tempo acabaria superando. Só que ela preferiu escrever um livro, de duzentas páginas, dando a má notícia com os mínimos detalhes e estendendo-se ao máximo sobre o assunto; a tristeza provocada não podia ser maior. Quando o livro me chegou às mãos trazido por uma revoada de pombos-correio, passei a noite toda lendo-o, e leio-o até hoje, estou sempre voltando a ele, como se minha querida Beatrice me desse a má notícia todos os dias e todas as noites de minha vida.
Os órfãos Baudelaire bateram e tornaram a bater no portão de madeira, tendo o cuidado de não encostar os nós de seus dedos nas letras feitas de chiclete mascado, mas ninguém atendeu; então experimentaram empurrar o portão e verificaram que ele não estava trancado. Lá dentro havia um pátio amplo com chão de terra, sobre o qual encontraram um envelope com a palavra “Baudelaire” datilografada. Klaus apanhou o envelope e o abriu. Havia um bilhete:

Memorando
Para: órfãos Baudelaire
De: Serraria Alto-Astral Assunto: Chegada à empresa
Vocês encontrarão anexo um mapa da Serraria Alto-Astral, com indicação do dormitório onde os três ficarão instalados de graça. Favor apresentem-se para trabalhar amanhã junto com os demais empregados. O proprietário da Serraria Alto-Astral espera que vocês sejam assíduos e diligentes.

“O que querem dizer essas palavras: 'assíduos' e 'diligentes'?”, perguntou Violet, espiando por cima do ombro de Klaus.
“Neste caso, 'assíduos' e 'diligentes' querem dizer a mesma coisa: 'que dão duro no trabalho'“, respondeu Klaus, que conhecia uma porção de palavras difíceis dos vários livros que havia lido.
“Mas o sr. Poe não falou nada sobre trabalhar na serraria”, disse Violet. “Pensei que viéssemos apenas morar aqui.”
Klaus franziu a testa, concentrando-se na leitura do mapa que estava grudado ao bilhete por uma bolota de chiclete mascado. “Este mapa é bem fácil de entender”, disse. “Chega-se ao dormitório seguindo direto em frente. Ele está localizado entre o galpão de depósito e a própria serraria.”
Violet olhou para a frente e viu uma construção cinzenta sem janelas, do outro lado do pátio. “Não quero morar”, disse ela, “entre o galpão de depósito e a própria serraria.”
“Não promete ser muito divertido”, reconheceu Klaus, “mas nunca se sabe. A serraria pode ter máquinas complicadas, e talvez você se interesse em estudá-las.”
“Isso é verdade”, disse Violet. “Nunca se sabe. Pode ter madeira dura que Sunny se interesse em roer.”
“Snevi!”, gritou Sunny.
“E pode ser que haja manuais de serraria interessantes para eu ler”, disse Klaus. “Nunca se sabe.”
“Pois é”, disse Violet. “Nunca se sabe. Este pode ser um lugar maravilhoso para morar.”
Os três irmãos se entreolharam e sentiram-se um pouco melhor. A verdade, sem dúvida alguma, é que nunca se sabe. Uma nova experiência tanto pode ser extremamente agradável como extremamente irritante, ou qualquer coisa entre um ou outro extremo, e nunca se sabe até passar por ela. À medida que foram caminhando rumo à construção cinzenta sem janelas, as crianças começaram a se sentir dispostas a passar pela experiência de um novo lar na Serraria Alto-Astral, porque nunca se sabe. Porém – e dói-me o coração ao dizer isto para vocês – eu sei. Sei porque estive na Serraria Alto-Astral e me informei sobre todos os acontecimentos atrozes que esses pobres órfãos viveram durante o curto período em que moraram lá. Sei porque conversei com algumas pessoas que os conheceram naquela época, e ouvi com meus próprios ouvidos a história aflitiva da permanência desses meninos em Paltryville. E sei porque pus no papel todos os detalhes para mostrar a vocês, leitores, quão terrível foi a experiência dos Baudelaire. Eu sei, e é um conhecimento que oprime meu coração como se houvesse um pesa-papéis sobre ele. Gostaria de haver estado na serraria quando os três irmãos passaram por lá, porque eles não sabiam. Gostaria de ter tido a oportunidade de contar-lhes o que sei enquanto eles atravessavam o pátio, levantando pequenas nuvens de poeira a cada passo. Eles não sabiam, mas eu sei e gostaria que eles soubessem, se é que vocês sabem o que quero dizer.
Quando os Baudelaire chegaram à porta da construção cinzenta, Klaus olhou novamente o mapa, assentiu com um movimento de cabeça, e bateu. Depois de uma longa pausa, a porta se abriu com um rangido e revelou um homem com ar desconcertado, as roupas cobertas de serragem. Ele ficou encarando as três crianças por um bom tempo antes de falar.
“Faz catorze anos”, disse enfim, “que ninguém bate nesta porta.”
Quando alguém diz algo tão estranho que não sabemos nem o que responder, às vezes o melhor é recorrer a uma fórmula de boa educação e dizer apenas: “Como vai?”.
“Como vai?”, disse educadamente Violet. “Eu me chamo Violet Baudelaire e esses são meus irmãos, Klaus e Sunny.”
O homem com ar desconcertado pareceu ainda mais desconcertado e pôs as mãos nos quadris, depois de um gesto para tirar um pouco da serragem que tinha sobre a camisa. “Vocês têm certeza de que vieram parar no lugar certo?”, perguntou.
“Acho que sim”, disse Klaus. “Não é aqui o dormitório da Serraria Alto-Astral?”
“Sim”, disse o homem, “mas não são permitidas visitas.”
“Não viemos como visitantes”, respondeu Violet. “Viemos morar aqui.”
O homem coçou a cabeça e os Baudelaire ficaram olhando para a serragem que caía de seus cabelos grisalhos em desordem. “Vocês estão vindo morar aqui, na Serraria Alto-Astral?”
“Cigam!”, gritou Sunny, o que significava: “Veja este bilhete!”.
Klaus entregou o bilhete ao homem, que teve o cuidado de não tocar no chiclete mascado enquanto lia o texto. Em seguida encarou os órfãos com seus olhos cansados e salpicados de serragem.
“Vocês vêm trabalhar aqui, também? Garotos, escutem uma coisa: trabalhar numa serraria é muito difícil. É preciso retirar a casca das árvores e serrá-las em tiras estreitas para fazer tábuas. As tábuas têm que ser amarradas em pilhas e embarcadas em caminhões. Devo lhes dizer que a maioria das pessoas que trabalha em serrarias é adulta. Mas se o proprietário está dizendo que vocês vão trabalhar aqui, não duvido: vocês vão trabalhar aqui, e pronto. É melhor entrarem.”
O homem abriu toda a porta e os Baudelaire entraram no dormitório. “Meu nome é Phil, diga-se de passagem”, disse Phil. “Vocês podem jantar conosco daqui a pouco, mas antes vou mostrar-lhes o dormitório.” Phil conduziu os garotos para um grande cômodo pouco iluminado, repleto de beliches dispostos em fileiras sobre um piso de cimento. Sentados ou deitados nos beliches havia um monte de gente, homens e mulheres, todos com ar cansado e todos cobertos de serragem. Reuniam-se em grupos de quatro ou cinco, jogando cartas, conversando em voz baixa, ou simplesmente com o olhar perdido; e foram raros os que ergueram os olhos demonstrando um mínimo de interesse pela presença dos meninos no aposento. O lugar todo tinha um cheiro de mofo, aquele tipo de cheiro que fica nos cômodos quando as janelas não são abertas durante um bom tempo. É evidente que no dormitório de que estamos falando as janelas nunca foram abertas, porque não havia janelas; embora os garotos pudessem ver que alguém desenhara com caneta esferográfica umas janelas de mentira sobre as paredes de cimento. De certo modo, os desenhos tornavam o dormitório ainda mais patético – palavra que aqui significa “deprimente e privado de janelas” –, fazendo os órfãos Baudelaire sentirem um bolo na garganta só de olhar para eles.
“Este é o quarto em que dormimos”, disse Phil. “Há um beliche lá adiante, no final da parede, que pode ficar para vocês três. Deixem a bagagem debaixo da cama. Aquela porta dá para o banheiro e no final daquele corredor que se vê lá longe fica a cozinha. E não há muito mais que isso para mostrar. Ei, pessoal, estes são Violet, Klaus e Sunny. Eles vieram trabalhar aqui.”
“Mas são crianças”, disse uma das mulheres.
“Eu sei”, falou Phil. “Mas o proprietário disse que eles vão trabalhar aqui, então eles vão trabalhar aqui”.
“Aliás”, falou Klaus, “como é o nome do proprietário? Ninguém nos disse.”
“Não sei”, falou Phil, passando a mão pelo queixo ossudo. “Ele não aparece aqui no dormitório há uns seis anos ou por aí. Alguém se lembra de como se chama o proprietário?”
“Acho que é Senhor qualquer coisa”, disse um dos homens.
“Quer dizer que vocês nunca falam com ele?”, perguntou Violet.
“Nunca o vemos”, disse Phil. “O proprietário mora numa casa que fica depois do galpão de depósito, e só vem à serraria em ocasiões especiais. O capataz a gente vê o tempo todo, mas o proprietário nunca.”
“Teruca?”, perguntou Sunny, provavelmente querendo dizer: “O que é um capataz?”.
“Um capataz”, explicou Klaus, “é alguém que supervisiona os operários. Ele é legal, Phil?”
“Ele é horrível”, disse um dos homens, e mais alguns juntaram-se ao coro de queixosos:
“Ele é terrível” “Ele e nojento”
“Ele é o pior capataz que já houve no mundo!”
“Ele é bem ruinzinho”, disse Phil para os Baudelaire. “O cara que trabalhava antes dele, o capataz Firstein, até que era legal. Mas na semana passada ele parou de vir trabalhar. O maior mistério. O homem que o substituiu, o capataz Flacutono, é muito desagradável. Procurem lidar com o lado bom dele para evitar amolações.”
“Ele não tem um lado bom”, disse uma mulher.
“Bem, bem”, disse Phil. “Todo mundo e todas as coisas têm um lado bom. Vamos indo, pessoal, vamos jantar.”
Os órfãos Baudelaire sorriram para Phil e foram para a cozinha com os outros empregados da Serraria Alto-Astral, mas continuavam com bolos na garganta tão massudos quanto os bifes que lhes serviram para comer. Ouvindo Phil dizer que existe um lado bom em todo mundo e em todas as coisas, os meninos perceberam logo que estavam diante de um otimista. “Otimista” é uma palavra que aqui está sendo usada para referir-se a uma pessoa, como Phil, que só pensa e espera coisas boas de praticamente tudo. Por exemplo, se um otimista tivesse o braço esquerdo arrancado por uma dentada de crocodilo, diria, num tom de voz simpático e esperançoso: “Bem, afinal não foi tão ruim. Não tenho mais o meu braço esquerdo, mas em compensação ninguém nunca me perguntará se sou destro ou canhoto”; ao passo que a maioria dentre nós gritaria: “Aiiii! Meu braço! Meu braço!”, ou algo do gênero.
Os órfãos Baudelaire engoliram a comida e tentaram ser otimistas como Phil, contudo, por mais que tentassem, nenhum de seus pensamentos conseguiu ser agradável ou esperançoso. Pensaram no beliche que iriam repartir, no quarto com cheiro de mofo e nas janelas desenhadas nas paredes. Pensaram no trabalho pesado que enfrentariam na serraria, com serragem por todo o corpo e o capataz Flacutono mandando fazer isto e aquilo. Pensaram na casa em forma de olho, do lado de fora do portão de madeira. E pensaram sobretudo em seus pais, seus pobres pais que lhes faziam tanta falta e que nunca mais tornariam a ver. Pensaram em tudo isso durante o jantar inteiro, e depois enquanto vestiam os pijamas, e ainda pensavam nisso quando Violet agitou-se e trocou de posição na cama de cima do beliche e Klaus e Sunny se agitaram e trocaram de posição na cama de baixo. Pensaram, como já haviam feito no pátio, que nunca se sabe, e que apesar de tudo o novo lar ainda poderia ser maravilhoso. Mas tinham suas dúvidas. E, quando os empregados da Serraria Alto-Astral começaram a roncar, os meninos pensaram em todas as circunstâncias infelizes que os cercavam, e começaram a duvidar. Agitaram-se e trocaram de posição, as dúvidas crescendo em novas dúvidas. E, quando finalmente adormeceram, não havia mais nenhum otimista no beliche dos Baudelaire.

3 comentários:

  1. Esse novo capataz deve ser o Cond Olaf !

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    1. Ingrid, eu pensei a mesma coisa!
      Só pode ser ele, pq o outro sumiu igual ao ajudante do Tio Monty...

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