11 de julho de 2016

Noite Silenciosa




No inverno de 1914, havia uma batalha sendo travada entre duas grandes potências da Europa. Havia a guerra mundial, também, mas Rupert não estava preocupado com isso no momento. Não, sua batalha estava sendo travada na sala de jantar em Davenport, e seu rival se sentava na sua frente à mesa, vestindo um uniforme militar com uma medalha brilhante em forma de estrela por ser o mais novo segundo-tenente. Rupert olhava para aquela estrela como ela estivesse prestes a explodir.
O inimigo tinha a vantagem no momento, mas Rupert estava prestes a fazer a sua jogada.
A sala de jantar em Southington, no pequeno castelo de Davenport em Essex, era um lugar confortável para uma guerra. O teto abobadado era dourado, e havia estátuas douradas de mulheres suspensas nos cantos, tocando silenciosamente suas harpas, alaúdes e flautas para os que sentavam-se ali. Nas paredes estavam penduradas ricas tapeçarias e pinturas exuberantes retratando alguns dos maiores momentos da história da família – a coroação do rei Luís XIV, a vitória de Napoleão em Austerlitz, o assassinato de Pedro III por Catarina, a Grande. E ali, na frente da sala, atrás de onde seu pai estava sentado, havia um retrato mais alto do que Rupert e mais largo do que seus braços poderiam alcançar. Era de um homem esbelto com o olhar duro, em trajes do século XVI que escondiam um punhal sob a capa.
Luke Cahill gostava de manter um olhar atento sobre as coisas, mesmo que estivesse morto há mais de trezentos anos.
— Conte-nos mais sobre o Marne, querido. — mamãe disse para Albert, estendendo a mão para afagar seu braço, mas na verdade aproveitando a oportunidade para ver como seus diamantes pareciam à luz do candelabro.
Meu pai não tirou os olhos dos documentos espalhados ao lado de seu prato. Ele raramente prestava atenção a qualquer pessoa durante o jantar, especialmente durante a preparação para um conselho de liderança dos Lucian, mas para a surpresa de Rupert, ele balançou a cabeça em concordância.
— Vamos ouvir sobre quando eles o tornaram um comandante. — disse minha mãe.
— Bem — falou Albert, com uma modéstia tão falsa que Rupert quase riu. E, no entanto, ele ainda ouvia, em silêncio e com grande atenção. — Os alemães pensaram que se chegassem a Paris, ganhariam a guerra em um só ataque. — Com a mão direita em um punho, Albert fez um movimento como se fosse nadar através da mesa da sala de jantar. Ele abriu os dedos. — Eles se espalhariam e nos pegariam! Como raposas em armadilhas! Mas nós os paramos. Eu estava lá, tão calmo sob pressão, que eles fizeram de mim um comandante.
Mamãe deu-lhe um tapinha satisfeito na mão, e meu pai assentiu novamente.
— Isso é muito impressionante. — disse ele, finalmente erguendo o olhar de seus papéis.
 Elogios de seu pai eram tão raros quanto crianças pobres recebendo pôneis de Natal, e Rupert sentiu uma espiral de ciúmes começar a apertar em torno de seu estômago. Mas ele se obrigou a sorrir placidamente. Ele tinha notícias próprias para partilhar – uma vitória que forçaria sua família a aceitar que ele era o filho para se observar. Porque enquanto Albert podia ter uma estrela brilhante, Rupert estava destinado à grandeza. Era algo que ele sempre soube, no fundo de seus ossos e de sua alma. E agora, ele tinha provas.
Ele limpou a garganta.
— Bem, falando em se manter calmo sob pressão, eu... 
— Quieto, Rupert — sua mãe o repreendeu, atirando-lhe um olhar de desaprovação. — Não interrompa seu irmão.
Rupert recostou-se na cadeira e cruzou os braços. Ele não entendia esse rebuliço todo. Pelo o que ele viu, a maior realização de Albert até agora foi não morrer. Ele não demonstrara nem um pouco da astúcia que Rupert teve durante seu mais recente ato de bravura.
— Está tudo bem, mãe — Albert disse. — Acho melhor nós mudarmos de assunto. — Ele fechou os seus olhos dramaticamente. — Há algumas coisas que prefiro não lembrar. — Ele piscou e, em seguida, lançou a Rupert um sorriso exagerado. — O que você ia dizer, Rupe?
Rupert ignorou o tom paternalista de Albert.
— Bem — Rupert falou, sentando-se reto. — Consegui adiar os nossos exames para depois das férias de Natal. — Ele sorriu enquanto olhava ao redor da mesa, mas ninguém reagiu. — Eu, hã, fiz todos os funcionários terem intoxicação alimentar, assim não precisaríamos fazê-los. Foi brilhante. Tirei a ideia do livro que o vovô me deu.
Rupert sorriu com expectativa. Depois de anos sendo censurado por não viver o seu verdadeiro potencial, ele finalmente provou ser um verdadeiro Lucian – um mestre astuto de estratégia e sabotagem.
Assim que você se manteve “calmo sob pressão”? — Albert perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— É claro — Rupert respondeu, olhando para os seus pais, procurando apoio. O pai de Rupert arrumou seus papéis, e sua mãe limpou a boca com um guardanapo.
— De fato — Albert sorriu. — Bem, nesse caso, acho que devemos elogiá-lo por sua bravura.
— Eu fui bravo — Rupert disse, estreitando os olhos. — Se os funcionários tivessem achado meu estoque de venenos, eles poderiam ter...
— Venenos? — Albert interrompeu. — Rupert, ninguém mais usa venenos. Hoje em dia tudo é sobre armas e metralhadoras. Você precisará se manter atualizado se quiser ser de qualquer ajuda na Caça às Pistas.
Rupert estava prestes a dizer a Albert exatamente o que ele pensava sobre sua medalha estúpida quando seu pai limpou a garganta.
— Eu concordo — ele falou, sem olhar para a cima.
Rupert sentiu seu peito se apertar, como se essas duas palavras tivessem tirado o ar dele. Ele tinha tanta certeza de que seu pai ficaria satisfeito com seu esquema.
— Ah, e esqueci de mencionar. — Albert continuou. — Eu vi um Madrigal.
Um arrepio percorreu a sala de jantar já fria, e, apesar da raiva em brasa brotando dentro dele, Rupert estremeceu. Sua mãe soltou um arquejo e o pai olhou para cima.
— Eu vi — disse Albert. — No Marne. Ele era alto, e estava todo de preto. Tinha um chapéu engraçado e uma bengala.
   — Você sabe que tem havido alguns rumores por aí de que os alemães estão na verdade sendo mobilizados por um dos outros clãs. O que é realmente ridículo, porque quem mais além dos Lucian seriam capazes de lidar com um empreendimento deste tamanho e complexidade? Mas isso é apenas o que eram – rumores. Sem dúvida, os Madrigais estão tentando nos levar a isso. Bem a cara deles tirar proveito de uma guerra.
— Nós podemos discutir mais sobre isso na reunião — disse o pai.
— Albert vai à reunião? — Rupert deixou escapar antes que tivesse a chance de pensar.
Nem ele e nem Albert jamais foram autorizado a participar do conselho de liderança dos Lucian. Mas assim que as palavras saíram da sua boca, ele se arrependeu.
— Sim, mas não se sinta mal por isso, Rupe. — Albert disse com falsa jovialidade. — Sinceramente, você tem sorte de ser jovem demais para se preocupar com coisas como bombas e metralhadoras. Digo, eu quase o invejo por ter que ficar na escola, são e salvo, orquestrando suas pequenas travessuras. Se você se manter assim, talvez até consiga fazer algo de útil em poucos anos, embora a guerra tenha acabado até lá, é claro.
  Quando a guerra começou em agosto, todos pensavam que terminaria rápido. O ano de 1914 seria marcado por um conflito pontual, uma briga profunda na barriga do Continente, e então o mundo se resolveria novamente em 1915.  Mas novembro terminara e dezembro chegara com suas primeiras pinceladas de neve cinzenta, e a guerra ainda queimava em listras vermelhas e lamacentas da Bélgica até a França, como uma erupção cutânea ruim.
Mas Rupert não temia isso. Não temia nem a metade quanto ficar para trás e ser excluído.
— Eu poderia ir — Rupert falou, antes de saber exatamente o que estava dizendo.
— O quê? — indagou Albert, levantando uma sobrancelha.
— Eu disse que eu poderia me alistar — Rupert continuou, um pouco mais alto. — Eu poderia ir para a guerra.
Mamãe apertou os lábios, e Albert tentou segurar um riso. O pai finalmente ergueu os olhos de seus papéis, travando-os nos de Rupert. Rupert se contorceu.
— Rupert, querido, você não está falando sério — falou mãe. Sua boca se curvou para cima, fazendo-a parecer achar isso um pouco divertido.
— Eu estou falando sério — disse ele, sentindo uma onda de raiva se misturar com a dor que já gelava seu estômago. — Albert acha que não posso fazer isso, mas eu posso. Eu poderia. Eu vou.
— Vai o quê? — perguntou Albert. — Juntar-se às forças armadas de Sua Majestade?
— Sim! — respondeu Rupert.
O pai largou o garfo e se inclinou sobre a mesa.
— Rupert. Não seja ridículo. Você não se provou capaz de cuidar dessa responsabilidade.
— Eu apenas não tive uma chance — Rupert respondeu, erguendo o queixo.
  Ele olhou para Albert, esperando por algo, por qualquer coisa. Esperando que só desta vez, Albert concordaria e diria: “Sim, Rupert. Penso que você conseguiria”. Mas Albert estava com o rosto duro como aço; ele parecia ofendido com o fato de Rupert se atrever a infringir em sua guerra.
— Nós não esperamos por chances nessa família — disse seu pai. — Nós a fazemos.
— Tá — respondeu Rupert, empurrando a cadeira para trás e ficando em pé. — Então será o que farei.
— Você não está falando sério — disse Albert.
— Estou. Meus talentos são, obviamente, desperdiçados na escola. É hora de eu colocá-los em prática. Voltarei com um monte de medalhas. Você vai ver.
— Não seja idiota — falou Albert. Ele tinha uma expressão engraçada no rosto, uma que ele quase confundiu com preocupação. — Você é só uma criança. É a guerra, Rupert. Não uma brincadeira.
— É exatamente por isso que você não me vê rindo — Rupert respirou fundo. — Certo, bem, acho que devo fazer as malas, então.
Ele assentiu para seus pais e girou nos calcanhares.
— Rupert — sua mãe suspirou enquanto ele ia em direção à porta.
— Deixe-o — o pai respondeu sem emoção, como se estivesse falando sobre um cão que se afastara demais no parque. — Ele voltará amanhã antes do jantar.
— Mas e se ele realmente...
— Então veremos se ele é um verdadeiro Lucian — o pai limpou a garganta. — Ou apenas um embaraço excessivamente mimado.
Os ombros de Rupert endureceram, mas ele não se virou. Da próxima vez que os visse, ele seria um comandante condecorado. Um herói a quem implorariam para participar das reuniões do conselho. Ele pisou ruidosamente, na esperança de ocultar quaisquer observações maldosas. Mas não foi necessário. O tilintar dos pratos e dos talhares de prata foram os únicos sons que perfuraram o pesado silêncio.

* * *

Depois de uma parada muito rápida em Londres para algumas necessidades e um passeio de balsa que atravessava o Canal da Mancha, Rupert estava tendo um belo passeio de trem pelo interior da França. Do lado de fora, nevava levemente, e lá dentro ele tinha chocolate quente, um assento confortável e biscoitos. Do seu assento na primeira classe, Rupert podia sentir sua raiva e mágoa darem lugar à emoção enquanto ele acelerava em direção à glória. Albert quase tinha razão – ele era um pouco jovem para ser soldado. Mas havia muitas maneiras de falsificar coisas, especialmente se você fosse um Cahill.
Seu passado tornava natural ter sucesso. Ele tinha as mesmas raízes que Napoleão, e incontáveis reis e rainhas não só da Inglaterra, mas do mundo todo. E esperava os mesmos direitos e privilégios que eles tinham – o acampamento dos comandantes, com um mapa aberto sobre uma enorme mesa e peões para deslizar por ele, mensageiros uniformizados levando mensagens o e cavalos bem-criados com selas reluzentes. Era assim que era nos livros. Ele não via nenhuma razão para um que lugar nessas páginas lhe fosse negado.
Todas as suas obras e realizações, é claro, estavam ligadas à Caça às Pistas – uma corrida ao longo das gerações e ao redor do mundo para tentar reunir a chave para o poder supremo – um soro que transformaria quem o bebesse no humano mais criativo, brilhante, astuto e atlético que já andou na terra. Há mais de 400 anos, Gideon Cahill descobrira o segredo para esse poder, e seus descendentes tinham brigado por ele desde então. Os Cahill eram superiores, claro, e os Lucian eram o creme no topo do bolo. Descendentes de Luke Cahill, o clã da família de Rupert era calmo e astucioso e – ele dizia isso a si mesmo – todos bonitos e brilhantes. Luke fizera bem com a parte do soro que lhe coubera e lhe dera esses dons – os tinha misturado em suas próprias células e passado-as para seus filhos e para os filhos de seus filhos, até chegar a Rupert. E Rupert estava determinado a ser merecedor desse legado, não importava o que seu pai achasse dele.
A neve ficara para trás, transformando-se em uma garoa cinza enevoada enquanto o trem o levava mais e mais fundo para a França. Para o Continente, dezembro tinha trazido uma umidade fria e persistente que mal podia ser mantida à distância pelo conforto de um bilhete da primeira-classe iluminada e aquecida.
Ele foi até o armário da primeira-classe e colocou seu uniforme. Ele tinha esse e um de reserva, feito por um  alfaiate em Londres – que cabia perfeitamente e era forrado de seda, a qual ele sentia que era mais prático e melhor para seus padrões. Ele não fazia parte exatamente do exército ainda – seu plano, ele pensou, funcionaria melhor se ele lidasse com toda a papelada em uma data posterior. E havia certas vantagens em invadir o exército em seus próprios termos – ele duvidava que os soldados fossem autorizados a seguir em um trem de primeira-classe para o campo de batalha. Além disso, a papelada não era a parte divertida, e Rupert só queria fazer as partes divertidas.
Em seu novo uniforme, Rupert saiu do trem. Ele estava pronto para dominar essa guerra. Mas, em vez de estar cheio de moradores aplaudindo, a plataforma da estação estava praticamente vazia. E as pessoas que estavam lá andavam com a cabeça abaixada, seus filhos escondidos apertados aos seus lados. Estava tão quieto – como se todo mundo tivesse medo de fazer ruídos repentinos.
Rupert ajeitou o colarinho, caminhou até o balcão e perguntou onde epoderia pegar um carro para levá-lo para o campo.
O homem no balcão ergueu as sobrancelhas por causa da pergunta.
Je suis désolé — disse o homem. — Sem carros. Todos os carros estão em uso pelo exército. Sem carros. Désolé, désolé. Sinto muito.
Pardonnez-mo Rupert disse, dando um passo para trás e apontando para sua camisa cáqui bem passada. — Mas quem você acha que eu sou?
— Estou désolé — disse o homem de novo — mas eles não estão aqui. Sem carros aqui. Soldados – os senhores andam.
— Andar? Até o campo? — indagou Rupert.
E o homem no balcão assentiu.
— Siga a à l’est e o encontrará.
Rupert achou que o homem deu de ombros.
— Tem que haver outra maneira. — disse o Rupert.
— Receio que não — respondeu o homem da bilheteria, e ele pareceu tão triste quando o disse. — Vous savez. Esse é o último trem que vai para o norte. Depois disso, os três só carregarão soldados e comida para o exército. Não haverá mais bilhetes à venda.
Rupert olhou para ele com desconfiança. Ele estava dando a entender que Rupert deveria voltar para o trem? Ele não podia fazer isso.
— A guerra acabará logo — Rupert disse, não sabendo mais o que dizer.
Oui o homem da bilheteria concordou. — Esperemos. Bonne chance.
Rupert levantou a mochila no ombro e virou-se, sentindo-se transtornado. Ele não sabia o que o bilheteiro queria dizer, mas ele tinha outros problemas para resolver. Como chegar ao campo de batalha, e salvar seu orgulho no processo.

* * *

Rupert acabou não caminhando. Ele conseguiu pegar uma carona em uma carroça cheia de ovelhas e couves, sendo conduzido por um velho agricultor e um cavalo cinzento ofegante. Era uma jornada tortuosa, e o pensamento de ser descoberto por um colega Cahill fez seu rosto queimar. Ele era sacudido na parte de trás da carroça como se fosse um repolho, e o cheiro de tudo instalou-se tão veementemente em seu nariz que ele que achou que nunca mais se livraria daquilo. Mas pelo menos não estava andando. Tinha dito que não iria à pé, e esse era o ponto da discórdia.

Ici, ici falou o agricultor, a quem Rupert pagara para levá-lo em sua carroça.
— Nós não chegamos ainda — disse Rupert. Ele podia ver lá na frente o que parecia ser um amontoado de barracas e pilhas de suprimentos. — É mais a frente ainda.
Vous marchez disse o agricultor, desacelerando.
Obviamente, esta era uma questão de barreira de linguagem. Rupert saltou da carroça de repolhos, a mochila sobre o ombro.
— Olha. — disse ele, fazendo um gesto para o acampamento. — Lá. É para lá que estou indo.
Marchez — concordou o agricultor, assentindo. — Bonne chance!
 E então ele sacudiu as rédeas e o cavalo começou a seguir para longe.
— Ei! — Rupert gritou, deixando cair sua mochila na estrada e agitando os braços. — Pare! Volte aqui! Volte aqui agora mesmo!
Mas o fazendeiro o ignorou, e Rupert ficou lá, de pé na estrada fria. O acampamento parecia ainda mais distante agora do que antes. Ele olhou para trás, para ver se outro agricultor estava deixando a cidade e se dirigia para o mesmo lado que o dele. Mas não havia ninguém. E um sentimento de isolamento, como uma cobra fria, escorregou por sob sua pele. Ele estava sozinho, em um campo, no meio da guerra na França. O que, ao menos, significava que não havia ninguém para testemunhar sua humilhação.
Rupert recolheu sua mochila e saiu da estrada. Sua bota fez um barulho enjoativo e nojento quando pisou na lama. Um trovão ressoou ao longe, e a última coisa que ele queria era ser pego no pântano em uma tempestade. Ele provavelmente se afogaria ou seria arrastado para dentro das águas lamacentas. Então seguiu o seu caminho através da lama enquanto os trovões aumentavam.
O que uma vez foi um campo de trigo ou lavanda ou teve vacas e ovelhas que pastavam fora transformado na porta de entrada de uma guerra. Era depressivo. Rupert tinha certeza de que coisas melhores estavam por vir. Ele entraria no campo e se apresentaria como um comandante, e seu destino seguiria o curso certo. Suas habilidades naturais de liderança se revelariam em pouco tempo. Seria, como sua babá Pat sempre falava, mamão com açúcar.
A noite caía rapidamente, então Rupert se apressou. Enquanto ele se aproximava do acampamento, o trovão ficou mais alto, mas ainda não havia chuva, e não havia raios.
— Quem está aí? — veio uma voz do campo. — Ou! Apareça! Você aí – vamos logo, saia daí agora!
Era um jovem soldado, balançando seu quepe na direção de Rupert. Rupert apertou o passo e correu até onde as tendas e barracões temporários estavam amontoados. Ele não entendeu muito bem – ele estava bastante sujo. Não existia motivo pra se preocupar com a chuva. Na verdade, achou que provavelmente faria algum bem ao uniforme dele. Mas o que ele ouvia não eram trovões. Outro estrondo explodiu acima deles, muito mais perto desta vez. Tão perto que Rupert pôde sentir a terra tremer debaixo dele, provocando arrepios através de suas pernas.
— Bem, esse foi perto — o soldado comentou, esfregando uma mão suja no rosto sardento.
— Esse o quê? — perguntou Rupert.
O solado olhou para Rupert como ele fosse a pessoa mais louca dali.
— Os... os alemães. Você sabe... os... os... Ah, você estava brincando! Me pegou. Pegou mesmo. Quase me assustou.
Rupert entrou no jogo e sorriu, mas por dentro ele não sorria. Os alemães estavam tão perto – e tinham armas que poderiam rachar a terra debaixo dele? O duque de Wellington não se defendeu disso quando travou a batalha de Waterloo contra Napoleão.
— Eu sou o Comandante Especial Davenport — disse Rupert, ignorando o riso do soldado. — E exijo ser levado ao seu superior. Imediatamente.
— Ah, imediatamente. Comandante Especial, uau — repetiu o soldado, e Rupert ficou satisfeito que ele tivesse ficado apropriadamente surpreso.
— De fato — Rupert concordou, sorrindo.
— Oh, ah, claro, sim. — disse o soldado — General de brigada Keswith, é quem o senhor está procurando. Dê a volta, e vá para a segunda tenda à direita.
— Muito obrigado — respondeu Rupert, seguindo na direção indicada.
O chão tremeu novamente, e ele tentou não deixar seu medo transparecer. À distância, ele podia ver torres de fumaças negra, e de vez em quando um resplandecer laranja de fogo. Rupert bateu no armação da tenda, perto da entrada.
— Quem está aí? — uma voz chamou de dentro.
Rupert entrou. E imediatamente se sentiu decepcionado. Não havia mesas abarrotadas de cartas e mensageiros apressados. Quase não havia sequer uma mesa para o comandante a quem a tenda pertencia – havia apenas o que parecia ser uma porta de celeiro apoiado num caixote e num balde virado. Não era exatamente o cenário que ele imaginou para sua ascensão rápida para a fama e a glória.
— Eu... eu estou aqui... — Mas Rupert estava com dificuldade para encontrar as palavras. Não era o que ele esperava.
— O que é? Fale mais alto, garoto, vamos! Eu não tenho o dia todo! — O general de brigada Keswith checou seu relógio e se levantou.
Ele era alto e magro, com bigode grosso e óculos mais grossos ainda. Ele não se parecia com o Duque de Wellington.
— Estou... relatando, senhor! — disse Rupert, fazendo o seu melhor numa continência. — Acabei de vir de um trem da Inglaterra. Me disseram para, hã, reportar aqui.
Ele tinha que fazer isso funcionar. Pensar em retornar para casa em desgraça era demais para ele processar.
— O que diabos você quer dizer? — indagou o oficial. — Não estou esperando homem nenhum. Certamente não apenas um.
— Fui enviado em missão especial — disse Rupert. — Comandante Especial Davenport, senhor.
— Comandante Especial, é? — repetiu ele. — Especial de que maneira, então?
Rupert sorriu orgulhosamente.
— De todas as maneiras. Mas sou particularmente bom em liderar homens. Também sou uma espécie de químico, e conheço mais da história militar do que, bem, quase todo mundo.
O general soltou uma gargalhada.
— Um químico! Qual o uso de um químico aqui? O que você vai fazer? Ferver os alemães em um bico de Bunsen? Entediá-los até morte, é? Por que diabos... Por que você está desperdiçando o meu tempo?
Entediá-los! Rupert ficou horrorizado. Não havia nada de entediante nos venenos mortais e na delicada precisão da química. Ele abriu a boca para argumentar, mas Keswith não estava mais prestando atenção nele.
— Davenport. — o comandante estava murmurando, então ele balançou a cabeça. — Vá para as trincheiras. O coronel Bullsworth saberá o que fazer com você.

* * *

As trincheiras. Rupert tinha lido sobre elas nos jornais em casa. Ele sabia que os soldados cavavam no chão e protegiam as laterais dessas valas com madeira e sacos de areia. Sabia que os soldados de ambos os lados ficavam nelas para se proteger de todos os novos tipos de armas de guerra – morteiros e metralhadoras, lança-chamas alemães que Rupert pensava soar como algo que alguém simplesmente inventara um dia, e não podia possivelmente ser real. Ele sabia que as trincheiras eram enlameadas e frias. Mas apesar de tudo o que sabia, descobriu que não estava preparado.
As trincheiras espalhavam-se por quilômetros através da França e da Bélgica, e quando as viu, Rupert não pôde evitar pensar que elas pareciam enormes sepulturas abertas. Estavam cheias de água e lama, às vezes na altura dos joelhos, e ratos corriam de um lado ao outro como se estivessem em patrulha. Arame farpado enrolava-se no alto como trepadeiras mortais.
Rupert respirou fundo para que seu peito inflasse, e ergueu um pouco o queixo.
Era melhor que o coronel Bullsworth não achasse que poderia manter Rupert em um lugar como aquele. Era nojento! E frio.
Outra explosão aconteceu nas proximidades, e Rupert instintivamente cobriu a cabeça. Os homens à sua volta correram de um lado para o outro em fileiras, gritando e se preparando para atirar de volta. Eles lutavam com as roupas molhadas, com ataduras em torno das mãos no lugar de luvas. Suas botas estavam encharcadas e algumas das solas batiam em volta como línguas soltas.
O tiroteio acontecia em rajadas interruptas, até que, finalmente, pararam. E, em vez de darem vivas no final, os soldados apenas suspiraram e se abaixaram contra as paredes das trincheiras.
Rupert podia dizer imediatamente que as trincheiras não era lugar para alguém com suas ótimas habilidades. Nem era a maneira como ele gostaria de morrer. E, embora a pequena tenda do general de brigada Keswith não fosse inteiramente impressionante, Rupert tinha certeza de que ele poderia melhorar as coisas.
— Mantenha a cabeça abaixada, pateta! — alguém gritou para ele, e Rupert pulou para dentro e baixou a cabeça. — O que, é a primeira vez fora de uma fazenda?
— Certamente não de uma fazenda — disse Rupert. — Estou procurando pelo coronel Bullsworth. O general Keswith me enviou.
— Bull está pra lá — rosnou um dos soldados, apontando para o outro lado.
Rupert esticou a cabeça e viu uma fila de soldados trabalhando na escavação em uma nova parte da trincheira. Um deles era um homem impressionantemente grande cavando com o dobro da velocidade dos outros.
— É assim que se faz, garotos — ele rosnou; estava sorrindo tanto que Rupert imaginou que ele devia mesmo estar se divertindo.  — Continuem, pelo Rei e pelo país!
O resto dos homens só podia murmurar ou gemer com o peso de toda a terra ao seu redor.
Rupert marchou até ele.
— Com licença, senhor. — ele disse. — Comandante Especial Davenport reportando. General da Brigada Keswith me enviou aqui, coronel Bullsworth. É um prazer conhecê-lo.
O soldado parou de cavar e lançou a Rupert um olhar estranho, como se ele não soubesse muito bem o que estava acontecendo. Como se ele fosse um gato, e Rupert um canário surpresa que tinha acabado de cair do céu.
— Com licença — disse uma voz atrás dele. — Eu sou o Coronel Bullsworth. Muito obrigado, major Thompson, volte ao seu posto.
O verdadeiro coronel Bullsworth era muito menor do que o homem com a pá. Ele parecia, na verdade, mais como um leitão do que um bull – touro, em inglês, a que se referia seu sobrenome. Suas bochechas eram avermelhadas, seu cabelo era loiro-branco, e seu nariz, empinado para cima.
— Keswith o mandou, foi?
Rupert tentou ignorar o olhar engraçado que o tal major Thompson lhe lançou antes de sair, de volta para onde quer que o seu posto ficasse. Em vez disso, voltou sua atenção para Bull.
— Sim, senhor! — respondeu Rupert, animando-se instantaneamente. — Ele me mandou aqui para o senhor. Sabia que eu seria perfeito para, hã, qualquer coisa importante que precise que alguém faça.
Certamente, o coronel tinha algo importante que precisava ser feito.
— Sim, sim — disse Bullsworth. — Leve esta mensagem ao capitão McIntyre.
Ele entregou um pedaço de papel dobrado para Rupert, que olhou para ele.
— E o que faço depois disso? — perguntou Rupert.
— Você volta com a resposta do capitão McIntyre. — ele respondeu.
Rupert encarou o papel com um olhar semicerrado, mas o pegou de qualquer maneira.
— Onde está o capitão McIntyre?
— Na próxima trincheira — apontou o Coronel.
As trincheiras não eram valas retas como ele tinha pensado que seria. Elas se curvavam e se projetavam em ângulos. E não eram uma linha longa e única; eram divididas em segmentos. Dessa forma, se os alemães chegassem a uma delas, a seguinte não seria comprometida. Mas se o capitão McIntyre estava na próxima trincheira, isso significava que Rupert teria que ir lá em cima. Subir para o lugar onde as armas e as granadas e os cadáveres estavam.
— Mas e se eu... e se eu não conseguir? — indagou Rupert.
— Eu sei o que a mensagem diz. Posso escrever outra. Vá logo.
 Rupert olhou para a borda da vala.
 Certo.
Seria fácil. Apenas subir, correr alguns metros, e depois voltar para dentro da trincheira. Ainda assim, ele tremeu ao pensar sobre isso.
Talvez houvesse algo mais que ele pudesse fazer. Mas o coronel já tinha ido embora, e Rupert não podia entregar a mensagem de volta para ele. Ele olhou por cima do ombro; um dos outros soldados estava ali, olhando para ele. O outro soldado ergueu as sobrancelhas, como um desafio. Ele tinha ouvido tudo, parecia. Rupert devolveu o olhar penetrante, e franziu a testa para o outro soldado.
— Siga em frente, então. — Rupert zombou. Ele colocou a mensagem no bolso do paletó e o abotoou.
Além disso, havia sempre a possibilidade de que essa mensagem pudesse virar a maré da guerra. Ele pensou no que eles diriam em casa quando Rupert voltasse com medalhas brilhantes.
Rupert colocou as mãos na escada. Ela estava coberta de lama e areia, e algo pegajoso em que ele não queria pensar muito. Em sua cabeça, ele tinha colocado uma música dramática e estrondosa para tocar no palco. E então, num disparo, atirou-se para cima.
Os alemães não perderam tempo. Houve um estalo, e outro, e mais um. O som de tiros ricocheteou em torno de sua cabeça, e ele mergulhou para a frente na terra.
Cada instinto animal em seu cérebro acordou de uma vez. Seu corpo paralisou e sua mente ficou em branco. Ele queria gritar, mas nenhum som saía de sua boca e nenhum ar entrava em seus pulmões. Ele não conseguia se mexer, estavam atirando nele e Rupert sabia que iria morrer.
Ele tinha que se mexer.
Levou cada grão de autocontrole que Rupert possuía, mas ele se arrastou para frente com os cotovelos e joelhos, a terra em sua barriga encharcando-se com a lama fria. Ele estava lutando, tentando ir mais seis, mais três, mais dois metros. Pedrinhas de terra se ergueram ao seu lado, onde uma bala foi atirada e enterrada no chão. Ele enfiou os dedos dos pés na terra e meio correu, meio rastejou através de uma névoa de tiros, lanças, e rolos de arame farpado.  E então, com a borda da vala próxima à vista, ele mergulhou.
Caiu desajeitadamente para baixo sobre as costelas e entre os braços e pernas e ombros dos soldados que estavam lá.  Alguns já tomavam xícaras de café; outro estava cochilando. Rupert efetivamente estragou tudo para eles.
Felizmente para ele, eles não estavam bravos.
— Certo, chega para o lado. — disse o mais alto, que, novamente, não parecia ser mais alto que Rupert. — Quem está procurando?
Mas Rupert descobriu que estava com dificuldades para falar. E para ouvir. Tudo à sua volta era um rugido branco fosco. Suas mãos tremiam e ele não conseguia impedi-las.
Ele cruzou os braços e colocou as mãos nos sovacos, mas o resto do corpo começou a tremer até que seus dentes batiam, e ele imaginava se seus olhos revirariam para dentro de sua cabeça.
— Primeira vez aqui, né? — perguntou o soldado mais alto. — Aqui, sente-se. Smitty, me entregue aquela caneca ali.
Outro soldado, que não estava cochilando, entregou uma caneca de estanho para o primeiro.
— Aqui, tome. Espere um minuto para se acalmar.
Ele deu Rupert a caneca, e Rupert pegou. Ela ainda estava quente, apesar do ar frio de dezembro. E, enquanto no mundo normal Rupert Davenport nunca, mas nunca colocaria a boca em qualquer coisa que outra pessoa tivesse tocado, ele tomou um gole do café.
Estava quente e amargo, e ele voltou a se sentir como o seu eu normal e agitado.
— Obrigado — Rupert agradeceu. E o soldado alto tocou seu capacete. — Estou procurando pelo capitão McIntyre.
— Claro — respondeu o soldado alto. — Ali atrás.
Rupert agradeceu e partiu. Ele encontrou o capitão, e, em seguida, teve de esperar enquanto ele escrevia uma resposta.
— Aqui está — disse o capitão McIntyre, devolvendo a mensagem para Rupert. — E diga ao coronel que sim, se ele quiser a lata de biscoitos, tudo bem para mim.
— Era uma mensagem sobre biscoitos? — perguntou Rupert, chocado.
— Não inteiramente. Vá agora. Essas coisas não se enviam sozinhas.
Mas quando Rupert estava na frente da escada de novo, ele descobriu que não conseguia se mover. Sabia que estavam todos observando-o. Ele podia sentir os olhos em suas costas. Suas mãos tremiam e não importava o quanto seu cérebro gritasse para as pernas, ele não conseguia fazê-las erguer os pés para subir nos degraus. E antes que Rupert percebesse, ele estava balançando a cabeça e dizendo: “Não. Não, eu não vou. Não.”
— Ei — disse o soldado alto que tinha lhe dado o café. — Olha, você tem que ir. Não pode dizer não. Você vai ser baleado, garoto.
A boca de Rupert ficou seca. Ser morto na trincheira por não subir, ou ser morto na terra ninguém, porque estava lá em cima. Não parecia um negócio justo.
Por um momento, Rupert desejou que não tivesse sido tão desdenhoso quando Albert tentou avisá-lo sobre o que a guerra era realmente, mas era tarde demais para isso agora.
— Eu não sou covarde. — Rupert falou. E tentou se convencer.
Ele engoliu a secura em sua língua e ergueu um pé para o primeiro degrau. Seu coração era como um bloco de chumbo batendo dentro dele – tão pesado e tão frenético que ele podia o sentir a pulsação em seus joelhos e olhos.
Se ele quisesse ser levado a sério, teria que fazer isso.
Rupert contou até três, então correu como um coelho em uma caça à raposa. A linha alemã entrou em erupção com os tiros de novo, e cabeça de Rupert ficou vazia. Ele estava cambaleando. Na borda de sua trincheira, ele caiu novamente.
— Muito bem, Davenport — disse Bull, vendo-o cair ali.
Mas Rupert não o ouviu. Sua cabeça ainda estava vazia e ele tremia de novo, e isto era horrível. Ele nunca se sentira tão mal em toda a sua vida, e isso incluía a vez em que Albert roubara seu urso de pelúcia, Barão von Tuffington, e o enterrou nos estábulos.
— Eu disse — Bull se aproximou e colocou a mão em seus ombros. — muito bem, Davenport.
E foi então que Rupert vomitou nas botas de Bull.

* * *

Não era para isso que Rupert estava destinado.
Ele havia sido relegado à função de escavador de trincheiras e suas mãos estavam cobertas de calos e bolhas, seus ombros doíam com cada toque de sua pá, e suas botas foram arruinadas por ficar com água até os tornozelos durante oito horas todos os dias, de modo que agora a água penetrava nos seus pés, fria e suja.
Isso havia acontecido com alguns dos outros rapazes, também, e seus pés estavam inchados e manchados com feridas. Trabalho essencial, era chamado, mas Rupert não acreditava nisso. Ele queria uma chance – não parava procurar uma oportunidade. Como o pai disse que ele deveria fazer.
Mas sua chance encontrou-o na manhã seguinte.
Rupert fazia um pequeno café da manhã composto de feijão enlatado quando um soldado se aproximou de Rupert, ofegante.
— Você é... você é Davenport — ele falou.
— Certamente — disse Rupert, como um cavalheiro. — Como posso ajudá-lo?
— O major — o soldado respondeu. — Estive procurando... em todo canto. O major quer vê-lo — revelou, em seguida, virou-se e se enfiou no meio dos outros soldados novamente.
Rupert pegou sua mochila e fui atrás dele, passando por cima de outros soldados, que estavam dormindo ou barbeando-se ou escrevendo cartas para casa.
O soldado raso levou Rupert a um dos buracos úmidos que tinham sido construídos nas trincheiras. Sacos de areia molhados formavam as paredes, e o frágil teto de lama era sustentado por vigas curvadas de madeira. Uma luz forte vinha de uma lanterna fumacenta, lançando sombras saltitantes sobre tudo. O major estava sentado sobre uma caixa virada, um mapa aberto a sua frente e um charuto preso entre os dentes. Era o mesmo homem que Rupert vira em seu primeiro dia, a pá removendo terra do chão como uma máquina. Só pensar nisso fez subir um arrepio pelos braços de Rupert. O major era um homem largo e alto; Rupert imaginou que se parecia com ele, também, formado de caixotes empilhados um sobre o outro.
— Senhor! — exclamou o soldado raso, chamando atenção. Comandante Especial Davenport, conforme solicitado, senhor!
— Sim, obrigado, soldado — disse o major, olhando para cima. Ele tirou seu charuto da boca e fez um gesto para Rupert com ele. — Sente-se, filho. Soldado Jenkins, traga a bandeja de chá.
Jenkins foi rapidamente até ela, e Rupert sentou-se em frente ao major.
— Eu sirvo — disse o major. Ele pegou o bule e delicadamente serviu uma xícara para Rupert e uma para si mesmo. — Açúcar? — Ele perguntou, antes de acrescentar quatro cubos na sua própria xícara.
— Obrigado — agradeceu Rupert, mexendo seu chá. — Eu aprecio o gesto. Faz tanto tempo desde que me sentei com uma xícara adequada.
— Imaginei que você poderia dizer algo assim.
— Imaginou?
— Sim. Estive observando-o, Davenport. Perceba o meu choque em encontrá-lo no seu primeiro dia aqui! Bem, eu sei o que você espera. Eu sei sobre Eton. Sei sobre Oxford. E sei sobre o Marne. Fiquei surpreso ao vê-lo por estas bandas, mas eu deveria saber que você teria ouvido os rumores a essa hora.
Rupert parou por um momento, e então assentiu com a cabeça. Então o major pensava que ele era Albert.
Tudo bem. Rupert poderia jogar com isso.
O major recostou-se em sua caixa, tomou um gole de chá, e nivelou o olhar com Rupert.
— Tenho uma missão para você, Davenport.
Rupert sabia o que estava por vir. Podia senti-lo, ele jurava, um quilômetro atrás. Mesmo assim, sentou-se um pouco mais ereto.
— Sim?
— Eu preciso de alguém com as suas particulares... habilidades — falou o major — e conexões.
— Certamente! — respondeu Rupert. Ele tentava ao máximo não parecer ansioso demais – ele queria desesperadamente agir com calma. Mas estava falhando. A perspectiva de roubar uma missão especial logo debaixo do nariz de Albert fez os músculos de Rupert se contorcerem de excitação. Podia imaginar-se contando a história na mesa de jantar. “Bem, sabem, originalmente eles queriam Albert para o trabalho, mas depois perceberam que eu era muito mais adequado para a tarefa.”
— Será perigoso — continuou o major. — Terrivelmente. Nós seremos conduzidos através das linhas inimigas.
Melhor ainda, Rupert pensou consigo mesmo.
Talvez ele gostasse de encontrar uma maneira de enviar um telegrama para seu pai de um correio estrangeiro, assim ele saberia que Rupert já estava no meio disso.
— É só pedir e eu estarei pronto, senhor — Rupert falou. — Seria uma honra servir o rei e o país em qualqu...
Mas, então, Rupert parou. Porque algo chamou sua atenção – um anel na mão do major. Um anel com um timbre. Uma timbre azul com um urso branco. Foi quando Rupert se levantou.
— O que você quer? — perguntou abruptamente.
Um Tomas. O major era de outro ramo da família Cahill. Rupert sentiu uma onda de desconfiança deixar todos os nervos de seu corpo em estado de alerta. Esta situação se distanciou demais de uma coincidência para ser qualquer outra coisa além de uma armadilha.
Mas o major meramente tomou outro gole de seu chá.
— Sente-se, Davenport. Ficará muito mais confortável.
— Ficarei de pé, obrigado — disse Rupert.
Mas o major apontou.
— Sente-se agora — ordenou, em um tom que fez Rupert obedecer. — Agora, onde estávamos? Certo. Você estava falando sobre o rei e o país. É maior do que isso, apesar de ser mais um assunto de família, primo.
— Não me chame assim — disse Rupert.
— Olha — disse o major, apertando o seu charuto. — Eu não gosto disso mais do que você. Acha que quero perder meu precioso tempo tentando falar com algum Lucian escorregadio? Não, não quero. Mas as coisas acontecem, e aqui estamos nós.
Rupert não falou mais nada. Ele não estava prestando atenção. Olhava para trás do Tomas, por sobre seu próprio ombro, para o chão, tentando descobrir de onde o golpe viria.
— Pare de ficar se remexendo — disse o major Tomas.
— Eu não estou me remexendo — retrucou Rupert. — Estou tentando descobrir como vai me matar. Deve ser algo que tenha a ver com a força bruta. Seu tipo não é conhecido pela astúcia ou imaginação.
O sorriso do major era sombrio.
— Se eu o quisesse morto, Davenport, você estaria enterrado ou meio devorado neste momento. Infelizmente, preciso de você vivo para o que tenho em mente. Então feche a boca, e me escute. Os alemães – eles sequestraram um Cahill.
Rupert cruzou os braços.
— Um Lucian? Porque se não for, isso não é da minha conta.
O rosto do major ficou severo, semelhantes a nuvens turbulentas e escuras antes de uma tempestade.
— É da conta de todos nós. Não apenas da família. Não apenas do clã. É de todos nós. Eles pegaram um Ekat.
— E?
— Não seja idiota — devolveu o major. — O nome dele é Dr. Frederick Woolsey. Ele é um químico de Oxford. Estão fazendo-o trabalhar em algum tipo de... Eu não conheço todos os detalhes, e mesmo que conhecesse, não entenderia. Mas é uma arma, e se ele for muito longe com isso, a guerra será perdida. Sei que os Lucian tem tanta simpatia quanto uma porta e são tão cooperativos quanto crianças mimadas, mas isso é importante.
— Eu não estou interessado — Rupert falou, e se levantou. Sua família dificilmente ficaria impressionada ao saber que ele passara o seu tempo no continente resgatando um Ekat.
— Isso é muito ruim. Nunca pensei que veria um covarde entre os Lucian.
Rupert congelou. Ele se mostrou indignado. Sabia que não deveria se dignar a uma resposta, mas ele realmente não conseguiu evitar.
— Eu não sou covarde.
— Então sugiro que fique. A menos que queira que o seu clã seja deixado de fora da missão de resgate mais importante deste século. Não será fácil, Davenport, mas tem que ser feito. Esse Woolsey é tão genial que eles o raptaram, e não quero pensar em que eles o tem trabalhando. Nós temos que trazê-lo volta para este lado da linha, e teremos que destruir seu laboratório. Não é uma piada.
Rupert se virou e encarou o Tomas.
— Acredite em mim, eu também não gosto disso — disse o major. — O fato de eu estar pedindo para que o faça é uma prova da gravidade da operação.
Rupert sentou-se na cadeira. O major deu um bom argumento.
— Tudo bem — disse Rupert. — Vou dignar-me a ajudá-lo. Mas não se atreva a tentar qualquer coisa.
— Juro por meu aconchegante chá favorito — respondeu o major, colocando uma mão em seu coração e erguendo a outra no ar. — Além disso, há outro primo chegando. E preciso de você por perto para me manter são. Se há uma coisa pior do que um Lucian, é um Janus.
Um Janus. Rupert fechou os olhos. Se a guerra não o matasse, a companhia o faria.

* * *

No dia seguinte, ao entardecer, Rupert e major Thompson se prepararam para sair. Rupert tinha ido furtivamente até as tendas de abastecimento naquela manhã e escondido algumas latas de feijão e pacotes de biscoitos em sua mochila, escondendo-a sob seu uniforme reserva. Ele não tinha muito mais além disso – uma escova de dentes, um cobertor de lã e dois primos antagônicos. Apesar do absurdo da situação, ele estava pronto. Teve um momento para pensar nas coisas, e ele decidiu que esta era a sua chance. Ele faria algo surpreendente nesta missão, e, em seguida, todos o veriam por sua importância. Pelo quanto ele significava.
Esta não era apenas uma missão de guerra – esta era uma missão Cahill, o que era infinitamente mais importante do que apenas uma história de guerra.
O plano do major Thompson era bastante simples. Eles sairiam das trincheiras.
Em seguida, nos pomares a oitocentos metros de distância, se encontrariam com o primo Janus. De lá, se esgueirariam através da fronteira entre os exércitos. Seguiriam as trincheiras enquanto elas serpenteassem pela fronteira da França para a Bélgica, atravessando o rio Lys. Major Thompson sabia de um estiramento à direita ao longo do rio onde as trincheiras foram todas destruídas por um bombardeio algumas semanas atrás. Eles usariam a calmaria lá para atravessar o rio, se esgueirariam para a antiga fábrica onde o Ekat estava sendo mantido, destruiriam o laboratório, e em seguida, levariam sorrateiramente o doutor para o outro lado.
Rupert sabia que a primeira parte – deixar as trincheiras – poderia ser a última também. Ele começou a tremer só de pensar nisso. Mas jurou a si mesmo que, não importa o que acontecesse, ele não vomitaria em qualquer momento.
Rupert e major Thompson esperaram até que estivesse escuro. Eles desceram ao longo da parte mais escura das trincheiras, onde não havia lanternas, nem luar. Era uma noite tranquila – houvera uma pausa nos combates, e uma quietude dura pairava sobre tudo. Era como se a escuridão estivesse com medo de se mover em torno deles, com medo de despertar a guerra novamente. A paz era momentânea – Rupert sabia, e todos sabiam que o trecho de terra em frente era um cemitério de minas terrestres e homens mortos.
— Pronto? — sussurrou o major.
Rupert tentou responder que sim, mas não conseguiu falar. No entanto, acenou com a cabeça, como se não fosse grande coisa.
— Ok — disse o major.
E então, quando chegaram ao três, eles soltaram para cima e por sobre a borda.
O coração de Rupert estava batendo tão rápido e tão alto que ele sabia que os alemães poderiam ouvi-lo.
Com o rosto pressionado na lama fria, Rupert esperou os tiros. Esperou para morrer. Mas nada veio. Eles não devem ter nos visto, ele pensou. Não havia luar por causa das nuvens espessas. Ele prometeu a si mesmo que nunca mais reclamaria sobre o mau tempo novamente.
Sentiu a mão do major Thompson em seu ombro. O major bateu uma vez, duas, três vezes, e na terceira vez, os dois se ergueram e desabalaram em uma corrida meio agachada. Eles iam para a floresta, para a segurança da linha das árvores.
Rupert tentou ignorar tudo ao seu redor. Tentou ignorar o inimigo que se escondia a poucos metros de distância. Tentou ignorar os corpos dos mortos. Disse a si mesmo para manter os lábios cerrados e os olhos adiante. Tentou ignorar os rolos de arame farpado à espera de saltar nele, enredá-lo, segurá-lo enquanto as pessoas atirariam nele.
Ele podia fazer isso, jurou a si mesmo. Poderia mostrar a eles. E talvez, pensou uma vozinha em seu cérebro, ele poderia mostrar a si mesmo, também.
Eles se moviam silenciosamente através da escuridão. Mas as mesmas nuvens que os protegiam da vista dos outros também quase os matou. Porque Rupert pisou em um fosso lamacento e encharcado de um morteiro. O splash ainda parecia ecoar na noite fria, e perto demais, Rupert pôde ouvir o primeiro movimento alemão.
Wer da ist? — Chamou um deles.
— Corra! — Major Thompson assobiou.
Discrição não era mais a prioridade, apenas velocidade. Um rugido surdo começou na parte de trás do cérebro de Rupert, e se espalhou ao redor de sua cabeça, enchendo os seus ouvidos até que tudo o que ele podia ouvir eram as batidas de seu próprio coração e o som dos seus próprios passos. Impulsionou-se atrás major Thompson, sentindo como se estivessem apenas alguns centímetros à frente da artilharia alemã. Era exatamente como entregar as mensagens, mas em vez de para outra trincheira, ele estava correndo para a linha de árvores.
Até que ele tropeçou. Com um grito, Rupert foi lançado à frente. Ele caiu de cara, as mãos deslizando para a frente, e sua mente ficou vazia. O mundo desapareceu em uma névoa branca e a única coisa que ele sabia era do seu próprio corpo, seus membros na terra, e seu coração, de alguma forma, ainda batendo.
Ele levantou a cabeça e parecia que estava se movendo através de águas profundas, sendo pressionado para baixo por elas.
Com uma grande fenda ao lado de sua cabeça, o mundo inteiro voltou para ele. Sons e cheiros o acertaram novamente: as rajadas afiadas de tiros, o cheiro de terra, lama e sujeira, as botas do major Thompson contra o chão se afastando cada vez mais.
Rupert tinha de se levantar. Ele se empurrou contra o chão, cavou suas botas na lama. E então ele estava correndo.
Quando passou a linha das árvores, major Thompson agarrou-o pelo colarinho e arrastou-o para baixo das folhas encharcados.
— Me largue! Fique longe de mim! — Rupert chiou, lembrando-se apenas no último minuto de manter a voz baixa. Portanto, este era o plano de Thompson, pensou. Ele mataria Rupert quando saíssem das trincheiras, na floresta. Isso é o que um Cahill faria. Era nisso que Rupert deveria ter pensado.
— Shh! — Major Thompson colocou a mão sobre a boca de Rupert. — Você vai nos fazer levar tiro, seu idiota. Pare com essa birra! Fique quieto!
Rupert finalmente ficou. Mas só para que pudesse parar e pensar numa maneira de escapar.
— Agora levante-se — disse o Major Thompson, estendendo a mão para ele. — Nosso aliado Janus não vai esperar para sempre.
Rupert estava confuso. Ele olhou para a mão do major, desconfiado, mas a pegou e lentamente se levantou. Suas pernas pareciam gelatina e sua garganta estava seca. Ele não poderia continuar. Sabia que não podia. Rupert apoiou-se contra uma árvore, as mãos apertadas contra o peito. Seu coração. Ele ainda podia sentir seu coração batendo. Ele ficou surpreso – não entendia como ainda podia estar vivo.
— Terminou? Então vamos. Nós temos um caminho a percorrer.

* * *

A floresta estava escura e fria, e Rupert sentia-se muito perdido.
— Para onde estamos indo? — perguntou Rupert. — Aonde você está nos levando?
— Ao ponto de encontro — respondeu o major.
— Que fica aonde? Você tem que me contar ou eu vou embora.
— Tudo bem — disse o major. — Divirta-se voltando para as trincheiras. E depois diga a eles onde esteve.
Rupert rangeu os dentes e continuou andando. Ele não gostou do quanto o major estava certo. Rupert tentou pensar no futuro, mas pouco havia de atraente em acampar numa floresta no meio de dezembro. Mas, pelo menos, Rupert pensou, não haveria poças de água de quinze centímetros de profundidade ou ratos correndo em cima de você, enquanto se tentava dormir. Pelo menos, ele esperava que não houvesse.
— Ali, logo a frente — falou o major.
À frente deles, a dois campos de futebol de distância, estava uma luz trêmula.
O estômago de Rupert gelou – ainda mais, quer dizer.
— Poderia ser qualquer um — apontou Rupert.
— Não é. É para onde estamos indo.
Rupert não tinha certeza. Poderia ser o Janus, mas também poderia ser alguns alemães se escondendo. Ou franceses irritados com forcados. Uma pessoa não pode simplesmente ir até uma fonte de luz no meio da guerra e se esquecer de quem ela iluminava.
Rupert olhou por cima do ombro. As árvores eram escuras – a única fonte de luz vinha da lua, a mesmo que fora escondida pelas nuvens. Ele poderia correr para lá. Poderia contar até três e adentrar na floresta, e o major nunca o encontraria. Poderia fazer o seu caminho até uma aldeia e pagar alguém para levá-lo de volta para a Inglaterra e depois esquecer tudo isso.
Ou ele poderia congelar durante a noite e ser encontrado na beira da estrada uma semana depois, meio comido por cães selvagens.
Mas, desse modo, Albert estaria certo – todos estariam certos sobre ele.
Rupert esfregou um dos botões de bronze de seu casaco entre os dedos. Era duro e frio. Melhor, pensou ele, morrer como um Lucian do que como um ninguém na beira de uma estrada em lugar nenhum.
A construção com a lanterna era um velho celeiro abandonado. Rupert não podia ver muito na luz fraca, mas era um lugar bastante arruinado. Ele não tinha certeza de que ainda havia um telhado.
Quando estavam a poucos metros, o major inclinou-se para encontrar uma pedra ou um galho pesado entre os arbustos. E então o jogou no celeiro, onde atingiu a parede com um barulho.
A lanterna desapareceu da janela, puxada para dentro por uma mão invisível. A perda repentina de luz foi dura para os olhos de Rupert; ele não podia ver quase nada.
Wer ist da? — veio uma voz rouca e profunda a partir do interior. — Qui est là? Répondez-moi! Vite! Schnell!
Rupert recuou. Direto para os alemães. Major Thompson os tinha levado direto para os alemães.
Ta famille, ma cousine — o major Thompson gritou de volta. — Tes primos. Agora vamos entrar; está congelante aqui fora.
A porta se abriu, e a luz da lanterna derramou-se para fora. Foi aberta, não por um general alemão maciço ou por um agricultor francês com um forcado, mas por uma garota do campo que ainda tinha o cabelo preso em tranças. Ela não parecia muito mais velha do que Rupert.
— Não está muito melhor aqui — ela respondeu em um forte sotaque francês. E então ficou de lado para deixar os dois ingleses passarem, apertando os olhos para eles enquanto entravam. Claramente, esta menina Janus não confiava neles mais do que Rupert confiava nos outros dois. Ele imaginou que a única razão pela qual o major Thompson estava tão à vontade era porque ele poderia esmagar os dois com uma só mão.
A garota colocou a lanterna no centro do celeiro em um espaço livre de feno; lançando largas sombras ao redor. Faltava no celeiro, na verdade, grandes pedaços do teto, e o resto havia ali era coberto por feno velho e ervas daninhas mofadas.
— Você está atrasado — falou a Janus, cruzando os braços sobre o peito. — Pensei que tivesse com medo e decidido não vir.
O major bufou.
— Dificilmente. E se fosse esse o caso, acho que seria o contrário.
Excusez-moi, cochon Tomas?
— O que você acabou de me dizer?
— Qual é seu nome? — Rupert perguntou por sobre a discussão. Se eles se matassem, ele nunca iria encontraria seu caminho na floresta, e então seria um ninguém morto ao lado de uma estrada em lugar nenhum.
A menina apertou os lábios e deslizou seus olhos para trás entre Rupert e o major, como se estivesse tentando decidir se realmente queria dizer a eles.
— Marie.
— Eu sou o Comandante Especial Davenport, filho de Lord Alfred Winthrop Davenport, o Conde de Southington — ele respondeu. Em um mundo de Cahill, era melhor fazer estação de um perfeitamente claro. — Este é o Major Thompson.
Enchantée — respondeu Marie, mas Rupert não tinha certeza de que ela estava falando sério.
— Este é o lugar onde ficaremos? — perguntou Rupert.
Oui – sim.
— Você não tem um lugar – não há um lugar em que esteja autorizada a nos levar? Por que não estamos na sua casa, onde há uma lareira e camas? Você tem uma lareira, não é? — incitou Rupert.
Marie bufou.
— Você acha que eu deixaria um Lucian e Tomas entrarem na minha casa? Acha que os levaria até lá? Eu não sou estúpida, Monsieur Davenport.
— Comandante especial — Rupert a corrigiu.
Mas Marie não lhe deu a satisfação de um rosnado, ou um pedido de desculpas.
Naquela noite, Rupert fez o impensável.
Ele dormiu em uma pilha de feno molhado e mofado.
É claro, as condições nas trincheiras não eram muito melhores. Mas, pelo menos, se você se esgueirava para a parte de trás das linhas, geralmente se podia encontrar um catre livre e um cobertor. O que ele não daria por uma cama de dossel, um edredom e um mordomo trazendo-lhe uma xícara de cacau antes de apagar as luzes.
Foi uma noite agitada. Major Thompson roncava e Marie estava tão quieta que Rupert pensou que ela poderia estar morta. E durante toda a noite, Rupert sacudia-se acordado, o coração batendo forte, a certeza de que alguém estava a momentos de invadir celeiro ou queimá-lo às cinzas.
Ele olhou para o teto destelhado.
De todas as maneiras que Rupert imaginara esta aventura – todas terminando da mesma maneira, com o pai dando-lhe o gesto de aprovação que deu Albert, a mãe dizendo-lhe que ele tinha feito um bom trabalho – Rupert nunca, nunca imaginou que se encontraria escondido em um celeiro abandonado, prestes a assumir uma missão secreta de busca e salvamento com um Tomas e uma Janus. Ele se perguntou o que Albert faria em sua situação. Será que Albert se esgueiraria por conta própria, roubaria o plano do major e resgataria a Ekat antes dos outros dois acordarem de manhã? A ideia principal era de que ele Albert – então o que se esperava que ele fizesse e que habilidades especiais ele tinha a oferecer? A única coisa que Rupert sabia é que Albert era bom em ser um porco preguiçoso.
Mas pensar em coisas assim acerca de Albert não rendeu a Rupert o mesmo tipo de satisfação que antes. Ele apertou o casaco em torno de si mesmo e puxou os joelhos mais para perto do peito. Se culpar Albert pelas coisas que deram errado não o fazia se sentir melhor, então ele não sabia o que fazer.

* * *

De manhã, o casaco de Rupert estava congelado em pregas rígidas e uma película de gelo lamacento se formara em torno de suas botas, tão espessa que ele não podia soltar os cadarços. Os outros estavam acordados. Marie abrira a parte de cima do lampião e aquecia um pequeno recipiente de água sobre a pequena chama.
— Seu major está lá fora fazendo saltos e coisas sem sentido assim — falou Marie, seu nariz virado para cima.
Rupert levantou-se e espreguiçou-se, indo até a janela onde a lanterna estivera na noite passada. Major Thompson estava no pequeno espaço aberto em frente ao celeiro fazendo alongamento.
— Ele não é meu major mais do que é seu — respondeu Rupert, ao voltar para o lampião.
— O que você tem aí?
Café — respondeu Marie.
Rupert alcançou sua mochila e tirou um pacote de papel semi-esmagado de biscoitos salgados.
— Gostaria de compartilhar o café da manhã? — perguntou.
Ela não lhe daria café se ele não compartilhasse algo com ela, sabia. E Rupert teria dado seu braço esquerdo por qualquer tipo de calor.
Marie considerou isso por um momento.
Oui — ela concordou. E então: — Você acha que devemos guardar un petit peu para le major?
Rupert pensou sobre isso por um momento.
— O que você acha que ele faria se não guardássemos?
— Comer-nos de café da manhã? — sugeriu Marie.
Rupert quase riu. Quase. Só que estava perto demais de ser uma risada real e verdadeira, e possivelmente imprudente. Mas, ainda assim, eles salvaram alguns biscoitos e uns goles de café.
— Por que você está aqui? — perguntou Rupert enquanto comiam. — Quero dizer... ajudando a trazer o Ekat de volta?
— Você quer saber por que eu estou aqui, ou por que não sou um homem Janus grande e forte, com os músculos e essas coisas? — Marie devolveu.
— Ambos.
Marie franziu os lábios por um momento.
— Não é bom ter uma guerra em sua casa. Meu irmão luta; meu papa está doente. Não é bom aqui. A França está arruinada. E quando ouvi que eles tinham levado esse Dr. Woolsey, e que ele estava para fazer armas para os alemães... Eu não podia deixar que isso acontecesse.
— Mas o que você pode fazer para impedir? — perguntou Rupert. — Quero dizer... você é uma Janus. O que vai fazer?
Marie estreitou os olhos.
— Você é rude. E eu gostaria de vê-lo tentar atravessar la Lys sem a minha ajuda. Gostaria de vê-lo falar alemão, francês e inglês, por favor.
— Tudo bem, tudo bem.
— Você sabe o que é — continuou Marie — para ver sua família tão quebrada? Meu irmão está fora na guerra – eu poderei nunca vê-lo novamente. Mas acho que ele ficaria feliz por eu fazer isso. Mesmo que ele odeie os Tomas e os Lucian. Ele acha que a guerra é culpa de vocês.
— Eu tenho um irmão, também — disse Rupert, tomando um gole do café. — Ele está na guerra, também. Como eu, eu acho.
— Você se preocupa com ele?
— É complicado — respondeu Rupert. Antes ele não se preocupava, realmente. Todo mundo tinha feito a guerra parecer tão inofensiva – como se ninguém, na verdade, nunca se machucasse ou morresse com ela. Agora, de repente, ele se encontrava perguntando aonde Albert fora ao longo da linha. Ele ficou no frio e na umidade, também? O que será que ele pensava de Rupert, e aonde tinha ido? — Eu não fazia antes. Mas faço agora. Quero que ele se estabeleça em casa, tanto quanto eu quero me estabelecer lá, eu acho. Ele é meu irmão.
Após o café da manhã racionado, major Thompson se juntou a eles para uma reunião de estratégia.
O cientista Ekat estava sendo mantido logo depois do rio Lys – que também ficava apenas do outro lado das trincheiras alemãs – em uma fábrica. Fontes do major Thompson lhe disseram que era fortemente guardado por soldados.
— Bem, isso é muito óbvio — disse Marie. — Acha que eles o deixariam em uma coleira no meio de um campo?
Major Thompson fez uma careta.
— Isso seria ideal para você no momento.
Eles iriam para o rio durante o dia, major Thompson falou, para o levantamento da área. E então, naquela noite, fariam o seu movimento.
— Se me permite, major — disse Rupert — não acha que devemos esperar por uma mudança no clima? Parece que há neve, e a última coisa que eu gostaria de fazer é deixar um rastro de onde estamos acampados.
Rupert certamente não estava com medo – um Lucian nunca recuava perante um desafio – e certamente não na frente de um Janus ou de um Tomas.
Algo como isso seria equivalente a gerações de vergonha sobre os antepassados ​​– ou algo mais gosta de uma tragédia grega.
Rupert recusou-se a ser parte disso. Ainda assim, se sentiria um pouco mais à vontade se soubesse que não iria em território inimigo naquela mesma noite.
— Eu só não vejo quem o colocou no comando desta operação — continuou Rupert. — Esta não é uma missão militar; o seu posto não significa nada aqui. Como o futuro líder do clã Lucian, sinto fortemente que eu deveria ser colocado na posição de liderança.
— Eu protesto — disse Marie. — Esta é a minha terra e meu país. Devo dizer o que faremos.
— E eu digo que de nós três, eu sou o único com alguma experiência no campo de batalha. Portanto, vamos parar os dois de reclamar e nos preparar — disse o major.
— Eu não gosto do seu tom, major. Não gosto nada disso — Marie respondeu.
— Eu não me importo. Apenas faça o que eu digo.
O trio escondeu suas poucas coisas em um silêncio irritado – o lampião frio, um cobertor, uma mochila – sob o feno, e partiu para o rio.
— Vamos seguir este caminho — disse o major, orientando-os ao sair do celeiro.
Marie parou em seu caminho e balançou a cabeça.
Absolument non. Ele segue através dos pântanos e passa pela estrada principal. Seremos presos, ou capturados. Não, nós iremos por este caminho — ela apontou para a direita.
— Olhe, mademoiselle — disse o major. — Eu sei que você vem dessas bandas, mas nós Tomas conhecemos os nossos arredores. Temos navegadores experientes. Já ouviu falar de James Cook? Ou Barba Negra?
— Sim. Então se acabarmos em um barco no mar, você pode ser o capitão — falou Marie. — Mas, enquanto for na França, direi para onde iremos.
E assim Marie liderou o caminho, para grande embaraço óbvio do major Thompson. Rupert arrastou-se atrás dela desconfortavelmente. Ela levou-os ao redor das árvores, seguindo um pequeno regato que levava a um riacho maior, que, em seguida, desaguava direto na larga corredeira do Lys.
Rupert olhou através da água. Aquele era o território inimigo, para lá. Estranho, como se parecia tanto com o lado de cá.
Eles seguiram o leito principal do Lys por cerca de um quilômetro e meio. Em seguida, os sons de homens e máquinas começaram a misturar-se com os sons da água correndo.
Do outro lado, preto e iminente contra o céu cinzento de dezembro, estava uma grande construção: uma fábrica. Chaminés como dedos de bruxa erguiam-se para o sol branco e expeliam nuvens cinzentas e espessas de fumaça.
— É usada para fazer tintas para nosso linho e lã. Agora faz o gás — disse Marie, em uma voz que fez Rupert arrepiar-se.
Ele tinha ouvido falar sobre o gás. Nenhum dos lados tinha usado ainda, mas ele ficava pendurado ali, como uma lâmina por sobre as cabeças de todos os soldados de ambos os lados da guerra. As pessoas diziam que poderia transformar sua pele em bolhas e queimar seus olhos para fora da cabeça. Se ele não matasse quando o tocasse, se você conseguisse fugir, o mataria ainda mais tarde. Uma vez que você se encontrasse com o gás, não havia como escapar dele.
— Parece que ele faz soldados — comentou o major Thompson.
E era verdade. A fábrica estava cheia de homens em uniformes alemães, como os trabalhadores em um formigueiro. Eles patrulhavam a cerca em torno do edifício e a linha d’água; caminhavam ao longo do topo com armas de longo alcance e binóculos. Entravam e saíam em carros cuspindo fumaça e em cima de cavalos de fazenda em forma. Eles tinham centenas de armas entre todos eles, e se sentissem o cheiro de um inglês ou francês, atirariam para matar.
Sim, por todos os meios, pensou Rupert. Este é o lugar perfeito para invadir com um exército de três pessoas.
— Você não pode estar falando sério — falou Rupert. — Eles estão em toda parte! Não há nenhuma maneira de entrarmos ali.
Isso é o que você ganha, pensou, por ouvir um Tomas e uma Janus.
Rupert sentiu-se encolhendo. Eram três pessoas – uma garota de fazenda; um soldado; e um... um tipo corajoso, bonito e inteligente de companheiro, mas reconhecidamente carente de experiência de busca e salvamento.
Eram três pessoas para encontrar uma única no meio de uma enorme fábrica guardada por dezenas e dezenas de outras pessoas com armas assustadoras.
Ele olhou para os outros. Marie mordia o interior de sua bochecha, a testa franzida. O major resmungava para si mesmo, contando baixinho. Eles foram um pouco mais para baixo ao longo do rio, tentando ter ângulo para ver o outro lado do edifício.
Ao longo do lado sul havia um espaço fechado, onde pilhas de suprimentos ficavam sob guarda. O lado oeste era voltado para a água, e no lado norte não havia nada além de uma parede lisa com janelas no terceiro andar. Eles não podiam ver o lado leste, mas Marie disse que era o lugar onde a entrada principal ficava.
Parecia impossível para Rupert. Havia obstáculos não importasse a maneira com que olhasse para as coisas.
— Esta noite — disse o major Thompson. — Haverá menos guardas. Nós entraremos, então.

* * *

Naquela noite, Rupert sentou-se num engradado velho no celeiro com o lampião aceso a seus pés. Marie cochilava, e o major estava curvado, encarando algo no chão. Rupert olhou para o relógio em suas mãos; tinha sido do seu avô. Rupert o trouxera consigo, e agora observava os segundos passando em vão. O tic era tão alto, era como pratos batendo em seu cérebro, e ele não podia deixar de pensar que cada segundo que passava era mais um segundo do qual ele se aproximava de ser morto.
— Acorde, Marie — falou o major, chamando Marie e Rupert para verem seu esboço.
Marie imediatamente abriu os olhos e sentou-se, parecendo ter acabado de ver um fantasma em seu sono. Rupert levantou-se do caixote para ver para o esquema do major.
Ele havia retratado o rio e a fábrica, e em seguida, fez marcações onde tinha visto os guardas pela manhã.
— Atravessamos o rio aqui — disse Marie, indicando um ponto no rio um pouco a sudoeste da fábrica. — A água é devagar e rasa.
— Tudo bem — disse o major, marcando seu caminho. — Então, uma vez que estivermos do outro lado...
— Entramos na fábrica disfarçados. Como soldados alemães — Marie completou.
— Nem todos nós sabemos falar alemão — Rupert lembrou.
— Que pena — Marie respondeu.
Rupert fez uma careta para ela.
— Não — negou o major. — Podemos escalar o muro aqui. — Ele apontou para o lado norte da fábrica. — Não havia um holofote neste lado. Escalaremos a parede até o terceiro andar – haverá menos guardas em um piso tão alto – e entraremos pela janela...
— Você deve estar brincando! — Marie exclamou. — Davenport nunca será capaz de subir tão alto! Os braços dele são curtos demais.
— Ei! Como se você pudesse escalar uma parede de saia. Você faria com que nos pegassem. Não, nós vamos sair por aí. Deve haver uma porta dos fundos do lado do rio – eu colocaria uma lá, se construísse uma fábrica. E eu construí muitas fabricas da família na Inglaterra. Sei tudo sobre elas. — O que era quase verdade. Tio Chester investira em uma fábrica de tecelagem, antes da virada do século.
— Nós não podemos fazê-lo de três maneiras ao mesmo tempo — apontou Marie. — Disfarce será a maneira mais fácil de entrar e procurar o doutor.
— E onde é que vamos conseguir os três uniformes alemães? Além disso, você é uma garota. E nós não falamos alemão. Quantas vezes tenho que dizer isso? — Rupert argumentou.
O major se afastou de seu mapa e esfregou as mãos sobre o rosto.
— Se vocês dois não pararem de discutir e ouvirem o que nós faremos, trancarei os ambos no celeiro e atirarei cobras pela janela.
— É inverno; elas estão todas hibernando — observou Rupert.
— ENTÃO EU VOU DESPERTÁ-LAS — rugiu o major, de modo que tanto Rupert quanto Marie sibilaram para ele ficar quieto.
À medida que as horas passavam, havia apenas três coisas que todos podiam concordar: a primeira delas era que eles tinham que achar o doutor, e a segunda era que precisavam levá-lo para casa. A terceira era que os outros dois Cahill eram estúpidos e lentos e totalmente incapazes de um pensamento inteligente.
— Vamos acabar logo com isso — disse o major.
E então eles foram. Voltaram pela floresta e para o riacho, tudo à luz de uma lua minguante.
— Por aqui, agora — instruiu Marie, levando-os por um caminho que Rupert tinha certeza de não ter visto antes. A trilha os levou à borda pantanosa e através de uma faixa plana e rochosa onde a água diminuía e não parecia tão profunda. — Nós podemos atravessar aqui.
A água brilhava prateada sob a lua.
— Você é tola — falou Rupert. — Eles vão nos ver. Típico de uma Janus não pensar nisso.
Tais-toi, Davenport — Marie rosnou. — Estou ficando cansada de sua atitude, também.
Quietos o Major Thompson assobiou. Do outro lado, sobre o som da água, eles ouviram o som de vozes.
— Isso é alemão — disse Rupert. E era. — Você nos trouxe direito para os alemães!
Marie apertou os lábios e, em seguida, fez uma careta. Mas o major Thompson levantou a mão e os outros dois congelaram. Os soldados alemães tinham virado na direção deles. Rupert não achou que eles podiam ver os Cahill – estava muito escuro e eles estavam escondidos pelas árvores – mas todos congelaram de qualquer maneira.
Wer ist es? — Chamou um dos soldados.
Marie apertou as mãos sobre a boca, como se temesse não poder controlar qualquer som que saísse dali. Major Thompson tocou a arma no cinto. Rupert tinha visto armas antes, é claro. Armas de caça, e, depois, artilharia e as armas da frente de batalha. Mas nunca tinha visto os rostos ou escutado as vozes, de perto, dos soldados inimigos que estavam à distância de um tiro. Um soldado tinha cabelos loiros e falava com uma ligeira gagueira. Parecia errado matar uma pessoa uma vez que você conhecia a cor de seu cabelo e se eles tinham ou não a língua presa.
Es ist nichts. Es ist nur ein tier — disse o companheiro do soldado alemão.
Ele acenou para o outro, e se sentaram para um jogo de cartas.
— Eles acham que somos um animal — traduziu Marie.
— Está dois terços certo — apontou Rupert.
— Bem, nós não podemos ir por este caminho agora — sussurrou o major Thompson. — Grande ajuda, você.
— Eu sou — Marie retrucou. — Como eu saberia que eles estariam aqui?
— O motivo para você estar aqui é que você disse que sabia das coisas — rosnou o major.
— Silêncio! — interrompeu Rupert. — Obviamente, cruzar aqui não dará certo. Nós teremos que encontrar outro lugar.
— Sigam-me — disse o Major Thompson. Ele apontou a jusante, em direção a uma velha ponte de madeira, e, em seguida, não perdeu tempo em voltar silenciosamente através da floresta. Para um homem tão grande, o major era notavelmente ágil. Marie e Rupert seguiram-no, mais lentos e desconfiados.
A água sob a ponte corria muito mais rápido do que um pouco mais atrás.
— Teremos que tentar a ponte — disse o major.
— Eles vão nos ver se fizermos isso, seu idiota — chiou Marie. — Devemos voltar a descer e atravessar o rio. Podemos lidar com dois ou três guardas. Não é nenhum problema.
— Nós passaremos por cima da ponte — devolveu o major Thompson, como se essa ideia fosse pura genialidade. — Nós iremos por baixo.
E essa era simplesmente a coisa mais estúpida que Rupert jamais ouvira alguém falar. Mas o major Thompson não lhes deu qualquer momento para questionar sua decisão. Ele foi direto para os suportes que sustentavam a ponte. Era uma rede de toras úmidas e frias, cruzando entre si por todo o caminho. Rupert teve uma sensação desconfortável sobre isso. Parecia algo Tomas demais, escolher a forma mais impossível de atravessar uma ponte. Ninguém poderia fazer isso e permanecer vivo. Mas o major Thompson agarrou uma tora e subiu nas treliças. Rupert balançou a cabeça. Marie já o seguia, murmurando alguma coisa em francês. Rupert não precisava de uma tradução – ele poderia descobrir a essência a partir de seu tom. Ele fez uma careta e colocou as mãos nos suportes. Então começou a içar-se para cima, no espaço molhado e escuro debaixo da ponte.
A madeira estava fria e coberta de manchas de gelo. Suas mãos deslizaram sobre a madeira, ele tentou ignorar as farpas e o lodo. Ele tremia de tensão, esperando acima de qualquer coisa que ele não caísse. A água o levaria para longe e, em seguida, ele morreria.
Major Thompson já estava do outro lado, insistindo para Marie e Rupert se moverem mais rápido. Rupert rangeu os dentes. É claro que era fácil para o major, mas para aqueles que não eram monstros gigantes capazes de proezas físicas sobre-humanas, era óbvio que demoraria um momento a mais.
Todos os músculos do corpo de Rupert se esforçaram para segurar firme nas vigas de madeira. Abaixo dele, o rio espirrava e pulverizou água gelada em suas roupas, e suas mãos pinicavam e queimavam com o que ele esperava que não fosse congelamento.
Lá em cima, ele podia ouvir os passos e galopes dos cavalos e o ronco grave dos poucos carros que iam e vinham.
Foi aterrorizante. Mas, ao mesmo tempo, sentiu uma emoção partir dele. Se ele podia se arriscar atravessando a ponte desta maneira, teria peito para enfrentar aqueles soldados estúpidos que se achavam inteligentes e hábeis o suficiente para mexer com a família Cahill e se safar depois.
Do outro lado do rio, o major e Marie ajudaram Rupert a descer de baixo da última viga de suporte sem cair na água.
Atolado em juncos gelados, eles se agacharam e avançaram em direção à margem. Luzes brilhavam da fábrica e iluminavam ao redor, lançando luz sobre cantos que queriam ficar na sombra. Houve um momento no lado alemão do rio quando todos os três Cahill se entreolharam com expectativa.
— Certo — começou o major. — penso que irei por este caminho — disse ele, apontando em direção ao redor da parede norte.
Marie e Rupert não fizeram nenhum movimento para ir com ele.
— Você não pode esperar que nós o sigamos — falou Rupert. — Ninguém, exceto você, major, pode escalar uma parede. E ninguém, exceto Marie pode falar alemão o suficiente para passar pela porta. Nós faremos o que eu falei, e encontraremos uma maneira melhor. Foi estúpido vir até aqui sem um plano!
— Shhh!
Dois soldados dobraram a esquina, brincando um com o outro e rindo. O trio se escondeu na profundidade dos juncos, tentando manter se o mais imóvel possível. A barriga de Rupert revirou. Não só eles estavam tão perto – eles estavam rindo. Que motivo eles possivelmente teriam para rir?
— O que eles estão dizendo, Marie? — perguntou o major.
Marie semicerrou os olhos enquanto ouvia.
— Você sabe a diferença entre a trompa alpina e o gravador? A trompa alpina arde mais.
— O quê?
— É mais engraçado em alemão.
— Shh!
Eles debruçaram-se mais para baixo, até que as vozes se desvaneceram.
— No três — disse o major — nós corremos para o norte.
No! — devolveu Marie. — Você não está escutando. Será pego; esse plano é stupide, bestiale.
Rupert piscou.
— O que é aquilo? — ele perguntou, apontando. Era uma grade no fundo da fábrica, um fosso que levava através dela e para baixo no rio. — Nós vamos passar dessa forma. Não é guardado.
Ambos, Marie e o major, moveram o olhar para onde ele apontava.
Peut-être — disse Marie.
— No três — falou o major novamente.
Je ne veux pas. Eu vou por aqui — disse Marie, e apontou para a grama.
— E o que vai fazer? — perguntou Rupert.
Marie puxou o xale por sobre a cabeça.
— Eu vim para encontrar o meu irmão — disse ela. — Hast du ihm gesehen?
Ela era muito convincente como uma fazendeira alemã, mas Rupert ainda assim balançou a cabeça. Não iria funcionar.
— Tudo bem! — cuspiu o major. — Vamos todos fazer as coisas à sua própria maneira. E então veremos quem estava certo. Sim?
— Oui. C’est ci bon.
— Espere um minuto — falou Rupert. Mesmo ele sabia que não era uma boa ideia, e o major era tipicamente Tomas, sempre tentando obter toda a glória para si próprio. Mas o major não estava escutando.
— Um — o major contou. — Dois. Três!
Marie deslizou para a direita, desaparecendo perfeitamente na escuridão. O major levantou-se e decolou em um salto. O estômago de Rupert apertou novamente. Ele estava sozinho. Sempre se saía bem sozinho. Mas sentia-se, neste momento, vulnerável. Não havia ninguém para vigiar sua a retaguarda, ninguém para voltar por ele. E, embora estivesse relutante em admitir, até para si mesmo, Rupert sempre confiara em outras pessoas para salvá-lo. Mas agora era só ele – e tudo o que acontecesse consigo mesmo seria sua responsabilidade. Ele tinha que fazer alguma coisa. Não podia ficar ali no chão úmido.
Assim, seguiu seu próprio caminho, subindo a margem do rio em direção à grade e ao fosso. Pulou o muro da fábrica, o mato encharcado e alto, o chão era pantanoso. Ele tentou não respirar fundo, e só através de sua boca – o cheiro era algo terrível.
A grade em si estava enferrujada e velha – ele a balançou, e ela se moveu sob suas mãos. Se eles tivessem trazido um alicate ou algum outro tipo de ferramenta, poderiam facilmente quebrar essas barras antigas e entrar. Mas então arrepios percorreram o pescoço e os braços de Rupert. Ele podia sentir, mesmo através das camadas de seu uniforme, o casaco encharcado e seu lenço. Foi uma pontada, como se alguém estivesse observando-o por trás, por baixo, pela água.
Lentamente, Rupert olhou por cima do ombro. E ali, no pouco de luar que penetrava através das nuvens, um homem de preto o observava. Ele era alto, vestia um longo casaco, o chapéu puxado para baixo sobre o rosto, e um cajado na mão.
Ele não conseguia respirar. O Madrigal. Madrigal de Albert. O medo se apoderou dele, como uma pinça gelada de ferro em torno de sua garganta. Ele estava olhando para o rosto de um Madrigal, a face do mal, do caos. Seria a última coisa que ele veria.
Rupert estava congelado no lugar, as mãos na grade enferrujada. Sangue rugia através dele, como se estivesse tentando completar o máximo de voltas ao redor de seu corpo quanto possível antes de morrer. Como se todo o seu ser estivesse tentando espremer apenas mais um pouco de vida antes de tudo acabar. Mas pelo menos se ele morresse, morreria um como um Lucian.
Então ele fez o que um Lucian faria. Ele mentiu.
— Você não pode nos impedir. Eu não tenho medo de você.
Gehe — disse o Madrigal. Ele esticou o braço em direção ao rio. — Gehe hin und nicht mehr sündige hinfort.
Rupert não sabia o que fazer. Ele não sabia o que significava, e não entendia o que o Madrigal queria dele. Sons de tiros irromperam da curva, e Rupert realmente não tinha mais tempo para pensar sobre tradução alemã.
O Madrigal virou-se rapidamente na direção do barulho das armas, e Rupert aproveitou a oportunidade para voltar para o rio. Correu como se ele estivesse sendo alvejado, e tentou ignorar a água fria.
Na beira do rio, ele viu algo boiando – Marie.
Aidez-moi! — ela engasgava enquanto chegava mais perto e mais perto.
Rupert virou-se, procurando algo para ajudá-la. Ali, na grama, estava a bengala do Madrigal. Rupert estava relutante em tocá-la, mas agarrou a bengala e procurou por Marie novamente.
Ela estava mais perto da margem francesa do que da belga, por isso Rupert respirou fundo e atravessou a ponte com velocidade total. Os companheiros que a atravessavam antes era passado; eles estavam indo para o lado norte do edifício, as suas armas se foram. O major. O estômago de Rupert gelou.
Mas ele não podia pensar nisso agora.
Havia outro Cahill, e esta estava bem na frente dele. De volta à França, Rupert derrapou para baixo do banco escorregadio para o rio novamente. Ele entrou na água até ela bater na altura da cintura.
— Segure! — ele sussurrou ferozmente, esperando que Marie o visse, que alcançasse a bengala. Ela a alcançou, mas não parou. O rio continuou arrastando-a para a jusante, em direção ao norte. E se Rupert não a segurasse, ela iria direto para os guardas. Se a água não a afogasse, eles não hesitariam em matá-la. Mas ela se segurou. Rupert cravou os calcanhares na lama e puxou e puxou até que Marie chegasse perto o suficiente para se apoiar nos pés e os dois pudessem se empurrar de volta para a margem.
Merci, merci — Marie continuava dizendo, agarrando Rupert pelo rosto e beijando uma bochecha e depois da outra, repetidamente. — Merci mille fois, mon primo.
— Eu sei, eu sei, de nada — disse Rupert. — Marie, eu entendi! Disponha! — Rupert enxugou seu rosto com uma luva molhada. — Onde está o major? Você o viu?
Non. Quando eles começaram a atirar, e corri. Caí no banco direto para o rio. Será que ele está morto? O que faremos? Esperamos por ele?
— Seu rosto está azul — observou Rupert. — Você precisa de uma fogueira e roupas secas. Mas precisamos encontrar o major. E eu não sei o que deve ser feito em primeiro lugar.
Então do outro lado do rio, lá debaixo, veio um grande rugido. Marie e Rupert correram para ver o que era.
O major estava em fuga, apertando um braço com a outra mão e correndo tão rápido quanto as suas pernas aguentavam. Atrás dele, um par de soldados o perseguia, atirando em suas costas enquanto isso. O major olhou para o lado francês e atirou-se na floresta. Marie moveu-se na direção dele, mas Rupert a deteve.
— Não, eles estão vindo do outro lado do rio — disse Rupert, apontando para os soldados alemães. — Estão vindo para encontrar o major. E o major foi ferido – atiraram nele — a mente de Rupert assimilou a ferida como um relógio com corda em excesso. — Marie, esconda-se. Use sua voz de soldado alemão para ordenar-lhes que venham por esse caminho.
Ela assentiu com a cabeça e entrou em um matagal, envolvendo-se com os braços para não tremer. E, em seguida, Rupert se preparou.
Komm! — Marie gritou. — Folge mich!
— Bom — Rupert sussurrou.
— E agora? — ela sussurrou de volta.
Mas Rupert a fez se calar, e esperou. Ele ouviu os dois soldados que se aproximavam e esperou por um tempo ainda na escuridão, ouvindo cada galho quebrando e cada folha se movendo. Quase lá. Quase.
— Encontre o major e volte para o celeiro — Rupert sussurrou para Marie. E então ele viu o brilho da arma ao luar.
Anhalten! — Um dos soldados disparou.
E Rupert começou a correr. Galhos se prendiam nele e suas botas esmagavam a vegetação rasteira com um som alto, mas essa era a intenção. Ele precisava fazer barulho, ser visto apenas o suficiente para dar a Marie e ao major tempo de voltar para o celeiro. Em seguida, ele encontraria o seu caminho de volta para o próprio rio.
Pelo menos esse era o plano. Porém ele podia ouvir os soldados atrás dele, gritando e pisando, e talvez fosse sua imaginação, mas eles estavam se aproximando? Rupert não sabia dizer se eles estavam chegando mais perto ou se ele apenas temia que sim. Imaginou que fosse assim que a raposa se sentia na caçada. Exceto que a raposa raramente ganhava.
Rupert ziguezagueou por entre as árvores, voltando para o rio mais uma vez. Sua garganta estava seca por causa do frio e ele mal conseguia respirar, as pernas estavam doloridas e seus pulmões queimavam como se estivessem revestidos em gelo.
À frente havia uma árvore gigantesca, e Rupert se escondeu atrás dela. Ele tinha que se esconder agora. Não podia correr mais que os soldados.
Enfiou-se em uma fenda no tronco. Não era grande o suficiente para ele caber completamente ali dentro, mas a maior parte de seu torso entrava. Apoiou as mãos na terra e abaixou o queixo, esperando que seu cabelo escuro e o sobretudo escuro o ajudassem a se camuflar.
Tentou diminuir o ritmo de sua respiração, as golfadas irregulares de ar que tomava para encher seus pulmões doloridos. Ele tremia – suas roupas estavam molhadas e seus dentes batiam, então Rupert colocou o lábio inferior entre eles para evitar fazer barulho. Eles estavam chegando.
— Ruhig, ruhig... — disse aquele com a língua presa.Jetzt raus Komm.
Ist hier er? Ich habe ihn nicht hören.
Rupert desejou saber o que eles diziam. Será que o tinham visto? Estavam combinando como atacá-lo? Ou será que o haviam dado como perdido?
Eles chegaram à linha da árvore, e Rupert pôde ver uma cabeça loira brilhando à luz do luar. Aquele com a língua presa deu um passo adiante, e Rupert sentiu um puxão em seu sobretudo. O soldado estava pisando em seu casaco. Rupert parou de respirar; queria poder parar seu coração, apenas por um momento, então tudo estaria silencioso e nada iria denunciá-lo.
Ao longe, um galho quebrou e uma coruja gritou.
— Schnell! — ordenou o de língua presa, e eles correram em direção ao leste.
Rupert prendeu a respiração durante o máximo de tempo que conseguiu, tomando depois pequenos fôlegos de ar que só enchiam as beiradas dos seus pulmões. E, em seguida, logo que não pôde ouvi-los mais, deixou que ar inundasse seus pulmões e afundou contra a árvore. Enrolou-se em si mesmo e respirou forte em seus joelhos. Ele queria gritar – queria chorar e vomitar e rugir até que sua voz sumisse. Mas só teve um momento.
Ele respirou fundo. E então, com o corpo tremendo e a cabeça leve, ele se levantou. Seguiu o som do rio.
E encontrou o seu caminho de volta para o celeiro.
Marie correu para encontrá-lo quando ele chegou na clareira.
Achei que você estivesse morto. Venha, venha para dentro, rápido — ela pegou a mão de Rupert e praticamente arrastou-o para o celeiro. Acho que o major está morrendo. É muito terrível.
Eu não estou morrendo disse o major. Ele estava encostado a um monte de feno, e seu rosto estava pálido e suado. Sua manga esquerda estava coberta de sangue, e assim estava a maior parte do resto do corpo. Isso fez o estômago de Rupert revirar. Não é nada, apenas uma ferida na carne. Não fiquem pairando sobre mim, afastam-se, afastem-se. Marie, eu disse não! ele olhou para Rupert. E o que você fez, seu idiota, foi uma das coisas mais estúpidas que já vi um soldado fazer. Obrigado.
Rupert não sabia o que dizer sobre isso. Sentia-se quase tímido. Então, em vez disso, ele falou:
— Isso parece horrível.
— É porque você é verde, Davenport. Agora seja homem. Controle-se. Jogue um pouco de água sobre a coisa e metade do dano vai embora — resmungou o major.
Rupert fez o que lhe foi dito, e Marie andava de um lado para o outro.
— Eu não vou ter, hã, que costurar esta ferida, vou? — indagou Rupert, franzindo o nariz com o pensamento.
— Espero que não! — respondeu o major, tentando pular de pé, mas sem conseguir e soltando um gemido. — Não se atreva!
Rupert quase sorriu. O major não poderia estar tão perto de morrer e ter tanto medo de uma agulha.
— Alguém falou alguma coisa sobre costura? — perguntou Marie, aproximando-se com uma agulha com fio.
Rupert levantou uma sobrancelha.
— Nunca se deve sair de casa sem agulha e linha.
O major passou de pálido a verde.
— Não. Não! — ele ergueu o braço bom na frente do rosto e se virou.
Marie e Rupert riram, até que Marie se virou para Rupert.
— É apenas uma ferida na carne! — imitou Rupert fingindo uma voz grossa.
— Eu não falo assim! — exclamou o major.
— Fala, você fala assim com certeza!
O major tentava não rir, mas os cantos de sua boca tremiam incontrolavelmente e não demorou muito para o riso escapar. Eles riram até que ficar sem ar, e até a gravidade da situação cair sobre eles mais uma vez. E então ficaram em silêncio.
— Então — o major falou. — O que acontece a seguir?
— Eles me viram quando eu caí — disse Marie. — E te viram, major, porque atiraram em você.
— Sim, Marie. Que astúcia a sua. Davenport? Como foi no rio?
Rupert começou a falar, mas sua boca estava completamente seca. O Madrigal. Ele deveria contar a eles? Que bem ou mal faria?
— Não muito bem. Precisamos de ferramentas e coisas para passar. Mas, mesmo assim, não podemos ir pelo rio. Eles estarão à nossa procura agora.
Todos ficaram em silêncio novamente. Rupert não queria falar nada sobre o Madrigal. Talvez devesse, mas se eles usariam um caminho diferente, talvez não fosse importante? Depois de secos e alimentados, o grupo estabeleceu-se em seu feno, quando o relógio deu duas horas.
— Marie, o que quer dizer Gehe hin und nicht mehr sündige hinfort? — perguntou Rupert.
— Vá — traduziu ela. — Vá e não peques mais. Pourquoi?
Rupert engoliu o caroço seco em sua boca.
— Por nada.

* * *

No meio da noite, Rupert acordou no feno coberto por um suor frio. Ele se levantou respirando pesadamente, tudo girando. Estava tonto e confuso, e sabia, simplesmente sabia, que alguém estivera ali. Podia sentir a ausência repentina, como uma sombra pairando no ar. Ele olhou para o chão, mas era péssimo em rastreamento e por isso não tinha ideia se havia alguma pegada ali. A porta ainda estava fechada e a lamparina permanecia onde haviam deixado, diminuída para uma iluminação baixa no centro do celeiro. Mas alguém estivera ali, Rupert podia sentir.
Ou talvez ele tivesse sonhado.
Seu sonho. Sombras negras em todos os lugares – na floresta, nas trincheiras, no celeiro. Eles haviam se arrastado ao longo do horizonte e tomavam tudo, deixando todo o campo na escuridão. Madrigal. Havia sido um sonho. Mas ele não conseguia afastar a sensação de que eles estiveram aqui.
Ele olhou em volta. Tudo parecia normal. Marie estava enrolada no feno como um gato, e o major roncava. Ao longe, os sinos da igreja batiam, e por sua vida, Rupert não conseguia descobrir o porquê.
Ele saiu. O ar estava frio; nuvens cinzentas pesadas e carregadas de neve haviam se aproximado enquanto eles dormiam, e o formigamento de expectativa pairava no ar. Rupert o sentiu, também, rastejando sobre sua pele e fazendo seus pelos se arrepiarem.
Ele nunca se sentiu mais vivo ou mais consciente do mundo ao seu redor do que naquele momento. O frio havia tirado tudo, até as coisas mais básicas; ele pensava poder sentir cada parte do ar que roçava suas bochechas. Os sinos da igreja pararam, e houve um grande silêncio. Nada de tiros, nenhum som de canhões ou artilharia. Apenas paz.
Rupert se perguntava se todos podiam ouvir o silêncio. Ele imaginou que a totalidade do campo de batalha chegara a um impasse, que os navios no Canal pairavam na água, e sua mãe e seu pai, de volta à Inglaterra, tiveram uma pausa em seus sonhos. Foi só por um momento; os sinos da igreja logo recomeçaram a tocar. Mesmo assim, Rupert havia sentido.
Não era sobre pistas e Lucian, não mais.
Não totalmente, de qualquer maneira. Não era mesmo sobre Rupert e Albert. O momento de silêncio se foi, mas ele o desejou novamente. Ele desejava a paz, e não a queria apenas para si, mas para o campo de batalha e para os navios e para a mãe, o pai e o resto deles. Guerra, pensou ele, não era boa para uma pessoa. E se os Madrigais estavam ali para fazer guerra, então os Cahill teriam que parar de lutar entre si por tempo suficiente para trazer a paz. E eles começariam resgatando o Ekat.
Tentariam novamente esta noite. Arriscariam suas vidas mais uma vez para tentar evitar uma catástrofe.
Era engraçada, ele pensou, esta família. Eram capazes de coisas tão grandes, coisas belas. Seus primos, tias, tios e avós tinham construído castelos e cidades, pintado e esculpido as mais belas obras do mundo, conquistado montanhas e mergulhado nos mistérios do universo.
Mas seria tolice, e uma mentira, fingir que eles não tinham sangue nas mãos – todos eles. Suas brigas e ambições haviam erodido a humanidade, tanto quanto haviam adicionado a ela, atirando as pessoas de seu cotidiano entre eles como as ondas do vento a sacudir os grãos de areia.
Rupert sempre sentiu que essa era a ordem natural das coisas. Que os que eram excepcionais deviam fazer as coisas importantes e os outros deveriam apenas sentar-se firmemente enquanto aqueles com capacidade cuidavam do trabalho pesado.
Que todos os não-Cahill eram apenas soldados de infantaria e peões em um jogo maior. Agora, pensou ele, parecia tão tolo.
— Você acordou cedo — falou o major, saindo do celeiro.
— Você estava roncando — respondeu Rupert, não querendo, no entanto, contar a ninguém sobre os Madrigais ou seu pesadelo. — Isso torna difícil dormir. Sabe por que os sinos da igreja estão tocando? Acha que a guerra acabou?
— Não. A maré não pode ter virado tão rapidamente. E se os alemães tivessem vencido, suponho que os franceses não tocariam seus sinos. Eu não sei.
— Tem café ainda? — perguntou Rupert.
— Podemos verificar — respondeu o major, e eles começaram a caminhar de volta para dentro. Mas o major parou em seu caminho. — É 24 de dezembro. Os sinos. É véspera de Natal.

* * *

Ao anoitecer, Rupert, Marie e o major Thompson deixaram o celeiro e se dirigiram mais uma vez para as trincheiras. Eles não conseguiriam atravessar as águas rasas naquele ponto do rio novamente. Quando foram verificar, encontraram uma dúzia de homens na ponte e mais alguns ao longo das margens.
Alors — falou Marie. — Estamos condenados.
— Nós não estamos condenados — disse Rupert. — Só temos que pensar nisso de outra forma — Rupert fez uma pausa. Ele não podia acreditar que estava prestes a sugerir um plano tão louco – suas mãos começaram a tremer com o pensamento. Mas não importava o quão assustado ele estivesse, o Ekat era principal aqui. — Nós seguiremos as trincheiras e depois através da terra de ninguém. Marie, você nos ajudará a encontrar o melhor caminho para a fábrica. Uma vez que estivermos dentro, descobriremos o que vamos enfrentar, e o major nos guiará na busca pelo Ekat. Não importa o que aconteça, nós ficaremos juntos. Agiremos melhor dessa forma. Nós vamos encontrar o Ekat e trazê-lo de volta em segurança.
Era um plano praticamente impossível, e as chances de falha eram astronômicas.
Por esse motivo era perfeito para um grupo de Cahill.
Marie ficou com o uniforme extra de Rupert (e brincou com ele de forma adequada sobre o forro de seda antes de admitir que isso deixava o casaco mais confortável e mais quente), e escondeu suas tranças sob um quepe. O major lhes emprestaria legitimidade quando eles escapassem de volta para as trincheiras. Ninguém questionaria dois jovens soldados com um oficial.
Rupert espiou por cima da trincheira – a linha alemã estava a quase trinta metros de distância. Como tudo estava quieto, ele podia ouvi-los falar e gritar um com o outro.
— Há uma quebra em suas linhas ali — falou o major, olhando para frente e apontando para uma abertura à esquerda. — Nós passaremos por ali.
Rupert abriu a boca – a “quebra” não era nada além de um espaço de três metros de diâmetro bloqueado por lanças e arame farpado. Mas ele fechou-a sem dizer uma palavra. O major sabia sobre essas coisas. Rupert tinha que confiar nele.
Ele pulou de volta para o fundo da trincheira, e Rupert o seguiu.
— Tudo bem. Nós vamos no  três. Mantenham as cabeças abaixadas, movam-se rapidamente. Se um cair, os outros dois tem que continuar correndo. Estão me ouvindo? Continuem correndo.
Rupert assentiu, embora achasse errado. Ele poderia simplesmente deixar Marie ou o major morrer? Uma semana atrás, a resposta seria sim. Sem dúvidas. Provavelmente nem se sentiria culpado por isso.
— Dois — o major estava dizendo.
Rupert voltou a prestar atenção. O major olhou para a lua. Assim que ela sumiu por trás das nuvens grossas, ele falou três, e foi subindo a escada da trincheira e se afastando para o lado.
Rupert o seguiu, com Marie logo atrás.
Eles se movimentaram rapidamente. Pularam poços e crateras feitas por morteiros, evitaram os corpos daqueles que haviam morrido recentemente, deixados ao ar livre porque não havia como recuperá-los.
— Esperem um pouco! o major sibilou.
Rupert e Marie congelaram. Acima, pequenas luzes foram surgindo ao longo das linhas alemãs. Primeiro uma, piscando na escuridão, e em seguida, outra um pouco mais adiante. E então, de repente, havia o que parecia ser centenas de luzes, como se pequenas estrelas estivessem caindo para a terra e pousando ao longo das linhas.
— Armas? — perguntou Marie.
Rupert encolheu um pouco. Ele temia se mover, poderia ser visto.
Mas não, eles não estavam com as armas a postos.
— Velas — disse Rupert. Dezenas de velas, estendendo a mão para a escuridão à sua própria maneiras. — O que eles estão fazendo?

* * *

Foi lento no início – apenas uma voz solitária no escuro. Mas era profunda e bonita, como a boa terra. A voz estava sozinha, soando pela noite com a força de dezenas de sinos de igreja. E, em seguida, nas trincheiras atrás de Rupert, veio uma voz suave, que flutuou no ar da noite como neve descendo dos céus.
Uma cantava em alemão e outra em inglês, mas nenhuma das duas vozes se importou, ambas sabiam o que a outra dizia – o que a outra queria dizer.
Rupert olhou ao redor, para trás. Os soldados ingleses tinham enchido a fenda de suas trincheiras com tantas velas e lamparinas que eles poderiam se misturar. A luz não chegava longe, mas Rupert conseguia ver os rostos pálidos e meio sorridentes de dezenas de soldados espiando através das fileiras. Pego no meio daquilo, Rupert sentiu-se flutuando em um mar de estrelas cadentes.
Uma por uma, novas vozes e novas línguas se juntaram à canção. Os sons das canções inglesas, alemãs e francesas se misturaram no ar sobre a terra de ninguém como uma grande rede, como fios se entrelaçando.
Rupert achou que se as estrelas caíssem naquela noite, cada uma seria segurada antes de atingir o chão. Elas penderiam sobre o campo e brilhariam sobre eles. A luz expulsaria a escuridão da guerra.
Monsieur major? — sussurrou Marie. — O senhor está chorando?
— Não! — negou o major, e então ele fungou.
Marie se moveu e pegou a mão do major, e depois a de Rupert. Juntos, os três ficaram em silêncio e deixaram a noite brilhar ao seu redor.
— Não atire você! — gritou um dos alemães. E então um dos soldados alemães ergueu algo do lado de sua trincheira.
Os três Cahill estremeceram; Rupert usou seus braços para proteger o rosto. Mas, em vez de explodir, a granada ricocheteou e Rupert percebeu que não era granada coisa nenhuma. Era uma bola.
Wie bitte? Was nennst du es? — disse o alemão. — Ah, ja. Danke. Futebol!
Algumas cabeças inglesas se viraram. E, em seguida, lentamente, com alguma apreensão, os homens começaram a subir.
Os alemães estavam tão sujos e magros quanto os soldados ingleses e franceses, e tremiam um tanto também. Eles não pareciam diferentes, a não ser pelas roupas. Rupert umedeceu os lábios e observou, prendendo a respiração, o primeiro alemão e o primeiro inglês se aproximarem.
— Quer escolher os times, então? — disse o soldado inglês.
E o alemão assentiu.
Outros foram saindo das trincheiras com macas, indo em direção aos seus compatriotas caídos para dar-lhes um enterro consagrado e pacífico.
  — Vamos — disse Marie, apontando para quebra na linha alemã.
Ela estava certa. Eles ainda tinham algo a fazer, embora Rupert não quisesse se mover por nada no mundo. Mas havia uma fronteira para atravessar, uma fábrica na qual se infiltrar, um Ekat para resgatar e um mundo para salvar. Era um Natal atarefado.

* * *

Eles passaram pelos soldados e pelas linhas de frente, e depois se arrastaram de volta para as sombras. Marie os levou até uma estrada, e à frente eles podiam ver os dedos pretos que eram as chaminés da fábrica novamente.
  — Nós vamos para a grade de esgoto de Davenport — disse o Major, e Marie assentiu.
A boca de Rupert ficou seca.
— Esperem — Rupert interrompeu. Ele pensou no Madrigal, esperando que eles chegassem. Ele queria aproveitar sua ideia, mas e se tudo desse errado? Os outros se viraram e olharam para ele, confusos. — Não há outra maneira?
Non — disse Marie. — Foi uma ideia boa. E ninguém o viu.
— Mas precisaremos de algo para nos ajudar a entrar — lembrou Rupert.
— Algo como isto? — perguntou o major, segurando um par de alicates.
— Onde conseguiu isso?
— Eu presto atenção quando você fala — respondeu o major. — Eu vim preparado.
O estômago de Rupert se retorceu. O Madrigal o tinha visto. Mas poderia ele dizer isso agora, quando omitira a informação por tanto tempo? E se eles pensassem que ele estava escondendo intencionalmente? E se achassem que ele estava os atraindo para problemas?
Talvez fosse o caso antes, mas não agora.
— Alguém me viu, sim — Rupert falou. — Alguém me viu, e era – eu sei que era um Madrigal.
Marie soltou uma exclamação, e Rupert achou que o major rosnou.
— Eu não sei se ele estará lá novamente essa noite. Mas vocês mereciam saber.
Os dois ficaram em silêncio por um bom tempo.
— Bem — disse Marie finalmente. — São três contra um. Gosto das nossas probabilidades.
O major assentiu em concordância.
— Se os Madrigais estão envolvidos com o Ekat, ainda temos que ir. Mostre o caminho da sua grade de esgoto, e nós enfrentaremos o que vier.
Já na fábrica, eles observaram da floresta novamente e esperaram até que os guardas alemães fizessem as suas rondas. Esta seria a última chance deles – não haveria outra oportunidade. Os soldados aqui não sabiam dos jogos e das canções natalinas que aconteciam naquele momento nas trincheiras; para eles, ainda era tempo de guerra. Rupert duvidava muito de que um “Feliz Natal” salvaria suas vidas se eles fossem capturados.
O major deu o sinal. E então, eles saíram. Correram pelo gramado enquanto a neve começava a cair. Marie e Rupert se agacharam na vala enquanto o major cortava através da grade enferrujada, revelando um longo túnel. Eles tiveram que andar devagar para não espirrar lama que descia para a vala. O ar estava frio e úmido ao redor deles. Mas na frente havia outra grade, que levava a uma sala com uma caldeira e uma variedade de tubos e respiradouros.
— Há tantas salas e corredores. Cada um deveria ir para um andar, nunca o acharemos de outro jeito. — disse Marie.
— Não — disse Rupert. — Ficaremos juntos. Não podemos fazer tudo sozinhos.
— Então aonde vamos primeiro? — perguntou Marie.
Ela olhou para o major, e Rupert fez o mesmo.
— Bem — disse o major. — Começaremos pelo início.
E os levou para o corredor.
Estava escuro, com apenas algumas luzes no teto penduradas a cada poucos metros. O chão era feito de pedra e estava coberto por uma fina camada de umidade. Rupert teve dificuldades para se lembrar se alguma vez já esteve em um lugar tão assustadoramente sombrio.
  O major gesticulou para eles, e Rupert os liderou pelo corredor na ponta dos pés. No fim do corredor, encontram uma porta, que levava a uma escada. Rupert vacilou. Em uma escada não havia lugar para correr ou se esconder. Qualquer coisa com que se deparassem, teriam que enfrentar.

* * *

O trio calmamente deslizou até as escadas, e Rupert, na frente, abriu a porta. Um pelotão de soldados marchava pela passagem, vindo para eles à partir da esquerda. Rupert se arrastou para longe da luz, esperando que ninguém tivesse notado a abertura ou qualquer reflexo da porta. Ele levou o dedo aos lábios enquanto o som dos passos se aproximava cada vez mais. Rupert, Marie e o major esperaram, as respirações apertadas dentro deles, seus músculos tensos e congelados e não tremendo nem um pouco. O suspiro mais ínfimo ou a discussão mais suave seriam o fim deles – o fim da missão deles – o fim do mundo que eles queriam salvar e proteger.
Os soldados que marchavam se aproximaram mais e mais, até que Rupert teve certeza de que eles estavam indo em direção às escadas e marchariam até ao porão. Mas eles passaram direto, e Rupert pôde respirar novamente. E pôde espreitar novamente, também.
— Nós vamos por ali — Rupert falou. — Há uma porta onde podemos nos esconder. Vou na frente até chegar à esquina e dar uma olhada ao redor.
  Ele não sabia o que estava procurando. Um monte de guardas? Um calabouço com correntes e algemas? Uma placa em que se lia “LABORATÓRIO DE CIÊNCIA DO PRISIONEIRO”? Mas ele achava que saberia quando visse.
— Mas e se eles o virem! — exclamou Marie.
— Você não pode se arriscar — concordou o major.
— Primos — respondeu Rupert. — No que os Lucian são melhores? Ninguém vai me pegar. Tenho certeza disso.
Os Lucian também eram, tinha que se dizer, os melhores em mentir. E a confiança de Rupert era quase totalmente uma mentira. Mas ele acreditava firmemente que se pensasse que conseguiria, iria acontecer.
Eles deixaram a escada e correram, como ratos pegos pela luz, para a próxima porta. Lá, Rupert prendeu a respiração. E deu um passo atrás para o corredor. Seu coração batia terrivelmente rápido em seu peito. Emoções corriam por todo o seu corpo, como passos de aranha, começando por trás de seu esterno e inchando para fora através de seu corpo.
Ele foi em direção à curva, mantendo o seu corpo o máximo possível pressionado contra a parede. Dobrando o canto, um grupo de guardas estava do lado de fora de uma porta. Eles pareciam entediados e infelizes. Claro, era véspera de Natal. E eles estavam ali, longe de suas próprias famílias, em uma fábrica úmida, guardando algo que provavelmente tinha muito pouco valor individual para eles, mas que tinham que matar para proteger.
Guardando algo. Ou alguém? Rupert voltou em direção aos outros.
— Acho que nós o encontramos — Rupert falou. Seu coração saltou e, em seguida, inchou-se. O primeiro passo estava feito. Eles estavam no caminho para o sucesso. — Há pelo menos uma dúzia de guardas ao virar o corredor. Precisamos olhar naquela sala. Mas como é que vamos passar pelo os guardas?
Ich weiß — Marie falou na sua voz profunda de soldado alemão. Se ele não estivesse apavorado, Rupert teria rido. — Soldados ouvem tudo a que são ordenados. Sem ofensas, major.
— Chame-os para comer guloseimas de Natal — sugeriu Rupert.
— Mas não todos eles — acrescentou o major. — Eles ficarão desconfiados se tirar todos fali.
— Quantos devo deixar aqui? — perguntou Marie.
— Dois ou três. Será bom para uma beliscada ou para uma pausa para o lanche — disse o major.
Marie assentiu. Ela limpou a garganta e, em seguida, disparou frases em alemão.
Schnell! Schnell! — ela gritou. — Letztere bekommt kein kuchen!
— Você fica assustadora quando faz isso. — disse Rupert.
Merci! — murmurou Marie.
Eles não contaram com a direção para a qual os soldados marchariam para a cozinha, entretanto, e por isso houve uma corrida apavorada para a escada onde eles estiveram. O major mal conseguiu chegar à porta antes que os soldados dobrassem a esquina, pensando animados nas guloseimas que se seguiriam.
Assim que o mínimo silêncio de calmaria se instalou no corredor, o trio saiu. Eles só tinham o tempo de os soldados chegarem às cozinhas e perceberem que não havia guloseimas. Depois disso, eles levariam um momento para descobrir quem tinha feito essa pegadinha, mas, uma vez que tudo tivesse resolvido, os alarmes soariam e todo mundo saberia que havia algo errado na fábrica.
No fim do corredor, Rupert espiou de novo. Haviam sobrado três guardas. Um deles estava do lado de fora, com uma expressão mortalmente séria no rosto. Outro marchava até o outro lado do corredor. E o terceiro estava tão perto que Rupert poderia esticar a mão e tocá-lo.
O major trocou de lugar com o Rupert. E em um movimento rápido, agarrou o soldado e arrastou-o para o canto. O soldado ficou chocado por um momento, mas esse momento era tudo do que o major precisava. Antes que o soldado pudesse exclamar ou tentar lutar de volta, o major tinha um braço em volta do pescoço dele e outro em sua boca. Em instantes, o soldado alemão estava caindo de joelhos, os olhos revirados para trás da cabeça enquanto ficava inconsciente.
Marie estava horrorizada.
— Ele não está morto — falou o major. — Eu não mataria ninguém no Natal.
O major tirou o uniforme do soldado, deixando-o só de roupa de baixo.
— Dê para mim — disse Rupert.
O major balançou a cabeça.
  — Dê para mim — Rupert insistiu. — Não vai caber em você. E eles vão descobrir que Marie é uma garota. Não olhe para mim como eu fosse idiota, major, não temos tempo para isso.
O major passou o uniforme para Rupert.
— Seja cuidadoso. Ao menor sinal de problemas, eu vou atrás de você.
— Não, não vai — disse Rupert. — Não deve arriscar a missão. Eu darei uma olhada em volta e sinalizo quando precisar de vocês. Marie, vire para lá.
Marie educadamente cobriu os olhos enquanto Rupert tirava sua roupa e vestia o uniforme alemão.
Rupert preparou-se, adotou a postura mais alemã, e deu um passo para fora das sombras. Sentiu como se estivesse pisando no palco sem saber suas falas. Mas em vez de vaiá-lo, a audiência o mataria.
Ambos os guardas alemães viraram-se para olhar para ele. O uniforme era grande demais, e ele estava ali, desengonçado e desajeitado e certo de que em dois segundos os alemães o matariam. Mas, aparentemente, o uniforme fez o truque. Ambos olharam pare ele por um momento e voltaram para a fazer seu trabalho.
Rupert levantou a arma do soldado por cima do ombro e observou enquanto o outro guarda no final do corredor virava-se e começava a marchar na direção dele. Rupert esperou até que ele passasse, depois o seguiu.
  No centro do corredor, diante da porta, o outro soldado que marchava estendeu a mão para parar Rupert. O estômago de Rupert caiu na boca do estômago, e sua respiração parou.
Wie spät ist es? — perguntou o soldado.
Rupert entrou em pânico. Ele não tinha ideia do que isso significava ou como responder ou como fazer qualquer coisa naquele momento, além de abrir e fechar a boca como um peixe. Era o Madrigal da grade.
— Você! — Rupert exclamou.
Ele engasgou de forma audível, como se tivesse acabado de ser esbofeteado. Como se todo o ar tivesse sigo sugado para fora dele. A escuridão de seu sonho o invadiu, dando-lhe calafrios e suores, ao mesmo tempo, e ele quase perdeu o controle sobre a arma.
Mas o Madrigal apenas sorriu.
Wat? — disse o soldado na frente da porta.
Nein — disse o Madrigal, apontando para si mesmo. — Fritz.
De repente, veio um barulho alto do canto. O guarda na porta saltou, mas Rupert e o Madrigal ficaram olhando um para o outro.
Eu sei por que você está aqui, Rupert queria dizer. Mas não vai funcionar. Nós estamos aqui. Eu e Marie e o major, e é você contra três, mesmo que seja o exército contra três. E você não pode nos parar, nós levaremos o Ekat de volta e você não pode ficar com ele.
Mas em vez disso, o guarda na porta ordenou algo em alemão para o Madrigal e o enviou para investigar. Rupert o observou ir. Marie e o Major lidariam com isso. Ele esperou escutar sons de luta, mas nenhum veio.
Rupert decidiu que agora era um momento tão bom quanto qualquer outro.
— Bem — falou Rupert, virando-se para encarar o outro guarda. — Está sendo uma noite e tanto.
O soldado alemão abriu a boca em surpresa ao som do inglês, mas, naquele momento, o major e a Marie vieram derrapando do canto. Rupert aproveitou-se de sua surpresa e bateu no soldado com a coronha da sua arma, derrubando-o no chão. O major chegou lá em um momento. Ele rasgara o belo uniforme de Rupert em tiras, e com elas amarrou e amordaçou o soldado.
Eles entraram na sala.
Era como uma cena de um pesadelo de um louco. Béqueres e caldeirões sendo aquecidos sobre bicos de Bunsen, líquidos estranhos e pós enchiam frascos de vidro e almofarizes de pedra. A eletricidade oscilava, fazendo com que toda a sala brilhasse em uma névoa amarela e laranja ondulante.
— Dr. Woolsey! — chamou o major.
Um homem pequeno em um suéter amarelo e levantou. Ele tinha cabelos brancos que davam a aparência de alguém que tentara consertar a oscilação na eletricidade por si mesmo – e falhado. As pontas se espetavam em todas as direções e parecia que ele não fazia a barba há dias.
— Vamos, vamos — disse o doutor. Suas mãos tremiam enquanto ele pegava um lenço de seu manga e limpava os óculos. — Visitantes. Oh, meu Deus. Cadê a chaleira? Eu não... Eu não consigo... — Ele ajeitou os óculos no nariz. — Bem-vindos a Oxford, rapazes.
— Eles o deixaram louco — falou Marie. — O pobre velho.
— Visitantes, visitantes. Temos, hum, tem vermes. Por favor procure a governanta, Jim.
Mas Rupert não estava mais prestando atenção neles. Ele estava distraído demais olhando em volta. O doutor devia ter ficado louco, mas como? E por quê?
Grandes “V” estavam riscados por todos os lugares – em cima das mesas, nas capas de livros, até mesmo nas paredes.
— Dr. Woolsey, o que esses V significam? — Rupert perguntou. Mas assim que ele falou isso, o doutor ficou muito mais pálido e encolheu-se para dentro de si.
— Vermes! — ele exclamou. — Vermes vis!
Rupert tocou uma das letras esculpidas na mesa de madeira do doutor, correndo o dedo ao longo das farpas afiadas.
— O senhor não pode estar tão apavorado assim por causa de vermes — disse Rupert. — O que V significa?
— Muito. Muito mal comportado — disse o Dr. Woolsey. — Nunca vi alunos tão mal comportados.
— Vamos. — falou o major. — Não temos muito tempo. Doutor, sinto muito, mas teremos que destruir o seu trabalho duro.
O major pegou uma cadeira e preparou-se para jogá-la nas mesas.
— Oh! — O doutor levantou as mãos sobre o rosto e se encolheu.
— Espere! — disse Rupert, pegando a cadeira do major. — Você não pode simplesmente fazer isso. Tem que pensar nas coisas em primeiro lugar. Dois produtos químicos podem explodir se entrarem em contato. Doutor, o que tem aqui?
— Um borrão de chá, acho — respondeu o Dr. Woolsey.
Rupert duvidava muito.
— Marie, você falou que eles começaram a fazer gás aqui? — Rupert perguntou. — E antes disso, o que era? Uma fábrica de tintas?
Oui.
— Rápido, Davenport, rápido! — disse o major.
Rupert ia o mais rápido que podia. Mas coisas delicadas levavam tempo. Não se podia simplesmente destruir um monte de coisas e esperar que elas não criassem fumaça tóxica, ou fogo, ou ambos. E não ajudava que ele não entendesse nada das notas ou dos rótulos do Dr. Woolsey. Eles foram rabiscados em algo que parecia teias de aranha, e metade deles estavam em alemão.
Um pó branco estava rotulado como nATRIUM e outro frasco tinha KOHLENSTOFF rabiscado nele. Uma taça com líquido laranja estava rotulado com ORANGENSAFT.
— Tempo, Davenport. Nós não temos tempo para isso! — disse o major.
— Nada disso faz sentido! — Rupert falou. — Marie!
— Eu não conheço esses tipos de palavras. — ela respondeu. Entretanto ela apontou para a taça laranja. — Isso é suco de laranja.
Rupert respirou fundo. Suas mãos tremiam e ele podia senti-las começando a suar. Ele sabia que eles não tinham tempo suficiente. Mas não podiam deixar aquilo tudo ali – mesmo que ninguém mais soubesse o que os rabiscos do Dr. Woolsey significavam, ainda era arriscado demais. E eles não podiam destruir tudo sem antes se certificarem de não se autodestruiriam no processo. Levava apenas alguns segundos para misturar produtos químicos, para gases tóxicos se infiltrarem-se no ar e no cérebro, no sangue. E Rupert não viera até ali para ser morto por puro descuido.
Uma tigela de folhas verdes na mesa chamou sua atenção.
Strychos? — falou Rupert, se virando para o doutor. — Eles estão fazendo-o trabalhar com estricnina?
— O que é isso? — perguntou Marie.
— Não toque nisso! Estricnina vai te matar em minutos. Misture-o com ácido clorídrico e poderá matar todo mundo em um raio de 250 metros. É nisso que estão obrigando-o a trabalhar? — ele perguntou ao doutor. — E o que é isso? — ele perguntou, correndo em direção a um par de barris grandes no centro da sala. Eram frios ao toque, com uma fina camada de gelo enrolada em torno dos seus invólucros de metal. Os barris eram selados – e quando Rupert se moveu para levantar a tampa de um, o Dr. Woolsey veio correndo e gritando.
 Rupert tropeçou para trás.
— O que tem ali? — perguntou novamente, mas o doutor não precisou responder. Algo frio, algo selado, algo em uma fábrica que já havia produzido gás... — Cloro! Há cloro líquido? Nesses dois?
Essa quantidade de cloro poderia acabar com metade dos exércitos na Frente Ocidental. Rupert cerrou os punhos em volta do próprio cabelo, cambaleando para trás.
— O que foi, Davenport? — indagou o major. Ele pegou uma cadeira. — Nós não temos tempo para isso.
E ele levantou da cadeira para esmagar uma mesa de provetas e pipetas.
— Não, espere! — disse Rupert, olhando para cima. Havia um grande cano de água acima – a água poderia neutralizar o cloro. Eles tinham tirar o doutor de lá, e rápido, mas não podiam deixar os alemães com tal arsenal de gás.
— Davenport, você tem que se apressar. Precisa fazer isso agora. — O major olhou para seu relógio de pulso. — Eles já devem ter descoberto. Eles vão...
O alarme começou a tocar.
— Major, o senhor precisa subir e cortar o cano de água — falou Rupert.
— Major, o senhor está machucado de novo! Está sangrando novamente — Marie notou enquanto o major corria para a instável escada de serviço que corria pelos canos de água e vapor.
— Eu ficarei bem por agora — ele disse, apesar de seu rosto estar pálido e suado. — Vamos lá, Davenport.
— Marie — disse Rupert. — Procure por peróxido de hidrogênio – do tipo para cortes e arranhões – e enxofre. Algo com enxofre. Conhece essas palavras?
Ela assentiu e foi procurar.
  — Doutor, o senhor espera na porta. Vai!
  O major foi rápido como um gato e, lá em cima, deu uma grande pancada no cano com os alicates. E depois outra, e outra, até que o cano saiu do lugar e uma grande quantidade de água derramou-se na sala.
O major desceu e correu para a porta, erguendo o doutor sobre o ombro.
— Vá, major! Pegue o doutor e vá antes da gente — disse Rupert.
O major não precisava de mais instrução alguma; ele correu para fora da porta.
Rupert esfregou o braço no chão que começava a inundar e apertou a manga molhada contra o seu nariz e boca. Ele imaginou que tivesse cerca de quinze segundos. Levantou a tampa de um barril de cloro, e depois do outro. Um gás verde-amarelado grosso saltou para fora, como uma tempestade em miniatura esgueirando-se pelo chão. O gás misturou-se com a água, e a água atraiu-o para baixo, sugando para fora do ar. Mas os olhos de Rupert ainda lacrimejaram, e ele correu.
— Vamos. — ele disse a Marie, que estava começando a tossir mesmo da porta.
Rupert derramou o peróxido de hidrogênio sobre o enxofre, jogou-o, e fechou a porta. Do lado de fora, o guarda alemão amarrado e amordaçado estava se aproximando.
Rupert agarrou-o pela camisa e o arrastou pelo corredor, apesar dos protestos abafados do guarda. O major tinha razão. Eles não matariam uma pessoa no Natal, mesmo que não intencional. Eles só tinham saído há alguns minutos quando uma grande explosão derrubou Rupert e Marie no chão. A porta explodiu de suas dobradiças e madeira quebrada se espalhou pelo corredor.
Para Rupert, era como estar em na terra de ninguém novamente. Ele ficou em pé, agarrou a mão de Marie, e eles correram para a escada. O major e o doutor já tinham passado por ali e ido.
Rupert e Marie desceram as escadas enquanto o alarme gritava e chamava os soldados para a ação; Rupert esperava que esta escada não fosse usada pelas pessoas armadas buscando o motivo dessa agitação toda. Ou pelo Madrigal. Ele não sabia onde o Madrigal tinha ido.
  No porão, a água do cano quebrado escorria pelas paredes. Os dois Cahill correram para a sala da caldeira, e para baixo através da grade. Desta vez, eles não se preocuparam em espirrar lama ou fazer barulho.
O major e o doutor esperavam por eles do lado de fora. Lá, o ar estava frio, claro e limpo, e Rupert o respirou profundamente.
Do outro lado da fábrica, o caos tomava conta. Um fogo químico havia se alastrado no laboratório, sirenes soavam e gritos zangados em alemão ecoavam para cima e para baixo na margem do rio. Fumaça preta derramava-se em direção às nuvens, e grandes línguas de fogo saltavam no ar. A visão disso fez Rupert se arrepiar. Mas eles estavam lá fora. Estavam além do rio. Estavam se escondendo nas sombras do lado francês da água, fazendo uma pausa para o doutor recuperar o seu fôlego.
Rupert se sentou, também, e assim que o fez, soltou um grande suspiro. Ele estava tremendo de novo, do frio, dos nervos e do choque da explosão. Mas estava ali e estava inteiro, assim como os outros três.
— Quase lá. — disse Rupert. — Vamos andando. Doutor, deixe o major ajudá-lo. Vamos.
Ele se levantou, e os quatro Cahill caminharam pela neve e foram na direção das linhas de frente. Ainda estava escuro; ainda era véspera de Natal. Eles só tinham que atravessar as trincheiras novamente, e estariam seguros. Então, esperariam por mais um milagre.

* * *

Nas linhas das trincheiras, a reunião de Natal ainda acontecia. Um grande jogo de futebol havia estourado. Parecia que o conceito de lados na guerra tinha desaparecido, e na terra de ninguém estavam cerca de cinquenta jovens, todos perseguindo uma bola. Alguns dos soldados compartilhavam xícaras de café quente, e Rupert até viu um dos soldados britânicos dando a um soldado alemão um corte de cabelo.
— Isso significa que a guerra vai acabar logo? — perguntou Rupert. Era difícil o suficiente matar uma pessoa quando você mal sabia alguma sobre ela. Ninguém mais conseguiria fazer isso depois de jogarem futebol, depois cantarem juntos, depois de compartilharem tanta boa vontade. — Eles não podem lutar depois disso.
Um pouco mais adiante, um homem estava de pé diante de uma pequena multidão. Ele alava em inglês, mas com um forte sotaque alemão.
— É uma missa? — perguntou Marie.
O major disse que não sabia, mas tirou o quepe de qualquer modo.
— Paz — o homem falou. — Que haja paz sobre esta Terra. Que haja paz sobre esses corações. Nesta noite, lembremo-nos de que o homem não foi feito para fazer a guerra. O homem não foi feito para carregar o ódio. O homem foi feito para carregar o amor, a bondade e a gentileza. O homem foi feito para ajudar a seu vizinho, para viver com um coração gentil e os braços abertos. Vamos perdoar, vamos nos juntar. Vamos caminhar em paz com aqueles que são diferentes de nós. Vamos dar ao mundo tanta beleza e bondade quanto pudermos oferecer – e, meus amigos, podemos oferecer tanta! Somos todos um — disse ele. — Alemão ou inglês ou francês. Somos todos irmãos. Somos todos uma família.
Era o Fritz. Era o Madrigal. Era o Madrigal quem se erguia na frente daquelas pessoas e proclamava um espírito de paz e boa vontade. Rupert não entendia. Ele não entendia como o Madrigal podia dizer essas coisas com tanta convicção, como se ele realmente acreditasse nisso. Ele fez Rupert acreditar.
Confusão e raiva ferveram dentro de Rupert – ele queria gritar, exigir uma explicação para tudo isso, queria chamar o Madrigal de um mentiroso e trapaceiro.
O Madrigal se virou, e olhou nos olhos de Rupert.
— Feliz Natal — disse o Madrigal. — E que haja paz na terra.

* * *

Os três Cahill levaram o Dr. Woolsey para os enfermeiros, onde o major explicou que ele era um prisioneiro de guerra britânico que havia acabado ser resgatado. Que ele deveria ser cuidado, mas não questionado; estava em um estado muito delicado. Os enfermeiros levaram-no com seus aventais brancos e suas vozes suaves.
— Vamos deixá-lo dormir essa noite — falou o major. — Amanhã veremos se ele pode nos dar mais informação do que ele passou.
 — Eles... Alguém... Major — disse Rupert. — Major, aquilo teria... Ácido clorídrico e estricnina fazem um par feio. Você pega um pouco disso e daquilo...  ele te mata, em poucos minutos. Se tivessem, eu, eu não sei, usado como gás...  Eles poderiam ter matado todo mundo. Dentro de minutos. Dentro de poucos minutos — Rupert balançou a cabeça. Ninguém precisava ser capaz de fazer isso. Nem Madrigais, ou Cahill, ou alemães, ou as pessoas V, seja lá quem elas fossem.
 — Mas nós os paramos — lembrou o major. E Rupert assentiu. — Você fez um bom trabalho. Dormirá bem essa noite.
Mas ele não conseguia tirar o Madrigal da cabeça. Por que um Madrigal proclamaria a paz? E por que um Madrigal os deixaria entrar em uma sala guardada? Rupert se perguntou se essa era a versão Cahill de uma trégua de Natal – vamos parar de caçá-los por tempo suficiente para você desfrutar de um doce.
Mas Rupert olhou para Marie e o major e imaginou que esta talvez fosse também uma espécie de trégua dos Cahill de Natal.
Mes cousins — Marie disse. — Vocês virão à minha casa para a ceia de Natal. Teremos um pequeno ganso. Será ótimo. Falarei com minha maman e meu papa sobre isso.
— Será maravilhoso, Marie — concordou o major. Ela pegou a mãos dos dois, beijou suas bochechas e desapareceu na noite como um fantasma. O major olhou para Rupert de cima para baixo com um olhar estranho. — Vamos lhe arranjar um novo uniforme antes que a minha boa vontade desapareça.
— Bom plano. — disse Rupert, lembrando que ele estava vestido como um soldado alemão. Ele tentou o seu melhor para encobrir seus remendos regimentais enquanto faziam o seu caminho passando por soldados que dormiam, homens escrevendo cartas e outro grupo de cantores indo às barracas de suprimentos.
Lá, o major Thompson encontrou um uniforme padrão britânico para Rupert.
— Aqui está, comandante Especial — falou o major.
— Obrigado — respondeu Rupert. Porém alguma coisa não parecia certa. — Major Thompson?
— Sim?
— Eu tenho que confessar uma coisa.
— Você não é o Comandante Especial Albert Davenport.  Ou melhor, Segundo Tenente Albert Davenport.
— Não — concordou Rupert.
— E você nem mesmo faz parte oficialmente de uma das forças armadas de Sua Majestade.
— Como você sabia?
— Não é difícil diferenciar um soldado treinado de um não treinado.
— Mas você não disse nada. Me deixou seguir em frente, como se eu fosse parte disso. Não disse nada.
— É como eu disse antes — respondeu o major. — Você tem que ver as coisas de perto, às vezes, e adaptar-se ao que recebeu. Então você não era Albert. Bem, quem sabe o que o seu irmão – estou assumindo que seja o seu irmão – teria feito em seu lugar? Talvez ele tivesse feito um trabalho excelente e teríamos chegado a este feito na noite passada. Pelo o que ouvi falar dele em batalha, eu duvido. Rumores dizem que ele choramingou durante a batalha do Marne e não parou até que um general o consolou com doces — Rupert tentou não sorrir diante disso. — Ou talvez você seja ótimo no trabalho, garoto, e ele teria sumido da minha vista assim que descobrisse que eu não era igual a ele. Quem sabe?
Rupert tocou o material áspero do uniforme.
— Vou colocá-lo em um trem de volta para o canal e depois para a Mãe Inglaterra amanhã à noite — continuou o major. — Não abra a boca para reclamar. Você veio, teve a sua aventura, e agora voltará para casa, acalmará seus pais e voltará para a escola, e em seguida, talvez quando tiver idade suficiente, pode juntar-se de verdade a nós. O exército em tempo de paz não é tão ruim. Mas você voltará para a Inglaterra, entendido?
— Você não pode mandar em mim, sabe. Não é meu comandante.
— Não, isso é verdade. — disse o major. — Mas eu sou seu primo mais velho. E você tem que me obedecer.
Rupert sorriu.
— Vá dormir — disse o major. — E feliz véspera de Natal, Davenport.
— Para você também — respondeu Rupert.
O major saiu em busca de uma refeição e uma cama. Rupert foi deixado sozinho, entre a borda da batalha e os primórdios da vida civil.
Paz, disse o Madrigal. E talvez ele estivesse certo. Com alguma sorte, a guerra acabaria na primavera e eles poderiam seguir em frente. Eles poderiam desengatar do medo e da raiva e da morte e da guerra. Talvez houvesse paz ali. E talvez houvesse paz em casa.
Ele pediu um pedaço de papel e um lápis de um soldado nas proximidades e sentou-se contra uma pilha de caixas de abastecimento.
Querido Albert, ele escreveu. Espero que você esteja bem no Natal. Era um começo.
Das trincheiras, veio um riso alto e depois aplausos enquanto alguém marcava um gol. Não, não haveria guerra por algum tempo. Haveria alegria e descanso e paz. Entre a Inglaterra e aos seus inimigos. Dentro do Continente. E, talvez, dentro de uma família espalhada por todo o mundo. Não era tão impossível quanto parecia.
E Rupert Davenport nunca errava sobre qualquer coisa. Na maioria das vezes.

2 comentários:

  1. P. (ajoelhem-se perante seu imperador)12 de julho de 2016 22:28

    Isso sim foi um señor conto mi amigos, os madrigal só aparecem pra colocar dúvidas e os Vespers não são mais que uma sombra maligna, e eu amo essa história do natal de 1914

    ResponderExcluir
  2. Oi Karina,
    Eu achei uns errinhos no livro, você pode arrumar?
    "algumas das solas batiam em volta de como línguas soltas." não seria "batiam em volta como línguas"?
    "cerca de m quilômetro e meio." aqui tem um errinho de digitação;
    "Nós vamos entraremos, então." essa frase está meio estranha;
    "com o lampião acesa a seus pés." não seria "aceso"?
    "Maior Thompson" outro errinho de digitação;
    "ele peito para enfrentar aqueles soldados" aqui faltou uma palavra;
    "brincando um com s outro e rindo." outro errinho de digitação;
    "sempre tentanfo" outro errinho de digitação;
    "cerrou os punhos m volta" outro errinho de digitação;
    " madeira quebrada se espalhou corredor." e aqui faltou uma palavra.
    Obrigado!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!