16 de julho de 2016

Capítulo um

COMO SEMPRE, BENNY É UM IDIOTA E EU NÃO CONSIGO MANTER MINHA BOCA fechada.
Correu tudo bem no almoço. Andamos até a lanchonete que fica a alguns quarteirões do nosso apartamento. Todos em Harlem pareceram ter decidido sair para as ruas, aproveitando o primeiro dia quente em semanas. Minha mãe parecia radiante na sua roupa nova. Ela sempre conseguia fazer suas roupas do trabalho parecerem fashion em vez de alguma coisa que foi obrigada a vestir enquanto servia os clientes ricos num restaurante no fim da Wall Street no qual nunca teremos condições financeiras de almoçar. Benny, meu padrasto, ficou em silêncio durante quase toda a refeição, exceto por um suspiro aqui e ali – pelos seus olhos inchados, acho que ele teve um pouco de diversão com seus filhos noite passada. No fim das contas, tudo parecia tranquilo.
Então eu tive que ir e perguntar se podia comprar novos fones de ouvido. Objetos legais que me isolam do barulho do mundo ao meu redor, ou pelo menos dos barulhos do nosso apartamento. Me pareceu que seriam cinquenta dólares bem gastos.
O pedido não iria passar disso.
— Claro, querida — minha mãe disse enquanto tentava agarrar o último pedaço de uva que estava na salada de frutas com seu garfo.
Benny reagiu como se ela tivesse acabado de concordar em me deixar comprar um Lexus para meu aniversário de dezesseis anos ou coisa assim.
— Espere aí — ele fala. — O que há de errado com os seus?
— Eles estão quebrados — respondo, apontando para os fones pendurados no meu pescoço. — Apenas um lado funciona.
— Então ouça com um ouvido apenas — Benny diz. Ele engole a última mordida do seu hambúrguer. — Sua mãe trabalha seis turnos por semana. Algumas vezes mais. Eu também ajudo. O que você faz?
Eu quase rio na palavra “ajudo”. Benny está afastado do serviço há alguns meses e recebe o “seguro desemprego”, embora eu não consiga dizer o que há de errado com ele. Isso definitivamente não o impediu de beber cerveja todas as noites enquanto grita para a nossa TV, me levando à loucura.
— Eu aturo você — eu murmuro, olhando para a metade do waffle que flutua num pequeno lago de calda no meu prato.
— Dani — minha mãe chama.
— O que você acabou de dizer? — Benny pergunta, seu tom de voz baixo.
Mordo minha língua. Pelo bem da minha mãe, eu fico quieta.
— Ela está tendo um semestre incrível na escola — minha mãe diz. — Deus, eu pago pelos fones de ouvido. Não se preocupe.
— Oh, sério? De onde esse dinheiro está vindo então? — ele pergunta.
— Benny, não estrague o almoço. Você sabe que eu reservo um pouco do dinheiro para coisas assim.
— Pelo menos ela trabalha — eu digo. Isso saiu antes que eu pudesse impedir.
Benny bufa e eu sei que exagerei.
Quando ele fala de novo, seu tom de voz está cheio de raiva.
— Escuta aqui sua pirralha...
— Benjamin — minha mãe o corta.
Ele olha de mim para ela, com as mandíbulas flexionadas enquanto range os dentes. Benny é um idiota na maioria das vezes, mas é quando ele fica quieto que sei que atingi algum tipo de nervo. Eu não o vejo ficar bravo assim há muito tempo, considerando que quase nunca olhamos um nos olhos do outro.
Meu corpo fica tenso de raiva. Eu quero jogar meu prato nele, ou virar essa mesa em cima dele. Eu queria poder fazer alguma coisa.
Ele se levanta abruptamente, seus joelhos batendo na mesa e fazendo nossos pratos tremerem. Já em pé, ele é enorme, quase dois metros, magro dos anos de comida saudável da minha mãe. Algumas pessoas olham para nós, e minha mãe sorri para mostrar a todos que está tudo bem.
— Já que você tem tanto dinheiro sobrando, então não vai se importar em pagar essa droga — Benny diz, gesticulando para nossa mesa.
E então ele sai da lanchonete.
Minha mãe pega um guardanapo com calma de seu colo e limpa os lábios.
— Quer um milk-shake, querida? — ela pergunta.
Balanço a cabeça e ranjo os dentes, olhando em volta para nada em particular na lanchonete. Se eu olhar para minha mãe, pedirei desculpas pelo o que disse e pela responsabilidade de começar uma nova discussão, e eu não quero pedir desculpas.
Ela dá de ombros e olha para seu celular.
— Tenho que ir para o restaurante. Meu turno começa logo.
— Eu odiaria ter que encher os copos daqueles banqueiros ricos e idiotas.
— Tenha modos, Dani — ela lembra. Então sorri. — Além disso, são esses banqueiros ricos e idiotas que irão comprar seu fone.
E antes que eu possa protestar ela já levantou e está conversando com nossa garçonete no balcão, fazendo o pedido do meu milk-shake para viagem.


Vou com minha mãe até a estação do trem. Cortamos caminho pelo Morningside Park, que está meio cheio em razão da boa temperatura. Há todo o tipo de famílias fazendo churrascos e piqueniques. Um monte de crianças jogando baseball no campo. Não falamos muito – minha mãe apenas cantarola alguma música que eu não reconheço. Fizemos isso milhões de vezes. Caminhar ao lado dela me faz me sentir melhor, não importa o que esteja acontecendo na escola ou em casa.
Mas não podemos ficar o dia todo andando por aí. Eventualmente ela tem que ir.
— Me mande uma mensagem dizendo qual fone você quer para eu comprar. Será o nosso segredinho.
— Até Benny descobrir — aponto.
— Ele não vai. Não é o tipo de homem observador. Ele já terá esquecido deles pela manhã. Talvez possamos fazer algo divertido se o clima permanecer bom desse jeito. Apenas eu e você. Terei o dia de folga.
É assim que deveria ser todos os dias. Não precisamos de mais ninguém no mundo para nós.
— Estaríamos melhores sozinhas.
— Dani...
— É verdade. Estávamos bem antes de ele chegar.
— Nem sempre, querida — ela diz. — Você está esquecendo que é graças a ele que podemos pagar aluguel do apartamento.
— Se é apenas esse o motivo, então eu posso arrumar um emprego. Tenho quase dezesseis. Podemos ficar bem sem ele.
Ela sorri, mas não acho que seja porque acabei de arrumar uma solução brilhante para os nossos problemas. Tivemos essa conversa centenas de vezes antes.
— Ele é um bom homem — ela diz com paciência. — Só está passando por uma fase difícil.
Essa “fase difícil” já dura três anos, desde quando ele se mudou para viver conosco.
— Além disso, você precisa focar na escola — ela sorri. — Eu vou procurar algumas atividades de gramática para que você possa escutar com seus novos fones para ter certeza de que irá se sair bem no exame nacional.
Reviro os olhos. Ela me beija na testa, apertando meus ombros gentilmente.
— Vejo você de noite, Dani. Eu te amo você.
— Sim — eu digo olhando para o chão. — À noite.
Ela hesita.
— Eu te amo também — falo finalmente.
Ela sorri e então desaparece estação abaixo.
Pensar em voltar para o apartamento faz meu sangue ferver novamente, e com minha mãe longe não há ninguém para me acalmar.
Eu sei por experiências passadas que será melhor dar um tempo para Benny se acalmar. Além disso, não quero ficar presa dentro do meu quarto evitando meu padrasto enquanto o clima está tão agradável aqui fora. Então ando um pouco até chegar na Catedral de Saint John, o Divino. Passo pelas pessoas que estão tirando fotos do lado de fora e vou para o pequeno estacionamento na lateral da igreja, onde há uma estátua estranha de um anjo e de um bando de girafas. Eu acho que é chamada de Fonte da Paz, porém eu sempre a chamei de Grande Caranguejo pois é isso que todos os animais e o homem com asas parecem – um Grande Caranguejo. Foi assim que minha mãe a chamou também quando eu ainda era criança e ela costumava me levar para passear nos campi das universidades dos arredores e conversar sobre como eu seria uma das estudantes daqui quando crescesse e se eu me esforçasse o bastante.
Agora venho aqui quando quero ficar longe de todo o resto.
Sento num banco, estico minhas pernas e cruzo os braços, gostando de sentir o calor do sol em mim. Música alta explode de um dos lados do meu fone. Eu tento me isolar de tudo.
Não sei quanto tempo passa antes do meu celular começar a vibrar no meu bolso, a música no meu ouvido substituída de repente pelo toque do celular. Eu suspiro, temendo que seja Benny perguntando onde diabos estou, ou se posso ir ao mercado comprar algo para ele.
Mas é minha mãe.
— Hey — eu digo quando atendo. — Pensei que seu turno fosse come...
— Onde você está? — ela me interrompe. Sua voz é baixa e parece que está prestes a gritar. Me assusta, então não respondo de imediato. Ela continua. — Você me ouviu? Onde você está?
— No Grande Caranguejo.
— Vá para casa.
— Mãe, o que...
— Dani, querida — ela diz. Ela soa como se fosse começar a chorar ou coisa assim. — Você precisa ir para casa. Agora. Eu estare...
Eu não ouço o que ela fala depois, nem sei se ela de fato disse algo.
Há um grito e então um barulho muito alto, e de repente a ligação cai.
Tento ligar novamente, mas estou sem sinal.
— O que... — eu murmuro, levantando depressa. Eu paro por alguns segundos, olhando para meu celular, meu coração batendo rápido no meu peito contra as minhas costelas. Eu não estou exatamente animada para voltar para casa e passar o resto da tarde ouvindo Benny gritar com os times na TV. Mas minha mãe pareceu tão preocupada...
O céu começou a ficar escuro e de repente sinto que alguma coisa ruim está prestes a acontecer. Eu continuo ouvindo o tom preocupado na voz da minha mãe na minha cabeça.
Começo a correr para casa.
Enquanto corro pelo parque e passo pelos pequenos quarteirões até nosso apartamento, posso dizer que algo está errado. Ouço gritos vindo de dentro dos apartamentos enquanto corro e passo pelas janelas abertas. Algumas pessoas estão correndo pela rua, com pressa, então eu aumento minha velocidade, sempre olhando meu celular para ver se recebi alguma mensagem de minha mãe ou coisa do tipo.
Finalmente, chego em casa. O portão de segurança de metal bate atrás de mim, e acho que pôde ser ouvido de todos os outros apartamentos do nosso prédio. Alguém grita de dentro do 1B enquanto passo pelas caixas de correio do hall de entrada e então começo a subir as escadas para o nosso apartamento que fica no quarto andar.
Estrou tremendo enquanto tento pegar a chave e abrir a porta, mas não posso dizer se é pela falta de fôlego e pelo cansaço por ter corrido tanto ou se é pela ligação assustadora da minha mãe.
Começo a chamar assim que abro a porta.
— Mãe? — grito. — Benny? O que está havendo?
Benny está em sua poltrona reclinável. Há algumas latas de cerveja vazias na mesa de centro, e espero que isso signifique que ele já esqueceu sobre os fones de ouvido.
— Benny, minha mãe...
Ele faz “Shhh!” para mim, gesticulando com uma mão, sem tirar os olhos da TV, onde um garoto loiro com bolas de fogo flamejante nas mãos está lutando com um brutamonte gigante.
A raiva aumenta dentro de mim. Benny está assistindo a algum tipo de filme de ficção cientifica idiota enquanto minha mãe pode estar com problemas ou algo assim.
Estou prestes a começar a brigar com ele quando reconheço as Nações Unidas na TV. Então um repórter de um dos telejornais com quem Benny ama gritar aparece. É então que percebo que isso não é um filme de ficção cientifica: é a vida real.

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