11 de julho de 2016

Corrida à Meia-noite


Attleboro, Massachusetts
Véspera de Natal

Dan Cahill sempre desejou ver a aterrissagem de um helicóptero, mas ele poderia ter feito isso sem precisar ver a saia de sua tia avó voar acima de sua cabeça.
— Isso é um absurdo! — Tia Beatrice gritou enquanto abaixava a barra de seu vestido vermelho com babados sobre sua calcinha bege de velha.
— Isso é incrível! — Dan sorriu enquanto limpava a neve de seu rosto.
As hélices zunindo tinham criado uma mini-nevasca no enorme gramado da mansão de Grace Cahill, fazendo com que fosse impossível ver quem estava dentro do helicóptero. Dan foi um pouco para frente, ansioso para ver melhor. No ano anterior, até o primeiro ministro do Japão viera para a festa anual de Natal de sua avó. Ele sabia que alguém ainda mais importante poderia ter chegado. Como o primeiro ministro dos ninjas assassinos. Ou um arremessador do Red Sox!
Porém, antes que ele pudesse dar mais alguns passos, alguém o puxou para trás.
— Você está louco? — sua irmã mais velha, Amy, gritou por cima do barulho do vento. — Quer ter sua cabeça arrancada?
Dan revirou os olhos. Ou pelo menos tentou. É difícil revirar os olhos quando suas pálpebras parecem ter congelado no rosto. As hélices já estavam parando e, além de tudo, Dan sabia que não devia chegar tão perto. Mas não adiantaria dizer a Amy que se acalmasse. Ela sempre foi uma sabe-tudo, porém nos últimos seis anos, desde que seus pais morreram, Amy tinha elevado o termo “mandona” a um nível mais acima. O fato de tia Beatrice parecer se importar mais com sua coleção de gatos de cerâmica do que com Dan e Amy também não ajudava em nada. Então, embora Amy tivesse apenas treze anos, às vezes tentava agir mais como sua mãe do que como sua irmã mais velha.
Os três viram quando dois homens musculosos de terno, óculos escuros e fones de ouvido abriram a porta do helicóptero e começaram a examinar o gramado coberto de neve. Aparentemente, o estranho cabelo azul de Tia Beatrice não contou como uma ameaça à segurança, porque eles sinalizaram um para o outro que a área estava limpa, e então ajudaram uma mulher de aparência importante a sair do helicóptero, e seguiram apressadamente encosta acima, em direção à mansão de Grace.
— Eu a-a-acho que aquela é a embaixadora da França. — sua irmã gaguejou, sua timidez retornando.
Dan e Grace eram praticamente as únicas pessoas que já tinham visto a verdadeira Amy. Na frente de todos os outros: professores, colegas de classe, parentes distantes, e até de suas rigorosas au pairs, Amy se transformava em uma corada bola de nervos.
— Vamos. — chamou tia Beatrice, tirando a neve de seu casaco enquanto se virava e começava a subir a colina. — Já estamos atrasados o suficiente.
Isso porque você dirige como uma preguiça velha, pensou Dan. Mas não havia sentido em sussurrar isso para Amy. Ela já estava preocupada demais para rir. Normalmente visitar Grace era o ponto alto da semana, no entanto, passar uma tarde fazendo biscoitos em sua enorme cozinha ou brincar de piratas versus cavaleiros em seu quintal – que mais parecia um parque – era uma coisa; outra completamente diferente era passar a véspera de Natal em uma casa cheia de primos de quarto e quinto graus que sempre faziam observações estranhas sobre os pais de Dan e Amy. Ou, pior, agiam como se não enxergassem os irmãos Cahill.
Até a mansão de Grace parecia diferente, coberta por luzes cintilantes que deveriam parecer amigáveis, mas que também poderiam estar dizendo “Você não pertence a este lugar” em código Morse. Casais requintados saíam de limusines, seguidos por seus filhos elegantes. Equipes de empregados perambulavam para dentro e para fora da casa, carregando pilhas de cadeiras e arrastando mesas pesadas pelo caminho, seguindo pela entrada de serviço na lateral da casa. E, ao redor do perímetro, Dan reconheceu as sombras familiares de seguranças particulares de personalidades estrangeiras, fazendo o isolamento da área.
Dan avistou um famoso lutador de artes marciais mistas do outro lado do caminho de entrada e, ao lado dele, o campeão mundial peso médio de boxe do último ano. Talvez Grace pudesse apresentar Dan a ele! Animado, Dan fingiu um golpe no ar e um chute alto, mas atingiu acidentalmente um garçom, que tropeçou e deixou cair no chão uma bandeja cheia de biscoitos.
— Pare com isso! — ordenou tia Beatrice. — É por isso que Grace os deixou comigo ao invés de tê-los adotado. — Ela apontou um dedo ossudo para o braço de Dan e, em seguida, para o próprio peito, como se para enfatizar a dor que a “adoção” causara para ambas as partes.
— I-i-isso não é verdade — disse Amy, apalpando o bolso em que, Dan sabia, o presente que eles dariam para Grace estava guardado em segurança. — É porque ela viaja muito. — Enquanto as avós da maioria das pessoas passavam seus dias tricotando, cuidando de jardins e outras coisas do tipo, Grace estava sempre apressada para “visitar um amigo querido em Moscou” ou “cuidar de algum assunto de família em Buenos Aires”.
Tia Beatrice ergueu uma fina e desenhada sobrancelha, e fez um som que era algo entre um grunhido e uma risada. Dan sentiu seu peito começar a apertar, como sempre acontecia quando ele pensava na situação de suas vidas. Por que Grace mandara ele e Amy para viverem com a irmã dela ao invés de cuidar deles? Não poderia ser por causa das “travessuras de Dan”, como tia Beatrice costumava dizer. Grace foi quem lhe ensinara os melhores movimentos de karatê.
Sem mais nenhuma palavra, tia Beatrice passou à frente deles e foi apressadamente para dentro da casa.
— Vamos. — Dan gesticulou para Amy. — Não será tão ruim.
— Você acha que os Cobras estão aí? — Amy sussurrou, usando o apelido que eles utilizavam para se referir a seus esnobes e distantes primos britânicos, os Kabra.
Dan colocou sua mão enluvada no ouvido.
— Eu não ouço nenhum silvo. Acho que estamos seguros. — Ele estendeu a mão e puxou o cachecol de Amy. — Vamos. Grace provavelmente está esperando por nós.
Amy assentiu, mas, em seguida, chamou a atenção de Dan. Ela nem precisou falar. Ele sabia que ambos pensavam a mesma coisa.
Espero que ela esteja esperando por nós.

* * *

Ian Kabra olhou para baixo, para o saco amassado de nozes que a comissária de bordo da primeira classe colocara em sua bandeja e zombou:
— Vocês chamam isso de... refeição?
— Deseja algo mais? — a jovem mulher perguntou com um sorriso forçado.
Pela centésima décima segunda vez desde a decolagem, Ian lamentou as terríveis circunstâncias que forçaram a ele, sua irmã Natalie e sua mãe a embarcarem em um voo comercial. Dinheiro podia comprar qualquer coisa – pinturas Picasso, casacos feitos de pele de espécies ameaçadas de extinção... uma sentença de prisão para um professor de ciências que havia sido tolo o suficiente para acusar Ian de trapaça (ele havia trapaceado, é claro, mas essa não era a questão). Certamente também podia comprar qualquer peça que necessitasse de substituição no jatinho particular dos Kabra, ainda que fosse véspera de Natal.
— Sim — respondeu Ian, pegando o pequeno pacote prateado de nozes como se fossem vermes — algum biscoito e caviar seriam ótimos, mas certifique-se de que seja de esturjão.
— Lamento, mas não temos caviar. Gostaria de um biscoito de chocolate?
— Que tal cupcakes? — perguntou Natalie, inclinando-se do assento da janela. — Aprecio muito um cupcake assado na hora, mas somente se você tiver geleia de romã.
Do outro lado do corredor, a mãe de Ian, Isabel Kabra, ergueu seu braço longo e fino e dispensou a aeromoça.
— Eles estão bem. — ela falou com uma voz excessivamente agradável, que ela reservava para as pessoas que a deixavam irritada, mas que não mereciam sua preocupação. — Pode ir. Você saberá quando estivermos precisando do seu excepcional serviço.
— Mas eu estou com fome. — Natalie choramingou enquanto a mulher saía apressada.
— Nós já vamos aterrissar. Coma quando chegarmos à festa. No mínimo, Grace Cahill sabe como entreter.
O celular de Isabel vibrou ao receber uma nova mensagem. Ela o pegou e, com um dedo perfeitamente bem cuidado, abriu a mensagem.
— Com licença — a mulher atrás de Isabel inclinou-se para olhar seu celular. — Você recebeu uma mensagem? Como tem sinal aqui em cima?
Isabel virou-se e deu à mulher um sorriso apertado.
— Eu fiz... Alguns ajustes especiais.
Os olhos da mulher se arregalaram.
— Sério? Que companhia de telefonia você usa? Posso ver... — ela parou de falar quando Isabel levantou uma sobrancelha e apertou os lábios. Em qualquer outra pessoa a expressão seria perfeitamente inofensiva. Mas em Isabel Kabra, bem, Ian presenciara primeiros-ministros silenciarem-se. Sem mais palavras, a mulher esgueirou-se de volta a seu assento.
Enquanto Isabel lia a mensagem, Ian se perguntava o que a mulher pensaria se soubesse a verdade. O celular de sua mãe funcionava a mais de nove quilômetros de altura porque ela era uma Cahill, a mais poderosa família do mundo. Era um segredo bem guardado, é claro, mas quase todas as figuras importantes dos últimos cinco séculos eram da família Cahill: gênios militares como Napoleão Bonaparte, cientistas como Marie Curie, artistas como Claude Monet, e por aí vai. No entanto, ser um Cahill não era apenas jogos e diversão. A fonte de poder da família fora há quinhentos anos, escondida ao redor do mundo na forma de 39 pistas. A primeira pessoa a reunir todas as 39 pistas desvendaria um segredo que a permitiria tornar-se o mais poderoso Cahill do mundo.
— Excelente — murmurou Isabel, com os olhos ainda fixos na tela.
— O que foi, mamãe? — Natalie perguntou.
— Os idiotas no centro de comunicação finalmente conseguiram enviar plantas atualizadas da mansão de Grace Cahill. Vou encaminhá-los para os seus celulares, para que possam estudar os mapas durante o resto do voo. — Ela olhou para cima. — Ian, conseguiu quebrar o sistema de segurança?
Ian endireitou os ombros e limpou a garganta.
— Sim, mãe — ele disse, orgulhoso.
Ele e sua família pertenciam aos Lucian, o clã mais distinto da família Cahill, famoso por sua astúcia, estratégia... e crueldade. Quase todos os presidentes, magnatas dos negócios e espiões de primeira pertenciam ao clã Lucian. Era por isso que o seu clã deveria ser o primeiro a encontrar as 39 pistas. Ele não conseguia se imaginar vivendo em um mundo governado pelos cientistas Ekaterina, pelos artistas Janus, ou pelos atletas Tomas. Não, apenas um Lucian saberia lidar com a responsabilidade de dominar o mundo.
Então, em vez de ter aulas de dança ou aprender a tocar oboé como seus colegas de classe terrivelmente maçantes, Ian e Natalie receberam instruções particulares sobre criptografia de decifradores de código de última geração, e aprenderam a manusear venenos, pular de paraquedas de um avião e a interrogar traidores. Embora ele tivesse apenas treze anos e Natalie dez, haviam gastado a maior parte de suas vidas treinando para se tornar agentes Lucian de elite. No entanto, esta era a primeira vez que os irmãos tinham sido incumbidos de completar uma tarefa por conta própria, e Ian estava determinado a concluir tal tarefa com perfeição.
— Perfeito — disse Isabel com um sorriso.
— Então, qual é o alvo, mamãe? — perguntou Natalie, ansiosa.
— O alvo — Isabel se inclinou, seus braceletes de ouro tilintando sobre o assento — é o anel de noivado que Paul Revere deu à sua segunda esposa, Rachel Walker, durante a Revolução Americana.
Natalie suspirou.
— Aquilo foi um desastre.
— Eu nunca vou entender por que os bárbaros estavam tão interessados em conquistar sua independência — disse Ian. — Pense quão felizes eles estariam se ainda fossem servos britânicos. Eles saberiam a maneira correta de servir chá, e saberiam soletrar “viajante”.
— Crianças — a voz de Isabel era fria — concentrem-se, por favor.
— Sim, mamãe. — Natalie concordou timidamente.
— Revere gravou um código no interior do anel, mas a mensagem se perdeu do registro histórico. Precisamos daquele anel para podermos rastrear a próxima pista.
Ian balançou a cabeça.
— Temos alguma ideia de onde Grace guarda o anel?
— De acordo com nossa equipe de inteligência, Hope Cahill encontrou o anel e o escondeu em outro objeto, para sua segurança. Ele ainda deve estar na casa de Grace em algum lugar, e cabe a vocês dois encontrá-lo. Esta noite.
— Certamente — disse Ian, imitando o tom descuidado que seu pai usava quando discutiam alguma missão. — Natalie e eu estaremos com o anel até a meia-noite.
— Eu sei que estarão — Isabel sorriu — Porque, como vocês bem sabem, o fracasso não é uma opção em nossa família. — Sua voz era suave, mas havia algo em seus olhos que provocou um arrepio na espinha de Ian. Ele trocou um rápido olhar com Natalie, que havia ficado pálida e silenciosa. Eles encontrariam o anel, não importasse o que custaria. Eram Lucian, afinal. Eles sabiam como lidar com qualquer um que entrasse em seu caminho.

* * *

Amy estremeceu quando eles entraram no saguão. Não pela temperatura, porque a casa de Grace estava sempre aquecida, mas pela quantidade estonteante de pessoas no local – todos aguardando para que seus casacos fossem recolhidos pelos mordomos. Acima das conversas e dos pedidos para que os convidados tivessem seus casacos guardados, Amy conseguiu ouvir um piano sendo tocado no salão principal.
Uma mulher elegante passou por eles, um enorme turbante verde na cabeça. Ela conversava atentamente com um homem que vestia um kilt escocês.
— Você viu isso? — Dan cutucou Amy nas costelas. — Será que ele está usando algo por baixo? O que teria acontecido se ele estivesse lá fora quando o helicóptero pousou?
— Pare com isso — Amy o repreendeu. — Tente se comportar pelo menos dessa vez, ok? Nós não queremos constranger Grace.
Dan lançou-lhe um olhar penetrante que de repente o fez parecer ter mais que dez anos.
— Você sabe que tia Beatrice só disse aquilo porque queria ser má, certo? Não foi por isso que Grace não nos trouxe para morar com ela.
— Eu sei — respondeu Amy, forçando um sorriso enquanto se aproximava para ajeitar a gravata borboleta que tia Beatrice insistira que ele usasse.
Ainda assim, ela às vezes se perguntava se a recusa de Grace também não tinha algo a ver com o fato de que Amy e Dan não se encaixavam bem em sua vida glamourosa, que eles apenas estavam em seu caminho.
Amy puxou para baixo seu vestido de festa curto demais. Este era o terceiro ano seguido que ela vinha para a festa de Grace com o mesmo vestido. O dinheiro que tia Beatrice lhes dava não era suficiente para cobrir roupas para ocasiões especiais, e, embora ela soubesse que Grace lhes daria dinheiro com prazer, Amy nunca se sentira confortável o suficiente para pedir.
Amy tentou ignorar a súbita dor em seu peito enquanto se lembrava do último Natal com os pais. Sua mãe, Hope, a levara para fazer compras na Newbury Street, e depois elas tinham ido tomar chocolate quente em um hotel de luxo. Embora já tivessem se passado seis anos desde o incêndio, ela ainda achava difícil acreditar que nunca mais ouviria a risada da mãe. Nunca mais veria o sorriso estampado no rosto do pai quando ela e Dan corriam para recebê-lo na porta.
— Onde está a Grace? Você a está enxergando? — Dan perguntou impacientemente. — Quero dar a ela o nosso presente!
Amy era mais alta que seu irmão, mas só um pouco. Ela precisou ficar na ponta dos pés para ver alguma coisa além do mar de braços e pernas à sua frente.
— Aí estão vocês! — Amy virou-se ao ouvir aquela voz familiar.
Grace vinha deslizando na direção deles, o mar de convidados dando-lhe espaço para que a anfitriã pudesse passar.
— Grace! — Dan gritou, e saiu correndo para cumprimentá-la, quase derrubando um homem pequeno e atarracado. Amy parou para pedir desculpas ao popular apresentador de TV antes de correr e abraçar sua avó.
— E como estão vocês, meus queridos? — Grace finalmente perguntou, em meio aos abraços e risadas.
— Estamos ótimos! — Amy respondeu, um pouco entusiasmada demais.
Ela não queria que Grace pensasse que ela estava apreensiva em meio a todos aqueles convidados importantes.
Grace sorriu.
— Fico muito feliz em ouvir isso. Escutem, preciso ter uma conversa rápida com o presidente do Comitê Olímpico, mas volto aqui para vocês daqui a pouco.
Amy colocou a mão no bolso e pegou o presente que ela tinha embrulhado com tanto cuidado.
— Trouxemos isso para você.
— Vocês dois são as pessoas mais doces que conheço. Por que não levam seus casacos para a biblioteca, e eu os encontro lá assim que tiver terminado aqui? Deixei um presente lá para vocês também — Ela beijou-os e em seguida se retirou, deixando Amy com o presente ainda em sua mão estendida.
Tia Beatrice já havia desaparecido na multidão, então Amy e Dan se encaminharam para o grande salão, onde os trabalhadores haviam erguido um abeto gigante de quase dois andares de altura utilizando um sistema de polias a partir da varanda do segundo andar. Enfeites coloridos foram pendurados ao longo das paredes, e em um aparador estava um bonito castiçal de velas.
— Nós celebramos o solstício de inverno — Grace havia explicado uma vez. — Não apenas o Natal.
Ela sempre lhes dissera que a família Cahill espalhava-se por todo o globo, composta por médicos, artistas e líderes mundiais. Amy, no entanto, nunca conseguira se sentir parte de sua grande e bem-sucedida família. Ela não era como o seu primo distante, Jonah Wizard, a estrela do hip hop de quatorze anos, ou Ned Starling, o gênio adolescente da ciência. Ganhar a maratona de leitura de verão de sua escola havia sido a maior conquista de Amy. Era uma tolice, ela sabia, mas enquanto via Grace entretida em uma conversa com um ganhador do Oscar de apenas dezesseis anos, uma pergunta terrível tomou forma em sua cabeça. Se Jonah fosse órfão, Grace o adotaria? Será que algum de seus ilustres parentes seria mais digno do tempo de sua avó?
Havia bem menos pessoas perto das escadas, e Amy deu um suspiro de alívio quando ela e Dan conseguiram chegar lá. No patamar, Dan parou para se maravilhar com uma nova coleção de espadas que havia sido colocada na parede.
— De onde você acha que estas vieram?
Amy deu de ombros. Grace estava sempre trazendo tesouros de vários lugares do mundo. Ela muitas vezes sonhava em ser convidada a participar de uma das viagens de Grace mas, até hoje, isso não havia acontecido. Ela e Dan só haviam deixado Massachusetts algumas poucas vezes, e, mesmo nessas vezes, nunca se aventuraram muito além de Nova York ou New Hampshire.
— Legal! — disse Dan. — Aposto que guerreiros antigos fizeram movimentos impressionantes com essas lâminas incríveis.
Alguns minutos depois, eles adentraram o cômodo preferido de Amy: a biblioteca de Grace. Preenchidas com livros do chão ao teto, as prateleiras eram feitas de madeira envernizada, esculpidas em padrões ornamentais. Confortáveis poltronas de couro ficavam dispostas em pares ao redor da sala, para quando você encontrasse um bom livro e não quisesse ir muito longe para lê-lo.
Ela e Dan penduraram seus casacos em duas poltronas, e então se viraram para dar uma olhada no ambiente.
— Onde está o nosso presente? Você está vendo? — Dan perguntou. Ele ainda não tinha comido nenhum biscoito natalino, mas já parecia estar com alto teor de açúcar no sangue. — Será que está na mesa?
Ele saiu correndo, e Amy o seguiu. Em vez do presente, a grande mesa de Grace estava coberta de mapas – alguns dos quais era óbvio que a própria Grace havia desenhado. A avó deles tinha sido uma cartógrafa de destaque em sua juventude. Tomando cuidado para não bagunçar os documentos, Amy se inclinou para analisá-los mais de perto. Havia mapas de uma cadeia de montanhas no Japão, uma floresta no Zimbábue e o que parecia ser um conjunto de rios brasileiros.
— O que é isso? — Dan perguntou.
Ele pegou algo da mesa e ergueu.
— É um cartão de embarque — disse Amy, apertando os olhos para ler as letras pequenas. — Parece que Grace foi para a Cidade do Cabo... na semana passada.
Dan franziu a testa.
— Isso não foi quando ela estava doente? Por isso ela não pôde ir à minha peça de Natal. — Ele se virou para Amy com os olhos arregalados. — Por que ela mentiria?
— Tenho certeza que ela não mentiu — Amy disse rapidamente. — Provavelmente se trata de algum mal-entendido.
— Mas e o presente?
— Grace deve ter esquecido onde o colocou. Ou talvez alguém o tenha levado para algum outro lugar quando estavam preparando tudo para a festa.
— Sim, talvez. — Dan ecoou. A animação que ele havia mostrado momentos antes parecia ter sido drenada para longe.
Amy colocou a mão no ombro de Dan.
— Vamos. Devemos voltar para a festa.

* * *

Amy bebericava uma xícara de chocolate quente enquanto analisava todo o salão principal, que agora estava cheio de Cahill de todo o mundo, a maioria dos quais Amy e Dan nunca tinham encontrado.
— Torta de siri? — um garçom perguntou, estendendo uma bandeja de prata para Amy e Dan.
— Se você não se importar — Dan disse, pegando toda a bandeja do garçom, que olhou para ele confuso antes de voltar para a cozinha.
— Dan! — Amy podia sentir suas bochechas queimando. — Você deveria pegar um. Não toda a bandeja.
— Suponho que seja isso o que aconteça quando se deixa órfãos sozinhos em uma festa elegante — falou uma suave voz masculina atrás deles.
O coração de Amy subiu à boca quando ela se virou e viu Ian e Natalie Kabra sorrindo para eles. Ian usava um smoking, e parecia ainda mais alto que no ano anterior. E, apesar de Natalie ter apenas dez anos, seu exuberante vestido a fazia parecer uma estrela de cinema mirim.
— Eles não os alimentam no orfanato? — Natalie perguntou, franzindo o nariz para Dan enquanto ele enfiava uma torta de siri na boca.
— Nós não vivemos em um orfanato — devolveu Dan. Infelizmente, sua boca estava cheia, e ele não conseguiu falar sem fazer pedaços de torta voarem pelo ar.
— Talvez Grace tenha contratado os dois para servir os aperitivos — observou Ian. — Imagino que eles estejam precisando de dinheiro extra.
— Nós não somos garçons, somos os netos dela! — disse Dan, quase gritando. — E você sabe disso.
— Dan — Amy o cortou — fale mais baixo.
Os convidados já começavam a olhar por cima dos ombros para ver o que estava acontecendo. A última coisa que Amy queria era uma cena na frente de sua avó, que estava a apenas alguns metros de distância, conversando com um famoso pianista chinês.
— Exatamente, Dan — concordou Ian — faça o que a mamãe está te dizendo.
— Ah, espere — Natalie riu ao lado de seu irmão. — É verdade. Vocês não têm mãe. Não mais.
Amy olhou para os Kabra, sem acreditar que eles haviam dito aquilo, e começou a pensar no que dizer para colocar Ian e Natalie no lugar deles. Mas, como tantas vezes antes, tudo o que ela fez foi resmungar.
— Vão embora.
— Oi? — indagou Ian, aproximando seu ouvido do rosto de Amy. Ela podia sentir o perfume em seu terno. — Sinto muito, eu não falo camponês.
Natalie começou a rir novamente, e Amy sentiu o calor subindo em seu pescoço. De repente, o salão parecia muito quente e lotado, e Amy teve que respirar fundo para não explodir de raiva.
Amy lançou a Ian um olhar severo, o melhor que conseguiu fazer. Ele sorriu e levantou uma sobrancelha, irônico.
— Seu humor sagaz e incrível conversação devem encantar os convidados de Grace. Tenho certeza de que ela está muito orgulhosa.
Por um momento, tudo o que Amy conseguiu fazer foi tremer de raiva, magoada, enquanto Ian e Natalie se afastavam, rindo quando olhavam para trás. Ela sabia que seu rosto deveria estar vermelho brilhante, então ficou aliviada quando as luzes se apagaram e em algum lugar à distância alguém começou a tilintar numa taça repetidamente. A multidão aquietou-se, e Amy voltou sua atenção para frente do grande salão, onde agora estava a sua avó.
— Sejam todos muito bem-vindos! — a voz de Grace encheu a sala com seu calor. — Estou muito contente que todos tenham se juntado a mim para celebrar o Natal e esta alegre temporada de inverno.
Ainda que Grace estivesse se dirigindo a uma multidão de centenas, o som de sua voz era reconfortante. Ela nos ama, Amy lembrou a si mesma, fechando os olhos enquanto recordações de seus felizes finais de semana juntas passavam por sua cabeça. Ela se esforça para ver-nos o máximo possível.
Depois de um momento, Amy percebeu que sua avó tinha parado de falar, e o salão estava silencioso novamente. Ela abriu os olhos e, em meio ao brilho suave das velas no grande salão, a árvore de Natal começou a brilhar intensamente. Os convidados exclamaram e aplaudiram, incluindo Amy e Dan. Ela sentiu seus ombros relaxarem um pouco quando o espírito do Natal preencheu o salão.
Amy olhava para o seu irmão para ver se ele tinha se recuperado do encontro com os Kabra, quando viu, por cima do ombro, Ian e Natalie escapulindo do salão. Que estranho, Amy pensou. Por que sair se a festa está apenas começando? Não era algo típico dos Kabra perder a oportunidade de socializar com os ricos e famosos.
— Dan — ela sussurrou. — Para onde você acha que eles estão indo? — Ela apontou para a porta.
— Eu não sei — disse ele, estreitando os olhos. — Mas acho que nós devemos descobrir.
Amy parou. Ela estava quase ansiosa por mais uma daquelas conversas com os Kabra, mas não gostou da ideia de esgueirar-se pela casa de Grace com seu irmão. Então, com um aceno de cabeça, ela fez um gesto para que Dan a seguisse, e os dois saíram do salão lotado.
No corredor, os sons da festa esmaeceram e a casa tornou-se quieta e escura. Amy ouviu o rangido de um piso acima deles e fez um gesto para Dan, “no andar de cima”. Ele acenou com a cabeça, concordando, e juntos, eles se dirigiram rapidamente, na ponta dos pés, para a grande escadaria.
O corredor de retratos no topo da escada ia para a direita e para a esquerda, cobrindo toda a largura da casa.
— É provável que eles tenham ido por ali — disse Dan, apontando para o lado esquerdo do corredor. Amy concordou, e eles seguiram naquela direção. — Nós devemos checar o quarto do embaixador chili? — Dan sussurrou para ela.
— Você se refere ao quarto do embaixador chileno? — Amy corrigiu-o. O embaixador era um amigo próximo de Grace desde sempre, pelo o que Amy podia dizer. Ele sempre ficava no mesmo quarto de hóspedes, o mais próximo da escada e, consequentemente, da cozinha. — Eu não sei. Não me sinto confortável o bastante pra entrar lá.
— Eu também não. Deve ser muito apimentado lá dentro.
Amy olhou para ele.
— Do que você está falando?
— Bem, por que outro motivo o embaixador seria chili?
Amy revirou os olhos.
— Você é um idiota. Vamos.
— Oras, se nós queremos descobrir o que os Kabra querem fazer, devemos verificar todos os cômodos, certo? — perguntou Dan.
Dan estava certo. Eles conheciam esta casa melhor que qualquer um dos convidados de Grace. Depois de anos passando os finais de semanas e férias lá, Amy e Dan já haviam explorado todos os centímetros da casa. Grace não se importaria que eles ficassem zanzando pela casa, especialmente se estivessem tentando evitar que os Kabra causassem problemas.
Amy assentiu e estendeu a mão para a maçaneta da porta, mas antes que pudesse colocar os dedos ao redor desta, a porta se abriu por dentro. Um homem alto com óculos fundo de garrafa e cicatriz na bochecha, e que claramente não era o embaixador, apareceu, boquiaberto. Aparentemente, estava tão surpreso quanto Amy pelo encontro inesperado.
— Oh, perdoem-me — o homem disse, com a voz rouca. — Eu estava apenas pegando algo para o embaixador.
Ele avançou, passando por Amy e Dan, e encaminhou-se rapidamente para o corredor, em direção à festa.
— Quão estranho foi isso? — perguntou Dan.
Muito estranho. — Amy respondeu. — Eu não me lembro de o embaixador trazer algum assistente com ele nas festas de Grace. E ele definitivamente não tinha sotaque chileno.
Amy e Dan não queriam verificar o próximo quarto, mas depois de trocarem um olhar longo e significativo, silenciosamente concordaram em dar uma olhada. Era o quarto de infância da mãe deles.
Entrando no quarto de Hope, Amy entendeu o motivo de Grace sempre ficar parada um tempo na porta. Mesmo depois de todos esses anos, o cheiro de livros velhos empilhados nas prateleiras e o aroma fraco emanando dos vidros de perfumes antigos da penteadeira traziam muitas memórias. Grace havia mantido o quarto quase do mesmo jeito de quando Hope fora para a faculdade. Suas roupas ainda estavam no armário. Sua coleção de antigos globos de neve ainda estava sobre a cômoda.
— Não há ninguém aqui. — Dan disse enquanto saía de debaixo da cama. — Ninguém, exceto algumas traças mortas!
Ele enfiou um punhado de algo parecido com papel no rosto de Amy.
— Eca! — ela tentou não gritar. — Joga isso fora. Vamos.
Eles terminaram de verificar os quartos naquele corredor, e então se dirigiram para a ala sul da mansão. Assim que eles viravam o corredor, algo se movimentando chamou a atenção de Amy. O que parecia ser uma porta fechou-se, rente à parede do corredor. Amy sabia que não havia nenhuma porta ao longo daquele corredor. Ao menos achava que sabia. Normalmente não havia quase nada nele, exceto um par de cadeiras antigas e algumas peças de arte penduradas nas paredes.
Amy correu para onde a misteriosa porta tinha se fechado, e correu os dedos ao longo do gesso. Ela respirou fundo quando sentiu uma junção muito sutil, quase imperceptível, na parede. Havia uma porta. Amy e Dan haviam crescido explorando cada centímetro da casa, mas nunca tinham percebido isso.
E Grace nunca havia mostrado a eles.
Dan já estava à procura de algum botão que talvez tivesse passado despercebido.
— Eu já vi isso nos filmes. — ele sussurrou, agora de joelhos sentindo a parte inferior da porta. — Eu posso sentir algo vindo aqui de baixo.
— Então tem que haver outro cômodo do outro lado. — Amy disse, perguntando-se por que ela não se sentia mais surpresa. — Mas como vamos chegar lá?
Amy deu um passo para trás. Havia duas pinturas de ambos os lados da porta escondida, e, debaixo delas, um par de mesas antigas. À primeira vista, tudo parecia normal. Pelo menos tão normal quanto poderia ser o fato de que Grace tinha a primeira edição impressa e autografada de duas das mais famosas peças de Salvador Dalí: Cisnes Refletindo Elefantes e A Persistência da Memória.
— Isso é estranho — disse Dan, apontando para a obra da direita, A Persistência da Memória, que continha relógios estranhos e deformados, que pareciam estar derretendo.
— Dalí era um pintor surrealista. — Amy disse, imaginando outra piada embaraçosa de Dan. — É para parecer estranho mesmo.
— Não foi isso que eu quis dizer. — Dan aproximou-se. — Normalmente este relógio marca 6h55.
Amy chegou mais perto para ver melhor. Os ponteiros do relógio apontavam para os números sete e doze. Sete horas.
Ela virou-se para Dan.
— Você tem certeza?
Seu irmão tinha uma memória fotográfica, mas normalmente a usava para memorizar estatística de beisebol, não detalhes de pinturas famosas.
Ele assentiu.
— Positivo. É estranho, porque definitivamente é a mesma pintura. Essa é a única coisa alterada.
Amy estendeu a mão para tocar a impressão. Para sua surpresa, os ponteiros do relógio não eram impressos, mas tinham eixos físicos móveis. Ela rapidamente colocou o ponteiro dos minutos de volta no número onze, e o ponteiro das horas ligeiramente abaixo do sete. Quase instantaneamente, a porta entre as pinturas fez um estalo e ficou ligeiramente entreaberta.
Dan assobiou baixinho.
— Isso é incrível.
Antes mesmo de Amy ter tempo para processar o que ia, Dan estendeu a mão e abriu a porta, revelando uma sala escondida.
Uma sala escondida que continha nada menos que Ian e Natalie Kabra.
Eles estavam no que parecia um estudo secreto. Cartas empilhavam-se em uma prateleira acima de uma pequena escrivaninha. Contra a parede havia uma mesa cheia de amostras orgânicas e potes cheios de canetas e réguas. As paredes estavam cobertas por fotografias aéreas de lugares distantes com notas rabiscadas em papéis ao lado delas. Mas tudo o que Amy podia ver era Ian e Natalie, e o item que Natalie segurava firmemente.
Era um globo de neve.

* * *

— Tire suas patas imundas das coisas dela! — Dan gritou. A visão das coisas de sua avó nas mãos dos Kabra o enchia de uma fúria desconhecida. — Ponha isso de volta! — ele gritou com Natalie, que tinha acabado de colocar o objeto em sua bolsa. Uma coisa era Ian e Natalie tirarem sarro da cara dele. Outra coisa era roubar as coisas de sua avó.
— O-o que vocês estão fazendo? — Dan ouviu Amy gaguejar atrás dele.
— Nada. — disse Ian alegremente, como se eles estivessem apenas passeando pelos jardins.
— Acho isso muito difícil de acreditar. — zombou Dan. — Vocês estão roubando esse globo. Nós vimos. Agora podem devolver!
— Nós não fizemos nada do tipo. — Natalie disse, lançando um olhar de soslaio para Dan e Amy enquanto puxava o objeto de sua bolsa e o colocava sobre a mesa.
Dan olhou para o globo de neve. Era bonito, caso você gostasse desse tipo de coisa. Havia pequenos prédios no interior, e uma árvore de Natal que era quase tão ricamente decorada quanto a árvore de Grace no grande salão.
— Um globo de neve? Vocês estavam roubando um estúpido globo de neve?
— Não é estúpido. — Amy sussurrou. — Olhe, Dan.
Ela apontou a mão trêmula em direção à mesa. Havia um grande bilhete com uma mensagem escrita à mão, com a elegante letra de Grace.

Para Amy e Dan, com meu amor no Natal. Que isto possa sempre lembrá-los de sua casa.
Grace

— Vocês estavam roubando nosso presente de Natal? — Dan disse em descrença. — Que tipo de gente são vocês?
— Nós não estávamos roubando. — Natalie respondeu, exasperada, como se Dan e Amy fossem apenas estúpidos. — Viemos buscar isso aqui para a Grace. Ela nos pediu para levar o presente para o andar de baixo, assim ela poderia dá-lo a vocês.
Dan bufou.
— É claro — ele estendeu a mão. — Então dê para mim.
Natalie deu um passo para trás e lançou um olhar de pânico para Ian.
— Veja bem — Ian disse devagar, com uma paciência exagerada. — Eu sei que você acha que isso é um brinquedo porque a avó Grace o envolveu em um embrulho bonito, mas eu lhe asseguro que este globo de neve tem certa... importância, e ele deve ficar com pessoas inteligentes o suficiente para saber o que fazer com ele.
— Do que você está falando, Kabra? — Dan exigiu.
Ian trocou um olhar de cumplicidade com Natalie que embrulhou o estômago de Dan, e então virou-se para encarar os Cahill.
— Certamente você não pode ser tão estúpido quanto parece.
Natalie estava olhando para Amy e Dan, de olhos arregalados.
— Eles realmente não têm ideia.
Ian bufou.
— Bem, nesse caso, certamente nós é que devemos entregar o globo para a... a... Grace. Dan vai provavelmente quebrá-lo ou, você sabe, comê-lo.
— Então d-d-d-deem para mim. — Amy balbuciou.
— N-n-n-não, acho que não — Natalie zombou cruelmente antes de virar-se para o irmão. — Por que devemos perder nosso tempo com esses babacas? — Ela colocou o globo de volta na mesa, cruzou os braços e olhou para Ian, esperançosa. — Vamos apenas pegar o globo e sair daqui.
— Só por cima do meu cadáver! — Dan gritou, lançando-se sobre Natalie.
Ian a tirou do caminho, e Dan acertou a parede com um baque.
Mas, quando ele virou-se, esfregando o cotovelo, a porta da sala secreta fechou-se atrás dos quatro.
Amy suspirou, apontando para a mesa com o bilhete de Grace.
O globo de neve tinha sumido.

* * *

Ian sabia que havia zero por cento de espaço para falhas em sua operação, mas um buraco enorme havia sido colocado em seu plano. Quando as missões saem do controle, a melhor coisa a se fazer é reagrupar, seu pai havia ensinado. Mas Ian estava com problemas para ouvir seus próprios pensamentos, tentando formular um Plano B por cima da briga de Dan e Natalie.
— E foram vocês que abriram esta sala secreta, em primeiro lugar — Dan gritava. — Vocês que a tornaram vulnerável para o ladrão!
— Ah, então agora você admite que não somos nós os ladrões? — Natalie provocou. — Finalmente!
— Vocês ainda podem ser os ladrões. — Amy apontou.
— BASTA! — Ian gritou — Nós não somos ladrões. Somos agentes em uma missão. — As palavras escaparam antes que ele tivesse tempo para pensar melhor. — E nós já perdemos tempo demais discutindo isso.
— Missão? — Dan repetiu, sorrindo para Amy antes de voltar a olhar para Ian. — Cara, só porque você é um britânico em um smoking não significa que você é James Bond.
Ian sentiu um calor subir pelo pescoço. Era muito irritante tentar falar com pessoas tão rústicas.
— Que “missão”? — Amy perguntou. — Sobre o que você está falando?
Ian se virou e olhou para a menina Cahill com incredulidade.
— Você quer dizer que realmente não sabe? — O olhar vazio em seu rosto confirmou suas suspeitas. Parecia impossível mas, aparentemente, Amy e Dan Cahill, os netos amados de Grace, não sabiam sobre as pistas. Era tão irônico que Ian teve que rir.
— O que foi? — Amy perguntou.
— Nada. — Ian sorriu. Sua ingenuidade certamente iria trabalhar a seu favor. — Agora, ao que interessa, como dizem os americanos. Alguém viu o ladrão?
— Sim! — Dan olhou para Natalie — Ela é pequena, esnobe e britânica.
— Acho que vimos alguém suspeito no quarto do embaixador chileno — Amy falou. — Ele era alto, com cabelo curto e escuro e uma cicatriz no canto do rosto.
— Ele usava óculos? — perguntou Natalie — Porque vi alguém assim analisando alguns quadros de Grace na sala de estar no andar de baixo. Ele estava usando um aparelho compacto de raios-X em seu celular para digitalizar os quadros.
— Parece ser o mesmo cara. — Amy disse, com surpreendente firmeza. Na maioria das vezes Ian a via como uma criancinha órfã inofensiva e ignorante. Mas talvez a menina Cahill fosse feita de algo mais forte do que ele imaginava. Ele deveria manter um olho nela e em Dan. Mesmo sendo terrivelmente ignorantes, eles eram os netos de Grace.
Mas então outro pensamento fez o coração de Ian saltar para sua boca. A descrição do homem que Amy e Natalie estavam falando encaixava-se perfeitamente com o mecânico que havia lhe dito em Heathrow que seu jatinho particular estava fora de serviço. Ian ainda se perguntara como um homem com deficiência visual tinha permissão para trabalhar com aeronaves. Agora sabia o motivo. Ele não era um mecânico. Ele tinha sido enviado para sabotar a missão Kabra!
— Tudo bem — Ian disse, reorientando o grupo. — Tenho razões para acreditar que este homem é um agente altamente treinado, tentando roubar o globo de neve de sua avó.
— E a novidade? — Dan o interrompeu. — Disso nós já sabemos!
— Sim, mas o que vocês não sabem é como recuperá-lo — Ian respondeu. — Nós sabemos. — ele disse, olhando para Natalie. — Mas precisamos da ajuda de vocês para nos guiar pela casa e pelos jardins.
Ian observou enquanto Amy e Dan olhavam um para o outro, deliberando silenciosamente. Se eles fossem Lucian, ou pelo menos agentes Cahill devidamente treinados, saberiam instintivamente que Ian não precisava da ajuda deles. Qualquer agente que merecesse um celular com sinal de satélites como o dele saberia que ele estava apenas evitando que fossem correndo contar para Grace. Mas, é claro, Amy e Dan não tinham nascido com a mente astuta a de um Lucian, e certamente não haviam recebido anos de instruções de espionagem.
Amy finalmente falou.
— Por que devemos ajudá-los? Vocês estavam tentando roubar o globo antes de o ladrão tê-lo levado.
— Porque — Ian disse com absoluta confiança. — em primeiro lugar, nós não estávamos tentando roubá-lo. E, em segundo, Grace ficaria impressionada em saber que vocês nos ajudaram a deter o ladrão.
Ian observou Amy olhar para seu irmão mais novo. Ele poderia dizer que nenhum dos dois estava ansioso para juntar forças com os Kabra. Prendeu a respiração por um longo momento, exalando silenciosamente quando Dan acenou com a cabeça para Amy. Brilhante. Eram tão fáceis de manipular, estes órfãos. Tão desesperados para ganhar o amor da avó. Ele teria que manter isso em mente, caso os moleques Cahill resolvessem causar problemas e sair da linha.
— Tudo bem — Amy disse, virando-se para ele — Temos um acordo. Mas somente por esta noite. Se esse globo de neve é tão importante para Grace quanto você diz, devemos agir imediatamente.
Ian estendeu a mão, e Amy a apertou.
A festa já tinha se deslocado para o salão de baile para o jantar no momento em que Ian, sua irmã e os Cahill desceram as escadas.
Eles planejavam separar-se e procurar no primeiro andar e nos terrenos ao redor da mansão quando Isabel apareceu.
— Ah! Aí estão vocês. — disse ela, quase cantarolando. — Eles estão servindo o jantar agora. — Ela apontou para o salão de baile, onde Ian viu que a maioria das pessoas já havia sentado ao redor das longas e ornamentadas mesas. — Estão prontos para se juntar a nós?
Ele limpou a garganta e desviou do olhar penetrante da mãe.
— Temos apenas que cuidar de algumas coisas primeiro — ele falou rapidamente.
Os olhos de Isabel repousaram sobre Amy e Dan, e um sinal de irritação passou pelo seu rosto. Ela se virou para Ian e levantou uma sobrancelha, como se quisesse dizer Que diabos eles estão fazendo com vocês?
Ela sabe, Ian pensou. Ela sabe que eu estraguei tudo.
— Vejo vocês em breve, então. — disse Isabel lentamente, lançando a Ian e Natalie um último olhar antes de se virar sobre seu salto agulha e dirigir-se graciosamente para o salão de baile.
— Estamos ficando sem tempo — Ian sussurrou quando teve certeza de que sua mãe estava fora do alcance de sua voz. Ele puxou o celular do bolso e abriu o programa que havia feito para monitorar o sistema de segurança de Grace. — Acho que ele já está lá fora. Mas pelo menos há todo este sistema de segurança por causa do seu vice-presidente. Isso retardará o ladrão quando ele alcançar os portões.
Dan e Amy trocaram um olhar.
— O que foi? — Ian perguntou. Ele não tinha tempo pra lidar com essa estranha coisa de comunicação silenciosa.
— Há um túnel que leva para fora da propriedade — Amy falou rapidamente. — Porém se nos separarmos, poderemos ter a chance de capturá-lo. — Ela acenou para Dan e Ian. — Vocês dois vão para o túnel. Natalie e eu vamos nos assegurar de que o ladrão não está escondido nos arredores da casa.
Natalie abriu a boca para protestar, mas Ian a proibiu com um olhar penetrante. Obviamente a situação não era a ideal, mas eles pareciam não ter outra escolha. Ou eles acompanhavam as crianças encardidas em suas roupas feias, ou poderiam falhar em sua primeira missão importante.
Não era uma decisão difícil. Os germes dos órfãos americanos poderiam ser lavados depois no banheiro.
A vergonha duraria para sempre.

* * *

— Vamos! — Amy chamou. Natalie a seguiu quando ela correu para a cozinha e então foi para um cômodo do outro lado, onde o pessoal da cozinha guardava suas roupas. O coração de Amy pulsou mais rapidamente quando ela agarrou dois casacos, lembrando a si mesma de que apenas estava pegando-os emprestado. Entregou um a Natalie, que pareceu confusa, como se gentileza fosse algo desconhecido para ela.
— Obrigada. — murmurou Natalie, e pegou a jaqueta.
Amy parou por um momento, sem ter muita certeza sobre em que ela estava se metendo. Ela realmente estava prestes a perseguir um ladrão treinado na escuridão e na névoa? Não era isso o que os adultos haviam dito a ela para não fazer durante sua vida inteira? Ela olhou de soslaio para Natalie, que vestia a jaqueta com um ar de confiante determinação.
Fechando a blusa, Amy dirigiu-se para a saída, o ar frio da noite contra seu rosto. Então ela suspirou.
O gramado atrás da casa estava coberta por uma camada de neve branca, mas quando a lua saiu detrás de um manto de nuvens, uma trilha de pegadas que saiam da casa foi iluminada por seu brilho.
— Devemos seguir essas pegadas? — Natalie perguntou, sua voz surpreendentemente instável.
A coisa mais lógica a se fazer era ir atrás de Grace. Ou chamar a polícia. Mas então ela lembrou-se da expressão presunçosa no rosto de Ian na sala secreta. O olhar de triunfo quando ele se regozijara em saber mais do que Amy e Dan. Ela não tinha ideia do por que alguém quereria roubar seu presente de Natal, mas ela não ia ficar esperando e deixar o ladrão fugir com ele.
— Sim — Amy disse com firmeza. — Vamos.
Elas seguiram pela neve, tentando acompanhar as pegadas no escuro, que pareciam seguir em direção à garagem na parte de trás da casa, onde ficava os carros particulares de Grace, uma coleção seleta de carros antigos. Ela poderia ter setenta e oito anos, mas Grace adorava passear pelas estradas rurais próximas à sua propriedade, às vezes dirigindo até Montreal ou Filadélfia apenas para “deixar o Porsche esticar as pernas”.
Amy chegou à garagem quase sem fôlego. Abriu a porta e Natalie a seguiu. As duas meninas entraram na escuridão, inspirando e expirando ofegantemente. Amy procurou pelo interruptor e, quando o encontrou, ligou-o. Uma por uma as lâmpadas foram se acendendo, inundando a grande garagem com luzes fluorescentes.
— Olá? — Amy chamou, hesitantemente.
Natalie soltou uma risadinha.
— O quê? Você acha que o ladrão vai responder ao seu “olá”?
Amy deu de ombros.
— Vamos dar uma olhada. E cuidado, ele pode estar debaixo de um carro.
Amy e Natalie olharam pelas janelas de Jaguares antigos e Porsches, Range Rovers e conversíveis. Tentaram abrir todos, mas estavam trancados. Amy olhou embaixo de todos os carros, mas não havia ninguém para ser encontrado. Natalie procurou nas vigas, atrás dos produtos de limpeza e dentro do armário de armazenamento. Nada.
— Para onde ele pode ter ido? — Amy perguntou enquanto verificava a maçaneta da porta do último carro da fila. — Nós não estávamos muito atrás dele.
— Eu não sei. — disse Natalie, frustrada. — Talvez nós tenhamos chegado aqui tarde demais.
Ela parecia quase à beira de lágrimas. Por que ela se importa tanto com o globo de neve? Amy se perguntou. Natalie era suficientemente rica para comprar mil globos de neve, se era o queria tanto. Amy era a única vítima. O ladrão não tinha apenas roubado seu presente de Natal. Ele tinha roubado um pouco das memórias de sua mãe.
Então, um dos portões na extremidade oposta da garagem começou a se abrir. Um pequeno carro esportivo ganhou vida, os faróis se acendendo, produzindo dois feixes de luz brilhante na neve lá fora. O portão já estava quase aberto pela metade quando o ladrão colocou o carro em marcha e acelerou para a noite.

* * *

— Ainda estamos muito longe? — Ian ofegou enquanto ele e Dan corriam ao longo do caminho coberto de neve.
Dan parou para recuperar o fôlego e apontou para os bosques que rodeavam a propriedade.
— Por aqui. — Ele suspirou, rezando para que o passeio noturno não provocasse nele um ataque de asma. Seu inalador ficara dentro da casa. — Temos que sair desse caminho e seguir para os bosques. Mas isso só vai funcionar se o ladrão estiver a pé. Um carro não precisaria fazer isso.
— Eu não acho que ele tenha ido para o túnel. — disse Ian, virando-se de volta para a casa.
— Por quê?
Mas antes que Ian pudesse responder, dois feixes de luz apareceram sobre a crista do morro, cortando a escuridão. O rugido abafado de um motor soou sobre o chão coberto de neve.
— Esse é o Viper da Grace? — Ian perguntou.
— Acho que sim. — Dan disse, confuso. Mas sua avó ainda estava lá dentro, presidindo a festa. Se ela estava lá, quem estava dirigindo um de seus carros esportivos preferidos?
— O ladrão! — Dan e Ian gritaram juntos.
Enquanto o carro acelerava morro abaixo em um ritmo nauseantemente rápido, Dan conseguiu distinguir as pequenas figuras de sua irmã e Natalie Kabra correndo atrás do ladrão.
— Detenham-no! — ele ouviu sua irmã gritar à distância.
Dan começou a procurar por alguma coisa, qualquer coisa que pudesse deter o veloz carro esportivo. Mas o caminho estava livre de qualquer detrito. Ele havia sido arado pouco antes da festa para que todos os caminhões de entrega e as motos de neve pudessem chegar o mais próximo possível da casa. Dan olhou de volta para a mansão, iluminada como uma árvore de Natal na escuridão. As motos de neve!
Correndo, Dan dirigiu-se para o canto da casa onde as duas motos de neve estavam estacionadas.
— Siga-me! — ele gritou por cima do ombro para Ian.
Os dois meninos alcançaram as motos de neve rapidamente, colocaram os capacetes e atiraram-se para os assentos.
Dan observou Ian puxar o cabo de ignição, acionar o acelerador como um profissional e colocar a moto em movimento. Quando ele aprendeu isso? Dan se perguntou. Dan puxou a ignição e sorriu quando o motor rugiu, ganhando vida. Era como estar montado em um poderoso monstro de neve. Ele sentiu uma pontada de apreensão quando imaginou o que Amy pensaria disso, mas logo empurrou o pensamento para longe da mente. Não havia tempo a perder. Ele pressionou o acelerador e soltou um grito de alegria quando a moto começou a avançar. O ar frio da noite parecia uma tempestade de gelo contra o rosto e os braços de Dan, que procurava os faróis traseiros de Ian. Eles apareceram, duas esferas vermelhas na parte de baixo do morro.
Dan acelerou ainda mais, ganhando velocidade. Quando ele estava se aproximando de Ian, o Viper virou para a esquerda na frente deles, avançando sobre o meio-fio e seguindo pelo gramado no final do morro. Dan reagiu mais depressa que Ian, e desviou-se para seguir o Viper.
O ladrão parecia estar se dirigindo para o cemitério da família Cahill. Ele provavelmente tentaria despistá-los em meio às lápides, Dan raciocinou. Mas o que o ladrão não sabia era que Dan havia ziguezagueado pelos túmulos durante anos com o cortador de grama de Grace.
Dan sorriu para o vento frio. Ele podia ziguezaguear pelos antepassados falecidos com precisão olímpica.
Atrás dele, Dan ouviu o rugido do motor de Ian. Ele havia finalmente alcançado-o. Isso era bom.
— Me siga! — Dan gritou por cima dos ombros.
Mais à frente, Dan podia ver as rodas do Viper pulverizando a neve enquanto o ladrão dirigia pelas lápides. As rodas do carro esportivo não eram projetadas para todos os tipos de terreno, enquanto que as motos de neve contornavam os túmulos de forma limpa. Se conseguirmos mantê-lo fora da estrada, Dan pensou, temos uma chance de recuperar o atraso.
Mas como eles parariam o ladrão quando o alcançassem? Mais à frente, o Viper desacelerou em uma curva, permitindo a Dan e Ian chegar perto o suficiente para que os pneus do carro esportivo os cobrissem de neve pulverizada. Por um longo tempo, Dan e Ian estavam dirigindo sem ver.
Sem fôlego, Dan limpou a neve dos olhos bem a tempo de evitar colidir com uma lápide no último minuto. Ele virou a cabeça e viu que Ian perseguia o Viper.
O ladrão desceu cambaleando a colina cheia de árvores, serpenteando morro abaixo em direção à estrada rural. E estavam indo para a parte mais íngreme dela.
— Ian! Pare! — Dan gritou enquanto acelerava a moto de neve em alta velocidade. O rugido enérgico do motor cortou o ar frio da noite quando Dan acelerou em direção a Ian e o ladrão.
Mas já era tarde demais. Através da neve pulverizada do carro esportivo e da moto de neve na frente dele, Dan viu um par de luzes traseiras mergulhar abaixo da linha do horizonte e, em seguida, o outro par. Dan puxou os freios, esperando conseguir se salvar. Mas o impulso era muito forte, e a moto acertou uma raiz exposta na borda da campina e foi lançada no ar.
Dan viu um rápido fluxo de imagens de sua infância diante de seus olhos. Vento frio e úmido fluiu através de seus cabelos quando ele voou pelos ares. Por um momento, Dan se sentiu como se estivesse suspenso no espaço, observando as estrelas girarem lentamente em torno dele como flocos de neve em um globo de neve. Mas essa sensação inebriante desapareceu rapidamente quando ele percebeu quão rápido estava caindo em direção ao chão.
Então ouviu os cracs dos galhos quebrando sob o peso da moto de neve. De alguma maneira, os esquis bateram na colina primeiro. Dan foi jogado contra o guidão, montando a moto de neve perfeitamente.
O veículo ainda continuava andando, de modo que Dan teve que assumir o controle rapidamente. Recuperando-se do choque, ele reassumiu o controle da moto, e depois começou a procurar por Ian e o Viper. Dan ouviu então sons abafados dos motores aterrissando à sua frente. Inacreditavelmente, eles também haviam pousado em segurança.
Não demorou muito para que Dan alcançasse Ian, que seguia de perto a traseira do Viper. Eles foram se aproximando cada vez mais, e então Ian estava ao lado do carro. Dan observou Ian colocar uma mão dentro do bolso do casaco, enquanto dirigia a moto de neve com a outra. Com um movimento do pulso de Ian, Dan viu cerca de uma dúzia de objetos metálicos voarem pelo ar, brilhando à luz da lua, e então pousarem na estrada à frente do Viper. Uma fração de segundos depois, o som de pneus furando, pop pop pop, ecoou por entre as árvores esparsas que seguiam a estrada, e então o carro derrapou, desacelerando sobre a estrada cheia de gelo. Depois de quatro voltas completas como hélices de um helicóptero, o carro esportivo bateu em um tronco grosso de árvore com um baque ensurdecedor, que pareceu ecoar dentro do peito de Dan.

* * *

O coração de Ian saltou pela boca quando ele parou sua moto de neve próxima ao carro destruído. Sempre leve consigo esses destruidores metálicos, seu pai tinha lhe dito. Ian sorriu na escuridão. Ele aprendera bem a lição; seu pai ficaria muito orgulhoso.
Ele pulou de sua moto de neve e olhou na direção do carro esportivo, ansioso para saber quem era o ladrão. Dan Cahill parou ao lado da estrada, saltou para fora de sua moto de neve e começou a correr em direção ao carro esportivo, que soltava fumaça.
— Ele está bem? — Dan gritou.
— Quem se importa! Peque o globo de neve. — Ian ordenou.
Um olhar de dúvida passou pelo rosto de Dan.
— Nós devemos ligar para a emergência.
— Claro que não. — Ian disse, espiando dentro do carro. Já seria bastante difícil sumir com o globo de neve sem adicionar um monte de paramédicos no caso.
Quando ele puxou a porta do motorista, Ian ouviu o tamborilar lamacento de pés se aproximando. As garotas tinham finalmente os alcançado.
— Vocês estão bem? — Amy perguntou, sem fôlego.
Natalie revirou os olhos.
— É claro que eles estão bem. — E então, para seu irmão: — Conseguiu?
— Não — Ian admitiu em voz baixa. — Ainda não.
— Bem, e por que você está demorando tanto? — Natalie perguntou ansiosamente.
— Para começar, por causa dessa porta horrível! — Ian disse, bufando enquanto puxava o metal deformado. — Eu não consigo abri-la.
Natalie suspirou.
— Um Rolls nunca daria tanto trabalho. Tenha um Viper para se decepcionar.
— Você se importaria de calar a boca e me ajudar aqui? — Ian retrucou.
Ele não tinha chegado tão perto de pegar o anel para falhar por causa de uma estúpida porta enroscada.
Enquanto Natalie procurava por um macaco no porta-malas do carro, Amy encontrou um telefone celular no bolso do casaco que estava usando e ligou para os paramédicos antes que Ian pudesse detê-la.
Ian, Natalie e Dan tentaram de todas as maneiras possíveis entrar no carro e chegar até o ladrão, mas o veículo era impenetrável. O sistema de travamento estava com defeito, e nem Natalie conseguiu abrir a fechadura.
Pouco tempo depois, uma multidão começou a chegar ao local. Primeiro Grace e vários dos convidados, incluindo a mãe de Ian. Em seguida os paramédicos e várias viaturas de polícia. Ian observou ao lado de sua mãe enquanto as autoridades tentavam abrir o Viper, o mar de luzes de emergência afogando a esperança de Ian de completar sua missão de forma satisfatória.
Enquanto colocavam o ladrão em uma maca e começavam a verificar seus sinais vitais, Amy Cahill deu uns passos à frente.
— Eu só quero ver se ele está bem. — ela disse para sua avó, que estava em pé ao seu lado.
Que comovente, Ian pensou enquanto observava Amy espreitar por cima dos braços dos paramédicos. Seus cabelos castanho-avermelhados esvoaçaram por causa de corrente de ar noturna. Mas então, como um hábil rato de celeiro, ela enfiou a mão no casaco do ladrão e puxou o globo de neve. Ian maravilhou-se com a sua habilidade. Para alguém que não tinha experiência ou conhecimento dos negócios da família, ela era naturalmente esperta.
— Eu devo saber o que deu errado, Ian? — Isabel rosnou para ele.
Ian estremeceu ao som da voz dela.
— Não, mãe — ele respondeu, prometendo a si mesmo que nunca deixaria os Cahill passarem por cima dele novamente. — Não.

* * *

Amy inspirou o cheiro encantador de abetos e bolos recém-assados. Ela, Dan e Grace estavam amontoados em uma pilha de travesseiros e cobertores no chão da sala de estar de Grace. Ela tinha uma árvore de Natal muito menor ali, decorada de uma forma mais simples que a enorme no grande salão. Era cedo. Ela quisera uma manhã de Natal privada com Amy e Dan antes de precisar fugir e entreter os convidados que ficariam hospedados na casa pelo resto da semana.
Amy sentiu-se infantilmente tonta pela atenção especial. Pareceram anos, e não apenas horas desde que ela falara com sua avó sem um milhão de estranhos ao redor. No silêncio da manhã de Natal, Amy quase se esquecera dos eventos da noite anterior. Quando ela olhara pela janela do seu quarto esta manhã, não viu nada além de uma fresca camada de neve. Sem pegadas. Como se a natureza tivesse decidido limpar suas memórias.
O ladrão tinha sido levado para o hospital com uma concussão, mas só isso. Ela ainda não conseguia acreditar que tinha perseguido um homem adulto na noite nevoenta ou que Dan tinha dirigido uma moto de neve por conta própria. A coisa toda começava a parecer como um sonho. Mas eles tinham devolvido o globo de neve à sala secreta em segurança, e isso era o que importava.
— E agora — Grace disse, com as bochechas sujas de bolo — hora dos presentes.
A avó de Amy levantou-se, ainda de pijama, e entrou em seu quarto. Ela voltou com uma pequena caixa embrulhada em um papel branco-marfim e um grande laço vermelho.
— Vão em frente. Abram!
Dan pegou a caixa, mas a entregou a Amy. Ela era melhor em desfazer laços, e Dan era muito bom em rasgar os papéis de presente. Então eles muitas vezes dividiam a tarefa de abrir os presentes compartilhados. Após desamarrar o laço, Amy observou Dan rasgar em pedaços, alegremente, o papel da caixa.
Finalmente, ele chegou ao presente real. Amy inclinou-se quando ele tirou cuidadosamente a tampa. No interior, aninhado em um papel de seda vermelho, estava o globo de neve da noite anterior. A neve de dentro estava agitada devido aos movimentos de Dan ao desembrulhar a caixa. A cena era de uma pequena rua de Boston, coberta pela neve. Os postes estavam iluminados, e quase todas as janelas do pequeno bloco de arenito brilhavam.
— É lindo — Amy sussurrou.
— Estou tão feliz que tenha gostado, minha querida — Grace disse. — Ele pertencia à sua mãe. É uma miniatura da casa de Paul Revere em North Square.
— Isso fica em North End! — Dan exclamou. — Eu fui lá uma vez numa viagem escolar. É um museu agora. Eles não deixam você tocar em nada.
Grace riu.
— Aposto que é verdade, mas estou feliz que você tenha se lembrado. Agora vocês terão para sempre um pedaço de lá — ela disse, terminando o último pedaço de bolo que segurava. — Devo buscar mais um pouco de café da manhã para nós?
Amy olhou para a pequena cena de neve. Havia uma árvore de Natal bonita em frente aos pequenos edifícios. Alguma coisa dourada brilhava no topo. Ela pensou que fosse apenas uma decoração, mas quando curvou-se para olhar mais de perto, percebeu que era um anel. Ela abriu a boca para perguntar a Grace sobre isso, mas então a fechou novamente.
Naquele momento, ela se sentia calma, segura e feliz. Amy sabia que, mesmo que seus pais não estivessem mais com eles, ela e Dan sempre teriam um lar com a sua avó. Não importa o que acontecesse. Eles teriam bastante tempo para perguntar sobre o anel – e sobre os Kabra – mais tarde.

* * *

Grace Cahill observava do canto da sala seus netos brincando com o globo de neve. Aquela cena trouxe de volta para o seu coração o calor que fora tirado após os eventos da noite anterior.
Como eu pude ser tão imprudente?, ela se perguntava. Eu deixei Amy e Dan se envolverem em uma missão dos Kabra. Depois de assistir às fitas de segurança da noite anterior, ela percebeu o quão perto o ladrão e os Kabra chegaram do sucesso. Que tola Grace havia sido!
Seus netos eram tão jovens, tão despreparados para o que estava por vir. Ela nunca deveria ter deixado eles se envolverem.
Enquanto colocava mais doces no prato do café da manhã que carregava, Grace observou Amy virar o globo em suas mãos e começar a revelar o verdadeiro segredo do presente a Dan.

E talvez, Grace pensou com um sentimento de orgulho e culpa, eles estejam prontos, afinal de contas...

Tradução: @Paulotsetti

Um comentário:

  1. Oi Karina,
    Eu achei uns errinhos no livro, você pode concertar por favor?
    "sorriu quando o motor rugir" não seria "sorriu quando o motor rugiu"?
    " a moto de acertou uma raiz exposta na borda da campina" e está meio estranha essa frase.
    Obrigado Karina!

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