25 de julho de 2016

Capítulo seis


Na manhã seguinte, quando as crianças saíram cambaleando de sono do quarto para a cozinha, em vez de um bilhete do conde Olaf encontraram o próprio conde Olaf.
“Bom dia, órfãos”, disse ele. “Já preparei o mingau de aveia para vocês. Está nas tigelas.”
As crianças sentaram-se à mesa da cozinha e olharam aflitas para o mingau de aveia. Se vocês conhecessem o conde Olaf, e ele de repente lhes servisse uma refeição, não teriam medo de que houvesse algo terrível dentro dela, como veneno ou vidro moído? Em vez disso, Violet, Klaus e Sunny verificaram que em cima de cada um dos mingaus foram postas framboesas frescas. Os órfãos Baudelaire não comiam framboesa desde a morte de seus pais, embora fosse uma sobremesa que adoravam.
“Obrigado”, disse Klaus, pegando uma das framboesas e examinando-a cuidadosamente. Talvez fossem framboesas envenenadas disfarçadas de framboesas deliciosas. Ao ver a desconfiança com que Klaus olhava para as frutinhas, o conde Olaf sorriu, catou uma framboesa da tigela de Sunny. Encarando cada um dos três meninos, jogou-a para dentro da boca e a comeu.
“Framboesa não é uma coisa deliciosa?”, perguntou. “Era a minha fruta preferida quando eu tinha a idade de vocês.”
Violet tentou imaginar o conde Olaf criança, mas não conseguiu. Seus olhos faiscantes, as mãos ossudas e o sorriso velado pareciam coisas que só os adultos possuem. Apesar do medo que sentia dele, entretanto, segurou a colher com a mão direita e começou a comer seu mingau de aveia. O conde Olaf tinha provado dele, de modo que não devia estar envenenado, e de qualquer forma ela estava com muita fome. Klaus começou a comer também. O mesmo fez Sunny, que espalhou mingau de aveia e framboesas pela cara toda.
“Recebi um telefonema ontem”, disse o conde Olaf, “do sr. Poe. Ele me contou que vocês foram lhe fazer uma visita.”
As crianças trocaram olhares. Haviam esperado que o caráter confidencial da visita fosse respeitado, frase que aqui significa “a visita fosse mantida em segredo entre o sr. Poe e eles, e não passada adiante em fofoca para o conde Olaf”.
“O sr. Poe me disse”, continuou o conde Olaf, “que vocês pareciam estar encontrando dificuldade para se adaptar à vida que tão generosamente tenho proporcionado a vocês. Lamento muito saber disso.”
Os meninos olharam para o conde Olaf. Ele tinha a fisionomia muito séria, como se de fato lamentasse muito saber daquilo, mas seus olhos faiscavam com o brilho característico que a gente vê nos olhos de quem está falando de brincadeira.
“É mesmo?”, disse Violet. “Lamento que o sr. Poe tenha importunado o senhor.”
“Gostei dele ter feito isso”, disse o conde Olaf, “porque desejo que vocês três se sintam aqui como em sua casa, agora que sou o pai de vocês.”
Os meninos estremeceram um pouco ao ouvir isso, lembrando-se do bom pai que haviam tido e fitando tristemente o pobre substituto sentado na frente deles, do outro lado da mesa.
“Ultimamente”, disse o conde Olaf, “as preocupações com minha atuação no espetáculo da companhia teatral têm me deixado muito nervoso, e meu comportamento pode ter sido um tanto reservado.”
Reservado é uma ótima palavra, mas não descreve em absoluto o comportamento do conde Olaf para com os jovens Baudelaire. Significa “relutante em se relacionar com os outros”, e serviria para descrever alguém que, numa festa, se isola num canto e não conversa com ninguém. Não serviria para descrever quem oferece uma só cama para três pessoas dormirem, força essas três pessoas a prestar serviços horríveis e bate na cara delas. Há muitas palavras para definir gente desse tipo, mas reservado não se encaixa de maneira nenhuma. Klaus sabia o significado dessa palavra e quase deu uma gargalhada diante do uso incorreto que o conde Olaf fez dela. Porém a marca do machucado continuava em seu rosto, de modo que Klaus ficou em silêncio.
“Assim sendo, para que vocês se sintam um pouco mais em casa aqui, gostaria que participassem da próxima peça que encenarei. Talvez, se estiverem integrados ao meu trabalho, seja menos provável vocês irem correndo se queixar ao sr. Poe.”
“De que modo participaríamos?”, perguntou Violet. Ela estava pensando em todos os serviços que os Baudelaire já faziam para o conde, e não estava a fim de que ficassem ainda mais sobrecarregados.
“Bem”, disse o conde Olaf com os olhos faiscando animadamente, “a peça se chama O casamento maravilhoso, e foi escrita pelo grande dramaturgo Ivon Culto. Daremos um único espetáculo, esta sexta-feira à noite. É sobre um homem muito corajoso e inteligente, que eu interpreto. No final, esse homem se casa com a jovem e bela mulher que ele ama, diante de uma multidão de figurantes que brindam e dão vivas com entusiasmo. Você, Klaus, e você, Sunny, estarão entre os figurantes que brindam e dão vivas.”
“Mas somos mais baixos que a maioria dos adultos”, disse Klaus. “O público não vai achar estranho?”
“Vocês farão dois anões que assistem ao casamento”, disse Olaf com a maior paciência.
“E eu faço o quê?”, perguntou Violet. “Tenho muito jeito com ferramentas, talvez pudesse ajudar a montar o cenário.”
“Montar o cenário? Deus do céu, nada disso”, falou o conde Olaf. “Uma menina linda como você não pode ficar escondida nos bastidores.”
“Mas eu gostaria”, disse Violet.
A sobrancelha do conde Olaf se ergueu ligeiramente, e os órfãos Baudelaire reconheceram esse sinal, que indicava sua raiva. Mas a sobrancelha voltou a baixar, e ele fez força para manter a calma. “Acontece que eu tenho um papel importante para você no palco”, disse ele. “Você vai interpretar a moça com quem eu me caso.”
Violet sentiu o mingau de aveia e as framboesas girarem no seu estômago como se ela houvesse acabado de pegar uma gripe. Já era ruim demais ter o conde Olaf agindo in loco parentis e se proclamando seu pai, mas considerar esse homem seu marido, ainda que só para os efeitos de uma peça de teatro, era o que podia haver de mais horrível.
“É um papel muito importante”, prosseguiu ele, curvando os cantos da boca num sorriso não convincente, “embora sua fala seja apenas um 'sim' quando a juíza Strauss lhe pergunta se me aceita como esposo.”
“A juíza Strauss?”, disse Violet. “O que é que ela tem a ver com isso?”
“Ela concordou em fazer o papel de juiz”, disse o conde Olaf. Por trás dele, um dos olhos pintados na parede da cozinha observava atentamente cada uma das crianças Baudelaire. “Pedi à juíza Strauss que participasse da peça porque quis me sentir um bom vizinho, além de um bom pai.”
“Conde Olaf”, disse Violet, mas em seguida se interrompeu. Ela queria justificar com argumentos seu propósito de não fazer o papel da noiva, mas também não queria que ele se zangasse. “Pai”, disse ela, “não sei se tenho talento bastante para interpretar profissionalmente. Não gostaria de causar danos ao seu bom nome nem ao nome de Ivon Culto. Além do mais, estarei ocupadíssima nas próximas semanas, trabalhando em minhas invenções... e aprendendo a fazer rosbife”, apressou-se a acrescentar, bem lembrada de como ele havia reagido ao jantar que prepararam.
O conde Olaf estendeu uma das mãos em feitio de aranha e segurou Violet pelo queixo, olhando fundo nos seus olhos. “Você vai”, disse ele, “participar desse espetáculo teatral. Eu preferiria que você participasse voluntariamente, mas acredito que o sr. Poe tenha lhe explicado que posso mandá-la participar e você tem que obedecer.”
As unhas afiadas e sujas dos dedos do conde Olaf arranharam delicadamente o queixo de Violet, o que lhe provocou arrepios. A cozinha ficou no maior silêncio, até que Olaf soltou o queixo de Violet, levantou-se e saiu sem dizer nada. Os jovens Baudelaire ouviram os seus passos pesados subindo os degraus para chegar torre, onde eles estavam proibidos de entrar.
“Bom”, disse Klaus, meio hesitante, “acho que não vai ser nenhum sofrimento participar da peça. Isso parece ser muito importante para ele, e não nos interessa que ele fique contra nós.”
“É, mas alguma ele deve estar aprontando”, disse Violet.
“Você acha que aquelas framboesas estavam envenenadas?”, perguntou Klaus, preocupado.
“Não”, disse Violet. “Olaf está atrás da fortuna que herdaremos. Nossa morte não lhe traria nenhum benefício.”
“Mas que benefício vai trazer a ele a nossa participação nessa bobagem dessa peça?”
“Não sei”, admitiu Violet, consternada. Levantou-se e começou a lavar as tigelas de mingau de aveia.
“Gostaria que soubéssemos um pouco mais sobre o que a lei estabelece a respeito de heranças”, disse Klaus. “Aposto que o conde Olaf bolou algum plano para ficar com nosso dinheiro, mas não imagino qual possa ser.”
“Acho que poderíamos perguntar sobre isso ao sr. Poe”, disse Violet sem muita convicção, quando Klaus se pôs a seu lado para ajudar a lavar os pratos. “Ele conhece todas aquelas expressões jurídicas em latim.”
“Mas muito provavelmente o sr. Poe telefonaria de novo para o conde Olaf, e aí ele ficaria sabendo que estamos de olho nele”, observou Klaus. “Talvez fosse melhor tentarmos conversar com a juíza Strauss. Ela é juíza, e deve saber tudo sobre leis.”
“É, mas ela também é vizinha de Olaf”, argumentou Violet, “e poderia contar para ele a pergunta que fizemos.”
Klaus tirou os óculos, o que tinha o costume de fazer quando se esforçava muito para pensar. “Como poderíamos nos informar sobre essa lei sem Olaf ficar sabendo?”
“Liiiv!”, gritou Sunny de repente. Ela provavelmente quis dizer algo como: Alguém, por favor, limpe a minha cara!, mas sua manifestação levou Violet e Klaus a olharem um para o outro. Liiiv... Os dois tiveram o mesmo pensamento: é claro que a juíza Strauss deveria ter um livro sobre leis de herança.
“O conde não deixou nenhum serviço para nós”, disse Violet, “por isso acho que vamos ter uma chance de ir visitar a juíza Strauss e sua biblioteca.”
Klaus sorriu. “Isso mesmo!”, disse. “E sabe de uma coisa? Acho que hoje não vou escolher um livro sobre lobos.”
“Nem eu”, disse Violet, “vou escolher nenhum sobre engenharia mecânica. Estou pensando em ler alguma coisa relacionada com leis de herança.”
“Então vamos!”, disse Klaus. “A juíza falou que não tardássemos a aparecer, e não vamos querer dar uma de reservados.”
Ante a menção da palavra que o conde Olaf usara de maneira tão ridícula, os órfãos Baudelaire caíram lodos na risada, até mesmo Sunny, cujo vocabulário obviamente não era grande coisa. Apressaram-se em guardar as tigelas limpas nos armários, que os encararam com seus olhos pintados. Em seguida, os três correram para a casa vizinha. Faltavam poucos dias para a sexta-feira em que o espetáculo seria encenado, e os jovens Baudelaire queriam descobrir o mais rápido possível qual era o plano do conde Olaf.

6 comentários:

  1. hm, minha teoria é: o conde Olaf vai se casar de verdade com a Violet pra ficar com a herança (mas talvez eu esteja errado pq ela é de menor e ele o "pai" dela, mas td bem)

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    1. Concordo, acho que esse é o plano dele... Mas como eles são muito inteligentes, eu duvido que o Conde Olaf consiga faze-lo.

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  2. Nossa mais a juiza esta com ele nesse plano Ridiculo

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    1. Mas se a teoria estiver certa , talvez a juiza não saiba que seja um plano , talvez ela pence que é apenas uma peça de teatro ... A não sei de mais é nada hsjsusus

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  3. Ai o povo já viu o filme e fica ai fazendo "teoria". :'DD

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