30 de agosto de 2016

Capítulo cinco


Quando você tem muitas perguntas na cabeça e, de repente, surge uma oportunidade de fazê-las, as perguntas tendem a se amontoar e tropeçar umas nas outras, mais ou menos como os passageiros de um trem lotado que chega a uma estação movimentada. Com Bruce e os Escoteiros da Neve adormecidos, os dois Baudelaire finalmente tiveram oportunidade de conversar com o escoteiro de suéter, mas não achavam jeito de fazer as perguntas com clareza.
“Como...”, começou Violet, mas a pergunta Como você sabia que éramos os Baudelaire?, tropeçou na pergunta Quem é você?, e foi de encontro a Você faz parte de C.S.C.? e Afinal, o que quer dizer C.S.C.?
“Você...”, disse Klaus, mas a pergunta Você sabe onde está a nossa irmã? tropicou na pergunta Você sabe se um dos nossos pais está vivo?, que já estava brigando com Como fazemos para chegar à base de operações? e Será que um dia minhas irmãs e eu vamos encontrar um lugar seguro para viver sem que o conde Olaf e sua trupe fiquem engendrando planos e mais planos para roubar nossa fortuna?, muito embora o Baudelaire do meio soubesse que era muito improvável que essa pergunta fosse respondida.
“Estou certo de que vocês têm uma série de dúvidas”, sussurrou o garoto misterioso, “mas não podemos conversar aqui. Bruce tem sono leve, e já causou problemas suficientes para C.S.C., mesmo sem conhecer nossos segredos. Prometo que responderei a todas as perguntas, mas primeiro temos de chegar à base de operações. Venham!”
Sem mais palavra, o escoteiro de suéter se virou e os Baudelaire viram que em sua mochila estava inscrita a mesma insígnia que tinham visto no Parque Caligari. À primeira vista parecia ser apenas um olho, mas as crianças tinham descoberto que sob o desenho se escondiam as iniciais C.S.C. Assim que o escoteiro começou a andar, os dois irmãos descartaram seus cobertores e se puseram a segui-lo. Mas ele não os conduziu na direção da entrada, e sim para o fundo da caverna, onde estivera a fogueira dos Escoteiros da Neve. Agora ela não passava de uma pilha de cinzas escuras, cujo cheiro de fumaça ainda pairava quente no ar. O escoteiro enfiou a mão no bolso e sacou uma lanterna.
“Eu esperei o fogo se apagar antes de mostrar isso aqui a vocês”, disse ele, e, com uma rápida olhadela para os escoteiros adormecidos, dirigiu o facho de luz para o alto da caverna. “Olhem.”
Violet e Klaus olharam e viram que havia um buraco no teto, suficiente para uma pessoa passar apertado. As últimas volutas de fumaça da fogueira subiam para o buraco. “Uma chaminé”, murmurou Klaus. “É por isso que a fumaça da fogueira não tomou a caverna.”
“O nome oficial é Caminho Secundário das Chamas”, sussurrou o escoteiro. “Serve de chaminé e de passagem secreta. Vai dessa caverna até o Vale das Correntezas que Sopram Constantes. Se formos pela passagem, chegaremos à base de operações muito antes do que se escalássemos a montanha por fora. Anos atrás havia um mastro de metal que descia pelo centro do buraco para que as pessoas pudessem escorregar por ele e se esconder aqui em caso de emergência. O mastro já não existe, mas quem sabe os apoios para os pés ainda estejam nas laterais de pedra.” Ele dirigiu o facho de luz para a parede da caverna e os Baudelaire puderam ver duas fileiras de buracos entalhados nas paredes, perfeitos para firmar os pés e as mãos.
“Como você sabia disso?”, perguntou Violet.
O escoteiro olhou para ela e pareceu dar um sorriso por trás da máscara. “Eu li em um livro chamado Fenômenos notáveis das Montanhas de Mão-Morta’, disse ele.
“Esse título me soa familiar”, disse Klaus.
“É bem possível que você o conheça”, retrucou o escoteiro. “Peguei emprestado da biblioteca do dr. Montgomery.”
O dr. Montgomery fora um dos primeiros tutores dos Baudelaire, e, ao ouvir seu nome, Violet e Klaus se deram conta de que tinham outra remessa de perguntas que gostariam de fazer.
“Quando...”, começou Violet.
“Por quê...”, começou Klaus.
“Carme...” Uma voz surpreendeu os Baudelaire e o escoteiro, a voz de Bruce, que tinha acordado com o som da conversa. As três crianças ficaram paralisadas por um momento, enquanto o líder dos escoteiros se virava embaixo do cobertor e com um longo suspiro adormecia de novo.
“Conversaremos quando chegarmos à base de operações”, sussurrou o escoteiro. “No Caminho Secundário das Chamas qualquer som ecoa, portanto teremos de ficar em silêncio absoluto enquanto subimos. Se os ruídos chegarem aos ouvidos de Bruce e dos escoteiros, eles vão acordar. Como é muito escuro lá dentro, vocês vão ter de tatear a parede para encontrar os apoios para os pés. E a atmosfera vai estar muito enfumaçada, por isso é preciso que vocês continuem com as máscaras que filtram o ar. Eu vou na frente para mostrar o caminho. Estão prontos?”
Violet e Klaus se entreolharam. Muito embora não pudessem ver seus rostos por trás das máscaras, os irmãos sabiam que não estavam nem um pouco prontos. Seguir uma pessoa estranha por uma passagem secreta rumo a uma base de operações que eles nem sabiam se existia não parecia uma coisa muito segura para fazer. Da última vez em que concordaram em partir em condições semelhantes, sua irmãzinha fora raptada. O que aconteceria dessa vez, quando estavam com uma misteriosa figura mascarada em um buraco escuro e enfumaçado?
“Sei que deve ser difícil confiar em mim depois que tantas pessoas lhes fizeram mal”, disse o escoteiro de suéter.
“Você pode nos dar uma razão para confiar em você?”, disse Violet.
O escoteiro olhou para baixo um instante e depois se virou para os dois Baudelaire. “Um de vocês mencionou a palavra ‘xenófilo’ quando estava conversando com Bruce sobre aquele juramento bobo”, disse ele. “‘Xenófilo’ significa alguém que gosta de estrangeiros.”
“Ele está certo”, murmurou Klaus para a irmã.
“Sei que o fato de ter um bom vocabulário não garante que eu seja uma boa pessoa”, disse o menino. “Mas significa que já li muita coisa. E, segundo a minha experiência, a probabilidade de uma pessoa lida ser má é pequena.”
Violet e Klaus se entreolharam. Nenhum deles estava inteiramente convencido do que o escoteiro mascarado tinha dito. Existem, é claro, inúmeras pessoas más que leram muitos livros, assim como há inúmeras pessoas bondosas que gastaram o seu tempo de outra forma. Mas havia alguma verdade no que o menino dissera, e eles tinham de admitir que seria melhor se arriscar com um estranho que sabia o significado da palavra “xenófilo” do que sair da caverna e tentar encontrar a base de operações sem a ajuda de ninguém. Assim, os Baudelaire se voltaram para o escoteiro, sinalizaram que podiam continuar e o seguiram na procura dos apoios para os pés, não sem antes se certificar de que ainda traziam consigo as peças de roupa que pegaram no trailer. Os apoios eram muito práticos e fáceis de usar, e em pouco tempo os Baudelaire estavam adentrando a escura e enfumaçada passagem.
O Caminho Secundário das Chamas, que conectava a base de operações àquela antiga caverna dos Caçadores de Segredos Criminais, já tinha sido um dos maiores segredos do mundo. Qualquer pessoa que quisesse passar por ele tinha de responder corretamente a uma série de perguntas sobre a força da gravidade, os hábitos das bestas carnívoras e os temas centrais dos romances russos, portanto muito pouca gente sabia a localização exata do desfiladeiro. Desde que um camarada meu retirou o mastro da passagem para usá-lo na construção de um submarino, ninguém mais tinha passado por ali. Até que os Baudelaire começaram a subir atrás do escoteiro de suéter.
Portanto, seria correto afirmar que Caminho Secundário das Chamas era o caminho menos percorrido, menos ainda que o caminho por entre as Montanhas de Mão-Morta, onde este livro começou.
Embora os Baudelaire tivessem uma boa razão para estar no caminho menos percorrido, porque afinal precisavam chegar à base de operações e salvar a irmã das garras do conde Olaf, não existe nenhuma razão para você estar no caminho menos percorrido junto com eles e prosseguir na leitura deste lamentável capítulo. O ar saturado de fumaça que subia da fogueira dos Escoteiros da Neve era difícil de respirar, mesmo com máscara, e Violet e Klaus tiveram de lutar contra a tosse, pois sabiam que dentro daquela passagem qualquer som ecoaria, e não queriam acordar Bruce. E embora eles tenham lutado contra a coceira na garganta, você não precisa lutar contra a desolação e continuar lendo a triste descrição desse problema. Diversas aranhas tinham percebido que os apoios não vinham sendo usados nos últimos tempos, e resolveram convertê-los em condomínios aracnídeos, mas você não tem obrigação de ler o que acontece quando aranhas são subitamente despertadas pela aparição de um pé em sua residência. E quanto mais os Baudelaire seguiam o escoteiro, mais sentiam os fortes ventos congelantes do topo da montanha soprarem furiosos desfiladeiro afora, e os três jovens se agarraram nos apoios como quem se agarra à vida, na esperança de que o vento não os soprasse de volta à caverna. Mas embora os Baudelaire achassem necessário continuar a escalar até quando fosse necessário para chegar o mais depressa possível à base de operações, e embora eu ache necessário descrever essa escalada até o fim para que o meu relato seja o mais fiel e completo possível, não é necessário que você acabe de ler o resto deste capítulo para se sentir o mais miserável possível. Minha descrição da jornada dos Baudelaire pelo caminho menos percorrido começa na próxima página, mas imploro a você que não o percorra com eles. Em vez disso, pegue emprestada uma página do livro de Bruce, pule para o capítulo seis e leia o relato das venturas de Sunny – palavra que aqui significa “oportunidades de bisbilhotar a trupe de Olaf enquanto cozinha para eles” – ou então pule direto para o capítulo sete, em que os Baudelaire mais velhos chegam à base de operações de C.S.C, e desmascaram o estranho que os levou até lá. Ou então você pode trilhar o caminho menos percorrido e largar este livro de uma vez, gastando o seu tempo em algo melhor do que terminar de ler uma infeliz narrativa e se transformar em uma pessoa cansada, melancólica e lida.
A escalada dos Baudelaire pelo Caminho Secundário das Chamas foi tão sombria e traiçoeira que não basta escrever:

Minha querida irmã, corro grave risco ao esconder uma carta para você dentro de um livro, mas tenho certeza de que até mesmo as pessoas mais melancólicas e lidas do mundo acharam o relato das vidas dos Baudelaire ainda mais miserável do que eu prometera, portanto esse livro irá ficar nas prateleiras das livrarias, totalmente ignorado, aguardando que você o abra e encontre esta mensagem. Como precaução, acrescentei ao livro um aviso de que o resto do capítulo contém uma descrição da miserável escalada dos Baudelaire pelo Caminho Secundário das Chamas, assim qualquer um que tenha coragem de ler essa descrição deverá também ser valente o bastante para ler esta minha carta para você.
Descobri o paradeiro da prova que irá limpar a minha barra, uma frase que aqui significa “provar às autoridades que foi o conde Olaf, e não eu, quem provocou os incêndios”. Muitos anos atrás, naquele piquenique, você sugeriu que um aparelho de chá seria um excelente lugar para esconder coisas importantes e pequenas, caso algum dia eu viesse a precisar, e você estava correta. (Por sorte, a outra sugestão que você me deu, no mesmo piquenique, de que manga fatiada, feijão-preto e aipo picadinho, com um toque de pimenta-do-reino, suco de limão-galego e azeite de oliva resulta em uma deliciosa salada, também revelou estar correta.)
Estou agora a caminho do Vale das Correntezas que Sopram Constantes, a fim de continuar a minha pesquisa sobre o caso Baudelaire. Tenho esperanças de recuperar a supracitada prova. E evidente que já não posso recuperar minha felicidade, mas ao menos poderei limpar o meu nome. Da base de operações de C.S.C., rumarei para o Hotel Desenlace. Pretendo chegar lá por volta de... Bem, não seria sensato imprimir a data, mas você há de se lembrar do aniversário de Beatrice. Encontre-me no hotel. Tente conseguir para nós um quarto sem cortinas feias”.

Respeitosamente,
Lemony Snicket

P.S. Substituir o aipo por palmito picadinho também dá certo.

3 comentários:

  1. Como assim o autor quer provar q n foi ele e sim o cond Olaf q colocou fogo ????
    Fiquei confusa tem uma parte q a esme menciona a Beatrice q autor menciona sempre no comeco do livro e agora isso
    Acho q as coisas vao fazer mais sentido em algun momento

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    Respostas
    1. Ingrid, eu creio que Lemony Snicket seja um personagem envolvido com CSC, Jacques Snicket deve ser irmão dele e acho que Beatrice deve ter se envolvido com o conde Olaf e não teve um bom final(suposições minhas é claro, afinal não terminei de ler ainda rs) e por isso a Esme Squalor mencionou ela no outro livro....

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    2. Com certeza deve ser parente se Jacques, afinal, os dois têm o mesmo sobrenome. E Beatrice... Esse não era o nome da mãe dos Baudelaire?

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