4 de agosto de 2016

Capítulo dez


As boas pessoas que editam este livro estão preocupadas, e me disseram por quê. Estão preocupadas com a possibilidade de que leitores como vocês leiam a minha história dos órfãos Baudelaire e tentem imitar algumas das coisas que eles fazem. Assim, tendo chegado a esta altura da história, e a fim de tranquilizar os editores – isto é, de fazer com que parem de arrancar os cabelos de preocupação –, permitam-me, por favor, dar-lhes um conselho, mesmo sem saber nada sobre vocês. O conselho é o seguinte: se alguma vez vocês precisarem chegar com urgência à Gruta do “P”, não devem em nenhuma circunstância roubar um barco e tentar atravessar o Lago Lacrimoso durante um furacão, porque é muito perigoso e as chances de vocês sobreviverem são praticamente nulas. Não façam isso, sobretudo se vocês, como os órfãos Baudelaire, tiverem apenas uma vaga ideia de como funciona um barco a vela.
O (A) amigo(a) do conde Olaf, de pé no cais e brandindo um dos punhos cerrado no ar, foi diminuindo, diminuindo mais e mais, à medida que o vento empurrava o barco a vela para longe do Cais de Dâmocles. Com o Furacão Hermano se abatendo sobre eles, Violet, Klaus e Sunny procederam a um exame do barco a vela que tinham acabado de roubar. Era bem pequeno, com bancos de madeira e coletes salva-vidas laranja fosforescente para cinco pessoas. No topo do mastro, que é o nome dado ao “alto poste de madeira erguido no meio dos barcos”, havia uma vela branca muito encardida que era controlada por uma série de cordas, e no chão ficava um par de remos de madeira para o caso de não haver vento. Na parte de trás, havia uma espécie de alavanca de madeira que servia para realizar manobras, e debaixo de um dos bancos ficava um balde de alumínio para tirar água se houvesse vazamento. Havia também uma vara comprida com uma rede de pesca na ponta, uma vara curta terminada por um anzol afiado, e uma enferrujada luneta, que é usada como uma espécie de telescópio por quem navega. Os três irmãos fizeram força para vestir os coletes salva-vidas, enquanto as ondas tormentosas do Lago Lacrimoso os afastavam cada vez mais do cais.
“Li uma vez um livro sobre como manejar um barco a vela”, disse Klaus aos berros, para se sobrepor à barulheira do furacão. “Temos que usar a vela para pegar o vento. Então ele nos empurrará para onde quisermos ir.”
“E a alavanca se chama cana do leme”, berrou Violet. “Lembro disso porque estudei algumas plantas de engenharia naval. É essa alavanca que comanda o leme, que fica embaixo da água governando a embarcação. Sunny, sente-se aí atrás e fique manobrando a cana do leme. Klaus, pegue o atlas para podermos saber a direção em que estamos indo. Eu vou tentar manejar a vela. Acho que se puxar por esta corda, o controle da vela está garantido.”
Klaus virou as folhas do atlas até a página 104. “Temos que ir nesta direção”, disse, apontando para a direita. “O sol está se pondo lá, logo deve ser o oeste.”
Sunny correu para a parte de trás do barco e pôs suas mãozinhas na cana do leme bem no momento em que uma onda bateu no casco e jogou espuma sobre ela. “Cargu teim”, avisou, querendo dizer: “Vou mover a cana do leme nesta direção, para governar o barco de acordo com a recomendação de Klaus”, ou algo do gênero.
Chovia forte, o vento uivava, e uma pequena onda se esparramou sobre um dos flancos, mas, para surpresa dos órfãos, o barco seguia na direção exata em que eles queriam ir. Se vocês topassem com os três Baudelaire nesse instante, pensariam que a vida deles era pura alegria e felicidade, porque, mesmo estando exaustos e encharcados, e correndo um perigo muito grande, começaram a rir por estar tudo dando certo. Era um tal alívio constatar que finalmente alguma coisa tinha dado certo, que eles riram como se estivessem no circo, e não no meio de um lago, no meio de um furacão, no meio da maior encrenca.
Com a tempestade esgotando sua força à custa de jogar ondas sobre o barco e riscar raios no céu sobre a cabeça deles, os Baudelaire fizeram a travessia do vasto e escuro lago em seu pequeno barco a vela. Violet puxava as cordas ora para cá ora para lá a fim de pegar o vento, que mudava incessantemente de direção, o que é normal os ventos fazerem. Klaus ficou de olho no atlas o tempo todo, atento para que não se desviassem do rumo e fossem dar na Correnteza Cruel ou nas Rochas Rancorosas. E Sunny manteve o barco em equilíbrio manobrando a cana do leme sempre que recebia um sinal de Violet. E justo quando o entardecer virou noite, e ficou escuro demais para ler o atlas, os Baudelaire viram um pisca-pisca cuja luz era de um tom claro de púrpura. Os órfãos sempre haviam considerado a chamada cor de lavanda uma cor doentia, e pela primeira vez na vida se sentiram contentes por vê-la. Era um indício de que o barco se aproximava do Farol Lavanda, e dali a pouco chegariam à Gruta do “P”. A tempestade finalmente cedeu – palavra que aqui quer dizer “se tornou branda” –, e as nuvens se separaram, revelando uma lua quase cheia. As crianças, sentindo calafrios sob as roupas encharcadas, contemplavam as ondas do lago em calmaria e acompanhavam os redemoinhos que se desenhavam na camada mais profunda de suas águas.
“O Lago Lacrimoso é na verdade muito lindo”, disse Klaus, pensativo. “Nunca tinha reparado.”
“Cind”, concordou Sunny, ajustando de leve a cana do leme.
“Imagino que nunca reparamos nisso por causa de tia Josephine”, disse Violet. “Nós nos acostumamos a ver o lago pelos olhos dela.” Pegou a luneta e encaixou nela o seu olho: foi o bastante para que enxergasse terra firme. “Acho que estou conseguindo ver o farol lá adiante. Há um buraco negro no rochedo que fica logo à sua direita. Deve ser a entrada da Gruta do ‘P’.”
De fato, à medida que o barco foi chegando cada vez mais perto, as crianças puderam distinguir o Farol Lavanda e a entrada da gruta vizinha, mas quando tentaram olhar para as profundezas da gruta, não perceberam sinal algum da presença de tia Josephine, nem de qualquer outra coisa, diga-se de passagem. Pedras começaram a arranhar o fundo do barco, o que significava que eles estavam em águas muito rasas; Violet, então, pulou do barco para empurrá-lo até a beira escarpada do rochedo. Klaus e Sunny também saltaram, e retiraram seus coletes salva-vidas. E os três se postaram na entrada da Gruta do “P”, imóveis e ansiosos.
Diante da gruta havia uma placa que dizia que ela estava à venda, e os órfãos não foram capazes de imaginar quem quereria comprar um lugar tão fantasmagórico – e a palavra fantasmagórico está valendo aqui por todas as palavras com o sentido de “assustador” e “horripilante” que vocês possam juntar. A entrada da gruta tinha em sua orla como que uma coroa de pedras pontudas e recortadas tal qual os dentes na boca de um tubarão. Transposta a entrada, os garotos deram com estranhas formações de rocha branca, configuradas de um jeito que lembrava leite talhado. O chão da gruta era esbranquiçado e soltava pó como se fosse de giz. Mas não foram essas coisas que imobilizaram as crianças. Foi o som que vinha lá de dentro. Era um lamento agudo, trêmulo, um som que expressava desterro e desesperança, tão estranho e lúgubre como a própria Gruta do “P”.


“Que barulho é esse?”, perguntou Violet nervosamente.
“Deve ser só o vento”, respondeu Klaus. “Li em algum lugar que quando o vento penetra em espaços pequenos, como grutas, pode produzir sons misteriosos. Não é caso para ter medo.”
Os órfãos não se mexeram. O som não cessou.
“De qualquer maneira, isso me dá medo”, disse Violet.
“A mim também”, disse Klaus.
“Geni”, disse Sunny, e começou a engatinhar para dentro da gruta. Provavelmente o que quis dizer foi: “Não atravessamos o Lago Lacrimoso num barco a vela roubado, em pleno Furacão Hermano, para ficarmos parados, nervosos, na entrada de uma gruta”, ou algo do gênero, e seus irmãos tiveram que concordar com ela e segui-la até lá dentro. O lamento estava mais alto, ecoando pelas paredes e formações rochosas, e deu para os Baudelaire perceberem que não era o vento. Era tia Josephine, sentada num canto da gruta e soluçando com a cabeça entre as mãos. Chorava tão desesperadamente que nem sequer havia notado a chegada dos Baudelaire.
“Tia Josephine”, disse Klaus, hesitante, “aqui estamos.”
Tia Josephine ergueu os olhos, e as crianças viram que seu rosto estava molhado de lágrimas e coberto da poeira de giz da gruta.
“Vocês descobriram”, disse ela, enxugando as lágrimas e se levantando. “Eu sabia que vocês iriam descobrir”, disse, e abraçou os Baudelaire um por um. Olhou para Violet, depois para Klaus e depois para Sunny, e os órfãos olharam para ela com lágrimas nos olhos, lágrimas de alegria por reencontrar sua tutora. Era como se eles não tivessem acreditado inteiramente que a morte de tia Josephine havia sido forjada até que viram com seus próprios olhos que ela estava viva. “Eu sabia que vocês eram crianças inteligentes”, disse tia Josephine. “Eu sabia que iriam decifrar minha mensagem.”
“Na verdade, foi Klaus que conseguiu decifrá-la”, disse Violet.
“Mas Violet conseguiu manejar o barco a vela”, disse Klaus. “Sem Violet nunca teríamos chegado aqui.”
“E foi Sunny que roubou as chaves”, disse Violet, “e controlou a cana do leme.”
“Bem, estou feliz por vocês todos terem conseguido chegar até aqui”, disse tia Josephine. “Deixem-me só retomar o fôlego, e vou ajudá-los a trazer suas coisas aqui para dentro.”
As crianças se entreolharam. “Que coisas?”, perguntou Violet.
“Ué, sua bagagem, é claro”, respondeu tia Josephine. “E espero que tenham trazido alguma comida, porque os mantimentos que eu trouxe estão quase terminando.”
“Não trouxemos comida”, disse Klaus.
Não trouxeram comida?”, disse tia Josephine. “Mas como, Deus do céu, vocês vão morar comigo nesta gruta se não trouxeram comida?”
“Nós não viemos aqui para morar com você”, disse Violet.
As mãos de tia Josephine voaram para o alto da cabeça, e ela nervosamente ajeitou seu coque. “Então, por que estão aqui?”, perguntou.
“Stim!”, gritou Sunny, querendo dizer: “Porque estávamos preocupados com você!”.
“‘Stim’ não é uma frase, Sunny”, disse tia Josephine, implacável. “Talvez um de seus irmãos mais velhos possa me explicar em linguagem correta por que vocês estão aqui.”
“Porque por um triz não caímos nas garras do capitão Sham!”, gritou Violet. “Todos pensaram que você tivesse morrido, e você escreveu no seu bilhete-testamento que nós deveríamos ficar sob a guarda do capitão Sham.”
“Mas ele me forçou a fazer isso”, disse tia Josephine, choramingando. “Naquela noite, quando ligou para mim, ele disse que era mesmo o conde Olaf. Disse que eu devia escrever um testamento declarando que vocês ficariam sob sua guarda. Disse que se eu não escrevesse o que estava mandando, ele iria me afogar no lago. Tive tanto medo, que concordei imediatamente.”
“Por que não chamou a polícia?”, perguntou Violet. “Por que não ligou para o sr. Poe? Por que não chamou alguém que pudesse ajudar?”
“Vocês sabem por quê”, disse tia Josephine, aborrecida. “Tenho medo de usar o telefone. Estava apenas começando a me acostumar a atender o aparelho, mas ainda não sabia mexer nas teclas numeradas. De qualquer maneira, não precisei chamar ninguém. Atirei um pufe pela janela e saí sorrateiramente de casa. Deixei o bilhete para que vocês descobrissem que na verdade eu não tinha morrido, mas encobri seu conteúdo secreto para que o capitão Sham não ficasse sabendo que eu havia escapado dele.”
“Por que não nos trouxe com você? Por que nos deixou sozinhos à nossa própria sorte? Por que não nos protegeu do capitão Sham?”, perguntou Klaus.
“Não é gramaticalmente correto”, disse tia Josephine, “dizer ‘nos deixou sozinhos à nossa própria sorte’. Deve-se dizer ‘nos deixou sozinhos entregues à nossa própria sorte’. Entendeu?”
Os Baudelaire se entreolharam num misto de raiva e tristeza. Eles tinham entendido. Tinham entendido que tia Josephine estava mais interessada em erros gramaticais do que em salvar a vida das três crianças. Tinham entendido que ela estava tão envolvida nos seus próprios medos que nem sequer pensara no que poderia ter acontecido a eles. Tinham entendido que tia Josephine havia falhado completamente como tutora ao deixar as crianças sozinhas numa situação de tamanho perigo. Tinham entendido, e desejaram mais do que nunca que seus pais – que jamais teriam fugido e jamais os teriam deixado sozinhos – não houvessem morrido naquele incêndio terrível que foi o ponto de partida de todas as desventuras na vida dos Baudelaire.
“Bem, por hoje basta de aulas de gramática”, disse tia Josephine. “Fico feliz em vê-los, e só quero que se sintam bem dividindo esta gruta comigo. Creio que o capitão Sham jamais nos descobrirá aqui.”
“Nós não vamos ficar morando aqui”, disse Violet, impaciente. “Vamos voltar para a cidade, e você vem conosco.”
“No dia de são Nunca!”, disse tia Josephine, usando uma expressão que significa “de jeito nenhum”. “Morro de medo do capitão Sham para encará-lo. Depois de tudo o que ele fez com vocês, imagino que também morram de medo dele.”
“Nós morremos de medo dele, sim”, disse Klaus, “mas se provarmos que ele é na verdade o conde Olaf, irá para a cadeia. Você é a prova. Se contar ao sr. Poe o que aconteceu, o conde Olaf será trancafiado e nós estaremos salvos.”
“Contem vocês, se quiserem”, disse tia Josephine. “Daqui eu não saio.”
“Ele não vai acreditar em nós, a menos que você venha conosco e prove que está viva”, disse Violet.
“Não, não e não”, disse tia Josephine. “Tenho medo demais.”
Violet respirou fundo e encarou sua amedrontada tutora. “Todos nós temos medo”, disse com firmeza. “Tivemos medo quando encontramos o capitão Sham na mercearia. Tivemos medo quando achamos que você tinha pulado da janela. Tivemos medo de provocar reações alérgicas em nós mesmos, tivemos medo de roubar um barco e tivemos medo de atravessar esse lago no meio de um furacão. Mas nem por isso desistimos.”
Os olhos de tia Josephine se encheram de lágrimas. “Não tenho culpa se vocês são mais corajosos do que eu”, disse. “Não vou atravessar esse lago num barco a vela. Não vou fazer ligações telefônicas. Vou ficar aqui o resto da vida, e nada do que vocês disserem me fará mudar de ideia.”
Klaus deu um passo para a frente e jogou a última cartada – expressão que aqui significa “lançou mão do último recurso, que considerava extremamente convincente”. “A Gruta do ‘P’ está à venda”, disse.
“E daí?”, perguntou tia Josephine.
“Daí que muito em breve”, disse Klaus, “certas pessoas virão visitar a gruta. E entre essas pessoas”, aqui ele fez uma pausa dramática, “estarão corretores.”
Tia Josephine ficou boquiaberta, e os órfãos viram a pálida criatura engolir em seco de medo. “Tudo bem”, disse finalmente, olhando ansiosa para os quatro cantos da gruta, como se algum corretor já estivesse escondido nas sombras. “Eu vou.”

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