17 de agosto de 2016

Capítulo cinco


O Café Salmonela ficava no Bairro dos Peixes, que era uma parte da cidade que tinha aparência, som, cheiro e provavelmente – caso você se ajoelhasse no chão e lambesse as suas ruas – gosto de peixe. O Bairro dos Peixes tinha cheiro de peixe porque estava localizado perto das docas da cidade, onde os pescadores vendiam o peixe que pescavam todas as manhãs. Tinha som de peixe porque o calçamento estava sempre molhado por causa da brisa do mar e os pés dos passantes produziam sons borbulhantes e chapinhantes que lembravam os ruídos produzidos pelas criaturas do mar. E tinha aparência de peixe porque todos os edifícios do Bairro dos Peixes eram feitos de reluzentes escamas prateadas em vez de tijolos ou tábuas. Quando os órfãos Baudelaire chegaram ao Bairro dos Peixes e seguiram Jerome até o Café Salmonela, tiveram de olhar para o céu noturno para se lembrar de que não estavam debaixo d’água.
O Café Salmonela não era apenas um restaurante, mas um restaurante temático, o que significa simplesmente um restaurante com comida e decoração seguindo uma certa ideia. O tema do Café Salmonela – provavelmente você é capaz de adivinhar pelo nome – era salmão. Havia retratos de salmões nas paredes, e desenhos de salmões no cardápio, e os garçons e garçonetes vestiam fantasias de salmão, o que tornava difícil para eles carregar travessas e bandejas. As mesas eram decoradas com vasos cheios de salmões em lugar de flores e, naturalmente, toda a comida servida pelo Café Salmonela tinha alguma coisa a ver com salmões. Não há nada de especialmente errado com salmões, é claro, porém, como acontece com caramelos, iogurte de morango e líquido para limpar carpetes, se você comer em exagero não vai apreciar muito a sua refeição. Foi o que aconteceu naquela noite com os órfãos Baudelaire. O garçom fantasiado primeiro trouxe para a mesa tigelas de sopa creme de salmão, depois um pouco de salada gelada de salmão e depois, como prato principal, um pouco de salmão na brasa com acompanhamento de ravióli de salmão ao molho de manteiga de salmão; e quando por fim o garçom trouxe torta de salmão com uma bola de sorvete de salmão em cima, as crianças já não queriam provar mais nem um bocadinho de salmão, nunca mais. Mas mesmo se naquela refeição tivesse sido servida uma variedade de pratos diferentes, todos deliciosamente preparados e trazidos por um garçom usando roupas simples e confortáveis, os Baudelaire não teriam apreciado o jantar, porque o pensamento de Gunther passando a noite sozinho com a tutora deles os tinha feito perder o apetite muito mais do que o exagero de peixe rosado e saboroso, e Jerome simplesmente não tinha mais vontade de discutir o assunto.
“Eu simplesmente não tenho mais vontade de discutir o assunto”, disse Jerome, sorvendo um pequeno gole do seu copo d’água, no qual havia pedacinhos de salmão congelado flutuando em vez de cubos de gelo. “E francamente, jovens Baudelaire, acho que vocês deviam ter um pouco de vergonha das suas suspeitas. Sabem o que quer dizer a palavra ‘xenófobo’?”
Violet e Sunny sacudiram a cabeça e olharam para o irmão, que estava tentando se lembrar se já tinha se deparado com a palavra em algum dos seus livros.
“Quando uma palavra termina em ‘fobo’“, disse Klaus, limpando a boca com um guardanapo com forma de salmão, “isto normalmente quer dizer que alguém está com medo de alguma coisa. Então, ‘xeno’ significa ‘Olaf’?”
“Não”, disse Jerome. “Significa ‘forasteiro’, ou ‘estrangeiro’. Um xenófobo é alguém que tem medo de pessoas só porque elas vêm de um país diferente, o que é um motivo muito tolo para se ter medo. Eu imaginava que vocês eram sensíveis demais para ser xenófobos. Afinal, Violet, Galileu veio de um país da Europa, e inventou o telescópio. Você teria medo dele?”
“Não”, disse Violet. “Eu me sentiria honrada em conhecê-lo. Mas...”
“E você, Klaus”, continuou Jerome, “certamente já ouviu falar do escritor Junichiro Tanizaki, que veio de um país da Ásia. Você teria medo dele?”
“É claro que não”, disse Klaus. “Mas...”
“E você, Sunny”, continuou Jerome. “O puma de dentes afiados pode ser encontrado em vários países da América do Norte. Você ficaria com medo se encontrasse um puma?”
“Netesh”, disse Sunny, o que queria dizer algo como “É claro que sim! Os pumas são animais selvagens”, mas Jerome continuou falando como se não tivesse ouvido nem uma palavra do que ela disse.
“Não que eu queira passar um pito em vocês”, disse ele. “Sei que passaram por momentos muito difíceis desde a morte dos seus pais, e Esmé e eu queremos fazer todo o possível para proporcionar um bom e seguro lar a vocês. Não creio que o conde Olaf se atreva a aparecer no nosso bairro sofisticado, mas caso ele o faça, o porteiro o reconhecerá e alertará as autoridades imediatamente.”
“Mas o porteiro não o reconheceu”, insistiu Violet. “Ele estava disfarçado.”
“E Olaf se atreveria a aparecer em qualquer lugar para nos achar”, acrescentou Klaus. “Não importa quão sofisticado seja o bairro.”
Jerome olhou para as crianças com um jeito incomodado. “Por favor, não discutam comigo”, disse ele. “Não suporto discussões.”
“Mas às vezes discutir é útil e necessário”, disse Violet.
“Não consigo pensar em uma única discussão que pudesse ser útil e necessária”, disse Jerome. “Por exemplo, Esmé fez reservas para nós aqui no Café Salmonela, e eu não suporto o gosto de salmão. Eu podia ter discutido com ela sobre isso, é claro, mas por que seria útil e necessário?”
“Bem, você poderia ter tido um jantar agradável”, disse Klaus.
Jerome sacudiu a cabeça. “Algum dia, quando você for mais velho, vai entender”, disse ele. “Enquanto isso, você se lembra qual dos salmões é o nosso garçom? Já está quase na hora de vocês irem para a cama, e eu gostaria de pagar a conta e levá-los para casa.”
Os órfãos Baudelaire trocaram olhares de frustração e tristeza. Estavam frustrados com a tentativa de convencer Jerome da verdadeira identidade de Gunther, e estavam tristes porque sabiam que não adiantava continuar tentando. Eles mal pronunciaram mais uma palavra enquanto Jerome os levava para fora do Café Salmonela e para dentro de um táxi que os transportou do Bairro dos Peixes até a Avenida Sombria 667. A caminho, o motorista passou pela praia onde os Baudelaire ouviram pela primeira vez a terrível notícia sobre o incêndio, um momento que parecia estar em um passado muito, muito distante, embora não tivesse acontecido há tanto tempo assim; e quando as crianças olharam pela janela para as ondas do mar encrespando-se ao longo da praia muito, muito escura, elas mais do que nunca sentiram saudades dos pais. Se os Baudelaire pais estivessem vivos, teriam dado ouvidos às suas crianças. Teriam acreditado nelas quando lhe contassem quem Gunther realmente era. Mas o que deixou os Baudelaire mais tristes foi o fato de que, se os Baudelaire pais estivessem vivos, os três irmãos não saberiam sequer quem era o conde Olaf, muito menos ser objetos dos seus planos traiçoeiros e gananciosos. Violet, Klaus e Sunny, sentados no táxi, olhavam pesarosos pela janela e desejavam com toda a força poder retornar aos tempos em que as suas vidas eram alegres e despreocupadas.
“Vocês já estão de volta?”, perguntou o porteiro enquanto abria a porta do táxi com a mão ainda escondida na manga do casaco. “A sra. Squalor disse que vocês não devem voltar antes que o seu convidado saia da cobertura, e ele ainda não desceu.”
Jerome olhou para o relógio e franziu a testa. “Já é muito tarde”, disse ele. “As crianças precisam ir logo para a cama. Estou certo de que se nós formos bem discretos, não vamos perturbá-los.”
“Minhas instruções são muito estritas”, disse o porteiro. “Ninguém deve entrar no apartamento de cobertura antes que o convidado saia do edifício, coisa que ele, certamente, ainda não fez.”
“Não quero discutir com você”, disse Jerome. “Mas talvez ele esteja descendo neste momento. Leva um bom tempo para descer todas aquelas escadas, a não ser que você desça escorregando pelo corrimão. Portanto acho que estará tudo em ordem se nós subirmos.”
“Eu nunca tinha pensado nisso”, disse o porteiro, coçando o queixo com a manga. “Está certo, acho que vocês podem subir. Talvez cruzem com ele nas escadas.”
As crianças Baudelaire se entreolharam. Não tinham certeza do que as deixava mais nervosas: se a ideia de que Gunther tinha passado tanto tempo no apartamento dos Squalor, ou a ideia de que poderiam cruzar com ele quando estivesse descendo as escadas.
“Talvez a gente deva esperar o Gunther sair”, disse Violet. “Não queremos causar problemas ao porteiro.”
“Não, não”, decidiu Jerome. “É melhor nós começarmos a escalada de uma vez, senão vamos ficar cansados demais para chegar até em cima. Sunny, não deixe de me avisar quando você quiser que eu a carregue.”
Eles entraram no saguão do edifício e ficaram surpresos ao ver que tinha sido completamente redecorado enquanto estavam jantando. Todas as paredes tinham sido pintadas de azul, e o chão estava coberto de areia, com algumas conchas espalhadas pelos cantos.
“A decoração praiana está in”, explicou o porteiro. “Ainda há pouco recebi um telefonema. Até amanhã, o saguão vai estar cheio de paisagens submarinas.”
“Pena que não soubemos disso antes”, disse Jerome. “Teríamos trazido alguma coisa do Bairro dos Peixes.”
“Ah, eu queria que tivessem mesmo trazido”, disse o porteiro. “Todo mundo está querendo decoração praiana agora, e está ficando difícil de encontrar.”
“Certamente haverá alguma decoração praiana à venda no Leilão In”, disse Jerome, quando ele e os Baudelaire chegaram ao pé da escada. “Talvez você devesse dar uma passada por lá e comprar alguma coisa para o saguão.”
“Talvez eu faça isso”, disse o porteiro, sorrindo de um jeito estranho para as crianças. “Talvez eu faça isso. Tenham uma boa noite, pessoal.”
Os Baudelaire disseram boa-noite ao porteiro e começaram a longa escalada. Eles subiram, e subiram, e passaram por diversas pessoas que estavam descendo, porém, apesar de muitas delas estarem de terno risca-de-giz, nenhuma delas era Gunther. À medida que as crianças subiam mais e mais alto, as pessoas que desciam as escadas pareciam mais e mais cansadas, e toda vez que os Baudelaire passavam pela porta de um apartamento ouviam os sons das pessoas se preparando para ir dormir. No décimo sétimo andar, ouviram alguém perguntar à mãe onde estava a espuma para banho. No trigésimo oitavo andar, ouviram os sons de alguém escovando os dentes. E em um andar muito alto – as crianças tinham perdido a conta de novo, mas deve ter sido muito alto, pois Jerome estava carregando Sunny – elas ouviram alguém com uma voz muito, muito profunda lendo uma história infantil em voz alta. Todos aqueles sons os deixaram cada vez mais sonolentos, e quando chegaram ao último andar os órfãos Baudelaire estavam tão cansados que se sentiam como sonâmbulos, dormindo e andando ao mesmo tempo; ou, no caso de Sunny, dormindo e sendo carregada ao mesmo tempo. Estavam tão cansados que quase cochilaram apoiados nos dois conjuntos de portas de elevadores enquanto Jerome destrancava a porta da frente. Estavam tão cansados que parecia que o surgimento de Gunther tinha sido um sonho, pois quando perguntaram sobre ele, Esmé respondeu que tinha ido embora há muito tempo.
“Gunther foi embora?”, perguntou Violet. “Mas o porteiro disse que ele ainda estava aqui.”
“Oh, não”, disse Esmé. “Ele deixou aqui um catálogo de todos os itens que vão ao Leilão In. Está na biblioteca, se quiserem dar uma olhada. Repassamos alguns detalhes do leiloamento, e depois ele foi para casa.”
“Mas isso não pode ser”, disse Jerome.
“É claro que pode ser”, retrucou Esmé. “Eu o vi saindo pela porta da frente.”
Os Baudelaire se entreolharam cheios de confusão e suspeita. Como Gunther conseguira sair da cobertura sem ser notado? “Ele pegou um elevador quando saiu?”, disse Klaus.
Os olhos de Esmé se arregalaram e ela abriu e fechou a boca várias vezes sem dizer nada, como se estivesse vivenciando o elemento surpresa. “Não”, disse ela afinal. “O elevador foi desligado. Você sabe disso.”
“Mas o porteiro disse que ele ainda estava aqui”, disse Violet outra vez. “E nós não o vimos quando subimos as escadas.”
“Bem, o porteiro estava enganado”, disse Esmé. “Mas vamos parar com essa conversa soporífera. Jerome, ponha-os na cama de uma vez.”
Os Baudelaire se entreolharam. Eles achavam que a conversa não era nada soporífera, uma palavra sofisticada para uma coisa tão aborrecida que faz a gente dormir. Apesar da exaustiva escalada, as crianças não se sentiam nem um pouquinho cansadas quando estavam falando sobre o paradeiro de Gunther. A ideia de que ele tinha conseguido desaparecer tão misteriosamente como aparecera as deixava ansiosas demais para ter sono. Mas os três irmãos sabiam que não seriam capazes de convencer os Squalor a continuar aquela discussão, não mais do que tinham sido capazes de convencê-los de que Gunther era o conde Olaf e não um leiloeiro, então deram boa-noite a Esmé e seguiram Jerome através de três salões de baile, passaram por uma sala de café-da-manhã, atravessaram duas salas de estar e por fim chegaram aos seus próprios quartos.
“Boa noite, crianças”, disse Jerome, e sorriu. “Vocês três provavelmente vão dormir um sono de pedra depois daquela escalada. Não quero dizer com isso que vocês sejam parecidos com pedras, é claro. Só quero dizer que, depois de caírem na cama, aposto como vão dormir imediatamente sem se mexer, assim como as pedras não se mexem.”
“Nós sabemos o que você quer dizer, Jerome”, replicou Klaus, “e espero que esteja certo. Boa noite.”
Jerome sorriu para as crianças, e as crianças sorriram de volta e depois se entreolharam mais uma vez antes de entrar nos seus quartos e fechar as portas atrás de si. As crianças sabiam que não iriam dormir como pedras, a não ser que existissem certas pedras que se agitam e se viram na cama a noite toda se perguntando coisas. Os irmãos se perguntavam onde Gunther estaria escondido, e como conseguira encontrá-los, e que traição terrível ele estaria tramando. Eles se perguntavam onde estavam os trigêmeos Quagmire, já que Gunther tivera tempo de cair em cima dos Baudelaire como ave de rapina. E se perguntavam o que poderia significar C.S.C., e se seria de alguma ajuda para eles contra Gunther caso soubessem. Os Baudelaire se agitaram e viraram e se perguntaram sobre todas essas coisas, e conforme ia ficando cada vez mais tarde, foram se sentindo cada vez menos como pedras e cada vez mais como crianças em uma conspiração sinistra e misteriosa, passando uma das menos soporíferas noites de suas jovens vidas.

Um comentário:

  1. Ele deve ta escondidoo nesse enorme apartamento !

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