30 de julho de 2016

Capítulo treze


Se este fosse um livro para entreter crianças pequenas, vocês sabem o que viria a seguir. Desmascarada a identidade e desmascarados os planos maléficos do vilão, a polícia entraria em cena e o poria na cadeia para o resto de sua vida, enquanto os valentes garotos iriam festejar com uma pizza e viver felizes para sempre. Mas este livro trata dos órfãos Baudelaire, e vocês e eu sabemos que a probabilidade de essas crianças desgraçadas viverem felizes para sempre é quase a mesma de o tio Monty ressuscitar. De qualquer modo, ao tornar-se evidente a tatuagem, os órfãos Baudelaire tiveram a impressão de que pelo menos uma pequena parte do tio Monty voltara para eles quando, de uma vez por todas, provaram a traição do conde Olaf.
“É o olho, não resta a menor dúvida”, disse o sr. Poe, e parou de esfregar o tornozelo do conde Olaf. “O senhor é indubitavelmente o conde Olaf. Considere-se preso. Indubitavelmente.”
“E eu estou profundamente chocado”, disse o dr. Lucafont, batendo suas mãos estranhamente sólidas contra a cabeça.
“Não menos do que eu”, concordou o sr. Poe, segurando o braço do conde Olaf a fim de impedir que fugisse para algum lugar. “Violet, Klaus, Sunny: por favor, me perdoem por não ter acreditado antes em vocês. É que parecia muito estrambótico ele ter ido à procura de vocês disfarçado como um assistente de laboratório e arquitetado todo esse plano maquiavélico para roubar a fortuna de vocês.”
“Eu só fico imaginando o que pode ter acontecido com Gustavo, o verdadeiro assistente de laboratório do tio Monty”, Klaus conjeturou em voz alta. “Se Gustavo não tivesse desistido do emprego, tio Monty jamais teria contratado o conde Olaf.”
O conde Olaf havia se mantido em silêncio o tempo todo, desde a revelação de sua tatuagem. Seus olhos brilhantes iam de um lado para o outro, observando cada um dos presentes com a mesma atenção que um leão a vigiar um rebanho de antílopes, à procura daquele que mais vale a pena matar e comer. Mas ao ouvir o nome de Gustavo, não se conteve.
“Gustavo não desistiu”, disse com o chiado característico de sua voz. “Gustavo está morto! Um belo dia em que ele se pôs a colher flores silvestres eu o afoguei no pantanal. Depois forjei um bilhete que comunicava sua desistência.” O conde Olaf olhava para as três crianças como se fosse atirar-se sobre elas e estrangulá-las, mas, pelo contrário, ficou absolutamente imóvel, o que de certo modo era ainda mais assustador. “Isso, entretanto, não é nada, comparado ao que farei com vocês, órfãos. Vocês ganharam essa etapa do jogo, mas voltarei para pôr a mão na fortuna e na preciosa pele de vocês.”
“Não se trata de um jogo, homem abominável”, disse o sr. Poe. “Jogo é dominó, polo aquático... Assassinato é um crime, e você pegará cadeia por ele. Vou agora mesmo levar você para a delegacia de polícia na cidade. Droga! Não posso. Meu carro está destruído. Tudo bem, levo você no jipe do dr. Montgomery, e vocês, crianças, me sigam no carro do dr. Lucafont. Finalmente vocês vão poder ver como é o carro de um médico.”
“Seria mais fácil”, disse o dr. Lucafont, “colocar Stephano no meu carro e as crianças irem no jipe. Afinal de contas, o corpo do dr. Montgomery está no meu carro, de modo que não sobra espaço para as três crianças.”
“Bem”, disse o sr. Poe, “eu não queria desapontar as crianças depois de terem passado por tudo o que passaram. Podemos remover o corpo para o jipe e então...”
“Não estamos nem um pouco interessados no interior do carro de um médico”, disse Violet, impaciente. “Inventamos isso só para não nos vermos encurralados sozinhos com o conde Olaf.”
“Vocês não deviam inventar mentiras, órfãos”, disse o conde Olaf.
“Não creio que o senhor possa dar lições de moral às crianças, Olaf”, disse o sr. Poe austeramente. “Pois bem, dr. Lucafont, leve-o o senhor.”
O dr. Lucafont segurou o ombro do conde Olaf com uma de suas mãos estranhamente rígidas e conduziu-o à saída da Sala dos Répteis e depois à saída da casa, parando junto à porta da frente para dar ao sr. Poe e às crianças um sorriso pouco natural.
“Diga adeus aos órfãos, conde Olaf”, disse o dr. Lucafont.
“Adeus”, disse o conde Olaf.
“Adeus”, disse Violet.
“Adeus”, disse Klaus.
O sr. Poe tossiu no seu lenço e fez sem muita vontade um meio aceno para o conde Olaf, a título de adeus. Mas Sunny não disse nada. Violet e Klaus baixaram os olhos para ela, surpresos de que não houvesse falado “Eite!” ou “Du!” ou qualquer das várias palavras que tinha para dizer “Adeus”. Sunny, no entanto, estava encarando o dr. Lucafont com um olhar de determinação, e, em coisa de um instante, deu um salto no ar e mordeu-o na mão.
“Sunny!”, exclamou Violet, e já ia pedir desculpas pelo comportamento da irmã quando viu a mão do dr. Lucafont soltar-se do braço e cair no chão. Sunny foi atrás da mão e atacou-a com seus quatro dentes afiados, produzindo uns estalos como se estivesse quebrando madeira ou plástico e não pele ou osso. E, quando Violet olhou para o lugar onde antes estava a mão do dr. Lucafont, não viu sangue nem qualquer indicação de ferimento, mas sim um brilhante gancho de metal. O dr. Lucafont também olhou para o gancho, depois para Violet, e lançou um sorriso horrível. O conde Olaf também sorriu e no mesmo instante os dois dispararam porta afora.
“O homem com as mãos de gancho!”, gritou Violet. “Ele não é médico! É um dos capangas do conde Olaf!” Instintivamente, ela fez no ar o gesto de agarrá-los, mas foi até a porta da rua e viu que os dois já iam longe, passando a toda velocidade pelos arbustos em forma de cobras.
“Pega!”, gritou Klaus, e os três Baudelaire se dispuseram a perseguir os fugitivos. Mas o sr. Poe colocou-se à frente deles, bloqueando a passagem.
“Não!”, exclamou ele.
“Mas é o homem com as mãos de gancho!”, gritou Violet. “Ele e Olaf vão escapar!”
“Não posso permitir que vocês corram atrás de dois criminosos perigosos”, respondeu o sr. Poe. “Sou responsável pela segurança de vocês e não vou deixar que sofram nenhuma agressão.”
“Então vá o senhor atrás deles!”, gritou Klaus. “Mas depressa!”
O sr. Poe deu os primeiros passos para fora da porta, só que parou ao ouvir o ronco de um motor de automóvel dando a partida. Os dois patifes tinham chegado ao carro do dr. Lucafont, e já estavam se afastando.
“Entre no jipe!”, exclamou Violet. “Vá atrás deles!”
“Um homem não se envolve em perseguições de carros. É trabalho para a polícia. Vou já telefonar para o posto policial, talvez eles consigam bloquear a estrada.”
Os jovens Baudelaire viram o sr. Poe fechar a porta e correr para o telefone, e sentiram-se arrasados. Sabiam que não adiantaria nada. Quando o sr. Poe acabasse de explicar a situação para a polícia, o conde Olaf e o homem com as mãos de gancho já teriam desaparecido havia muito. Subitamente exaustos, Violet, Klaus e Sunny caminharam até a enorme escada do tio Monty e sentaram-se no degrau mais baixo, ouvindo o som amortecido do sr. Poe a falar ao telefone. Eles sabiam que tentar encontrar o conde Olaf e o homem com as mãos de gancho, sobretudo depois que escurecesse, seria como procurar uma agulha no palheiro.
Apesar da ansiedade pela fuga do conde Olaf, os três órfãos devem ter dormido por algumas horas, pois quando se deram conta já havia anoitecido e eles continuavam ali no degrau. Alguém havia posto um cobertor para agasalhá-los, e, ao se espreguiçar, eles perceberam a presença de três sujeitos de macacão que saíam da Sala dos Répteis carregando alguns dos animais nas gaiolas. Atrás deles caminhava um gorducho num terno xadrez de cores berrantes, que parou quando notou que os garotos estavam acordados.
“Ei, meninos”, disse o gorducho com uma voz retumbante. “Desculpem se acordei vocês, mas minha equipe tem que andar depressa.”
“Quem é você?”, indagou Violet. É perturbador adormecer durante o dia e acordar à noite.
“Que é que vocês estão fazendo com os répteis do tio Monty?”, perguntou Klaus. Também é perturbador descobrir que a pessoa dormiu numa escada, e não numa cama ou num saco de dormir.
“Diquesnique?”, perguntou Sunny.
É sempre perturbador e não dá para entender por que cargas d’água uma pessoa escolhe um terno xadrez.
“Meu nome é Bruce”, disse Bruce. “Sou o diretor de marketing da Sociedade Herpetológica. Seu amigo sr. Poe telefonou-me para que eu viesse resgatar as cobras agora que o dr. Montgomery faleceu. Resgatar quer dizer ‘levar embora’.”
“Nós sabemos o que quer dizer ‘resgatar’”, falou Klaus, “mas por que é que vocês estão levando os animais? Para onde eles vão?”
“Bem, vocês três são os órfãos, não é mesmo? Vocês vão se mudar para a casa de outro parente que não vai deixar vocês desamparados como aconteceu com a morte do dr. Montgomery. E é preciso que alguém cuide dessas cobras, por isso elas vão ser transferidas para outros cientistas, para jardins zoológicos, para asilos de idosos. Não encontrando quem possa cuidar delas, em último caso, a gente dá cabo delas.”
“Mas elas fazem parte da coleção do tio Monty!”, exclamou Klaus. “Ele levou anos para encontrar todos esses répteis! Vocês não podem simplesmente atirá-los ao vento!”
“É como tem que ser”, disse Bruce querendo evitar atritos. Ele continuava a falar em voz muito alta, sem motivo aparente.
“Víbora!”, gritou Sunny, e começou a engatinhar na direção da Sala dos Répteis.
“O que minha irmã quer dizer”, explicou Violet, “é que ela fez amizade com uma das cobras. Será que poderíamos levar conosco pelo menos uma delas, a Víbora Incrivelmente Mortífera?”
“Minha primeira resposta é não”, disse Bruce. “O tal do Poe falou que todas as cobras nos pertencem. Minha segunda resposta é: se vocês pensam que eu vou deixar crianças pequenas chegarem perto da Víbora Incrivelmente Mortífera, deem um tempo.”
“Mas a Víbora Incrivelmente Mortífera é inofensiva”, disse Violet. “Seu nome é inapropriado.”
Bruce coçou a cabeça: “É o quê?”
“Isso quer dizer que é um nome enganador, um nome errado”, explicou Klaus. “Foi o tio Monty quem a descobriu, e por isso tinha que lhe dar um nome.”
“Mas esse cara tinha fama de ser brilhante”, disse Bruce. Enfiou a mão num bolso do paletó xadrez e retirou um charuto. “Dar a uma cobra um nome errado não me parece brilhante. Parece uma idiotice. Mas, também, que é que se pode esperar de um homem cujo próprio nome era Montgomery Montgomery?”
“Não é correto”, disse Klaus, “troçar assim do nome de uma pessoa.”
“Não tenho tempo para perguntar o que quer dizer troçar”, falou Bruce. “Mas se a garotinha ali quer dar adeus à Víbora Incrivelmente Mortífera, é melhor que faça isso logo. Ela já está lá fora.”
Sunny começou a engatinhar em direção à porta da frente, mas Klaus ainda não tinha dado por encerrada a sua conversa com Bruce.
“Nosso tio Monty era brilhante”, disse ele com firmeza.
“Ele era um homem brilhante”, concordou Violet, “e é essa imagem que guardaremos dele para sempre.”
“Brilhante!”, gritou Sunny, continuando a engatinhar, e os irmãos sorriram para ela, surpresos por ela ter pronunciado uma palavra que todos podiam entender.
Bruce acendeu seu charuto e deu uma baforada. Em seguida, deu de ombros: “Que bom que é esse o sentimento que você tem por ele, garota”, disse. “Boa sorte para todos, seja lá aonde for que vocês sejam enviados.” Ele olhou para o vistoso relógio em seu pulso, e virou-se para falar com os sujeitos de macacão: “Vamos indo. Em cinco minutos temos que estar outra vez naquela estrada que cheira gengibre”.
“É raiz-forte”, corrigiu Violet, mas Bruce já tinha ido embora. Ela e Klaus olharam um para o outro e depois começaram a seguir Sunny até o lado de fora para dar adeus a seus amigos répteis. Mas, quando chegaram à porta, o sr. Poe entrou na sala e bloqueou-lhes a passagem mais uma vez.
“Vejo que estão acordados”, disse ele. “Por favor, subam e vão dormir. Temos que estar de pé muito cedo amanhã de manhã.”
“Só queremos dizer adeus à cobra”, falou Klaus, mas o sr. Poe balançou a cabeça.
“Vocês vão atrapalhar Bruce”, respondeu ele. “Sem falar que me pareceu que vocês três jamais gostariam de ver uma cobra de novo.”
Os órfãos Baudelaire entreolharam-se e suspiraram. Tudo neste mundo parecia estar dando errado. Era errado o dr. Montgomery haver morrido. Era errado o conde Olaf e o homem com as mãos de gancho terem escapado. Era errado Bruce pensar em Monty como uma pessoa com nome bobo, e não como um cientista brilhante. E era errado presumir que as crianças jamais gostariam de ver uma cobra de novo. As cobras – na verdade, tudo dentro da Sala dos Répteis – eram as últimas lembranças que haviam restado dos poucos dias felizes que os Baudelaire tiveram depois da morte de seus pais. Embora pudessem entender que o sr. Poe não lhes permitiria morar sozinhos com os répteis, era inteiramente errado eles jamais poderem tornar a vê-los, sem nem sequer dizer adeus.
Desconsiderando as instruções do sr. Poe, Violet, Klaus e Sunny apressaram-se em ir para fora pela porta da frente, ao encontro dos sujeitos de macacão, que arrumavam as gaiolas dentro de um furgão com um grande adesivo na parte de trás: “Sociedade Herpetológica”. Era lua cheia e o luar refletia-se nas paredes de vidro da Sala dos Répteis, que ficava parecendo uma grande joia a resplandecer. Brilhante, poderíamos dizer. Quando Bruce usou a palavra “brilhante” a propósito do tio Monty, o sentido era de alguém “que tem fama de talentoso e inteligente”. Mas quando as crianças usaram a palavra – e quando pensaram nela agora, olhando para a Sala dos Répteis, que resplandecia ao luar – ela significava muito mais. Significava que, mesmo naquelas circunstâncias sombrias, mesmo passando pela série de desgraças que os seguiriam o resto da vida, o tio Monty e sua bondade brilhariam nas lembranças dos irmãos. O tio Monty era brilhante no sentido de “radioso”, e brilhantes e radiosos foram os tempos que passaram com ele. Bruce e seus auxiliares da Sociedade Herpetológica podiam desmantelar a coleção do tio Monty, mas ninguém jamais conseguiria desmantelar os sentimentos vividos pelos meninos quando pensavam nele.
“Adeus! Adeus!”, despediram-se os órfãos Baudelaire quando puseram a Víbora Incrivelmente Mortífera no furgão. “Adeus! Adeus!”, acenaram-lhe, e, embora a Víbora fosse amiga especialmente de Sunny, Violet e Klaus viram-se chorando junto com sua irmã, e quando a Víbora Incrivelmente Mortífera ergueu os olhos para vê-los, eles perceberam que ela também estava chorando, com pequenas lágrimas resplandecentes a rolar de seus olhos verdes. A Víbora era brilhante também, e quando as crianças se entreolharam viram suas próprias lágrimas resplandecer.
“Você foi brilhante”, Violet murmurou para Klaus, “quando pesquisou as informações sobre a Mamba do Mal.”
“Você foi brilhante”, Klaus murmurou, retribuindo, “quando apanhou as provas do crime na mala de Stephano.”
“Brilhante!”, repetiu Sunny, e Violet e Klaus deram-lhe um abraço apertado. Até a mais jovem dos Baudelaire havia sido brilhante, ao desviar a atenção dos adultos com a Víbora Incrivelmente Mortífera.
“Adeus! Adeus!”, despediram-se os Baudelaire com acenos para os répteis do tio Monty. Ficaram ali juntos ao luar, e continuaram acenando, mesmo depois que Bruce fechou as portas do furgão, mesmo depois de o furgão ter passado pelos arbustos em forma de cobras e ter seguido a rampa até o Mau Caminho, mesmo depois de ter dobrado uma curva e desaparecer no escuro.

4 comentários:

  1. Como eles sempre fogem
    Isso ja ta meio ridiculo affz

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  2. Respostas
    1. É semelhante a esse, apenas tem conteúdo um pouco mais adulto: www.bloglivroson-line2.blogspot.com

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  3. Que peninha dos Baudelaire, só acontece desgraça pra deles

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