27 de agosto de 2016

Capitulo cinco


Se você já vivenciou alguma experiência que parecesse estranhamente familiar, como se aquela mesma coisa já tivesse acontecido antes, então você teve aquilo que os franceses chamam de “déjà-vu”. Como a maioria das expressões francesas – “ennui”, por exemplo, que é um termo elegante para designar tédio profundo, ou “la petite mort”, expressão que descreve a sensação de que uma parte sua morreu –, “déjà-vu” se refere a algo que normalmente não é muito agradável, porque é estranho ver ou ouvir alguma coisa com a sensação de já ter visto ou ouvido aquilo antes. E para os Baudelaire não foi nada agradável vivenciar a sensação de déjà-vu do lado de fora do trailer das aberrações enquanto ouviam o que o conde Olaf estava dizendo.
“Estes leões serão a coisa mais emocionante do Parque Caligari!”, anunciou Olaf, em meio às pessoas que se aproximavam para entender a razão de tanto alarde. “Como todos sabem, a não ser que sejam estúpidos, uma mula teimosa caminha na direção desejada quando se coloca uma cenoura diante dela e uma vara atrás. Ela anda porque quer a recompensa da comida e distância da vara. É precisamente isso o que estes leões vão fazer.”
“O que está acontecendo?”, perguntou Hugo às crianças, acompanhado de Colette e Kevin.
Déjà-vu”, disse Sunny, amarga. Até a mais jovem dos Baudelaire reconheceu o discurso do conde Olaf sobre a mula teimosa. Na época em que Sunny e seus irmãos moraram na casa do conde Olaf, ele usara essa história para tentar forçar Violet a se casar com ele, o que nunca se realizou; e agora, novamente usava a história para arquitetar algum outro esquema.
“Estes leões”, disse Olaf, “farão exatamente o que eu mandar, pois querem evitar o chicote!” Com um floreio, ele estalou novamente o chicote para assustar os leões, que se encolheram atrás das grades sob o aplauso de alguns visitantes.
“Mas se o chicote representa a vara”, perguntou o careca, “onde está a cenoura?”
“A cenoura?”, repetiu Olaf, com um riso asqueroso. “A recompensa para os leões que me obedecerem será uma deliciosa refeição. Eles são carnívoros, o que quer dizer que comem carne, e aqui no Parque Caligari eles terão a melhor carne que podemos oferecer.” Então Olaf apontou com o chicote a entrada do trailer das aberrações, onde os Baudelaire e seus colegas de trabalho aguardavam de pé. “As aberrações que vocês veem não são pessoas normais, e por isso levam vidas deprimentes”, anunciou ele. “Ficarão felizes em se apresentar em nome do entretenimento.”
“É claro”, disse Colette. “Fazemos isso todos os dias.”
“Então vocês não vão se importar em ser a parte mais importante da nova atração”, retrucou Olaf. “Nós não vamos servir refeições regulares aos leões, portanto vão estar muito, muito famintos quando chegar a hora do espetáculo. A cada dia, em vez da atração da Casa dos Monstros, vamos escolher aleatoriamente uma aberração e assistir ao espetáculo de os leões a devorarem.”
Todos aplaudiram, exceto Hugo, Colette, Kevin e os três irmãos, que permaneceram horrorizados e em silêncio.
“Vai ser muito emocionante!”, disse o homem das espinhas. “Imaginem só, violência e comilança porca num único espetáculo!”
“Eu não poderia estar mais de acordo!”, disse uma mulher que estava por perto. “Foi hilário ver aquela aberração de duas cabeças comer, mas vai ser ainda mais hilário ver a aberração de duas cabeças ser comida!”
“Eu prefiro que seja o corcunda”, disse outra pessoa. “Ele é tão engraçado! Nem costas normais ele tem!”
“O espetáculo começa amanha à tarde!”, gritou o conde Olaf. “Até lá!”
“Mal posso esperar. Vou avisar para todos os meus amigos”, disse uma mulher, enquanto a multidão se dispersava, uma palavra que aqui significa “ia andando para comprar presentes ou sair do parque”.
“Vou ligar para a repórter de O Pundonor Diário’, disse o homem das espinhas a caminho da cabine telefônica. “Esse parque está prestes a ficar muito popular, e talvez eles escrevam uma matéria a respeito.”
“Você estava certo, chefe”, disse o homem de mãos de gancho. “As coisas estão prestes a melhorar por aqui.”
“Claro que ele tem razón, faz favor”, disse madame Lulu. “Ele é homem brilhante, e homem corajosa, e homem generosa. Ele é homem brilhante porque teve ideia de atraçón de leóns, faz favor. É homem corajosa porque bate nas leóns com chicota, faz favor. E homem generosa porque dá leóns para Lulu.”
“Ele deu os leões para você?”, perguntou uma voz sinistra. “De presente?” Agora que a maior parte dos visitantes tinha ido embora, os Baudelaire puderam ver Esmé Squalor saindo pela porta de um trailer e caminhando na direção de Olaf e madame Lulu. Ao passar pela jaula dos leões, Esmé correu suas unhas enormes pelas barras de ferro e os animais choramingaram de medo. “Então você deu leões para madame Lulu”, disse. “E para mim, o que você deu?”
O conde Olaf coçou a cabeça e pareceu ligeiramente embaraçado. “Nada”, admitiu. “Mas você pode usar o meu chicote, se quiser.”
Madame Lulu se inclinou e beijou a bochecha de Olaf. “Olaf deu para Lulu leóns, porque eu fez tón marravilhóso leitura de sorte, faz favor.”
“Você devia ter visto, Esmé”, disse ele. “Lulu e eu entramos na Barraca do Destino e apagamos todas as luzes, então a bola de cristal começou a fazer um zumbido mágico e relâmpagos trovejaram logo acima de nossas cabeças. Então madame Lulu pediu que eu fechasse os olhos e me concentrasse ao máximo; nesse instante ela consultou a bola de cristal e revelou que um dos pais dos Baudelaire está vivo e se esconde nas Montanhas de Mão-Morta. Como recompensa pelas informações, dei a ela esses leões.”
“Então madame Lulu também precisa de uma cenoura?”, disse o homem de mãos de gancho com uma risada.
“Amanhã de manhã”, continuou Olaf, “madame Lulu vai consultar de novo a bola de cristal e me contar onde estão os Baudelaire.”
Esmé lançou um olhar feroz para Lulu. “E que presente você vai dar a ela por essa outra informação?”
“Seja razoável, querida”, disse o conde Olaf. “Os leões tornarão o Parque Caligari muito popular, e madame Lulu poderá dedicar mais tempo a nos fornecer todas as informações que precisamos para roubar a fortuna Baudelaire.”
“Detesto me meter”, disse Hugo, titubeante. “Mas será que existe algum meio de tornar o parque mais popular sem nos oferecer como comida aos leões? Devo confessar que fico um pouco apreensivo com a ideia.”
“Você ouviu a multidão quando contei sobre o novo espetáculo”, disse Olaf. “Ficaram ansiosos para ver os leões devorarem vocês. E agora chega de conversa, nós temos que começar a cavar o fosso.”
“Fosso?”, perguntou uma das mulheres de cara branca. “Para quê?”
“Para pôr os leões”, respondeu Olaf, “assim eles só comem quem cair lá dentro. Vamos cavar perto da montanha-russa.”
“Boa ideia, chefe”, disse o careca.
“Tem pás na trailer de ferramentas”, disse Lulu. “Eu vai mostrar, faz favor.”
“Eu não vou cavar”, anunciou Esmé, enquanto os outros se afastavam. “Posso quebrar uma unha. Além do mais, preciso conversar com Olaf, a sós.”
“Ora, está bem”, disse ele. “Vamos para o trailer de hóspedes, onde não seremos perturbados.”
Olaf e Esmé foram numa direção, e madame Lulu e os capangas foram em outra, deixando as três crianças sozinhas com seus colegas de trabalho.
“Bem, é melhor entrarmos”, disse Colette. “Talvez possamos pensar num jeito de não ser comidos.”
“Não vamos pensar naquelas criaturas famintas”, disse Hugo com um pouco de medo. “Vamos jogar mais uma partida de dominó.”
“Nós e Chabo vamos num instante”, disse Violet. “Queremos terminar o nosso chocolate quente.”
“Aproveitem para saboreá-lo”, disse Kevin, taciturno, voltando com Hugo e Colette para o trailer. “Talvez seja o último chocolate quente de suas vidas.”
Kevin fechou a porta com as duas mãos e os Baudelaire se afastaram um pouco mais para conversar em segurança.
“Acrescentar canela ao chocolate quente foi uma ideia sensacional, Sunny”, disse Violet, “mas não consigo saboreá-lo.”
“Ificat”, disse Sunny, o que queria dizer: “Nem eu”.
“Esse último plano do conde Olaf me deixou com um gosto ruim na boca”, disse Klaus, “e não creio que a canela possa ajudar.”
“Temos de entrar na Barraca do Destino”, disse Violet, “essa pode ser a nossa única oportunidade.”
“Você acha mesmo que é verdade?”, perguntou Klaus. “Você acha que madame Lulu viu mesmo alguma coisa na bola de cristal?”
“Não sei”, disse Violet, “mas graças aos meus conhecimentos de eletricidade, sei que relâmpagos não aparecem dentro de uma barraca. Algo misterioso está acontecendo e precisamos descobrir o que é.”
“Rango!”, disse Sunny, o que queria dizer: “Antes que nos atirem aos leões!”.
“Mas você acha que ela está certa?”, perguntou Klaus.
“Não sei”, disse Violet, exasperada, uma palavra que aqui significa “com sua voz normal, esquecendo de disfarçá-la porque estava muito frustrada e irritada”. “Não sei se madame Lulu é mesmo capaz de ler a sorte. Não sei como o conde Olaf sempre descobre onde estamos. Não sei onde está o dossiê Snicket, nem por que mais alguém tem a tatuagem de Olaf, nem o que quer dizer C.S.C., nem por que existe uma passagem secreta para a nossa casa, nem...”
“Se os nossos pais estão vivos?”, interrompeu Klaus. “Você sabe se um dos nossos pais está vivo?”
A voz de Klaus tremeu, e quando suas irmãs se voltaram para ele – o que foi difícil para Violet, pois ainda compartilhava a camisa com o irmão – notaram que ele estava chorando. Violet encostou sua cabeça na de Klaus e Sunny largou sua caneca no chão para engatinhar mais para perto e abraçar os joelhos dele, e os três Baudelaire ficaram em silêncio por alguns momentos.
O pesar, um tipo de tristeza que ocorre com maior frequência quando você perde alguém que ama, é uma coisa traiçoeira, porque pode desaparecer por um longo tempo e depois ressurgir quando você menos espera. Sempre que posso, saio para caminhar na Praia Salgada bem cedo, que é a melhor hora para conseguir algum material importante para o caso Baudelaire. E o oceano é tão tranquilo que eu também me sinto tranquilo, como se tivesse me libertado do pesar que sentia pela mulher que amo e nunca mais verei. Mas então, quando sinto frio e me refugio numa casa de chá onde o proprietário já aguarda por mim, basta eu estender a mão para alcançar o açucareiro que o pesar retorna, e me ponho a chorar tão alto que os outros fregueses me pedem para abaixar um pouco o volume. Para os Baudelaire, o pesar era como um objeto pesado que eles se revezavam em carregar, para que não chorassem ao mesmo tempo; mas às vezes o objeto ficava pesado demais para um só, e assim Violet e Sunny se encostaram em Klaus para lembrar ao irmão que aquele objeto seria carregado por todos até que encontrassem um lugar seguro onde deixá-lo.
“Desculpe eu ter me exaltado, Klaus”, disse Violet. “São tantas as coisas que não sei, é difícil pensar em todas elas.”
“Chithvee”, disse Sunny, o que queria dizer: “Mas eu não consigo deixar de pensar nos nossos pais”.
“Nem eu”, admitiu Violet. “Fico me perguntando se um deles sobreviveu ao incêndio.”
“Mas se sobreviveu”, disse Klaus, “por que estaria escondido num lugar distante? Por que não tenta nos encontrar?”
“Talvez esteja procurando por todos os lugares imagináveis”, disse Violet baixinho. “Mas nós estamos escondidos e disfarçados há tanto tempo que talvez ele não tenha conseguido nos encontrar.”
“Mas por que a nossa mãe ou o nosso pai não contata o sr. Poe?”, disse Klaus.
“Nós tentamos contatá-lo”, lembrou Violet, “mas ele não responde aos telegramas, nem conseguimos falar com ele por telefone. Se um de nossos pais sobreviveu ao incêndio, talvez esteja com a mesma falta de sorte.”
“Galfuskin”, enfatizou Sunny. Com “Galfuskin” ela queria dizer algo como: “Isso é pura especulação. Vamos até a Barraca do Destino tentar descobrir alguma coisa com certeza antes que nossos colegas voltem”.
“Você tem razão”, disse Violet, e deixou a sua caneca ao lado da de Sunny. Klaus também pôs a dele no chão, e os três Baudelaire se afastaram do chocolate quente a passos disfarçados. Violet e Klaus andavam cambaleantes na calça compartilhada e Sunny engatinhava como um bebê-lobo ao lado deles, pois não podiam correr o risco de alguém flagrá-los sem disfarce a caminho da Barraca do Destino. Mas ninguém os flagrou. Os visitantes do parque tinham ido contar aos amigos sobre o espetáculo dos leões que aconteceria no dia seguinte; seus colegas de trabalho estavam no trailer lamentando o destino, uma expressão que aqui significa “jogando dominó em vez de pensar numa saída para a situação”; madame Lulu e os assistentes de Olaf cavavam o fosso perto da montanha-russa coberta de hera; o conde Olaf e Esmé Squalor discutiam a relação no trailer de hóspedes, que ficava numa extremidade do parque onde há muitos anos eu passei um tempo com meu irmão; e os demais empregados da madame Lulu trancavam o parque com a esperança de um dia trabalhar num lugar menos miserável. Portanto, ninguém viu quando as crianças se aproximaram da barraca vizinha ao trailer de Lulu e pararam por um minuto diante da cortina que levava ao interior.
A Barraca do Destino não existe mais no Parque Caligari, e aliás, em lugar nenhum. Alguém que por acaso passe pelo sertão desolado, mal conseguirá notar que ali já houve uma barraca. Porém, mesmo que tudo se parecesse exatamente com o que era na época em que os órfãos Baudelaire estiveram lá, é improvável que um viajante possa entender o que significava a decoração da barraca, pois são muito poucos os especialistas no assunto ainda vivos, e os poucos que ainda vivem estão em circunstâncias péssimas ou, como é o meu caso, quase em circunstâncias péssimas, com alguma esperança de torná-las menos péssimas. Mas os órfãos Baudelaire – que, como você há de lembrar, tinham chegado ao parque na noite anterior, e portanto nunca tinham visto a Barraca do Destino à luz do dia – tiveram a oportunidade de examinar a pintura da barraca, e até pararam um instante para observá-la melhor.
À primeira vista, a pintura da Barraca do Destino parecia representar um olho, como a pintura do trailer de madame Lulu e a tatuagem no tornozelo do conde Olaf. As três crianças tinham encontrado olhos como aqueles em todos os lugares onde estiveram. Já tinham visto um edifício em forma de olho, na época em que trabalharam numa serraria; uma bolsa em forma de olho que Esmé Squalor usara quando tentaram se esconder num hospital; e até um imenso enxame de olhos, que aparecia de vez em quando nos seus piores pesadelos. E apesar de nunca terem entendido exatamente o que significavam, os Baudelaire já estavam cansados de ver esses olhos por aí, por isso já não prestavam muita atenção neles. Mas muitas coisas na vida ficam diferentes se você olhar com atenção, e quando as crianças pararam na frente da Barraca do Destino, a pintura pareceu se transformar numa insígnia.
Insígnia é uma espécie de marca que geralmente representa uma organização ou um negócio, e pode ter diversas formas. Às vezes pode ser simples, tal como uma linha ondulada para identificar uma organização relacionada a rios ou oceanos, ou um quadrado, para indicar uma organização envolvida com geometria ou açúcar em cubinhos. Às vezes a insígnia pode ser um pequeno desenho, como uma tocha, e indicar que determinada organização é inflamável, ou pode ser o desenho de uma menina de três olhos, e indicar que pessoas incomuns estão expostas na Casa dos Monstros. E às vezes uma insígnia pode ser o nome da organização, representado apenas com as primeiras letras, ou como se diz, as iniciais. Os Baudelaire, é claro, não estavam envolvidos em nenhum tipo de negócio, a não ser por trabalharem como aberrações num parque de diversões, e até onde sabiam, não faziam parte de nenhuma organização, e nunca tinham estado no sertão antes de o carro do conde Olaf os levar pela Estrada das Raras Viagens, mas ainda assim as três crianças sabiam que aquela insígnia era importante para eles, como se a pessoa que a pintara soubesse que os Baudelaire a veriam e quisesse fazê-los entrar na Barraca do Destino.
“Você acha que...”, disse Klaus, e sua voz quase sumiu enquanto ele apertava os olhos para ver a barraca.
“Eu não tinha reparado”, disse Violet, “mas depois que olhei melhor...”
“Volu...”, disse Sunny, e sem mais palavra as três crianças espiaram o interior da barraca, e como não viram sinal de ninguém, avançaram alguns passos. Se alguém estivesse observando os jovens, teria percebido como estavam vacilantes quando entraram na Barraca do Destino sem fazer barulho. Mas não havia ninguém observando. Não havia ninguém para ver a cortina de pano se fechar em silêncio atrás deles, nem o leve estremecimento da barraca inteira quando eles entraram, e não havia ninguém para ver que a pintura também estremecera. Ninguém observava os órfãos Baudelaire no momento em que eles estavam prestes a conseguir as respostas às suas perguntas, ou resolver o mistério de suas vidas. Não havia ninguém para observar a pintura na barraca e perceber que não era a imagem de um olho, como parecia à primeira vista, mas uma insígnia que representava uma organização, a qual as crianças conheciam apenas como C.S.C.

Um comentário:

  1. Acho q eles tem que sair dai antes do amanhecer !

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