4 de agosto de 2016

Capítulo cinco


Violet, Klaus e Sunny:
Quando vocês lerem este bilhete, minha vida terá chegado a seu própio fim. Meu coração está frio como Belo, e a vida para mim tornou-se repussiva. Sei que, como crianças, não podem compreender o coração urlulante de uma tristre viúva, pois não conhecem as razões que me levaram a um acto tao desesperado, mas saibam que me sinto muito mais feliz assim. Como minha última vontade, deixo vocês três sob a guarda do capitão Sham, homem honrado e de bom coração. Por favor, pensem em mim com carinho apesar de eu ter feito essa coisa terrível.
Sua tia Josephine

“Pare!”, gritou Violet. “Pare de ler isso em voz alta! Já sabemos o que está escrito aí.”
“Eu simplesmente não posso acreditar”, disse Klaus, percorrendo o papel com os olhos pela enésima vez. Os órfãos Baudelaire estavam sentados melancolicamente em volta da mesa da sala de jantar com o caldo frio de limas nas tigelas e terror no coração. Violet ligara para o sr. Poe e lhe contara o que tinha acontecido, e os Baudelaire, ansiosos demais para dormir, passaram a noite inteira em claro, esperando-o chegar na primeira barca do dia. As velas já haviam quase se apagado por completo, e Klaus tivera que se inclinar para a frente a fim de ler o bilhete de Josephine. “Este bilhete tem qualquer coisa de engraçado, mas eu não consigo descobrir exatamente o que é.”
“Como é que você pode dizer uma coisa dessas?”, perguntou Violet. “Tia Josephine se atirou pela janela. Não há absolutamente nada de engraçado nisso.”
“Não estou dizendo engraçado como numa piada engraçada”, disse Klaus. “Estou dizendo engraçado como num cheiro engraçado. Vejam, logo na primeira frase ela diz ‘minha vida terá chegado a seu própio fim’.”
“E chegou”, disse Violet, estremecendo.
“Não é isso que eu quero dizer”, disse Klaus, impaciente. “É que ela escreve própio em vez de próprio.” Ele pegou o cartão do capitão Sham, que continuava em cima da mesa. “Lembram quando ela viu este cartão? ‘Cada barco tem sua própia vela.’ Ela disse que esse era um erro ortográfico muito grave.”
“Ora, quem está ligando para erros ortográficos?”, perguntou Violet. “Tia Josephine pulou da janela!”
“Mas tia Josephine teria ligado”, observou Klaus. “Era para isso que ela mais ligava, para a gramática. Lembra que ela dizia que ‘a gramática é a maior alegria da vida’?”
“Tudo bem, mas não foi suficiente”, disse Violet com tristeza. “Por mais que ela gostasse de gramática, no bilhete está escrito que ela achava a vida repulsiva.”
“Mas esse é outro erro que tem no bilhete”, disse Klaus. “Não está escrito repulsiva, com L antes do S, e sim repussiva, com dois SS.”
“Você está sendo repulsivo sem dois SS”, gritou Violet.
“E você está sendo idiota sem dois ii”, revidou Klaus.
“Aget!”, gritou Sunny, o que queria dizer: “Parem de brigar!”, ou algo do gênero. Violet e Klaus olharam para a irmãzinha e depois um para o outro. É comum as pessoas, quando estão infelizes, quererem fazer outras pessoas infelizes também. Mas isso nunca ajuda.
“Desculpe, Klaus”, disse Violet mansamente. “Você não está sendo repulsivo. Nossa situação é que é repulsiva.”
“Eu sei”, disse Klaus com tristeza. “Também peço desculpas. Você não está sendo idiota, Violet. Você é muito inteligente. Na verdade, acho que inteligente o bastante para nos tirar desta situação. Tia Josephine pulou da janela e nos deixou aos cuidados do capitão Sham, e não sei o que podemos fazer a respeito disso.”
“Bem, o sr. Poe está a caminho”, disse Violet. “Ele disse no telefone que estaria aqui de manhã bem cedo, de modo que não vamos ter que esperar muito. Talvez o sr. Poe possa nos dar alguma ajuda.”
“Imagino que sim”, disse Klaus, mas ele e as irmãs se entreolharam e deram um suspiro. Eles sabiam que as chances de o sr. Poe ajudá-los para valer eram bem reduzidas. Na ocasião em que os Baudelaire moravam com o conde Olaf, o sr. Poe não ajudou em nada quando as crianças lhe contaram sobre a crueldade do conde Olaf. Na ocasião em que os Baudelaire moravam com o tio Monty, o sr. Poe não ajudou em nada quando as crianças lhe contaram sobre a perfídia do conde Olaf. Parecia claro que o sr. Poe também não ajudaria em nada na situação em que se achavam agora.
Uma das velas se apagou, exalando como que um suspiro de fumaça, e as crianças afundaram ainda mais em suas cadeiras. Vocês provavelmente já ouviram falar da dioneia, uma planta carnívora que cresce nos trópicos. O alto dessa planta tem a forma de uma boca aberta em cujos cantos há espinhos que lembram dentes. Quando uma mosca, atraída pelo perfume da flor, pousa na dioneia, a boca da planta começa a se fechar, prendendo a mosca. A mosca, aterrorizada, zumbe, agitando-se dentro da boca fechada da planta, mas não há nada que possa fazer, e aos poucos, lentamente, a planta acaba com sua presa. Quando a escuridão da casa se abateu sobre eles, os jovens Baudelaire se sentiram como a mosca nessa situação. Era como se o incêndio catastrófico que tirara a vida de seus pais houvesse sido o começo de uma armadilha e eles nem sequer tivessem se dado conta disso. Zumbiram de um lugar para outro – da casa do conde Olaf, na cidade, para a casa do tio Monty, no campo, e, agora, na casa de tia Josephine, com vista para o lago –, mas sua infelicidade ia envolvendo-os, apertando-os cada vez mais, e os três irmãos tinham a impressão de que essa infelicidade não demoraria muito a acabar com eles.
“Nós poderíamos rasgar o bilhete”, disse Klaus, finalmente. “Assim, o sr. Poe não ficaria sabendo das vontades de tia Josephine, e nós não seríamos confiados à guarda do capitão Sham.”
“Mas eu já contei ao sr. Poe que tia Josephine deixou um bilhete”, disse Violet.
“Bem, nós poderíamos forjar um bilhete”, disse Klaus, usando um verbo que aqui significa “escrever alguma coisa pelo próprio punho e fingir que outra pessoa a escreveu”. “Escrevemos tudo o que ela escreveu, menos a parte que fala sobre o capitão Sham.”
“Ah-ah!”, gritou Sunny. Essa palavra era uma das favoritas de Sunny, e diversamente do que acontecia com a maioria de suas palavras, não precisava de tradução. O que Sunny queria dizer era “Ah-ah!” mesmo, uma expressão de descoberta.
“Claro!”, exclamou Violet. “Foi isso que o capitão fez! Ele escreveu essa carta, e não tia Josephine!”
Os olhos de Klaus brilharam atrás dos óculos. “Isso explica o própio!”
“Isso explica o repussiva!”, disse Violet.
“Liip!”, gritou Sunny, o que provavelmente queria dizer: “O capitão Sham atirou tia Josephine pela janela e depois escreveu o bilhete para ocultar o seu crime”.
“Que coisa terrível!”, disse Klaus, estremecendo só de pensar em tia Josephine caindo no lago de que ela sentia tanto medo.
“Imagine só as coisas terríveis que ele fará conosco”, disse Violet, “se não denunciarmos o seu crime. Não vejo a hora do sr. Poe chegar, para nós podermos lhe contar o que aconteceu.”
Assim que Violet terminou de falar, a campainha tocou, e os Baudelaire correram para atendê-la. Violet, seguida dos irmãos, avançou pelo corredor, olhando pesarosamente para o aquecedor enquanto lembrava do medo que tia Josephine tinha dele. Klaus ia logo atrás, tocando suavemente em cada maçaneta de porta, numa homenagem às advertências de tia Josephine sobre como elas poderiam se partir em milhões de pedaços. E quando chegaram à porta, Sunny olhou tristemente para o capacho da entrada, no qual, segundo tia Josephine, alguém podia tropeçar, e em seguida levar um tombo e quebrar o pescoço. Tia Josephine se esmerara para evitar qualquer coisa que ela achava que pudesse vir a lhe fazer mal, e, no entanto, mesmo assim o mal acabou por lhe ser feito.
Violet abriu a porta branca com a pintura descascando, e lá estava o sr. Poe, sob a luz melancólica do alvorecer. “Sr. Poe”, disse Violet. Ela pretendia lhe contar imediatamente a teoria deles sobre a falsificação, mas tão logo o viu, de pé na entrada, com um lenço branco numa das mãos e uma maleta preta na outra, as palavras morreram em sua garganta. As lágrimas são uma coisa curiosa, pois, assim como os terremotos e os camelôs, podem surgir em qualquer momento, sem nenhum aviso e sem um bom motivo. “Sr. Poe” voltou a dizer Violet, e sem nenhum aviso ela e os irmãos se desmancharam em lágrimas. Violet chorou, os soluços sacudindo os ombros; Klaus chorou, as lágrimas fazendo seus óculos escorregarem nariz abaixo, e Sunny chorou, com a boca aberta, exibindo os quatro dentes.
O sr. Poe pousou a maleta no chão e se livrou do lenço. Ele não era muito bom em consolar pessoas, mas abraçou as crianças o melhor que pôde e murmurou: “Pronto, pronto”, palavra que algumas pessoas murmuram para consolar outras pessoas.
O sr. Poe não conseguiu imaginar outra fórmula capaz de consolar os órfãos Baudelaire, mas eu agora gostaria de ter o poder de recuar no tempo e falar a essas três crianças em pranto. Se isso me fosse possível, iria dizer aos Baudelaire que, como os terremotos e os camelôs, suas lágrimas estavam aparecendo não apenas sem aviso mas também sem um bom motivo. Os garotos estavam chorando, é claro, porque pensavam que sua tia Josephine havia morrido, e eu gostaria de ter o poder de recuar no tempo para lhes dizer que eles estavam enganados. Mas, evidentemente, isso não me é possível. Eu não estou no alto do morro, olhando para o Lago Lacrimoso, naquela manhã melancólica. Estou sentado em meu quarto, no meio da noite, escrevendo esta história e olhando pela janela para o cemitério que fica atrás de minha casa. Não posso dizer aos órfãos Baudelaire que eles estão enganados, mas posso contar para vocês, enquanto os órfãos choram nos braços do sr. Poe, que tia Josephine não morreu.
Pelo menos por enquanto.

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