16 de julho de 2016

Capítulo três

AS NAVES DE GUERRA CHEGARAM. ELAS APARECERAM PRIMEIRO SOBRE NOVA YORK, E então por várias cidades ao redor do mundo.
— Chegou a hora — eu murmuro para mim mesmo. Tudo o que tentei prevenir está acontecendo. Os mogs estão aqui, com força total. É uma invasão.
Será que Sam está a salvo?
Noto e eu nos juntamos à sala de mídias da casa, onde pelo menos uma dúzia de federais assistem chocados nas várias televisões os âncoras anunciando e conversando para tentar entender o que está acontecendo. Logo a única coisa que está passando é uma reportagem ao vivo de uma conferência da ONU. Ella está lá. E Setrákus Ra também, na forma de um homem de meia idade. Ele está dizendo algo sobre querer paz. Eu ranjo meus dentes.
Então há algum tipo de comoção, e a câmera focaliza em John, seu rosto com uma expressão nítida de raiva. É a partir daí que tudo vai direto pro inferno.
Onde está Sam?
Procuro por um sinal de meu filho. Mas ele não está no meio da multidão que foge quando as mãos de John começam a brilhar em chamas, e ao mesmo tempo Setrákus Ra se transforma num monstro horripilante; a câmera está focalizada apenas no pessoal em cima do palco. Quando a transmissão é interrompida, os jornais começam a reprisar as imagens, de novo e de novo. Ainda assim, não vejo Sam. Tento ligar para o celular dele, mas não tenho resposta. Claro que não. Ele provavelmente está no meio de tudo aquilo, apenas longe do campo de visão da câmera. Minhas mãos começam a tremer enquanto um sentimento de incapacidade cai sobre mim. Estou tão longe dele. Eu deveria tê-lo impedido, ordenado que ele não fosse. Mas é tarde demais. O que eu posso fazer agora? De repente a ideia de voltar para os arquivos parece idiotice, como tentar usar uma garrafa de água para apagar chamas de uma floresta. E então eu continuo assistindo ao loop de imagens na TV.
No começo são apenas vídeos repetidos sem comentários, como se os próprios âncoras dos jornais não soubessem como explicar. Então, de repente, soltam um bombardeio de teorias, avisos e confirmações de que o governo irá cuidar disso ou que é diretamente responsável por isso.
Gamera, ainda na forma de um gato preto, anda entre minhas pernas, se esfregando em mim. Seus olhos verdes observam os arredores, as orelhas erguidas. Eu me pergunto o quanto ele entende sobre o que está acontecendo. Será que ele pode sentir que nossos inimigos invadiram? Que tudo está mudando?
Ao meu redor, os agentes do FBI tentam lidar sozinhos com o que está acontecendo. A maioria está estupefata, parados ao meu lado com o queixo caído, ou estão loucos, gritando para cada sinal de ocupado ou ligação que não é completada em seus celulares, ou berrando nos rádios chiantes, tentando ficar à par da situação.
Ninguém ouviu falar de Walker, e aposto que a maioria destes agentes queria estar no campo de batalha.
Eu não sei por quantas vezes assisto o vídeo sendo repetido. Relatórios começam a chegar de todas as partes do mundo. A humanidade não sabe como reagir. Os chineses forçaram um ataque contra a nave de guerra de Beijing, enviando caças para lançar bombas por cima dela. Ao mesmo tempo, canhões lançam mísseis do chão, o céu explodindo em chamas. Mas a nave de guerra permanece intacta, protegida, aparentemente, por algum tipo de escudo invisível. Os mísseis explodem contra o campo de força e então o fogo e os detritos chovem na cidade abaixo. Alguns dos mísseis parecem ricochetear completamente na nave, obliterando os prédios mais altos, destruindo o horizonte.
Quando a fumaça dissipa, a nave de guerra parece intocada, mas Beijing está em chamas.
Há motins e saques nas cidades ao redor do mundo. Parece estar acontecendo em lugares onde nem há naves de guerra. Acho que quando há uma nave extraterrestre gigantesca pairando sobre sua cidade, você está menos propenso a sair correndo pelas ruas. As pessoas estão assustadas, com medo, algumas prontas para lutar, outras clamando que o fim dos dias está próximo. Há até uma gravação de um grupo segurando banners de boas-vindas e cartazes que dizem “me abduzam!”
Tento me lembrar de como reagi quando encontrei provas irrefutáveis de que havia vida fora da Terra. Quando me encontrei com Pittacus Lore pela primeira vez. Explosões de imagens e sentimentos passam voando pela minha cabeça. Receio. Medo. Confirmação. Pittacus me entregou um tablet. Seus olhos brilhando como se estivessem em chamas enquanto ele pedia pela minha ajuda.
Um novo vídeo começa a ser reproduzido em um dos monitores, desviando-me de meus pensamentos. Reconheço a voz de Sarah imediatamente enquanto ela explica quem é a Garde e quem são os mogadorianos – depois de passar tanto tempo da minha vida tentando manter a Garde em segredo, é espantoso ouvi-los sendo expostos em rede nacional. Primeiro, só passa nos jornais, mas então está em todos os lugares, contando como foi encontrado no YouTube. Na verdade, eles interrompem a cobertura das naves de guerra para mostrá-lo, até que a voz de Sarah está ecoando ao meu redor, vindo de cada alto falante e anunciando ao mundo quem é John Smith e quem são os lorienos.
As pessoas tentam desmentir a gravação, argumentando com arquivos e histórias do Eles Estão Entre Nós. Sinto como se eu estivesse perdendo a capacidade de respirar cada vez que vejo algo novo.
Tudo está acontecendo, todas as peças dos dominós caindo. Eu mal posso me acalmar.
Eventualmente, o Agente Noto para ao meu lado. Ele não tira os olhos da tela enquanto fala:
— Nós podemos exibir a gravação do jornal em um notebook lá embaixo se você quiser voltar ao trabalho.
— Estou ciente disso — falo em voz baixa. — Mas qual o sentido? O que poderíamos encontrar que seja útil contra isto?
Lá fora, o sol está começando a se pôr. Meus olhos parecem areia. Sem dúvidas eles estão vermelhos, e a combinação de cafeína e dos eventos recentes exibidos na televisão praticamente me abalou por inteiro.
— Foi apenas uma sugestão. Eu também pareço não conseguir tirar os olhos da TV — ele deixa escapar uma única risada ofegante. — O mundo está cagando nas calças agora.
— E nós estamos brincando de casinha em um subúrbio alienígena maldito — outro agente diz, entrando no meio da nossa conversa. — Que diabos estamos fazendo aqui, Noto?
— Seguindo as ordens de Walker — a voz de Noto é calma e controlada. Apenas uma sugestão de aborrecimento transparece.
— Walker foi para Nova York. Ela poderia estar morta, até onde sabemos.
Vejo Noto olhar para mim antes de voltar sua atenção para o outro homem.
— Esta é uma base inimiga altamente valiosa. Não podemos simplesmente...
— Pelo amor de Deus, isso não é captura da bandeira — o homem está tentando sussurrar agora, mas sem sucesso. — Não consigo manter ninguém na linha. Os fiéis aos mogs devem ter bloqueado as comunicações com os segundos comandos. Isso, ou todo agente que temos está tentando descobrir o que diabos fazer. Não estamos longe de DC. Há meia dúzia de pontos essenciais num raio de trinta quilômetros mais importantes para proteger do que um monte de lixo mogadoriano. Armas. Civis. Pessoas que sabem códigos de lançamento. E isso é apenas o que vem agora à minha cabeça. Não podemos deixar que tudo isso caia em mãos inimigas.
Apesar de tudo o que está acontecendo, ou talvez por causa da descarga de adrenalina e da consciência elevando através o meu corpo – uma memória começa a surgir dos cantos escuros da minha mente.
A última coisa que precisamos é que isso caia nas mãos do inimigo.
Ouço as palavras de novo e de novo. Sei que é importante, mas não me lembro por quê. Lentamente, uma cena começa a vir à luz. Estou na varanda da minha casa. Sam está comigo, mas é tão jovem e frágil. Uma mulher que não reconheço está lá, me avisando sobre alguma coisa. Sobre o quê?
Fecho meus olhos, tentando agarrar a memória antes que ele se vá. Talvez isso seja algo que pode nos ajudar.
Então eu me lembro. Ela está me dizendo que se ela me encontrou, então os mogs também o farão. Que a minha família não está segura. E eu estou com medo, porque sei que não posso ir embora, porque o lorieno está planejando voltar a Paradise um dia.
E assim eu fiquei.
Consigo engolir outra onda de náusea. Nos últimos meses, assumi que os mogs tivessem me pegado de surpresa. Mas eles não o fizeram, não inteiramente. Eu sabia que eles podiam me encontrar. Fui avisado. Mas eu não ouvi. E se eles tivessem levado a minha família? E se tivessem pegado Sam também? Como pude ser tão estúpido?
Mas então quem é a mulher com quem eu estava falando? Ela não era do comitê de boas-vindas ou uma Cêpan... mas tenho a sensação de que ela era loriena. Alguém com quem fiquei igualmente impressionado e com medo.
Onde ela está agora?
— O que você acha, Malcolm? — Noto pergunta, e leva-me um momento para perceber que ele está falando comigo.
— Sinto muito — eu digo. Minha voz é um sussurro áspero. — O quê?
É quando os Chimærae começam a enlouquecer.
Guinchos de pássaros soam de todos os lados, rompendo a cacofonia de reportagens e discussões de dentro. Gamera sibila, saltando para os meus braços. Noto e eu nos entreolhamos, e então ele me segue enquanto eu corro para a porta da frente, gritando alguma coisa sobre ser cuidadoso. Mais alguns agentes já estão no gramado, um segurando um par de binóculos contra os olhos. Ao longe, algum tipo de aeronave se aproxima.
— O que temos? — Noto pergunta.
— Parece um helicóptero de transporte — o agente entrega seus binóculos para Noto. — Identificação do Exército.
— Não sabemos quem são eles? — pergunto.
Apesar dos agentes nos ajudando em Ashwood, o governo não é exatamente confiável no momento. Tento me lembrar do que li no Eles Estão Entre Nós e tudo mais o que descobrimos, na esperança de saber exatamente em quem no exército podemos confiar, se é que há alguém.
— Nós estamos usando walkie-talkies aqui, e a maior parte das redes de celulares caiu — murmura Noto. — A menos que você tenha visto algum tipo de equipamento de transmissão subterrânea, não podemos exatamente pedir que se identifiquem. Fique na casa até que nós descubramos quem são — ele tira sua arma do coldre. — E fale para os outros lá dentro para prepararem as armas grandes.
Gamera solta um grunhido. Acima, o restante dos Chimærae continuam a voar ao redor em formas de aves, gritando.
— Voltarei para dentro — concordo. — Se alguma coisa der errada...
Mas eu não tenho certeza de como terminar a frase. Noto apenas sacode a cabeça em direção à porta, e sem saber mais o que fazer, eu vou. Quando entro, afasto duas lâminas da persiana de madeira e observo enquanto o helicóptero se aproxima da rua em frente à casa.
Dois homens vestidos com armadura preta descem do helicóptero assim que ele pousa. O da frente mantém sua arma no coldre, mas os agentes do FBI têm suas armas apontadas para ele, posturas rígidas. O outro homem que tem algum tipo de fuzil pendurado nas costas usa um corte à escovinha. Parece que é feito de nada a não ser músculos, como um lutador profissional.
Posso ver bocas se movendo, mas não consigo ouvir nada sobre o ruído das hélices do helicóptero. Noto dá um passo à frente, estendendo o que eu assumo ser o distintivo. Ele fala um pouco com os dois homens e, em seguida, levanta a mão para os agentes atrás dele. Eles relaxam um pouco.
Então Noto vira o rosto para a janela de onde estou observando. Os outros seguem o exemplo, até que estão todos olhando na minha direção.
— Ah não... — murmuro.
Os homens de armadura seguem Noto atravessando o gramado. Gamera sibila, saltando para o chão na minha frente.
— Calma aí — falo suavemente, observando a abordagem homens. — Eu acho que estamos bem.
Uma vez dentro da casa, Noto apresenta o homem que parece se chamar Coronel Lujan. Seu aperto de mão é firme, e seus olhos, escuros e penetrantes sob sobrancelhas pretas e espessas. O outro homem não é nomeado, mas “Briggs” está escrito em uma plaquinha acima do bolso no peito de seu uniforme.
— Eu sou Malcolm Goode — falo.
Lujan e o outro homem apenas acenam, como se eu estivesse dando-lhes informações que eles já tinham. Nenhum deles se move para sentar ou entrar mais na casa.
— Dr. Goode — fala Lujan. — Vou direto ao ponto: o nosso país está sob cerco e enfrentando uma invasão alienígena. O presidente e vários outros membros-chave da administração foram transportados para um bunker, onde estão formulando a resposta dos Estados Unidos para esta crise. Sua assistência foi solicitada.
— Minha assistência?
— Parece que Walker tem estado em contato com o alto escalão — observa Noto. — Eles querem respostas sobre o que está acontecendo, e ela lhes passou o seu nome. Disse que você poderia fornecer uma imagem clara do conflito. Aparentemente, ela está presa em Nova York por... bem, você viu o que está acontecendo lá.
— Meu filho. Ela mencionou Sam?
— Eu não tenho falado diretamente com a Agente Walker — responde Lujan. — Só estou aqui para certificar-me de que sua coleta corra bem. Como pode imaginar, o tempo é um fator aqui, Dr. Goode.
Minha mente corre, me perguntando se tenho a opção de dizer não a estes homens. E ainda há a possibilidade de que algo dos arquivos possa ajudar – por mais improvável que possa parecer, considerando a notícias atuais.
Por outro lado, quase certamente poderei fazer mais bem se estiver ao lado do presidente e souber exatamente o que está acontecendo. Fazer isso ajudará Sam e os outros.
— Se me der alguns minutos, eu gostaria de recolher algumas das minhas coisas do subsolo. Meu rifle está lá embaixo, junto com um monte de informações...
— Podemos armá-lo — diz Lujan.
— Eu posso manter as coisas funcionando aqui — completa Noto. — Se o seu filho ou qualquer um dos outros retornar... — ele faz uma pausa. — Bem, parece que Walker sabe como entrar em contato com o bunker.
— Mas...
— Com todo o respeito, senhor — o coronel fala — precisamos ir.
Olho de um lado para o outro entre os dois antes de concordar. Gamera desloca no chão entre meus pés.
— Minha mochila e casaco estão na sala de jantar — eu digo, correndo para o cômodo ao lado antes que alguém possa protestar.
Gamera me segue. Olho por cima do ombro para garantir que os militares não estão observando antes de abrir o zíper da mochila e apontar para Gamera entrar ali.
— Não é o ideal — eu sussurro, enquanto ele se encolhe para o tamanho de um besouro e voa para dentro. — Mas é o melhor que posso fazer agora.
Pego o antigo telefone via satélite – mantenho o novo no bolso em todos os momentos para o caso de Sam me ligar – antes de vestir o casaco e colocar a mochila por cima do ombro, tomando o cuidado de não bater Gamera de um lado para o outro ali dentro. De volta ao hall de entrada, jogo o telefone sobressalente para Noto.
— É seguro — eu digo. — Entrarei em contato com você quando puder. Continue procurando qualquer coisa que possa nos ajudar.
Ele é interrompido por mais guinchos de fora, seguido por gritos. O walkie-talkie de Lujan crepita.
— Cinco aeronaves desconhecidas se aproximando rapidamente!
— Mantenha sua posição! — Lujan grita de volta. Ele se vira para mim. — Precisamos sair daqui agora. Se o helicóptero for atingido, será um longo caminho de volta para DC, e com certeza não chegaremos lá pela rodovia. Está bloqueada por quilômetros.
— Vá! — Diz Noto. — Boa sorte.
Eu concordo. E então estou correndo.
Corremos apenas alguns metros para fora antes de eu detectar os Skimmers mogadorianos vindo direto para Ashwood.

2 comentários:

  1. É bom saber o que acontece com Malcolm enquanto os outros estavam em NY e no santuário. A dúvida estava me matando!

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  2. Eu encontrei uns errinhos aquí, você poderia arrumar por favor?
    "— Minha mochila e casado estão na sala" nessa frase tem um errinho de digitação
    " agente de entrega seus binóculos para Noto" essa frase ficou meio estranha.

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