27 de agosto de 2016

Capítulo dois


Bisbilhotar – uma palavra que aqui significa “ouvir conversas interessantes sem ter sido convidado” – é um procedimento muito proveitoso e divertido, mas não é educado. Os órfãos Baudelaire tinham vasta experiência em não ser pegos bisbilhotando: as três crianças sabiam como caminhar do modo mais silencioso possível pela área do Parque Caligari, e como se agachar do modo mais invisível possível do lado de fora do trailer de madame Lulu. Se você estivesse naquela fantasmagórica noite azul – e nada nas minhas pesquisas indica que estivesse –, não teria ouvido sequer um ligeiro sussurro dos Baudelaire enquanto bisbilhotavam a conversa de seus inimigos.
O conde Olaf e a sua trupe, ao contrário, faziam bastante barulho.
“Madame Lulu!”, bradava o conde Olaf, enquanto as crianças se ocultavam nas sombras. “Madame Lulu, sirva um pouco de vinho para nós! Provocar incêndios e fugir das autoridades sempre me deixa com muita sede!”
“Eu prefiro leite desnatado em caixinha”, disse Esmé. “É o que há de mais moderno com relação a bebidas.”
“Salta cinco copas de vinho e um caixinha de leite, faz favor”, respondeu uma voz de mulher com um sotaque conhecido. Não faz muito tempo, quando Esmé Squalor era a tutora dos Baudelaire, Olaf se disfarçara de uma pessoa que não falava a língua muito bem e, como parte do disfarce, usava um sotaque muito parecido com aquele que ouviam agora. Os Baudelaire tentaram espiar pela janela, mas madame Lulu fechara muito bem as cortinas. “Eu está emocionada, faz favor, de ver você, meu Olaf. Bem-vinda na minha trailer. Como está vida para você?”
“Estivemos muito atarefados”, disse o homem de mãos de gancho, usando uma expressão que aqui significa “perseguindo crianças inocentes durante muito tempo”. “É muito difícil capturar aqueles órfãos.”
“Nón se preocupar de crianças, faz favor”, retrucou madame Lulu. “Meu bola de cristal conta pra eu que meu Olaf vai prevalecer.”
“Se isso significa ‘vai assassinar crianças inocentes’“, disse uma das mulheres de cara branca, “então essa é a melhor notícia do dia.”
“‘Prevalecer’ significa ‘vencer’”, disse Olaf, “mas no meu caso é a mesma coisa que matar aqueles Baudelaire. Mas quando, exatamente, a bola de cristal diz que eu vou prevalecer, Lulu?”
“Muito breve, faz favor”, respondeu madame Lulu. “Que presentes você traz para eu do seu viagem, meu Olaf?”
“Bem, vejamos”, ele respondeu. “Tenho aqui um encantador colar de pérolas que furtei de uma enfermeira do Hospital Heimlich.”
“Você prometeu que eu ficaria com ele”, disse Esmé. “Dê a ela um daqueles chapéus de corvo que você surrupiou da cidade de Cultores Solidários de Corvídeos. “
“Vou lhe dizer uma coisa, Lulu”, disse Olaf, “suas habilidades de vidente são surpreendentes. Eu nunca teria adivinhado que os Baudelaire estavam escondidos naquela cidadezinha idiota, mas a sua bola de cristal soube logo de cara.”
“Mágica ser mágica, faz favor”, respondeu Lulu. “Mais vinho, meu Olaf?”
“Obrigado”, disse o conde. “E agora, Lulu, precisamos de suas habilidades de vidente mais uma vez.”
“Os fedelhos Baudelaire escapuliram de novo”, disse o careca, “e o chefe tinha esperanças de que você nos contasse para onde eles foram. “
“Além disso”, disse o homem de mãos de gancho, “precisamos saber onde está o dossiê Snicket.”
“E também se um dos pais dos Baudelaire sobreviveu ao incêndio”, completou Esmé. “Os órfãos acham que sim, mas a sua bola de cristal poderia nos dizer com certeza.”
“E eu quero mais um pouco de vinho”, disse uma das mulheres de cara branca.
“Tantos egzigências que vocês faz”, disse madame Lulu com o seu estranho sotaque. “Madame Lulu lembra quando vocês vinha fazer visita só pela prazer de meu companhia, meu Olaf, faz favor. “
“Não temos tempo para isso”, cortou Olaf. “Dá para consultar a bola de cristal agora mesmo?”
“Você conhece regras, meu Olaf”, retrucou Lulu. “De noite, bola de cristal precisa dormir no Barraca do Destino, e quando sol nasce você pode fazer um pergunta.”
“Então vou fazer minha primeira pergunta amanhã de manhã”, disse Olaf, “e vamos ficar aqui até que todas as minhas perguntas sejam respondidas.”
“Oh, meu Olaf”, disse Lulu. “Faz favor, agora tempos muito difíceis para Parque Caligari. Trazer parque para meio de sertón nón foi bom ideia comercial, nón tem muito gente para ver madame Lulu ou bola de cristal. Trailer de presentes de Parque Caligari tem só porcaria. E Casa dos Monstros de madame Lulu, faz favor, nón tem aberraçóns bastante. Você, meu Olaf, faz visita com todo o seu trupe, e fica muitas dias, e bebe a meu vinho, e come a meu comida, tudo, tudo.”
“Esse frango assado está mesmo delicioso”, disse o homem de mãos de gancho.
“Madame Lulu nón tem dinheiro, faz favor”, continuou a vidente. “Está difícil, meu Olaf, ler futuro para você quando madame Lulu é tón pobre. Trailer minha tem goteira na teto, e madame Lulu precisa dinheiro, faz favor, para poder fazer conserto.”
“Eu já falei uma vez”, disse Olaf, “que quando pusermos as mãos na fortuna dos Baudelaire, o parque terá dinheiro à vontade.”
“Você fala este mesmo coisa de fortuna Quagmire, meu Olaf”, disse madame Lulu, “e de fortuna Snicket. Mas nunca uma centavo madame Lulu viu. Nós precisa pensar, faz favor, em um coisa para fazer Parque Caligari mais popular. Madame Lulu esperava que trupe de meu Olaf podia apresentar uma grande espetáculo, como O casamento maravilhoso. Um porçón de gente ia vim assistir. “
“O patrão não pode ficar subindo no palco”, disse o careca. “Maquinar esquemas é ocupação em tempo integral.”
“Além disso”, disse Esmé, “eu já me aposentei da vida artística. Tudo o que quero agora é ser a namorada do conde Olaf.”
Houve um silêncio dentro do trailer, e a única coisa que os Baudelaire ouviam era a mastigação ruidosa de alguém triturando ossos de frango. Depois ouviram um suspiro prolongado, então Lulu falou mansamente:
“Você nunca tinha me contado, meu Olaf, que Esmé era namorada seu. Pode ser que madame Lulu nón vai deixar você e seu trupe ficar na meu parque. “
“Ora, vamos, Lulu”, disse ele, e as crianças estremeceram. Olaf estava falando naquele tom de voz bem conhecido dos Baudelaire, o que ele usava quando queria se passar por uma pessoa gentil e decente. Mesmo com as cortinas fechadas, os Baudelaire adivinharam que ele abria um sorriso cheio de dentes para Lulu e que seus olhos brilhavam sob a sobrancelha única, como se ele estivesse prestes a contar uma piada. “Eu já contei como comecei a minha carreira de ator?”
“É uma história fascinante”, disse o homem de mãos de gancho.
“Certamente”, concordou Olaf. “Me sirva um pouco mais de vinho, e lhe contarei. Pois bem: sempre fui o sujeito mais lindo da escola, desde que era criança, e um dia um jovem diretor... “
Para os Baudelaire era o bastante. Tinham passado tempo suficiente com o vilão para saber que, quando ele começava a falar de si mesmo, podia continuar até as galinhas criarem dentes, uma expressão que aqui significa “até acabar o vinho”, por isso se afastaram cuidadosamente do trailer e voltaram para o carro, onde podiam conversar sem que ninguém os ouvisse. Na escuridão da noite, o automóvel comprido e preto mais parecia um enorme buraco, e enquanto os Baudelaire tentavam decidir o que fazer, parecia que estavam prestes a cair lá dentro.
“Acho que devemos ir embora”, disse Klaus, hesitante. “Este não é um lugar seguro, mas não sei para onde ir. Por quilômetros e quilômetros só há deserto neste sertão. Se sairmos por aí, podemos morrer de sede ou ser atacados por animais selvagens.”
Violet se virou de repente, como se alguma coisa fosse atacá-los naquele exato momento, mas o único animal selvagem à vista era o leão pintado na placa.
“Mesmo que encontrássemos alguém por aqui”, disse ela, “achariam que somos assassinos e chamariam a polícia. Além disso, madame Lulu responderá a todas as perguntas de Olaf amanhã de manhã.”
“Você não acha que a bola de cristal funciona mesmo, acha?”, perguntou Klaus. “Nunca foi provado que a vidência seja um fato real.”
“É, mas madame Lulu está sempre contando ao conde Olaf onde estamos”, lembrou Violet. “Em algum lugar ela consegue a informação. Se ela puder descobrir onde está o dossiê Snicket ou confirmar se um de nossos pais está vivo...”
Sua voz falhou, mas nem era preciso terminar a sentença. Os três Baudelaire sabiam que valia a pena ficar ali se fosse para descobrir alguma coisa sobre um provável sobrevivente do incêndio.
“Sandover”, disse Sunny, o que queria dizer: “Então vamos ficar”.
“Pelo menos por esta noite”, concordou Klaus. “Mas onde vamos ficar? Se não nos escondermos, é provável que nos reconheçam. “
“Trólias?”, perguntou Sunny.
“As pessoas que moram naqueles trailers trabalham para madame Lulu”, disse Klaus. “Como podemos confiar neles?”
“Eu tenho uma ideia”, disse Violet, e foi até a traseira do carro. Com um crééééc! ela abriu novamente o porta-malas e se debruçou para dentro.
“Biruts!”, disse Sunny, o que queria dizer: “Não creio que seja uma boa ideia, Violet”.
“Sunny tem razão”, disse Klaus. “Olaf e seus comparsas podem voltar a qualquer minuto para tirar as coisas do porta-malas. Não podemos nos esconder aí.”
“Mas não vamos nos esconder”, disse Violet, “não como vocês estão pensando. Afinal, Olaf e sua trupe nunca se escondem, e no entanto conseguem não ser reconhecidos. Nós vamos nos disfarçar. “
“Gabrowha?”, perguntou Sunny.
“Por que não funcionaria?”, respondeu Violet. “Olaf usa disfarces e consegue enganar todo mundo. Se conseguirmos fazer a madame Lulu pensar que somos outras pessoas, poderemos ficar aqui até encontrar as respostas para as nossas perguntas.”
“Parece arriscado”, disse Klaus, “mas não é mais arriscado que nos esconder. Do que vamos nos disfarçar?”
“Vamos dar uma olhada nessas coisas”, disse Violet, “e ver se temos alguma ideia.”
“Mas teremos de apalpar”, disse Klaus. “Está escuro demais para enxergar os disfarces.”
Os Baudelaire enfiaram as mãos no porta-malas e começaram a procurar. Como você já deve saber, toda vez que examinamos os pertences de outra pessoa acabamos descobrindo muitas coisas interessantes sobre ela. Você pode fuçar as cartas da sua irmã, por exemplo, e descobrir que ela planejava fugir com um arquiduque. Ou pode mexer nas malas de um passageiro no trem e descobrir que durante os últimos seis meses ele tirou fotografias suas em segredo. Outro dia abri a geladeira de uma inimiga e descobri que ela era vegetariana, ou pelo menos fingia ser, ou recebeu a visita de um vegetariano por alguns dias. E enquanto os órfãos Baudelaire examinavam os objetos no porta-malas de Olaf, descobriram muitas coisas desagradáveis. Violet encontrou parte de uma lamparina de latão da qual se lembrava da época em que vivera com o tio Monty, e descobriu que Olaf tinha roubado o seu pobre tutor, além de tê-lo assassinado. Klaus encontrou uma sacola de compras da loja In, e ficou sabendo que Esmé Squalor continuava obcecada por roupas na última moda. Sunny encontrou um par de meias-calças coberto de serragem, e logo percebeu que Olaf ainda não mandara o seu disfarce de recepcionista para a lavanderia. Mas a coisa mais desalentadora que as crianças descobriram ao revistar o porta-malas do carro de Olaf foi que ele tinha uma enorme quantidade de disfarces à sua disposição. Ali estavam o chapéu que Olaf usara para se disfarçar de capitão de navio, e até a navalha com a qual ele deve ter raspado a cabeça para ficar parecido com um assistente de laboratório. Os tênis que ele calçara para se disfarçar de treinador e os calçados de plástico usados no disfarce de detetive também estavam lá. Mas havia disfarces naquele porta-malas que os Baudelaire nunca tinham visto, e em quantidade suficiente para Olaf se disfarçar pelo resto da vida e continuar na captura dos órfãos sem jamais ser identificado.
“Podemos nos fazer passar por quase qualquer pessoa”, disse Violet. “Vejam, esta peruca me deixa parecida com um palhaço, e esta outra me faz parecer um juiz.”
“Você tem razão”, disse Klaus, erguendo uma caixa cheia de gavetas. “Isso parece um estojo de maquiagem, com bigodes postiços, sobrancelhas postiças, e até olhos de vidro.”
“Twicho!”, disse Sunny, erguendo um véu branco.
“Não, obrigada”, disse Violet. “Já usei esse véu quando Olaf tentou se casar comigo. Além do mais, por que uma noiva estaria perambulando pelo sertão?”
“Vejam esse manto”, disse Klaus. “É o tipo de coisa que um rabino usaria, mas não sei se madame Lulu acreditaria num rabino que viesse visitá-la no meio da noite.”
“Toldo!”, disse Sunny, se enrolando numas calças de malha. A mais jovem dos Baudelaire queria dizer alguma coisa do tipo: “Todas essas roupas são grandes demais para mim”, e tinha razão.
“Isso é ainda maior que o terno risca de giz que Esmé comprou para você”, disse Klaus, ajudando a irmã a se desenrolar. “Ninguém acreditaria em calças de malha que passeiam sozinhas pelo parque.”
“Todas as roupas são grandes demais”, disse Violet. “Vejam só esse casaco bege. Se eu tentasse usá-lo, acabaria parecendo uma aberração.”
“Aberração!”, disse Klaus. “É isso!”
“Issoquê?”, perguntou Sunny.
“Madame Lulu disse que não tinha aberrações o suficiente na Casa dos Monstros. Se ficarmos parecidos com aberrações e dissermos a Lulu que procuramos trabalho, talvez ela nos contrate.”
“Mas o que fazem aberrações?”, perguntou Violet.
“Uma vez, li um livro sobre um tal John Merrick”, disse Klaus. “Ele tinha defeitos de nascença que o deformaram de uma maneira terrível. Um parque de diversões o expôs na Casa dos Monstros, e as pessoas pagavam para olhar para ele.”
“Por que as pessoas iriam querer olhar para alguém com defeitos de nascença?”, perguntou Violet. “Parece cruel.”
“E é”, disse Klaus. “Muitas vezes atiravam coisas no sr. Merrick, e o xingavam. Receio que a Casa dos Monstros não seja uma forma agradável de entretenimento. “
“Alguém devia ter dado um basta nisso”, disse Violet, “mas também deviam ter dado um basta no conde Olaf, e até hoje ninguém fez isso.”
“Radev”, disse Sunny, olhando nervosa ao redor deles. Com “Radev” ela queria dizer: “Nós é que vamos ter um basta, se não nos disfarçarmos de uma vez”, e seus irmãos concordaram.
“Achei uma camisa extravagante”, disse Klaus. “É cheia de babados e laçarotes. E aqui está uma calça enorme com a barra de pele.”
“Será que cabemos nela?”, perguntou Violet.
“Nós dois?”, disse Klaus. “Se ficarmos com as nossas roupas por baixo, imagino que sim. Cada um de nós fica numa perna só e dobra a outra perna dentro da calça. Para andar, vamos ter de nos apoiar um no outro, mas pode funcionar.”
“E podemos fazer a mesma coisa com a camisa”, disse Violet. “Vestimos apenas um braço cada um e dobramos o outro para dentro.”
“Mas não podemos esconder uma de nossas cabeças”, observou Klaus, “e com duas cabeças vamos parecer uma...”
“... pessoa de duas cabeças”, completou Violet, “e uma pessoa de duas cabeças é o tipo de coisa que a Casa dos Monstros se orgulharia em exibir.”
“Bem pensado”, disse Klaus. “Além do mais, Olaf não está perseguindo uma pessoa de duas cabeças. Mas precisamos disfarçar nossos rostos também.”
“Uma maquiagem resolve isso”, disse Violet. “Mamãe me ensinou a desenhar cicatrizes falsas na pele quando fez aquela peça sobre o assassino.”
“E aqui está uma lata de talco”, disse Klaus. “Com isso podemos deixar nosso cabelo grisalho.”
“Você acha que o conde Olaf vai notar a falta dessas coisas?”, perguntou Violet.
“Duvido”, respondeu Klaus. “O porta-malas não está organizado, e vários desses disfarces não são usados há muito tempo. Acho que podemos pegar o necessário para nossa transformação sem que Olaf sinta falta de nada.”
“Beriu?”, disse Sunny, o que queria dizer: “E eu?”.
“Esses disfarces foram feitos para adultos”, disse Violet, “mas tenho certeza de que vamos encontrar alguma coisa para você. Talvez você pudesse se enfiar dentro de um sapato e se transformar numa pessoa que só tem a cabeça e um pé. Seria uma aberração e tanto.”
“Chelish”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “Sou grande demais para caber dentro de um sapato”.
“É verdade”, disse Klaus. “Já faz tempo que você deixou de ser desse tamanho.” Então ele enfiou a mão no porta-malas e tirou de lá uma coisa pequena e peluda, parecida com um guaxinim. “Isso pode funcionar”, disse. “Acho que essa é a barba postiça que Olaf usou quando se passou por Stephano. É uma barba comprida, portanto deve funcionar como um disfarce curto.”
“Vamos ver”, disse Violet. “E já.”
Em poucos minutos as crianças descobriram como era fácil se transformar em outras pessoas. Violet, Klaus e Sunny já tinham alguma experiência em disfarces, é claro – Klaus e Sunny tinham se passado por médicos no Hospital Heimlich, e até Sunny podia se lembrar das vezes em que os irmãos se fantasiaram por pura diversão, na época em que moravam na mansão Baudelaire. Mas agora eles se sentiam mais como o conde Olaf e sua trupe, trabalhando silenciosamente no meio da noite para apagar todos os sinais das suas verdadeiras identidades. Violet encontrou no estojo de maquiagem vários daqueles lápis que se usa para tornar as sobrancelhas mais dramáticas, e muito embora fosse indolor desenhar cicatrizes no rosto de Klaus, ela tinha a sensação de estar quebrando a antiga promessa que fizera aos pais de sempre cuidar dos irmãos e mantê-los afastados do perigo. Klaus, por sua vez, ajudou Sunny a se enrolar na barba postiça, mas quando viu seus olhos e as pontas de seus dentes emergirem do meio daquela massa de pelos, teve a sensação de ter dado a irmãzinha como alimento a algum pequeno animal faminto. E quando Sunny foi ajudar os irmãos a abotoar a camisa e salpicar talco nos cabelos, teve a sensação de que eles estavam se fundindo por baixo das roupas de Olaf. Os três Baudelaire se examinaram atentamente, mas era como se não houvesse mais Baudelaire nenhum, apenas dois estranhos, um com duas cabeças e o outro com uma cabeça cheia de pelos, ambos totalmente sozinhos no sertão.
“Acho que estamos irreconhecíveis”, disse Klaus, tentando virar o rosto para a irmã mais velha. “Talvez seja porque eu tirei os óculos, mas não estou nos reconhecendo”.
“Você vai ficar sem os óculos?”, perguntou Violet.
“Sim, acho que consigo enxergar se apertar os olhos”, disse Klaus, apertando os olhos. “Desse jeito não consigo ler, mas pelo menos não tropeço nas coisas. Se eu usar os óculos, o conde Olaf pode me reconhecer.”
“Então não use”, disse Violet, “eu também vou parar de usar fita no cabelo.”
“É melhor disfarçarmos nossas vozes”, disse Klaus. “Vou falar mais agudo. Que tal você falar com voz grave?”
“Boa ideia”, disse Violet, já com a voz mais grave que podia fazer. “E você, Sunny, deve apenas rosnar.”
“Grr”, tentou Sunny.
“Parece um lobo”, disse Violet, já disfarçando a voz. “Vamos contar à madame Lulu que você é meio lobo meio gente.”
“Se fosse verdade, seria terrível”, disse Klaus, com uma voz bem aguda. “Mas nascer com duas cabeças não seria mais fácil.”
“Vamos dizer à Lulu que passamos por experiências horrendas, mas que trabalhar no parque nos traz esperanças de dias melhores”, disse Violet com um suspiro. “E nem precisamos fingir. Nós realmente passamos por experiências horrendas, e de fato esperamos que as coisas melhorem. Somos aberrações, quase tanto quanto fingimos ser.”
“Não diga isso”, disse Klaus, e então lembrou-se da nova voz. “Não diga isso”, repetiu, agora num tom bem mais agudo. “Não somos aberrações. Ainda somos os Baudelaire, mesmo usando os disfarces de Olaf. “
“Eu sei”, disse Violet com a nova voz, “mas é um pouco confuso fingir ser outra pessoa.”
“Grr”, rosnou Sunny, concordando.
As três crianças devolveram ao porta-malas o resto das coisas de Olaf e caminharam em silêncio até o trailer de madame Lulu. Andar dentro das mesmas calças foi desconfortável para Violet e Klaus, e Sunny teve de parar a cada passo para afastar a barba dos olhos. Era bastante confuso se passar por pessoas completamente diferentes, ainda mais porque fazia muito tempo que os Baudelaire não conseguiam ser quem eles realmente eram. Violet, Klaus e Sunny não se viam como crianças que se escondem em porta-malas, ou que se disfarçam, ou que tentam arranjar emprego numa Casa dos Monstros. Mesmo assim, eles mal se lembravam da última vez em que relaxaram e fizeram as coisas de que gostavam. Parecia que séculos haviam se passado desde que Violet pudera pensar em invenções sem que fosse para livrá-los de dificuldades. Klaus não se lembrava do último livro que lera por simples prazer, e não para tentar frustrar os planos de Olaf. E Sunny tinha usado seus dentes muitas e muitas vezes para escapar de situações difíceis, mas fazia um bom tempo que não mordia alguma coisa por pura recreação. Cada passo desengonçado rumo ao trailer de madame Lulu parecia levá-los cada vez para mais longe de suas vidas reais de órfãos Baudelaire, e cada vez mais perto de suas vidas disfarçadas de aberrações do Parque Caligari, e isso era realmente muito confuso. Quando Sunny bateu à porta, madame Lulu gritou: “Quem está aí?”, e aquela foi a primeira vez em suas vidas que essa simples pergunta os deixou confusos.
“Somos aberrações”, respondeu Violet, com a voz disfarçada. “Somos três... Quero dizer, duas aberrações à procura de trabalho.”
A porta se abriu com um rangido, e as crianças viram madame Lulu pela primeira vez. Vestia uma túnica comprida e brilhante que parecia mudar de cor conforme ela se mexia e um turbante parecido com o que o conde Olaf usara na Escola Preparatória Prufrock. Tinha olhos escuros e penetrantes, e sobre eles duas dramáticas sobrancelhas desconfiadas, que examinavam as crianças de alto a baixo. Atrás dela, sentados a uma pequena mesa redonda, estavam o conde Olaf, Esmé Squalor e os capangas de Olaf, todos olhando para os jovens com curiosidade. E como se todos aqueles olhos não fossem suficientes, havia mais um olho mirando os Baudelaire – um olho de vidro, preso a um cordão no pescoço de madame Lulu. O olho era igual ao que estava pintado no trailer e tatuado no tornozelo de Olaf. Era um olho que parecia acompanhar os Baudelaire aonde quer que fossem, puxando-os cada vez mais fundo para o perturbador mistério de suas vidas.
“Entra, faz favor”, disse madame Lulu, com seu sotaque esquisito, e as crianças obedeceram. Caminhando do modo mais bizarro que podiam, os órfãos Baudelaire foram se aproximando daqueles olhos, e se afastando cada vez mais de suas vidas.

Um comentário:

  1. Como eles tem coragem se fosse eu ia ficar escondida ate ouvi td e depois ia fugir kk

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