30 de julho de 2016

Capítulo três


Peço muitas, mas muitas, muitas desculpas, por ter deixado vocês em suspenso desse jeito, mas é que eu estava escrevendo a história dos órfãos Baudelaire quando olhei para o relógio e vi que estava atrasado para um jantar de cerimônia de uma amiga minha, madame diLustro. Madame diLustro é ótima amiga, excelente detetive, e cozinha que é uma maravilha, mas fica uma fúria se a pessoa chega cinco minutos depois da hora estabelecida no convite. Vocês me entendem, não? Não tive outro jeito senão interromper tudo. Vocês devem ter pensado, no final do capítulo anterior, que Sunny morreu e que essa foi a coisa terrível que aconteceu aos Baudelaire na casa do tio Monty, mas prometo a vocês que Sunny sobrevive a esse episódio. Quem vai morrer, infelizmente, é o tio Monty, mas não agora.
Quando as presas da Víbora Incrivelmente Mortífera cerraram-se sobre o queixo de Sunny, Violet e Klaus testemunharam com horror os olhinhos de Sunny se fecharem e o rosto ficar inerte. Até que, num movimento tão súbito quanto o da cobra, Sunny sorriu luminosamente, abriu a boca e mordeu a Víbora Incrivelmente Mortífera bem no seu minúsculo focinho escamado. A cobra soltou o queixo da menina, e Violet e Klaus puderam ver que a marca deixada na pele de Sunny era quase insignificante. Os dois Baudelaire mais velhos olharam para o tio Monty, tio Monty retribuiu-lhes o olhar e caiu na gargalhada. A sonora gargalhada do tio ricocheteou nas paredes de vidro da Sala dos Répteis.
“Tio Monty, que podemos fazer?”, disse Klaus, tomado de desespero.
“Desculpem-me, meus queridos”, disse o tio Monty enxugando os olhos com as mãos. “Vocês devem estar muito assustados. Mas a Víbora Incrivelmente Mortífera é uma das criaturas menos perigosas e mais amigáveis do reino animal. Sunny não tem por que se preocupar, nem vocês.”
Klaus olhou para sua irmãzinha, que ele ainda sustinha em seus braços, e ela, brincalhona, deu um forte abraço no corpo grosso da Víbora Incrivelmente Mortífera; Klaus então compreendeu que o tio Monty estava dizendo a verdade.
“Mas, nesse caso, por que chamá-la de Víbora Incrivelmente Mortífera?”
Tio Monty voltou a rir.
“É um nome inapropriado”, disse ele, usando uma palavra que aqui tem o sentido de “enganoso”. “Como eu a havia descoberto, tinha que lhe dar o nome, lembram-se? Não contem a ninguém sobre a Víbora Incrivelmente Mortífera, porque vou apresentá-la à Sociedade Herpetológica e pregar um bom susto ao pessoal antes de explicar que a cobra é inteiramente inofensiva! Só Deus sabe o quanto e quantas vezes eles caçoaram de mim por causa do meu nome. 'Alô alô, Montgomery Montgomery', diziam. 'Como vai como vai, Montgomery Montgomery?' Mas na conferência deste ano vou dar o troco a eles com esse trote.” Tio Monty empertigou-se todo e começou a falar com uma voz meio ingênua, do tipo que os cientistas usam para se expressar: “'Colegas (direi na ocasião), gostaria de apresentar-lhes uma nova espécie, a Víbora Incrivelmente Mortífera, que descobri na floresta do Sudeste de... meu Deus! Ela escapou!' E então, quando meus colegas herpetologistas tiverem subido em mesas e cadeiras, gritando apavorados, contarei para eles que a cobra seria incapaz de fazer mal a uma mosca! Não vai ser de matar de rir?”.
Violet e Klaus entreolharam-se, e começaram as gargalhadas, em parte aliviados por nada ter acontecido à sua irmã, em parte divertidos por terem achado que o trote do tio Monty tinha, de fato, muita graça.
Klaus pôs Sunny no chão, e a Víbora Incrivelmente Mortífera não se fez esperar, indo logo para junto da menina, em quem enroscou seu rabo afetuosamente, da mesma forma como passamos o braço em volta de alguém por quem sentimos carinho.
“Por acaso, há nesta sala cobras que sejam perigosas?”, perguntou Violet.
“Claro”, disse o tio Monty. “Você não tem como estudar cobras durante quarenta anos sem encontrar algumas que sejam perigosas. Tenho um armário só para guardar amostras de veneno colhidas de todas as cobras venenosas conhecidas, a fim de estudar como esse veneno age sobre as pessoas. Há uma cobra aqui nesta sala cujo veneno é tão mortal que faz o coração da vítima parar antes mesmo de ela perceber que foi mordida. Há uma cobra que pode abrir uma boca tão grande que daria para nos engolir todos juntos numa mesma bocada. E algumas dessas cobras são tão irresponsáveis dirigindo um carro que podem atropelar uma pessoa na rua sem nem ao menos parar para pedir desculpas. Mas, vejam bem, todas elas estão em gaiolas com cadeados de segurança máxima, e pode-se lidar sem medo com elas depois de tê-las estudado bastante. Prometo a vocês que, se fizerem o esforço necessário para se informarem bem a respeito do assunto, não terão nada a temer aqui na Sala dos Répteis.”
Há um tipo de situação, que acontece frequentemente e que está acontecendo neste ponto da história dos órfãos Baudelaire, que foi chamada de “ironia dramática”. Em poucas palavras, a ironia dramática ocorre quando uma pessoa faz um comentário inocente, e outra pessoa que o escuta está sabendo de alguma coisa que faz com que esse comentário tome um sentido diferente, em geral desagradável. Por exemplo, se estivéssemos num restaurante e disséssemos em voz alta “Não vejo a hora de comer essa vitela ao molho de mostarda”, e houvesse por perto pessoas sabendo que a vitela ao molho de mostarda estava envenenada e que vocês morreriam ao dar a primeira dentada, a situação seria bem o que se poderia chamar de “ironia dramática”. A ironia dramática é uma ocorrência cruel (por isso também se pode falar dela como “ironia cruel”) quase sempre inquietante, e lamento muito tê-la feito surgir nesta história, mas, tendo Violet, Klaus e Sunny as vidas desgraçadas que têm, mais cedo ou mais tarde essa ironia acabaria fazendo sua repelente aparição.
Ao ouvirmos, vocês leitores e eu, o tio Monty dizer aos três órfãos Baudelaire que eles nunca terão nada a temer na Sala dos Répteis, a sensação que isso nos causa é a mesma que acompanha a chegada da ironia dramática. É uma sensação próxima do frio no estômago que se sente num elevador que dá uma descida brusca, ou quando se está bem aconchegado debaixo dos lençóis e a porta do armário de repente se abre com um rangido e revela a pessoa que estava escondida lá dentro. Pois, por mais seguras e felizes que as crianças estejam se sentindo, por mais confortadoras que tenham sido as palavras do tio Monty, vocês leitores e eu sabemos que o tio não demorará a morrer e os Baudelaire vão ficar na pior outra vez.
Na semana que se seguiu, entretanto, os meninos viveram muito felizes no novo lar. Todas as manhãs acordavam e se vestiam na privacidade dos seus quartos individuais, que cada qual havia escolhido e decorado a seu gosto. Violet escolhera um quarto com uma enorme janela que dava para os arbustos com a forma de cobras no gramado da frente. Ela achou que essa vista poderia inspirá-la quando estivesse inventando coisas. Tio Monty lhe permitiu pregar com tachinhas grandes folhas de papel em cada uma das paredes, para que pudesse anotar esquemas de suas ideias, mesmo se elas ocorressem no meio da noite. Klaus tinha escolhido um quarto que tinha um cantinho especial formado por um vão de parede, onde ele conseguia isolar-se por completo para ler. Com a permissão do tio Monty, ele havia carregado uma ampla poltrona estofada da sala de estar, instalando-a no seu cantinho, à luz de uma grande luminária de pé. Em vez de ler na cama, Klaus preferia se aninhar na poltrona todas as noites com um livro da biblioteca do tio, às vezes prolongando a leitura até de manhã. Sunny havia escolhido um quarto que ficava exatamente entre o de Violet e o de Klaus, para onde levara objetos pequenos e duros recolhidos por toda parte na casa, a fim de poder mordê-los sempre que tivesse vontade. Em seu quarto havia também uma variedade de brinquedos do agrado da Víbora Incrivelmente Mortífera, de modo que as duas pudessem brincar juntas à vontade – sem ultrapassar os limites do razoável, é claro.
Mas onde os Baudelaire mais gostavam de ficar era na Sala dos Répteis. Todas as manhãs, depois do café, juntavam-se ao tio Monty, que já se encontrava lá trabalhando nos preparativos para a expedição. Violet sentava-se a uma mesa com as cordas, engrenagens e gaiolas usadas na confecção das diferentes armadilhas para cobras, aprendendo como funcionavam, consertando as peças quebradas e ocasionalmente introduzindo melhoramentos que tornassem as armadilhas mais confortáveis para as cobras na longa viagem do Peru à casa do tio Monty. Klaus ficava sentado ali perto, lendo os livros sobre o Peru que havia na biblioteca do tio, tomando notas num bloco de papel a que pudessem recorrer mais tarde. E Sunny sentava-se no chão, roendo com entusiasmo uma longa corda de modo a reduzi-la a fragmentos que pudessem ser usados depois. Os Baudelaire estavam simplesmente encantados de aprender com o tio Monty tudo sobre os répteis. Enquanto trabalhavam, ele lhes mostrava o Lagarto-Vaca do Alasca, criatura verde e alongada que produzia um leite delicioso. Eles conheceram o Sapo Dissonante, que sabia imitar a fala humana com uma voz rouca e áspera, como de cascalhos em atrito. Tio Monty ensinou-os a segurar o Tritão Tintureiro sem sujar os dedos com sua tinta preta, e mostrou como saber quando a Irascível Píton estava de mau humor e era preferível deixá-la em paz. Ensinou-os a não dar água demais ao Sapo Barriga Verde, e preveniu-os de que nunca, em hipótese alguma, deveriam deixar que a Cobra-Lobo da Virgínia chegasse perto de uma máquina de escrever.
Ao falar-lhes dos diferentes répteis, tio Monty muitas vezes emendava no assunto – expressão que aqui significa “deixava a conversa enveredar por” – histórias de suas viagens, descrevendo os homens, cobras, mulheres, sapos, crianças e lagartos que havia conhecido em suas andanças pelo mundo. Não demorou muito e os órfãos Baudelaire estavam contando ao tio Monty tudo sobre suas próprias vidas, chegaram até a falar de seus pais e de como sentiam saudades deles. Tio Monty mostrava-se tão interessado pelas histórias dos meninos como eles pelas suas, e houve ocasiões em que a conversa se prolongou tanto que eles mal tiveram tempo de engolir o jantar e enfiar-se no apertado jipe do tio Monty para ir ao cinema.
Certa manhã, quando as três crianças terminaram de tomar o café e foram para a Sala dos Répteis, não encontraram tio Monty, mas apenas um bilhete deixado por ele:

Queridos bambini,
Fui à cidade comprar as últimas coisas que faltam para a expedição: repelente para vespas peruanas, escovas de dente, pêssegos em calda e uma canoa à prova de fogo. Vai demorar um pouco até eu encontrar os pêssegos, então não esperem que eu esteja de volta para o jantar.
Stephano, o substituto de Gustavo, chegará hoje de táxi. Deem-lhe boa acolhida. Como sabem, faltam apenas dois dias para a expedição, por isso lhes peço que trabalhem bastante hoje.
Seu tio exultante, Monty

“Que significa exultante?”, perguntou Violet quando acabaram de ler o bilhete.
“Fora de si e empolgado”, disse Klaus, que aprendera a palavra numa antologia de poesia para a primeira série. “Acho que ele está se referindo à empolgação de ir para o Peru. Ou talvez esteja empolgado com a perspectiva de ter um novo assistente.”
“Ou talvez esteja empolgado conosco”, disse Violet.
“Tudu!”, gritou Sunny, provavelmente querendo dizer “Ou talvez esteja empolgado com todas essas coisas”.
“Eu próprio me sinto meio empolgado”, disse Klaus. “É mesmo bastante divertido morar com o tio Monty.”
“Não tenha a menor dúvida”, concordou Violet. “Depois do incêndio, achei que nunca mais voltaria a ser feliz. Mas esse tempo que passamos aqui tem sido magnífico.”
“Mesmo assim, sinto falta de nossos pais”, disse Klaus. “Por mais legal que o tio Monty seja, como eu gostaria de ainda estar morando em nossa casa de verdade!”
“É claro”, disse Violet na mesma hora. Fez uma pausa e, lentamente, como se estivesse pensando em voz alta, expressou uma ideia que vinha remoendo nos últimos dias. “Acho que sempre sentiremos falta de nossos pais. Mas acho também que podemos sentir saudades deles sem que seja preciso estar sofrendo o tempo todo. Afinal de contas, eles não iam querer nos ver sofrendo.”
“Lembram-se daquela vez”, disse Klaus, tristonho, “quando estávamos entediados numa tarde chuvosa e todos pintamos as unhas do pé de vermelho-vivo?”
“Lembro”, disse Violet abrindo um sorriso, “e eu derramei o esmalte na poltrona amarela”.
“Plaplá!”, disse Sunny, tranquila, o que provavelmente significava algo como “E a mancha nunca mais saiu”. Os órfãos Baudelaire sorriram entre si e, sem mais uma palavra, começaram o trabalho do dia. Pelo resto da manhã trabalharam com calma e sem interrupção, conscientes de que o prazer de estar morando na casa do tio Monty não apagara a morte de seus pais, de maneira alguma, mas pelo menos havia servido para fazer com que se sentissem melhor depois de ficarem tão tristes por tanto tempo.
É uma lástima, sem dúvida, que este momento de sossego e felicidade tenha sido o último que as crianças desfrutariam por um bom período dali para a frente, mas não há nada que se possa fazer agora para mudar a situação. Bem quando os Baudelaire começavam a pensar no almoço, ouviram um carro estacionar diante da casa e tocar a buzina. Para as crianças, era um sinal de que Stephano havia chegado. Para nós, uma indicação de que mais sofrimento estava para começar.
“Espero que seja o novo assistente”, disse Klaus, erguendo os olhos de O grande catálogo peruano das pequenas cobras no Peru. “E espero que seja tão legal quanto Monty.”
“Eu também”, disse Violet, abrindo e fechando uma armadilha para sapos a fim de verificar se funcionava direito. “Seria desagradável viajar para o Peru com alguém que fosse chato ou mesquinho.”
“Pajá!”, gritou Sunny, o que provavelmente significava algo do tipo “Bem, vamos lá ver que tal é o Stephano!”.
Os Baudelaire deixaram a Sala dos Répteis e saíram pela porta da frente da casa, deparando com um táxi estacionado perto dos arbustos com forma de cobras. Um homem muito alto e magro, com uma barba comprida e sem sobrancelhas acima dos olhos saía da porta traseira do carro, carregando uma maleta preta fechada com um cadeado de prata que brilhava.
“Não vou lhe dar gorjeta”, o barbudo dizia ao motorista do táxi, “porque você fala demais. Não é todo mundo que está a fim de ouvir histórias de seu novo bebê, entende? Ei, olá, vocês aí. Sou Stephano, o novo assistente do dr. Montgomery. Como estão?”
“Como vai o senhor?”, disse Violet e, ao se aproximar do recém-chegado, ela sentiu que havia algo de vagamente familiar no chiado que acompanhava a voz dele.
“Como vai?”, disse Klaus, e ao encarar Stephano notou que havia algo de muito familiar no brilho intenso dos olhos dele.
“Uuuda!”, gritou Sunny. Stephano não estava usando meias, e Sunny, engatinhando no chão de terra, pôde ver a pele do tornozelo nu entre a bainha da calça e o sapato. Naquele tornozelo havia algo que lhes era mais familiar do que tudo.
Os órfãos Baudelaire tiveram o mesmo pensamento ao mesmo tempo, e recuaram um passo como costumamos fazer diante de um cachorro que se põe a latir. Esse homem não era Stephano, por mais que quisesse se fazer passar por Stephano. Os três olharam para o novo assistente do tio Monty, encarando-o da cabeça aos pés, e viram que não era outro senão o conde Olaf. Podia ter raspado sua longa sobrancelha duas-em-uma, podia ter deixado crescer uma barba no seu queixo ossudo, mas a tatuagem de um olho em seu tornozelo era mais reveladora que qualquer sinal de nascença.

2 comentários:

  1. Sinceramente estou com raiza, nada vai dar certo com ele pelo menos uma vez !!

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