30 de agosto de 2016

Capítulo dois


Violet deu uma última olhada para baixo do pico nebuloso e depois pegou um dos pesados casacos que tirara do trailer. “Vista um casaco”, disse ao irmão. “Está frio aqui fora, e é provável que fique ainda pior. Se estivermos certos, a base de operações fica numa região muito alta das montanhas. Quando chegarmos lá, talvez estejamos vestindo todas essas roupas.”
“Mas como vamos chegar lá?”, disse Klaus. “Estamos longe do Vale das Correntezas que Sopram Constantes, e o trailer está destruído.”
“Vamos parar um momento para avaliar o que temos”, disse Violet. “Talvez eu consiga construir alguma coisa com o que conseguimos salvar.”
“Espero que sim”, disse Klaus. “Sunny está cada vez mais longe. Nunca a alcançaremos sem algum tipo de veículo.”
Klaus espalhou os objetos e vestiu um dos casacos, enquanto Violet vasculhava a sua pilha. Mas de repente os dois Baudelaire se deram conta de que construir um veículo não pertencia ao âmbito das possibilidades reais, uma expressão que aqui significa “não poderia ser construído a partir de pequenos objetos e algumas roupas que pertenceram um dia aos empregados do Parque Caligari”. Mais uma vez Violet prendeu o cabelo com uma fita e franziu a testa ao examinar os objetos. Na pilha de Klaus estavam o jarro, ainda pegajoso por causa da mistura para frear o trailer, o espelho de mão de Colette, um poncho de lã e um suéter onde estava escrito PARQUE CALIGARI. Na pilha de Violet estava a faca de pão, o uquelele e outro casaco. Até mesmo Klaus, que não era inventor, sabia que os materiais empilhados no chão não eram suficientes para construir um veículo capaz de conduzi-los pelas Montanhas de Mão-Morta.
“Acho que posso fazer fogo se esfregar uma pedra na outra”, disse Violet, procurando pelos campos nebulosos materiais de invenção adicionais, “ou então, podemos tocar o uquelele e bater no jarro. Um barulho alto poderia atrair alguém disposto a nos ajudar.”
“Mas quem iria ouvir?”, disse Klaus, com o olhar perdido na névoa sombria. “Não vimos nem sinal de gente quando estávamos no trailer. Esse desfiladeiro é como um poema que li sobre o caminho menos percorrido.”
“O poema tinha final feliz?”, perguntou Violet.
“Nem feliz nem infeliz”, disse Klaus. “Era ambíguo. Bem, vamos juntar esses materiais e levá-los com a gente.”
“Levá-los com a gente?”, estranhou Violet. “Não sabemos aonde ir nem como chegar lá.”
“É claro que sabemos”, disse Klaus. “O Arroio Enamorado começa em uma fonte no alto das montanhas e segue para baixo, através do Vale das Correntezas que Sopram Constantes, onde fica a base de operações. Não deve ser o caminho mais rápido, nem o mais fácil, mas se subirmos as montanhas seguindo o curso do rio chegaremos lá.”
“Isso pode levar dias”, disse Violet. “Não temos um mapa, nem comida e água para a viagem, nem barracas ou sacos de dormir, nem qualquer outro equipamento para acampar.”
“Podemos usar essas roupas como cobertores”, disse Klaus, “e dormir em qualquer abrigo que encontrarmos. O mapa mostrava uma porção de cavernas onde os animais costumam hibernar.”
Os dois Baudelaire estremeceram. A ideia de escalar a montanha por horas e dormir enrolados em roupas de outras pessoas numa caverna onde poderia haver animais hibernando não era agradável, e os irmãos desejaram não ter de viajar a pé pelo caminho menos percorrido, mas sim num veículo veloz e bem aquecido para chegar depressa onde sua irmã estava. Mas o desejar, como o bebericar uma taça de ponche ou levantar um tapete de urso para ter acesso a um alçapão escondido no chão, nada mais é senão um modo discreto de passar o tempo antes que as velas do bolo de aniversário se apaguem, e os Baudelaire sabiam que seria melhor parar de desejar e iniciar a jornada. Enquanto Violet punha no bolso a faca de pão e recolhia o suéter e o último casaco, Klaus enfiou o espelho de mão e o uquelele nos bolsos e recolheu o poncho e o jarro. Então, com uma derradeira olhada para as marcas de rodas que o trailer deixara ao desabar de cima do pico, as duas crianças começaram a seguir em direção à nascente do Arroio Enamorado.
Se você já fez uma longa viagem com alguém da família, sabe que há momentos em que se conversa e outros em que se prefere o silêncio. Aquela foi uma das ocasiões silenciosas. Violet e Klaus começaram a subir as ladeiras íngremes da montanha rumo à base de operações ao som dos ventos da montanha, que lembravam o ruído baixo e atonal de alguém soprando um gargalo de garrafa. O som estranho e áspero dos peixes do arroio pondo as cabeças para fora das águas escuras e espessas também acompanhava os dois viajantes, que não estavam com disposição para conversa e não disseram palavra um ao outro. Estavam perdidos em seus próprios pensamentos.
Violet deixou a mente divagar pelos tempos em que estivera na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos, quando um misterioso Jacques Snicket foi assassinado e ela e seus irmãos foram acusados pelo crime. Eles conseguiram escapar da prisão e salvar seus amigos Duncan e Isadora Quagmire das garras do conde Olaf, mas no último momento acabaram separados dos dois trigêmeos, que voaram para longe em uma casa móvel auto-sustentável a ar quente construída por um homem chamado Hector. Desde então, nenhum dos Baudelaire tinha revisto Hector ou os dois Quagmire, e Violet se perguntava se estariam em segurança e teriam conseguido entrar em contato com a organização secreta que descobriram. A organização se chamava C.S.C., e os Baudelaire ainda não sabiam exatamente o que ela fazia, ou mesmo o que significava a sigla. As crianças achavam que a base de operações no Vale das Correntezas que Sopram Constantes poderia ser de utilidade, mas agora, enquanto a mais velha dos Baudelaire subia penosamente acompanhando o Arroio Enamorado, ela se perguntava se algum dia descobriria as respostas que procurava.
Klaus também pensava nos Quagmire, muito embora se reportasse à época em que os Baudelaire os conheceram na Escola Preparatória Prufrock. Muitos dos alunos tinham sido malvados com os Baudelaire – em especial uma menina detestável chamada Carmelita Spats –, mas Isadora e Duncan foram muito gentis, e logo os Baudelaire e os Quagmire se tornaram unha e carne, uma expressão que aqui significa “amigos íntimos”. O fato de ambos os grupos de irmãos terem perdido pessoas muito próximas fortaleceu os laços de amizade entre eles. Os Baudelaire tinham perdido os pais, e os Quagmire tinha perdido não só os pais como Quigley, o terceiro trigêmeo Quagmire. Klaus pensava sobre a tragédia dos amigos e sentia-se culpado, afinal os Baudelaire ainda tinham esperanças de encontrar com vida um de seus pais. Em um documento que encontraram, a legenda da fotografia de seus pais ao lado de Jacques Snicket e um outro homem dizia: “Devido às evidências discutidas na página nove, os peritos agora suspeitam que possa haver de fato um sobrevivente do incêndio, mas seu paradeiro é desconhecido”. Agora, Klaus levava no bolso o documento e alguns retalhos dos cadernos dos Quagmire, entregues por eles da última vez em que se encontraram com os Baudelaire. Klaus caminhava ao lado da irmã mais velha enquanto se lembrava de como os Quagmire foram solícitos ao tentar resolver o mistério de C.S.C., que cercava todos eles. Estava pensando tão intensamente sobre isso que, quando Violet finalmente quebrou o silêncio, foi como se ele despertasse de um sonho confuso.
“Klaus”, disse ela, “antes de testarmos a invenção para parar o trailer, você disse que queria me dizer alguma coisa. O que era?”
“Não sei”, admitiu Klaus. “Eu só queria dizer alguma coisa no caso de... Bem, no caso de a invenção não funcionar.” Ele suspirou e ergueu os olhos para o céu que começava a escurecer. “Não me lembro da última coisa que disse a Sunny”, disse mansamente. “Deve ter sido quando estávamos na tenda da madame Lulu, ou talvez do lado de fora, antes de entrarmos no trailer. Se eu soubesse que o conde Olaf ia levá-la embora teria dito algo especial. Um elogio pelo chocolate quente que preparou, ou pela habilidade em sustentar seu disfarce.”
“Você poderá dizer essas coisas”, disse Violet, “quando a encontrarmos de novo.”
“Espero que sim”, disse Klaus, abatido. “Mas Olaf e sua trupe nos deixaram muito para trás.”
“Mas sabemos para onde eles vão”, disse Violet, “e sabemos que Olaf não tocaria em um só fio de cabelo de Sunny. Ele pensa que morremos no trailer, portanto precisa dela para pôr as mãos na fortuna.”
“Ela deve estar a salvo”, concordou Klaus, “mas com certeza está muito assustada. Só espero que saiba que estamos no seu encalço.”
“Eu também”, disse Violet, e prosseguiu em silêncio por algum tempo, interrompida apenas pelo vento e pelo estranho ruído gorgolejante dos peixes.
“Acho que esses peixes estão com problemas para respirar”, disse Klaus, apontando para a correnteza. “Alguma coisa na água os faz tossir.”
“Talvez o Arroio Enamorado não tenha sempre essa cor tão feia”, disse Violet. “O que poderia transformar água normal em um lodo preto-acinzentado?”
“Minério de ferro”, disse Klaus pensativo, tentando se lembrar de um livro sobre ambientalismo a grandes altitudes que lera aos dez anos. “Ou talvez um depósito de argila que se soltou por causa de algum evento geológico, como um terremoto, ou talvez seja algum tipo de poluição na água. Pode haver uma fábrica de tinta ou sal-gema por perto.”
“Talvez C.S.C., nos esclareça”, disse Violet, “assim que chegarmos à base de operações.”
“Talvez um dos nossos pais nos esclareça”, disse Klaus mansamente.
“Não devemos alimentar nossas esperanças”, disse Violet. “Mesmo que um dos nossos pais tenha sobrevivido ao incêndio, e mesmo que a base de operações de C.S.C, esteja realmente no Vale das Correntezas que Sopram Constantes, não é possível saber se os encontraremos assim que chegarmos lá.”
“Não vejo mal em alimentar nossas esperanças”, disse Klaus. “Estamos acompanhando uma corrente de água arruinada atrás de um vilão perverso na tentativa de salvar a nossa irmã e encontrar a base de operações de uma organização secreta. Um pouco de esperança seria bem-vindo.”
Violet parou onde estava. “Eu vestiria mais uma camada de roupas”, disse ela. “Está fazendo mais frio.”
Klaus concordou e ofereceu uma peça de vestuário que carregava. “Você quer o poncho ou o suéter?”, perguntou.
“O poncho, se você não se importar”, disse Violet. “Depois da experiência no trailer das aberrações, não sinto vontade de fazer propaganda do Parque Caligari.”
“Nem eu”, disse Klaus, pegando de volta o suéter com os dizeres bordados no peito. “Acho que vou usá-lo do avesso.”
Em vez de tirar os respectivos casacos, expondo-se aos ventos gélidos das Montanhas de Mão-Morta, Klaus vestiu o suéter por cima do seu casaco e Violet colocou o poncho por cima do seu. Os dois Baudelaire se entreolharam e não conseguiram conter o riso com a sua aparência ridícula.
“Isso é pior do que os ternos risca de giz que Esmé Squalor nos deu”, disse Violet.
“Ou aqueles agasalhos piniquentos que usávamos quando estávamos sob os cuidados do sr. Poe”, disse Klaus, referindo-se ao banqueiro encarregado da fortuna dos Baudelaire com o qual tinham perdido contato. “Mas pelo menos vamos ficar aquecidos. Se esfriar ainda mais, poderemos revezar o casaco que restou.”
“Se um dos nossos pais estiver na base de operações”, disse Violet, “ele ou ela não nos reconhecerá debaixo de tanta roupa. Vamos ficar parecendo dois bonecos de neve.”
Os Baudelaire ergueram os olhos para os picos nevados acima deles e sentiram-se meio atordoados, não porque as Montanhas de Mão-Morta se estendiam até o alto, mas porque todas as perguntas sem resposta se agitavam em suas cabeças. Poderiam realmente chegar sozinhos ao Vale das Correntezas que Sopram Constantes? Como seria a base de operações? Estaria C.S.C., aguardando por eles? Já teria o conde Olaf chegado à base de operações? Encontrariam Sunny? Encontrariam um dos seus pais? Violet e Klaus se entreolharam, e um arrepio subiu por dentro das suas estranhas vestimentas, até que Klaus quebrou o silêncio com a pergunta mais perturbadora de todas.
“Qual dos nossos pais você acha que sobreviveu?”, disse ele.
Quando Violet abriu a boca para responder, outra pergunta ocupou imediatamente os pensamentos dos Baudelaire. Era uma pergunta assustadora, e quase todas as pessoas que já a fizeram acabaram desejando não tê-la feito. Meu irmão fez essa pergunta uma vez, e teve pesadelos durante semanas. Um sócio meu também fez a pergunta, e caiu pelos ares antes que pudesse ouvir a resposta. E uma pergunta que eu fiz há muito tempo, em voz muito tímida, e uma mulher respondeu colocando um capacete de motociclista na cabeça e envolvendo o corpo em uma capa de seda vermelha. A pergunta é: “Que diabo é aquela assustadora nuvem de pequenos objetos brancos que vem zumbindo na nossa direção?”. E lamento dizer que a resposta é: “Um enxame de insetos bem organizados e mal-humorados, mais conhecidos como mosquitos da neve, os quais vivem nas áreas montanhosas e gostam de picar pessoas sem motivo nenhum”.
“Que diabo”, disse Violet, “é aquela assustadora nuvem de pequenos objetos brancos que vem zumbindo na nossa direção?”
Klaus olhou para o que a irmã apontava e franziu a testa. “Lembro de ter lido a respeito disso num livro sobre a vida dos insetos nas montanhas”, disse ele, “mas não me recordo dos detalhes.”
“Faça um esforço”, disse Violet, nervosa com a aproximação do enxame. A assustadora nuvem de pequenos objetos brancos que surgira detrás de um amontoado pedregoso lembrava o começo de uma nevasca. A falsa nevasca começou a tomar forma de flecha e se mover na direção das crianças, zumbindo cada vez mais alto, como se os objetos brancos estivessem incomodados com alguma coisa.
“Talvez sejam mosquitos da neve”, disse Klaus. “Eles vivem em áreas frias e montanhosas e costumam se agrupar em formas bem definidas.”
Violet encarou a flecha que se aproximava do arroio e da beira do abismo. “Fico feliz por saber que os mosquitos da neve são inofensivos”, disse. “Afinal, não temos como evitá-los.”
“Tem alguma coisa sobre esses mosquitos da neve que não consigo me lembrar”, disse Klaus.
O enxame se aproximou, a ponta da flecha ficou a poucos centímetros dos narizes dos Baudelaire, e então parou no ar, zumbindo com ferocidade. Os irmãos ficaram cara a cara com os mosquitos por um longo e tenso segundo, até que o mosquito que ocupava a posição dianteira no enxame picou o nariz de Violet.
“Ai!”, gritou ela. E enquanto Violet ficou esfregando a pequena mancha vermelha na ponta do nariz, o mosquito voltou à sua posição. “Isso doeu”, disse ela. “Pareceu uma picada de alfinete.”
“Agora me lembro”, disse Klaus. “Os mosquitos da neve costumam picar pessoas sem nenhum motivo aparen...”
Mas Klaus não chegou a terminar a frase, pois os mosquitos o interromperam com uma demonstração horripilante do que ele estava para dizer. Preguiçosamente, os insetos se deixaram levar pela ondulação dos ventos da montanha e desfizeram a flecha, transformando-a num grande bambolê em torno dos dois Baudelaire. Os mosquitos eram tão minúsculos que as crianças mal os enxergavam individualmente, embora tivessem a sensação de que os insetos sorriam de um jeito ameaçador.
“As picadas são venenosas?”, perguntou Violet.
“Um pouco”, disse Klaus. “Tudo bem se formos picados uma ou outra vez, mas muitas picadas podem nos deixar mal. Ai!”
Um dos mosquitos tinha picado Klaus na bochecha, como se quisesse conferir se era divertido picar o Baudelaire do meio.
“As pessoas sempre dizem que se você não se importa com as picadas, os insetos não vão incomodar”, disse Violet, nervosa. “Ai!”
“Isso quase nunca funciona”, disse Klaus, “e com os mosquitos da neve com certeza não funciona. Ai! Ai! Ai!”
“O que devemos... Ai!”, meio perguntou Violet.
“Eu não... Ai!”, meio respondeu Klaus, e logo os Baudelaire já não conseguiam manter nem meia conversa. O enxame de mosquitos da neve começou a girar cada vez mais depressa, até envolver os dois irmãos num pequeno tornado. Depois, com uma série de manobras que pareciam ensaiadas, os mosquitos começaram a picar, primeiro de um lado, depois do outro. Violet gritou quando picaram seu queixo. Klaus urrou quando um punhado deles picou sua orelha esquerda. E ambos os Baudelaire gritaram quando, ao tentar espantar os mosquitos com as mãos, os agressores apareceram de todos os lados. Os mosquitos da neve picavam a torto e a direito. Eles chegavam por cima, obrigando as crianças a se abaixar, e depois por baixo, obrigando as crianças a ficar na ponta dos pés. E o tempo todo o enxame zumbia cada vez mais alto, como se os insetos estivessem se divertindo às custas deles. Violet e Klaus fecharam os olhos e se encostaram um no outro. Estavam assustados demais para vagar às cegas, correndo o riso de despencar do pico da montanha ou mergulhar nas águas do Arroio Enamorado.
“Casaco!”, gritou Klaus, depois de cuspir um mosquito que tentara picar sua língua. Violet entendeu o recado e prontamente envolveu-se no casaco extra junto com Klaus, formando algo parecido com um grande e flácido guarda-chuva de pano. Os mosquitos da neve, furiosos, tentavam entrar por baixo do tecido para continuar picando, mas tiveram de se conformar com as mãos dos Baudelaire, que seguravam o casaco. Violet e Klaus se entreolharam atordoados, e enquanto seus dedos eram picados sem piedade, os irmãos tentavam continuar andando.
“Desse jeito não chegaremos nunca ao Vale das Correntezas que Sopram Constantes”, disse Violet, tentando se fazer ouvir por cima do zumbido dos mosquitos. “Como vamos detê-los, Klaus?”
“Com fogo”, disse ele. “O autor daquele livro dizia que o cheiro de fumaça pode deter um enxame. Mas não podemos acender fogo embaixo deste casaco.”
“Ai!” Um mosquito da neve picou o dedão de Violet em um lugar que já tinha sido picado, bem quando os Baudelaire contornaram o canto pedregoso onde o enxame aparecera pela primeira vez. Através de um ponto desgastado do tecido, os Baudelaire só conseguiram discernir um buraco escuro, circular, na encosta da montanha.
“Deve ser a entrada de uma das grutas”, disse Klaus. “A gente não poderia fazer fogo lá dentro?”
“Talvez”, disse Violet. “Mas com isso também incomodaremos algum animal que estiver em hibernação aí.”
“Já incomodamos milhares de animais”, disse Klaus, agarrando o jarro que quase caíra de suas mãos quando um mosquito lhe picou o pulso. “Parece que não temos escolha. Vamos entrar na caverna e arriscar.”
Violet concordou, mas olhou apreensiva para a entrada da caverna. Arriscar-se é como tomar banho, pode acabar com você se sentindo confortável e aquecido, mas pode ser que algo terrível esteja à espreita e você só descubra o que é quando não houver nada a fazer, a não ser berrar e agarrar-se a um patinho de borracha. Os dois Baudelaire foram em direção ao buraco escuro e circular, tomando cuidado para não se aproximar da beira do pico e apertando o casaco em volta de si para se proteger dos mosquitos. Mas o que mais os preocupava não era a altura do pico ou as picadas dos mosquitos, mas o risco que corriam ao adentrar a sombria entrada da caverna.
Os dois Baudelaire nunca tinham estado ali antes, é claro, e até onde sou capaz de assegurar, nunca mais voltaram, nem mesmo quando já desciam as montanhas, depois de reencontrar a irmãzinha bebê e descobrir o mistério do Colóquio Secreto Criostático. No entanto, quando Violet e Klaus assumiram o risco e entraram na caverna, encontraram duas coisas com as quais estavam muito familiarizados. A primeira era o fogo. Parados na boca da caverna, logo perceberam que não precisariam mais se preocupar com os mosquitos da neve, pois sentiam cheiro de fumaça e viam, no fundo da caverna, pequenas chamas cor de laranja. O fogo era algo muito familiar às crianças, desde o cheiro das cinzas da mansão Baudelaire até o cheiro das labaredas do Parque Caligari. Mas quando os mosquitos formaram uma flecha e dispararam para fora da caverna, e os Baudelaire, agora livres das picadas, deram mais um passo para dentro da gruta, Violet e Klaus encontraram outra coisa familiar – uma pessoa, para ser mais exato, alguém que eles julgavam que nunca mais reencontrariam.
“Seus bisbórrias!”, disse a voz do fundo da caverna, e ao ouvir isso os dois Baudelaire quase desejaram ter se arriscado em outro lugar.

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