25 de julho de 2016

Capítulo quatro


Os órfãos Baudelaire copiaram a receita do livro numa sobra de papel, e a juíza Strauss teve a gentileza de acompanhá-los até o mercado para que comprassem os ingredientes necessários. O conde Olaf não havia deixado muito dinheiro para eles, mas os garotos conseguiram comprar tudo o que era preciso. De um vendedor de rua levaram as azeitonas, depois de provar diversas variedades e escolher suas preferidas. Numa loja de massas adquiriram macarrão em formato muito interessante e pediram à gerente uma quantidade que desse para treze pessoas – as dez pessoas mencionadas pelo conde Olaf, mais eles três. Foram ao supermercado e compraram alho, que é um bulbo vegetal de gosto muito ativo; enchovas, que são peixinhos bem salgados; alcaparras, botões florais que dão em pequenos arbustos e têm um sabor maravilhoso, e tomates, que na verdade são frutos, e não legumes como a maioria das pessoas imagina. Eles acharam que deviam incluir uma sobremesa, e compraram vários envelopes de pó para pudim. Talvez, pensaram os órfãos, se fizessem uma refeição deliciosa, o conde Olaf passasse a ser mais gentil com eles.
“Muitíssimo obrigada pela ajuda que nos deu hoje”, disse Violet, e foi andando até em casa com os irmãos e a juíza Strauss. “Não sei como teríamos nos arranjado sem a senhora.”
“Vocês me parecem muito inteligentes”, disse a juíza Strauss. “E eu sabia que certamente seriam capazes de inventar alguma solução. Mas continuo achando estranho o conde Olaf pedir que vocês preparassem uma refeição para tanta gente. Bom, aqui estamos. Tenho que entrar para arrumar minhas próprias compras. Espero que vocês não tardem a me visitar e levar emprestados livros de minha biblioteca.
“Amanhã?”, perguntou Klaus sem perder tempo. “Podemos aparecer amanhã?”
“Não vejo por que não”, disse a juíza Strauss, sorrindo.
“Nem sei como lhe agradecer”, disse Violet, medindo as palavras. Com os pais mortos e o conde Olaf tratando-os de maneira tão abominável, as três crianças não estavam acostumadas a receber gentilezas dos adultos, e não sabiam ao certo se era esperado que dessem alguma coisa em troca. “Amanhã, antes de tornarmos a recorrer a sua biblioteca, Klaus e eu gostaríamos de prestar serviços domésticos para a senhora. Sunny ainda não tem propriamente idade para trabalhar, mas garanto que vamos descobrir um modo dela poder ajudá-la.”
A juíza Strauss sorriu para as três crianças, mas havia tristeza nos seus olhos. Estendeu a mão e a pousou nos cabelos de Violet, o que deu à menina um consolo que fazia tempo ela não sentia.
“Não vai ser preciso”, disse a juíza. “Vocês sempre serão bem-vindos em minha casa.”
Depois disso, ela se voltou para a porta e entrou. Por um breve instante os órfãos Baudelaire seguiram com o olhar seus movimentos, antes de eles próprios entrarem em casa.
Durante a maior parte da tarde, Violet, Klaus e Sunny prepararam o molho de acordo com a receita. Violet dourou o alho, limpou e picou as enchovas. Klaus descascou os tomates e tirou o caroço das azeitonas. Sunny ficou batendo numa panela com uma colher de pau, enquanto cantava uma canção um tanto repetitiva que ela havia composto. E as três crianças se sentiram menos melancólicas, como ainda não tinham se sentido desde que se mudaram para a casa do conde Olaf. O cheiro de comida indo ao fogo tem geralmente um efeito calmante, e a cozinha ficou mais aconchegante quando eles começaram a esquentar o molho em fogo baixo. Os três órfãos falaram de lembranças agradáveis de seus pais e sobre a juíza Strauss, que concordaram se tratar de uma vizinha maravilhosa, e planejaram passar um bom tempo em sua biblioteca. Conversando, misturaram e provaram o pudim de chocolate.
Bem no momento em que estavam pondo o pudim na geladeira para que esfriasse, Violet, Klaus e Sunny escutaram a porta da frente se abrir e se escancarar com estrondo, e é claro que não preciso dizer a vocês quem havia chegado em casa.
“Órfãos?”, chamou o conde Olaf com sua voz arranhada. “Onde estão vocês, órfãos?”
“Na cozinha, conde Olaf”, respondeu Klaus. “Estamos terminando de fazer o jantar.”
“Assim espero”, disse o conde Olaf, e entrou como um raio na cozinha. Encarou fixo os três Baudelaire com seus olhos faiscantes. “Meus colegas estão chegando e estão morrendo de fome. Onde está o rosbife?”
“Não fizemos rosbife”, disse Violet. “Fizemos macarrão a puttanesca.”
“Quê?!” perguntou o conde. “Não tem rosbife?”
“O senhor não nos disse que queria rosbife”, disse Klaus.
O conde Olaf se aproximou das crianças, para parecer ainda mais alto do que era. Seus olhos faiscaram com um brilho maior, e sua sobrancelha tipo duas-em-uma se ergueu raivosamente.
“Quando concordei em adotá-los”, disse, “tornei-me seu pai e, como pai, não admito que zombem de mim. Ordeno que sirvam rosbife, a mim e aos meus convidados.”
“Não temos como!”, gritou Violet. “Fizemos macarrão à puttanesca!”
“Na! Na! Na!”, berrou Sunny.
O conde Olaf baixou os olhos para Sunny, que tinha tomado a palavra tão subitamente. Com um rugido inumano, pegou-a com uma única de suas mãos descarnadas e a levantou até a altura em que ela pudesse olhá-lo nos olhos. Não preciso dizer que Sunny se assustou muito e começou a chorar na mesma hora, apavorada demais para sequer tentar morder a mão que a retinha.
“Ponha já a menina no chão, seu animal!”, gritou Klaus. E deu um salto, querendo salvar Sunny das garras do conde, mas este a suspendera mais alto do que o menino podia alcançar. O conde Olaf baixou os olhos para Klaus e lhe dirigiu um sorriso terrível, com os dentes todos à mostra, ao mesmo tempo que erguia ainda mais alto no ar a chorosa Sunny. Ele parecia disposto a deixá-la cair quando se ouviu uma explosão de gargalhadas vindo da sala ao lado.
“Olaf! Onde está Olaf?”, chamavam muitas vozes.
O conde Olaf fez uma pausa, ainda com a chorosa Sunny suspensa no ar, enquanto membros da companhia teatral entravam ruidosamente na cozinha. Logo ocuparam todo o espaço – uma multidão que reunia os tipos de aparência mais estranha, de todas as formas e tamanhos. Havia um careca com nariz bem comprido, vestindo um longo roupão negro. Havia duas mulheres com o rosto inteiro coberto de um pó branco e brilhante que lhes dava o aspecto de fantasmas. Atrás das mulheres, estava um homem de braços muito compridos e magricelas que terminavam por ganchos em vez de mãos. Havia uma pessoa tremendamente gorda e que não parecia ser nem homem nem mulher. Atrás dessa pessoa, amontoadas junto à porta da cozinha, achavam-se várias outras que as crianças não podiam ver mas que também deviam ser assustadoras.
“Aí está o homem!”, disse uma das mulheres de rosto branco. “Que diabo você está fazendo, Olaf?”
“Estou dando uma lição nesses órfãos”, disse o conde Olaf. “Pedi a eles que preparassem o ‘jantare' tudo o que fizeram foi um molho nojento.”
“Não se pode dar moleza para as crianças”, disse o homem com mãos de gancho. “Elas têm que aprender a obedecer aos mais velhos.”
O careca alto fixou o olhar nos meninos. “São estes, perguntou ao conde Olaf, “os riquinhos de que você me falou?”
“Sim”, disse o conde. “São tão horríveis que mal consigo suportar o contato de qualquer um deles.” Ao dizer isso, pôs no chão Sunny, que continuava chorando.
Violet e Klaus suspiraram aliviados por ele não a ter deixado despencar da altura em que se achava.
“Você está certo”, disse alguém que estava junto à porta da cozinha.
O conde Olaf esfregou as mãos uma na outra como se houvesse estado segurando algo repelente e não um bebê.
“Bem, chega de conversa”, disse. “Acho que vamos ter que comer o jantar deles, mesmo que tenha saído tudo errado. Venham comigo à sala de jantar, que eu servirei vinho para vocês. Pode ser que quando esses pirralhos puserem a comida na mesa, já estejamos bêbados o suficiente para nem reparar se é rosbife ou não.”
“Viva!”, gritaram vários membros da trupe, e se retiraram da cozinha, acompanhando o conde Olaf até a sala de jantar.
Ninguém prestou a menor atenção nos meninos, a não ser o tal careca, que parou e ficou olhando Violet nos olhos.
“Você até que é bonitinha”, disse, tomando-lhe o rosto nas mãos. “Se eu fosse você, tentaria não aborrecer o conde Olaf, do contrário ele é capaz de arrebentar esse lindo rostinho.”
Violet estremeceu e o careca deu uma risada estridente ao seguir na direção dos outros.
Os Baudelaire, deixados a sós na cozinha, respiraram pesado, como se tivessem acabado de correr uma longa distância. Sunny continuava chorando, e Klaus descobriu que seus próprios olhos também estavam molhados. Só quem não chorava era Violet, tomada apenas por uns tremores que eram de medo e repulsa, palavra que aqui está usada no sentido de mistura desagradável de horror e aversão. Por alguns momentos nenhum deles conseguiu falar.
“É terrível, é terrível”, disse Klaus afinal. “Violet, o que podemos fazer?”
“Não sei”, disse ela. “Estou com medo.”
“Eu também”, disse Klaus.
“Rac!”, disse Sunny, parando de chorar.
“Como é? E esse jantar?”, gritou alguém da sala vizinha, e a trupe em peso começou a bater na mesa ritmadamente, o que é uma grosseria que não tem tamanho.
“É melhor pôr a comida na mesa, ou sabe-se lá o que o conde Olaf é capaz de fazer conosco.”
Violet pensou no que o careca tinha dito, sobre aquela história de arrebentar o rosto dela, e concordou. Os dois olharam para a panela onde borbulhava o molho, que lhes parecera tão apetitoso enquanto o estavam preparando e agora era como um barril de sangue. Depois, deixando Sunny na cozinha, caminharam para a sala de jantar. Klaus levava uma tigela com o macarrão em formato interessante, e Violet a panela com o molho, acompanhada de uma pesada concha para servi-lo. A trupe conversava às gargalhadas, bebendo seguidamente de suas taças de vinho, sem prestar a menor atenção nos órfãos Baudelaire, que se empenhavam em dar a volta ao redor da mesa servindo o jantar a cada um. A mão direita de Violet doía do esforço de segurar a pesada concha. Ela pensou em usar a outra mão para suportar melhor o peso, mas como era destra, receava derramar o molho com sua mão esquerda, o que poderia enfurecer o conde Olaf mais uma vez. Olhou com tristeza para o prato de comida do conde, e se surpreendeu desejando ter comprado veneno no mercado para acrescentar ao molho.
Tendo terminado de servir, Klaus e Violet discretamente se retiraram para a cozinha. Sempre escutando o gargalhar grosseiro e desenfreado do conde Olaf e de sua trupe, fizeram seu próprio prato, mas estavam tão tristes que nem tinham vontade de comer. Não demorou muito, e os convidados de Olaf mais uma vez começaram a bater ritmadamente na mesa, um sinal para que os órfãos corressem à sala de jantar, recolhessem os pratos e em seguida servissem o pudim de chocolate. Àquela altura era óbvio que o conde Olaf e seus colegas haviam bebido toneladas de vinho, pois se debruçavam procurando apoio na mesa e falavam muito menos. Até que por fim se levantaram, saindo em rebanho para atravessar de novo a cozinha e acertar com o caminho que levava à porta da rua. O conde Olaf circulou um olhar pela cozinha, que estava repleta de pratos sujos.
“Já que vocês ainda não terminaram de limpar”, disse ele aos órfãos, “estão desculpados de não comparecerem ao espetáculo desta noite. Mas, depois de tudo arrumado, vão direto para suas camas.”
Klaus olhava fixo para o chão, tentando esconder a raiva de que se sentia possuído. Mas, ouvindo isso, não aguentou ficar calado.
“O senhor quer dizer para a cama”, gritou. “Pois o senhor só providenciou uma cama para todos nós!”
Os membros da companhia teatral pararam no meio de seu caminho, surpreendidos por aquele rompante, e de Klaus transferiram o olhar para o ronde Olaf, a fim de ver o que aconteceria em seguida. O conde ergueu sua sobrancelha tipo duas-em-uma, com os olhos brilhando intensamente, mas falou com calma.
“Se acham que precisam de outra cama”, disse ele, “é só irem amanhã à cidade comprar uma.”
“O senhor sabe perfeitamente que não temos dinheiro”, disse Klaus.
“Claro que têm”, disse o conde Olaf, e seu tom de voz começou a se levantar um pouco. “Vocês são herdeiros de uma enorme fortuna.”
“Esse dinheiro”, disse Klaus, recordando o que o sr. Poe havia dito, “é para ser usado só quando Violet atingir a maioridade.”
O conde Olaf ficou muito vermelho de raiva. Por um instante, não disse nada. Em seguida, com um movimento súbito do braço, acertou o rosto de Klaus. O garoto caiu no chão, com a cabeça a poucos centímetros do olho tatuado no tornozelo do conde. Seus óculos saltaram do rosto e foram parar mais adiante. A face esquerda, que havia recebido a pancada de Olaf, ardia como se estivesse pegando fogo. A trupe caiu na risada, e alguns deles até aplaudiram, como se o conde Olaf tivesse realizado um ato de grande bravura, e não uma baixeza desprezível.
“Vamos embora, amigos”, disse o conde Olaf para seus camaradas. “Senão nos atrasaremos para o espetáculo. “
“Se o conheço bem, Olaf”, disse o homem com mãos de gancho, “vai acabar descobrindo um jeito de tomar esse dinheiro dos Baudelaire.”
“Vamos ver”, disse o conde Olaf, mas seus olhos brilhavam como se ele já tivesse uma ideia a respeito do assunto.
Ouviu-se outro estrondo quando a porta da rua bateu fechando-se atrás do conde Olaf e de seus terríveis amigos, e os Baudelaire ficaram sozinhos na cozinha. Violet se ajoelhou ao lado de Klaus, abraçando-o para ver se ele se sentia melhor. Sunny engatinhou até onde tinham ido parar seus óculos, pegou-os e os levou para ele. Klaus começou a chorar, não por causa da dor, mas de raiva pela horrível situação em que estavam metidos. Violet e Sunny choraram com ele, e o choro se prolongou enquanto lavavam os pratos, e quando sopraram apagando as velas na sala de jantar, e quando trocaram de roupa e se deitaram para dormir, Klaus na cama, Violet no chão e Sunny em sua pequena almofada feita com as cortinas. O luar entrava pela janela, e se alguém olhasse para dentro do quarto dos órfãos Baudelaire, veria três crianças chorando de mansinho a noite inteira.

5 comentários:

  1. Nossa q LIXO esse bando de gente se é q esse bando é gente

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  2. Se fosse eu, já teria ido à casa da juíza Strauss. Realmente,vejo que se trata de uma história terrível.

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  3. Nossa, que raiva desse povo! Dá vontade de dar um tapa na cara deles.

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  4. nossa! que cara horrível, desprezíve!!!

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  5. Nossa mano, que raiva desses animais! Queria dar um tapa na cara deles!

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