25 de julho de 2016

Capítulo sete


Há muitos tipos de livros no mundo, o que faz sentido, porque há muitos e muitos tipos de pessoas, e os gostos são diferentes. Por exemplo, pessoas que detestam histórias em que acontecem coisas horríveis a criancinhas deveriam fechar este livro imediatamente. Mas um tipo de livro que praticamente ninguém gosta de ler é um livro de direito. Os livros de direito têm fama de ser muito compridos, muito chatos e muito difíceis de ler. Essa é uma das razões por que os advogados ganham rios de dinheiro. O dinheiro é um incentivo – a palavra incentivo aqui quer dizer “recompensa oferecida a alguém para que faça algo que não quer fazer” – para ler livros compridos, chatos e difíceis.
Os jovens Baudelaire tinham um incentivo um pouco diferente para ler esses livros, é claro. Seu incentivo não eram rios de dinheiro, e sim impedir o conde Olaf de cometer algo horrível contra eles que lhe permitiria ganhar rios de dinheiro. Mas, mesmo com esse incentivo, achar o seu caminho no emaranhado dos livros jurídicos da biblioteca particular da juíza Strauss era um trabalho verdadeiramente insano.
“Deus do céu”, exclamou a juíza Strauss, quando entrou na biblioteca e viu o que estavam lendo. Ela havia aberto a porta para eles, mas logo em seguida se metera no quintal, às voltas com seus trabalhos de jardinagem, deixando os órfãos Baudelaire se virarem sozinhos no meio de sua gloriosa coleção de livros. “Pensei que vocês estivessem interessados em engenharia mecânica, animais da América do Norte e dentes. Têm certeza de que querem ler esses enormes livros jurídicos? Nem mesmo eu gosto de lê-los, e olhem que o direito é o meu campo de trabalho.”
“Na verdade”, mentiu Violet, “acho que são uma leitura muito interessante, juíza Strauss.”
“Eu também”, disse Klaus. “Violet e eu estamos pensando em estudar direito, por isso estamos fascinados por estes livros.”
“Bem”, disse a juíza Strauss, “em todo caso, Sunny certamente não está interessada. Que tal ela vir me ajudar na jardinagem?”
“Uipi!”, gritou Sunny, o que significava: “Bem que eu prefiro jardinagem a ficar aqui sentada olhando meus irmãos quebrarem a cabeça para decifrar esses livros jurídicos”.
“Bom, é só ter cuidado para ela não comer terra”, disse Klaus, entregando a caçula à juíza.
“Claro”, disse a juíza Strauss. “Quem gostaria que ela ficasse doente às vésperas do grande espetáculo?”
Violet e Klaus se entreolharam. “A senhora está entusiasmada com a peça?”, perguntou Violet, meio hesitante.
O rosto da juíza Strauss se iluminou. “Ah, com certeza!”, disse. “Eu sempre quis subir ao palco, desde garotinha. E agora o conde Olaf me deu a oportunidade de viver o sonho de minha vida. Vocês não estão emocionados por participar de uma peça de teatro?”
“Acho que estamos”, disse Violet.
“Mas claro que estão!”, disse a juíza, com estrelas nos olhos e Sunny nas mãos. Retirou-se da biblioteca, e Violet e Klaus olharam um para o outro e suspiraram.
“Ela está tomada de paixão pelo teatro”, disse Klaus. “Não vai acreditar de jeito nenhum que o conde Olaf está aprontando alguma.”
“De qualquer forma, ela não iria nos ajudar”, observou Violet melancolicamente. “Ela é juíza e logo viria com a baboseira do in loco parentis, tal como o sr. Poe.”
“Por isso é que temos que descobrir um motivo legal para impedir o espetáculo”, disse Klaus com firmeza. “Você ainda não encontrou nada no seu livro?”
“Nada que preste”, disse Violet, baixando os olhos para um pedaço de papel onde vinha fazendo anotações. “Há cinquenta anos houve uma mulher que deixou uma enorme fortuna para uma fuinha de que ela cuidava, e nem um centavo para seus três filhos. Os filhos tentaram provar que a mulher não estava em seu juízo perfeito, para ficarem com o dinheiro.”
“E o que aconteceu depois?”, perguntou Klaus.
“Acho que a fuinha morreu”, respondeu Violet, “mas não tenho certeza. Algumas palavras preciso olhar no dicionário.”
“De qualquer forma, não creio que esse caso possa nos ajudar”, disse Klaus.
“Talvez o conde Olaf esteja querendo provar que nós não estamos em nosso juízo perfeito, para avançar no dinheiro”, disse Violet.
“Mas por que o fato de nos fazer participar de O casamento maravilhoso provaria que não estamos em nosso juízo perfeito?”, perguntou Klaus.
“Não sei”, admitiu Violet. “Estou atrapalhada. E você, descobriu alguma coisa?”
“Aí pela época da sua dona da fuinha”, disse Klaus, folheando um livro enorme que estivera lendo, “um grupo de atores fez uma encenação do Macbeth, de Shakespeare, em que nenhum deles aparecia vestido com roupa nenhuma.”
Violet enrubesceu. “Você está me dizendo que eles se apresentaram nus?”
“Por pouco tempo”, disse Klaus, sorrindo. “A polícia chegou e não deixou o espetáculo prosseguir. Acho que esse caso também não nos ajuda. Foi só uma leitura interessante.”
Violet suspirou. “Talvez o conde Olaf não esteja aprontando nada”, disse. “Não estou interessada em atuar na peça dele, mas vai ver que estamos nos preocupando sem razão. Talvez o conde Olaf esteja simplesmente querendo nos acolher na família.”
“Como pode dizer uma coisa dessas?”, vociferou Klaus. “Ele me bateu no rosto!”
“Mas não há como ele se apoderar de nossa fortuna simplesmente nos botando numa peça”, disse Violet. “Está me cansando a vista ficar lendo estes livros, Klaus, e sem nenhum proveito. Vou lá fora ajudar a juíza Strauss no jardim.”
Klaus olhou para a irmã, que deixava a biblioteca, e sentiu um desânimo baixar sobre ele. O dia do espetáculo estava próximo, e ele nem sequer tinha conseguido entender o plano do conde Olaf, muito menos bolar uma forma de impedir que desse certo. Durante toda a sua vida Klaus havia acreditado que bastava uma pessoa ler muitos livros para ser capaz de resolver qualquer problema. Agora, não linha tanta certeza disso.
“Você aí!” Uma voz vinda do umbral da porta tirou Klaus bruscamente de seus pensamentos. “O conde Olaf mandou que eu viesse chamá-lo. Você tem que voltar já para casa.”
Klaus se virou e viu um dos membros da trupe do conde Olaf, aquele que tinha ganchos no lugar das mãos, junto à porta.
“Que diabo você está fazendo nesta sala velha com cheiro de mofo?”, perguntou com uma voz que era um verdadeiro grasnado, enquanto avançava na direção em que Klaus estava sentado. Apertando seus olhos miúdos e redondos, leu o título de um dos livros. “Aspectos jurídicos da herança e suas implicações?”, disse rispidamente. “Por que está lendo isso?”
“O que você acha?”, disse Klaus.
“Vou já lhe dizer o que eu acho.” O homem apoiou um dos seus terríveis ganchos no ombro de Klaus. “Acho que você deveria ser proibido de entrar de novo nesta biblioteca, pelo menos até sexta-feira. Não queremos ter um garotinho tramando coisas. E me diga: onde estão sua irmã e aquele bebê abominável?”
“Foram para o jardim”, disse Klaus, afastando o gancho com um movimento dos ombros. “Por que não vai atrás delas?”
O homem se inclinou até o rosto dele ficar a poucos centímetros do de Klaus, tão perto que seus traços fisionômicos se converteram num borrão aos olhos do menino.
“Escute aqui, garotinho, preste bem atenção”, disse, exalando um hálito pestilento a cada palavra pronunciada. “A única razão do conde Olaf não o ter rasgado ao meio é que ele ainda não conseguiu pôr as mãos no seu dinheiro. Ele permite que você continue vivo enquanto não leva a cabo seus planos. Mas faça a você mesmo esta pergunta, seu rato de biblioteca: que motivo ele terá para poupar a sua vida depois de haver conseguido o seu dinheiro? O que é que você acha que vai acontecer com você então?”
Klaus sentiu um arrepio gelado perpassar por seu corpo quando aquele sujeito horrível falou. Nunca estivera tão aterrorizado em toda a vida. Seus braços e pernas se achavam numa tremedeira incontrolável, como se ele estivesse tendo um ataque ou coisa parecida. A boca produzia sons estranhos, iguais aos de Sunny, enquanto lutava para encontrar o que dizer.
“Ah...”, Klaus soltou, para não sufocar. “Ah...”
“Quando chegar a hora”, o homem das mãos de gancho disse, amaciando a voz e ignorando os sons de Klaus, “imagino que o conde Olaf simplesmente o deixará por minha conta. De modo que, se eu fosse você, procuraria começar a ser um pouco mais gentil.” O homem se levantou de novo e pôs os dois ganchos diante do rosto de Klaus, fazendo a luz das lâmpadas de leitura se refletir naquelas ferramentas sinistras. “Agora, me dê licença, que vou buscar os outros pobres órfãos.”
Klaus sentiu o corpo se afrouxar quando o homem das mãos de gancho deixou a sala, e teve vontade de sentar ali por um instante e retomar a respiração. Mas o pensamento trabalhava sem parar, não lhe permitindo a pausa. Eram seus últimos momentos na biblioteca, e talvez a última oportunidade de impedir a consumação do plano do conde Olaf. Mas o que fazer? Escutando os sons amortecidos que chegavam da conversa do homem dos ganchos com a juíza Strauss no jardim, Klaus fixou a atenção mais uma vez nos livros ao seu redor e se pôs a buscar freneticamente alguma coisa que pudesse ajudar. Então, assim que ele ouviu os passos do homem que retomava, bateu os olhos num livro, tirou-o da estante com a rapidez de um raio e o escondeu sob a camisa. Já havia enfiado a camisa dentro das calças quando o homem das mãos de gancho transpôs a entrada da biblioteca acompanhando Violet e trazendo no colo Sunny, que tentava sem sucesso morder os ganchos do sujeito.
“Estou pronto para ir”, disse Klaus sem demora, e se dirigiu para a porta antes que o homem pudesse observá-lo com mais atenção. Caminhava ligeiro à frente das irmãs, esperando que não desse para ninguém notar o volume por baixo de sua camisa. Podia ser – quem sabe? – que o livro contrabandeado por Klaus significasse a salvação da vida deles.

4 comentários:

  1. Nossa que merda pelo jeito o plano daquele lixo vai dar certo

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