17 de agosto de 2016

Capítulo dois


A fim de ter uma ideia mais clara de exatamente como os órfãos Baudelaire se sentiram quando começaram a penosa jornada escadaria acima até o apartamento de cobertura do sr. e da sra. Squalor, você poderá achar conveniente fechar os olhos ao ler este capítulo, pois a luz que vinha das velas no chão era tão pálida que parecia que os olhos estavam fechados mesmo quando olhavam o mais intensamente que podiam. A cada curva na escada havia uma porta que levava ao apartamento de cada andar, e um par de portas deslizantes de elevador. Os jovens, naturalmente, não ouviam som algum vindo de trás das portas deslizantes, já que o elevador tinha sido desligado, mas atrás das portas dos apartamentos as crianças podiam ouvir os ruídos produzidos pelas pessoas que moravam no prédio. Quando chegaram ao sétimo andar, ouviram dois homens rindo como se alguém tivesse contado uma piada. Quando chegaram ao décimo segundo andar, ouviram o barulho da água enquanto alguém tomava banho. Quando chegaram ao décimo nono andar, ouviram uma mulher dizendo “Deixe que comam bolo” em uma voz que tinha um sotaque estranho.
“Me pergunto o que as pessoas vão ouvir quando passarem pelo apartamento de cobertura”, Violet pensou em voz alta, “quando estivermos morando lá.”
“Espero que me ouçam virando páginas”, disse Klaus. “Talvez o sr. e a sra. Squalor tenham alguns livros interessantes para ler.”
“Ou, quem sabe, as pessoas me ouvirão usando uma chave inglesa”, disse Violet. “Espero que os Squalor tenham algumas ferramentas e me deixem usá-las nas minhas invenções.”
“Crife!”, disse Sunny, passando cautelosamente de gatinhas por uma das velas no chão.
Violet baixou os olhos para ela e sorriu. “Não acho que isto vai ser um problema, Sunny”, disse ela. “Você normalmente acha uma coisa ou outra para morder. E avise quando quiser que nós comecemos a carregá-la.”
“Eu gostaria que alguém carregasse a mim”, disse Klaus agarrando o corrimão para se apoiar. “Estou ficando cansado.”
“Eu também”, admitiu Violet. “Daria para imaginar que estas escadas não nos cansariam, depois que o conde Olaf nos fez correr todas aquelas voltas na pista quando estava disfarçado de professor de educação física, mas não é este o caso. Aliás, em que andar estamos?”
“Não sei”, disse Klaus. “As portas não têm números, e eu perdi a conta.”
“Bem, com a cobertura não há como a gente se enganar”, disse Violet. “Ela fica no último andar, portanto vamos simplesmente continuar subindo até acabar a escada.”
“Eu queria poder inventar um dispositivo que nos carregasse escada acima”, disse Klaus.
Violet sorriu, muito embora seus irmãos não pudessem ver o sorriso no escuro. “Esse dispositivo foi inventado muito tempo atrás”, disse ela. “Chama-se elevador. Mas os elevadores estão out, está lembrado?”
Klaus também sorriu. “E os pés cansados estão in”, disse ele.
“Você se lembra daquela vez”, disse Violet, “em que os nossos pais participaram da Décima Sexta Maratona Anual? Os pés deles estavam tão cansados que, quando chegaram em casa, papai preparou o jantar sentado no chão da cozinha, em vez de ficar em pé!”
“É claro que me lembro”, disse Klaus. “Jantamos só salada, porque eles não conseguiram ficar em pé para alcançar o fogão.”
“Teria sido uma refeição perfeita para a tia Josephine”, disse Violet, lembrando-se de uma entre os seus vários tutores anteriores. “Ela nunca quis usar o fogão, pois achava que podia explodir.”
“Pomres”, disse Sunny, tristonha. Ela queria dizer algo no gênero de “Como descobrimos no fim, o fogão era o menor dos problemas da tia Josephine”.
“É verdade”, Violet disse baixinho, quando as crianças ouviram alguém espirrar atrás de uma porta.
“Eu queria saber como serão os Squalor”, disse Klaus.
“Bem, eles devem ser ricos para morar na Avenida Sombria”, disse Violet.
“Acrofil”, disse Sunny, o que queria dizer “E eles com certeza não têm medo de altura”.
Klaus sorriu e baixou os olhos para a irmã. “Você parece cansada, Sunny”, disse ele. “Violet e eu podemos nos revezar carregando você. Vamos trocar a cada três andares.”
Violet concordou com o plano de Klaus com um movimento da cabeça, e então disse “Sim” em voz alta, pois se deu conta de que o movimento de cabeça era invisível no escuro.
Eles continuaram a subir as escadas, e lamento dizer que os dois Baudelaire mais velhos se revezaram muitas e muitas vezes carregando Sunny. Se os Baudelaire estivessem subindo uma escada de tamanho normal eu escreveria “E eles subiram e subiram”, mas uma frase mais apropriada começaria com “E eles subiram, e subiram, e subiram”, e prosseguiria assim por quarenta e oito ou oitenta e quatro páginas, já que a escadaria era tão inacreditavelmente longa. Ocasionalmente, eles passavam pela figura indistinta de alguma outra pessoa descendo as escadas, mas as crianças estavam cansadas demais até para dizer “Boa tarde” – e, mais tarde, “Boa noite” – para aqueles outros residentes da Avenida Sombria 667. Os Baudelaire ficaram com fome. Eles ficaram com o corpo dolorido. E ficaram muito cansados de olhar para velas, e degraus, e portas, todos idênticos.
Quando já não podiam aguentar mais, chegaram a mais uma porta, e degrau, e vela, e cerca de cinco lances depois disso a escada finalmente acabou e depositou as crianças exaustas em uma pequena sala com uma última vela no meio do tapete. À luz da vela, os órfãos Baudelaire puderam ver a porta do seu novo lar e, do outro lado, dois pares de portas deslizantes de elevador e, ao lado, botões com setas.
“Imaginem só”, disse Violet, ofegante com a longa escalada, “se os elevadores estivessem in, teríamos chegado à cobertura dos Squalor em apenas alguns minutos.”
“Bem, talvez em breve eles voltem a ser in”, disse Klaus. “É o que espero. A outra porta deve dar para o apartamento dos Squalor. Vamos bater.”
Eles bateram na porta e, quase imediatamente, ela se abriu revelando um homem alto, usando um terno com listras compridas e estreitas de cima até embaixo. Este tipo de terno é chamado de terno risca-de-giz e normalmente é usado por pessoas que, ou são astros de cinema, ou são gângsteres.
“Pensei ter ouvido alguém se aproximando da porta”, disse o homem, dando às crianças um sorriso tão grande que dava para ver até no escuro da sala. “Por favor, entrem. Meu nome é Jerome Squalor, e estou muito contente por vocês virem morar conosco.”
“Muito prazer em conhecê-lo, sr. Squalor”, disse Violet, ainda ofegante, quando ela e seus irmãos entraram em um vestíbulo quase tão escuro quanto a escadaria. “Eu sou Violet Baudelaire, e estes são o meu irmão Klaus e a minha irmã Sunny.”
“Deus, você parece estar sem fôlego”, disse o sr. Squalor. “Por sorte, posso pensar em duas coisas a fazer a respeito. Uma é que vocês podem parar de me chamar de sr. Squalor e começar a me chamar de Jerome. Também vou chamar vocês três só pelo primeiro nome, e assim todos nós vamos poupar fôlego. A segunda coisa é que vou preparar para vocês um delicioso martíni geladinho. Venham por aqui.”
“Um martíni?”, perguntou Klaus. “Não é uma bebida alcoólica?”‘
“Geralmente é”, concordou Jerome. “Mas neste momento os martínis alcoólicos estão out. Os martínis aquosos estão in. Um martíni aquoso é simplesmente água gelada servida em uma taça sofisticada com uma azeitona dentro, portanto é perfeitamente lícito servi-lo tanto a crianças como a adultos.”
“Nunca tomei um martíni aquoso”, disse Violet, “mas vou provar um.”
“Ah!”, disse Jerome. “Você é uma aventureira! Gosto disto em uma pessoa. A sua mãe também era uma aventureira. Você sabe, ela e eu éramos muito bons amigos tempos atrás. Escalamos o monte Fraught com alguns amigos – Deus, isso deve ter sido há uns vinte anos. O monte Fraught era conhecido pelos animais perigosos que viviam lá, mas a sua mãe não tinha medo. Mas então, mergulhando do céu...”
“Jerome, quem era na porta?”, gritou uma voz da sala ao lado, e entrou uma mulher alta e esbelta, também usando terno risca-de-giz. Tinha unhas compridas, pintadas com um esmalte tão brilhante que cintilavam até naquela luz pálida.
“As crianças Baudelaire, é claro”, respondeu Jerome.
“Mas elas não vinham hoje!”, exclamou a mulher.
“É claro que vinham”, disse Jerome. “Há dias e dias que estou esperando por isso! Vocês sabem”, disse ele voltando-se da mulher para os Baudelaire, “eu queria adotar vocês desde o momento em que ouvi contar do incêndio. Mas, infelizmente, foi impossível.”
“Os órfãos estavam out naquela época”, explicou a mulher. “Agora, eles estão in.”
“Minha mulher está sempre atenta ao que é in e ao que é out”, disse Jerome. “Eu não ligo muito para isso, mas Esmé pensa de outro jeito. Foi ela quem insistiu em mandar remover o elevador. Esmé, eu estava indo preparar um martíni aquoso para eles. Você também quer?”
“Oh, sim!”, exclamou Esmé. “Os martínis aquosos estão in.” Ela aproximou-se rapidamente das crianças e inspecionou-as. “Eu sou Esmé Gigi Geniveve Squalor, a sexta consultora financeira mais importante da cidade”, anunciou ela, pomposa. “Apesar de eu ser inacreditavelmente rica, vocês podem me chamar de Esmé. Vou aprender os nomes de vocês depois. Estou muito feliz por estarem aqui, porque órfãos estão in, e quando todos os meus amigos ouvirem que eu tenho três órfãos vivos de verdade, vão ficar doentes de inveja, não vão, Jerome?”
“Espero que não”, disse Jerome, levando as crianças por um corredor comprido e escuro até uma sala enorme e escura onde havia diversos divãs, cadeiras e mesas sofisticados. Na outra ponta da sala havia uma série de janelas, todas com as cortinas fechadas para não deixar entrar nenhuma luz. “Não gosto de ouvir dizer que alguém vai ficar doente. Bem, sentem-se, crianças, vou contar a vocês um pouco sobre o seu novo lar.”
Os Baudelaire sentaram-se em três cadeiras enormes, gratos pela oportunidade de descansar os pés. Jerome atravessou a sala até uma das mesas, onde havia uma jarra de água ao lado de uma tigela cheia de azeitonas e algumas taças sofisticadas, e preparou rapidamente os martínis aquosos. “Aqui está”, disse ele entregando uma taça sofisticada para Esmé e uma para cada criança. “Vejamos. Caso vocês se percam, lembrem-se de que o seu novo endereço é Avenida Sombria 667, apartamento de cobertura.”
“Ora, não fique contando coisas bobas como essa para elas”, disse Esmé, agitando a mão de unhas compridas na frente do rosto como se estivesse sendo atacada por uma mariposa. “Crianças, eis aqui algumas coisas que vocês precisam saber. Escuro é in. Luz é out. Escadas são in. Elevadores são out. Ternos risca-de-giz são in. Essas roupas horríveis que vocês estão usando são out.”
“O que Esmé quer dizer”, Jerome apressou-se em consertar, “é que nós queremos que vocês se sintam o mais confortáveis possível aqui.”
Violet bebeu um golinho do seu martíni aquoso. Não ficou surpresa ao descobrir que tinha gosto de água pura, com um leve toque de azeitona. Não gostou muito, mas aquilo aliviou a sede causada pela longa subida pela escadaria. “Muito gentil da sua parte”, disse ela.
“O sr. Poe me contou sobre alguns dos seus antigos tutores”, disse Jerome balançando a cabeça. “Me sinto horrivelmente mal por vocês terem tido de passar por experiências tão terríveis, quando podíamos ter cuidado de vocês o tempo todo.”
“Era inevitável”, disse Esmé. “Quando alguma coisa está out, ela está out, e órfãos estavam out.”
“Eu também ouvi tudo sobre esse tal de conde Olaf”, disse Jerome. “Falei para o porteiro não deixar entrar neste prédio ninguém que se parecesse, mesmo vagamente, com aquele homem desprezível, portanto vocês estarão seguros.”
“Isto é um alívio”, disse Klaus.
“De qualquer modo, supõe-se que aquele homem horroroso esteja no alto de alguma montanha”, disse Esmé. “Lembra-se, Jerome? Aquele banqueiro sem estilo disse que estava indo de helicóptero procurar os tais gêmeos que ele raptou.”
“Na verdade”, disse Violet, “são trigêmeos. Os Quagmire são bons amigos nossos.”
“Não diga!”, disse Jerome. “Então vocês devem ter ficado terrivelmente preocupados!”
“Bem, se os encontrarem logo”, disse Esmé, “talvez nós também os adotemos. Cinco órfãos! Ficarei sendo a pessoa mais in da cidade!
“Certamente temos espaço para eles”, disse Jerome. “Este é um apartamento de setenta e um quartos, crianças, portanto vocês poderão escolher os de vocês. Klaus, Poe mencionou alguma coisa sobre o seu interesse por inventar coisas, está correto?”
“A inventora é a minha irmã”, respondeu Klaus. “Eu mesmo, sou mais um pesquisador.”
“Muito bem então”, disse Jerome. “Você pode ficar com o quarto ao lado da biblioteca, e Violet pode ficar com o que tem uma grande bancada de madeira, perfeita para guardar ferramentas. Sunny pode ficar no quarto entre vocês dois. Que tal lhes parece?”
Aquilo lhes parecia absolutamente esplêndido, é claro, mas os órfãos Baudelaire nem tiveram oportunidade de dizer isso, pois um telefone tocou bem naquele instante.
“Eu atendo! Eu atendo!”, gritou Esmé, e correu para o outro lado da sala, para atender. “Residência Squalor”, disse ela ao fone, e então aguardou enquanto a pessoa falava do outro lado. “Sim, é a sra. Squalor. Sim. Sim. Sim? Oh, obrigada, obrigada, obrigada!” Ela desligou e voltou-se para as crianças. “Adivinhem o quê?”, perguntou ela. “Tenho novidades fantásticas sobre o assunto de que estávamos falando!”
“Os Quagmire foram encontrados?”, perguntou Klaus, esperançoso.
“Quem?”, perguntou Esmé. “Ah, eles. Não, eles não foram encontrados. Não sejam tolos. Jerome, crianças, escutem: o escuro está out! A luz normal está in!”
“Bem, não tenho tanta certeza de que posso chamar isso de novidades fantásticas”, disse Jerome, “mas será um alívio ter um pouco de luz por aqui. Vamos, jovens Baudelaire, ajudem-me a abrir as cortinas e vocês poderão dar uma olhada na nossa vista. Dá para avistar um bocado aqui de cima.”
“Vou acender todas as lâmpadas da cobertura”, disse Esmé ofegante de excitação. “Depressa, antes que alguém veja que este apartamento ainda está escuro!”
Enquanto Esmé disparava para fora da sala, Jerome deu uma pequena encolhida de ombros para os três irmãos e atravessou a sala até as janelas. Os Baudelaire os seguiram e ajudaram a abrir as pesadas cortinas que cobriam as janelas. Imediatamente a luz do sol invadiu a sala, fazendo-os apertar os olhos até que se ajustassem à luz natural. Se os Baudelaire tivessem olhado em volta agora que a sala estava apropriadamente iluminada, teriam visto o quanto os móveis todos eram sofisticados. Os divãs tinham almofadas bordadas com prata. As cadeiras eram todas pintadas com tinta dourada. E as mesas eram feitas de madeira extraída de algumas das árvores mais caras do mundo. Mas os órfãos Baudelaire não estavam olhando para a sala, por luxuosa que fosse. Estavam olhando pela janela, para a cidade lá embaixo.
“Uma vista espetacular, vocês não acham?”, perguntou-lhes Jerome, e eles concordaram com a cabeça. Era como se estivessem olhando para uma cidade muito, muito pequenina, com caixas de fósforos em vez de edifícios e marcadores de livros em vez de ruas. Podiam ver minúsculas formas coloridas que pareciam uma porção de insetos, porém, na realidade, eram todos os carros e carruagens da cidade, circulando pelos marcadores de livros até chegar às caixas de fósforos onde moravam e trabalhavam os pontinhos que eram as pessoas. Os Baudelaire podiam ver os arredores onde tinham morado com os pais, e as partes da cidade onde moravam seus amigos; e em uma pálida e muito distante faixa azul, a praia onde tinham recebido a terrível notícia que dera início a todas as suas desventuras.
“Eu sabia que vocês iam gostar”, disse Jerome. “Sai muito caro morar em um apartamento de cobertura, mas acho que vale a pena para ter uma vista como esta. Olhe, aquelas caixinhas minúsculas lá adiante são fábricas de suco de laranja. Aquele prédio meio arroxeado junto ao parque é o meu restaurante favorito. Ah, e olhem direto para baixo – já estão cortando aquelas árvores horrorosas que deixavam a nossa rua tão escura.”
“É claro que estão cortando”, disse Esmé, voltando apressada para a sala e soprando algumas velas que tinham sido postas sobre a lareira. “A luz normal está in, tão in quanto martínis aquosos, risca-de-giz e órfãos.”
Violet, Klaus e Sunny olharam direto para baixo e viram que Jerome tinha razão. Aquelas árvores estranhas que bloqueavam a luz do sol na Avenida Sombria, e que vistas de tamanha altura não pareciam mais altas que clipes de papel, estavam sendo derrubadas por pontinhos-jardineiros. Muito embora as árvores tivessem feito a rua parecer tão escura, era uma pena derrubá-las todas, deixando apenas os tocos expostos que, da janela da cobertura, pareciam percevejos cravados no chão. Os três irmãos se entreolharam, depois olharam de novo para a Avenida Sombria. Aquelas árvores não eram mais in, então os jardineiros estavam se livrando delas. Os Baudelaire não queriam nem pensar no que aconteceria quando os órfãos também não estivessem mais in.

Um comentário:

  1. Tambem pensei nisso o q vai acontecer quando os orfaos deixarem de ser in.

    Mulher idiota

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!