25 de julho de 2016

Capítulo onze


“Mas que prazer tê-la aqui conosco!”, disse o homem das mãos de gancho num tom de voz repulsivamente doce. Violet na mesma hora tentou recuar às pressas pela corda, mas o assistente do conde Olaf era ágil demais para ela. Numa única manobra ele a carregou para dentro da torre e, com a outra mão de gancho, ainda deu um puxão na corda que fez despencar aos trambolhões o aparelho por ela inventado para resgatar a irmã. “Fico tão feliz por você estar aqui!”, disse o homem das mãos de gancho. “Estava justamente pensando como seria bom ver o seu lindo rostinho. Sente-se.”
“O que vai fazer comigo?”, perguntou Violet.
“Eu disse sente-se!”, vociferou o homem das mãos de gancho, e a empurrou para uma cadeira.
Violet deu uma olhada no quarto, pouco iluminado e em absoluta desordem. Tenho certeza de que, no decorrer da vida de vocês, devem ter notado como o quarto das pessoas reflete a personalidade delas. No meu quarto, por exemplo, juntei uma coleção de objetos que são importantes para mim, inclusive um acordeom todo empoeirado em que toco canções tristes, uma série de anotações sobre as atividades dos órfãos Baudelaire, e um retrato meio tremido, tirado há muito tempo, de uma mulher chamada Beatrice. São objetos particularmente queridos e preciosos para mim. No quarto da torre havia objetos que da mesma forma eram queridos e preciosos para o conde Olaf: coisas verdadeiramente terríveis. Tiras de papel, em que ele escrevera seus pensamentos perversos em rabiscos ilegíveis, acumulavam-se em pilhas desordenadas no alto do exemplar de Direito nupcial que tinha tomado de Klaus. Havia umas poucas cadeiras, e algumas velas acesas produziam sombras bruxuleantes ao seu redor. Por todo o chão, viam-se garrafas de vinho vazias e pratos sujos espalhados. Mas, especialmente, desenhos, pinturas e gravuras de olhos, grandes e pequenos, estavam presentes em qualquer canto do quarto: olhos pintados no teto, olhos esboçados no sujo soalho de madeira, olhos pichados no peitoril da janela, e um olho enorme pintado na maçaneta da porta que dava para a escada. Era um lugar terrível.
O homem das mãos de gancho retirou um walkie-talkie de um bolso de seu seboso sobretudo. Com certa dificuldade apertou um botão e esperou um instante. “Chefe, sou eu”, disse. “Sua inocente noivinha acabou de escalar a torre para tentar salvar a fedelha que dá mordidas.” Fez uma pausa enquanto o conde Olaf dizia algo. “Não sei. Com uma espécie de corda.”
“Era um arpéu”, disse Violet, e rasgou uma das mangas de sua camisola a fim de fazer uma atadura para pôr no ombro. “Eu mesma fiz.”
“Ela está dizendo que era um arpéu”, disse o homem das mãos de gancho, falando pelo walkie-talkie. “Não sei, chefe. Certo, chefe. Certo, chefe, claro que eu sei muito bem que ela é sua. Certo, chefe.” Apertou um botão para desligar, depois se virou para Violet. “O conde Olaf está muito descontente com sua noiva.”
“Não sou noiva dele”, disse Violet asperamente.
“Logo, logo vai ser”, disse o homem das mãos de gancho, fazendo com o gancho um gesto de advertência que a maioria das pessoas faria com o dedo indicador. “Mas, enquanto isso, eu preciso ir pegar seu irmão. Vocês três ficarão trancados neste quarto até anoitecer. Assim, o conde Olaf pode ter certeza de que não causarão nenhum transtorno.”
Dito isso, o homem das mãos de gancho se retirou do quarto pisando forte. Violet ouviu quando ele trancou a porta, e em seguida o barulho de seus passos se afastando na escada. Imediatamente correu para junto de Sunny e pôs a mão em sua cabeça. Com medo de suscitar – palavra que aqui quer dizer “provocar” – a cólera do conde Olaf se retirasse a faixa da boca da irmã ou se a livrasse das cordas que a amarravam, Violet passou a mão nos cabelos de Sunny murmurando que estava tudo bem.
Mas é claro que não estava tudo bem. Estava tudo inteiramente péssimo. Com o penetrar das primeiras luzes da manhã no quarto da torre, Violet se pôs a pensar em todas as coisas horríveis por que ela e seus irmãos tinham passado nos últimos tempos. Seus pais morreram súbita e tragicamente. A sra. Poe lhes comprara roupas feias e ordinárias. Eles se mudaram para a casa do conde Olaf e lá eram tratados de maneira terrível. O sr. Poe se recusara a ajudá-los. Eles descobriram um plano maquiavélico do conde, que consistia em se casar com Violet e roubar a fortuna dos Baudelaire. Klaus tentara desmascarar o conde contando-lhe o que ficara sabendo numa consulta à biblioteca da juíza Strauss, e fracassara. A pobre Sunny fora feita prisioneira. E, agora, Violet tentara resgatar Sunny e fora feita prisioneira também. No final das contas, os órfãos Baudelaire tiveram que lidar com catástrofe em cima de catástrofe, e Violet considerava a situação deles lamentavelmente deplorável, expressão que aqui quer dizer que “não era de modo nenhum agradável” a situação deles.
O som de passos subindo a escada tirou Violet de seus pensamentos, e logo o homem das mãos de gancho abriu a porta e empurrou para dentro do quarto um Klaus muito cansado, assustado e confuso.
“Aqui está o órfão que faltava”, disse o homem das mãos de gancho. “E agora preciso ir ajudar o conde Olaf nos últimos preparativos para o espetáculo desta noite. Não me venham com truques e espertezas, vocês dois, ou eu também os amarro e penduro e deixo balançando no lado de fora da janela.” Com um último olhar intenso para eles, tornou a trancar a porta e desceu as escadas pisando forte.
Klaus piscou e olhou o quarto sujo à sua volta. Ainda estava de pijama. “O que foi que aconteceu?”, perguntou a Violet. “Por que nos puseram aqui em cima?”
“Tentei resgatar Sunny”, disse Violet, “usando uma invenção minha para escalar a torre.”
Klaus foi até a janela e olhou para baixo. “É muito alto.”, disse. “Você deve ter ficado apavorada.”
“Dava medo, sim”, ela admitiu, “mas não tanto quanto a ideia de me casar com o conde Olaf.”
“Sinto muito que sua invenção não tenha funcionado”, disse Klaus com tristeza.
“A invenção funcionou perfeitamente”, disse Violet, passando a mão no ombro ferido. “Acontece que fui descoberta e me pegaram. E agora estamos perdidos. O homem das mãos de gancho disse que nos manterá presos aqui até a noite, e aí começa O casamento maravilhoso.”
“Você acha que seria capaz de inventar alguma coisa que nos ajudasse a fugir?”, perguntou Klaus, olhando à sua volta no quarto.
“Talvez”, disse Violet. “Por que não dá uma olhada nesses livros e papéis? Pode ser que haja alguma informação que sirva para nós.”
Nas poucas horas que se seguiram, Violet e Klaus procuraram no quarto e em sua própria mente qualquer coisa capaz de ajudá-los. Violet tentou encontrar objetos com que pudesse inventar algo. Klaus deu uma boa olhada nos papéis e nos livros do conde Olaf. Vez por outra eles iam até Sunny, sorriam para ela e passavam a mão em sua cabeça para tranquilizá-la. Ocasionalmente, Violet e Klaus falavam um com o outro, mas a maior parte do tempo ficavam em silêncio, mergulhados nos próprios pensamentos.
“Se tivéssemos querosene”, disse Violet por volta de meio-dia, “eu poderia fabricar coquetéis molotov com essas garrafas.”
“O que são coquetéis molotov?”, perguntou Klaus.
“São pequenas bombas preparadas dentro de garrafas”, explicou Violet. “Poderíamos jogá-las pela janela e atrair a atenção de quem estivesse passando perto daqui.”
“Mas não temos querosene”, disse Klaus melancolicamente.
Ficaram em silêncio algumas horas.
“Se fôssemos polígamos”, disse Klaus, “o plano do conde Olaf não funcionaria.”
“Polígamos são o quê?”, perguntou Violet.
“Polígamos são pessoas que casam com mais de uma pessoa”, explicou Klaus. “Nesta comunidade, os polígamos não têm apoio da lei, nem mesmo se casarem em presença de um juiz, disserem 'sim' e assinarem o documento por seu próprio punho. Li isso aqui no Direito Nupcial.”
“Mas não somos polígamos”, disse Violet melancolicamente.
Ficaram em silêncio mais algumas horas.
“Poderíamos quebrar essas garrafas ao meio”, disse Violet, “e usá-las como facas, mas fico com medo de que a trupe do conde Olaf nos vença pela força.”
“Você poderia dizer 'não' em vez de 'sim’”, disse Klaus, “mas fico com medo de que o conde Olaf mande jogar Sunny torre abaixo.”
“É o que eu faria, sem a menor dúvida”, disse o conde Olaf, provocando um sobressalto nas crianças. Elas estavam tão envolvidas na conversa que nem o ouviram subir a escada e abrir a porta. Vestia uma roupa extravagante, e sua sobrancelha havia sido encerada para parecer tão brilhante quanto seus olhos. Atrás dele se postava o homem das mãos de gancho, que sorriu e acenou para os garotos com um dos ganchos. “Vamos, órfãos”, disse o conde Olaf. “Chegou o grande momento. Meu colega aqui vai ficar neste quarto, mantendo contato permanente pelos nossos walkie-talkies. Se alguma coisa não sair bem no espetáculo desta noite, sua irmã será jogada para a morte. Andem, vamos.”
Violet e Klaus olharam um para o outro, depois para Sunny, que continuava balançando em sua gaiola, e saíram atrás do conde Olaf. Enquanto descia os degraus da torre, Klaus sentiu um peso no coração, produzido pela mais absoluta falta de esperança. Não parecia de fato haver nenhuma saída para aquela enrascada. Violet sentia o mesmo, até o momento em que estendeu a mão direita para se apoiar no corrimão. Olhou um instante para sua mão direita e começou a pensar. Durante a descida da escada, a saída pela porta da rua e a breve caminhada pelo quarteirão até o teatro, Violet pensou, pensou, pensou, no maior esforço de concentração de toda a sua vida.

3 comentários:

  1. Meu Deus começa a gritar chama a policia chama a atencao do povo da rua pelo amor de Deus

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    1. Aí Sunny morre. É só eles fazerem algo de errado para o asqueroso Mãos de Ganchos mandar a bebêzinha dez metros a baixo.

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