16 de julho de 2016

Capítulo onze

MAL AMANHECEU E EU JÁ LI UM QUARTO DE THE ONCE AND FUTURE KING, QUANDO há outra batida na porta, desta vez mais rápida, quase que nervosa. Escondo meu telefone embaixo do travesseiro.
Na verdade, quase derrubo o livro no chão quando vejo o presidente de pé no corredor, ladeado por dois agentes do Serviço Secreto.
Ele está suando, os olhos arregalados e avermelhados nos cantos.
— Alguma coisa aconteceu com minha filha — diz ele. — Por favor, você pode falar com ela?
— C-claro — eu gaguejo, impressionado com sua aparência. — Eu farei qualquer coisa que puder, mas... eu não sou um médico.
Isso não parece importar; ele já está voltando pelo corredor. Briggs dá de ombros para mim, parecendo tão confuso quanto eu.
Tudo o que posso fazer é segui-lo.
— Ela estava bem — Jackson diz sobre seu ombro. — O assessor disse que ela estava apenas assistindo a um filme quando de repente começou a ter convulsões e algo estranho aconteceu com seus olhos. Eles estavam brilhando. Em seguida, ela perdeu a consciência por alguns segundos.
Isto não faz qualquer sentido.
— Havia mais alguém lá? — pergunto.
— Não. Minha esposa... ela estava na Califórnia quando tudo isso começou. Ela está em uma casa segura lá.
Sua voz soa diferente da do homem que liderava a mesa de alto escalão esta manhã. Nós temos mais em comum do que eu poderia ter imaginado. Ele é um homem separado de sua família, bem como encarregado de proteger não só as pessoas de seu país, mas seus entes queridos. Tentando descobrir como manter ambos seguros ao mesmo tempo.
— A sua filha tem um histórico de convulsões? — pergunto.
— Nenhum. Os médicos aqui disseram que não conseguem encontrar nada de errado com ela. Ela diz que está bem, mas... está com medo. Eu nunca a visto agir desta forma. Ela viu alguma coisa quando estava inconsciente. Uma sala de reuniões, onde havia um bando de adolescentes que ela chama de “mocinhos” e um cara que ela chama de “o malvado”.
Ele para na frente de uma porta guardada e se vira para mim.
— Ela viu Setrákus Ra. Eu não sei como, logo que as naves apareceram, a levamos para longe, para que ela não visse nenhuma das filmagens. Mas ela o descreveu, assim como ele se mostrou depois de ter se transformado na ONU e no vídeo ele enviou esta manhã.
— Meu Deus... — eu digo. — Espere, este vídeo...
— Mais tarde — ele me corta. — Como é que ela está vendo o líder dos mogadorianos? Isso é algum tipo de ataque?
Balanço a cabeça, sem saber. Mas então eu me lembro de Ella e alguns dos outros Gardes tendo visões no passado.
— Não é inédito — eu digo. — Setrákus Ra invadiu sonhos antes, mas, que eu saiba, ele sempre tem como alvo os lorienos.
— Ela disse que havia centenas de pessoas e todas pareciam estar compartilhando essa... visão. Mostrei-lhe uma imagem de John Smith depois de ouvi-la descrever um menino que falou com eles. Era ele.
O rosto de Jackson está confuso, seus olhos perfurando-me enquanto ele tenta entender o que está acontecendo com sua filha.
Quando estou prestes a dizer que não posso dar-lhe nenhuma resposta, ele me empurra através da porta.
A suíte presidencial no bunker é, naturalmente, muito melhor equipada do que a minha. Apesar da falta de janelas, parece um pequeno apartamento normal. A menina está sentada em um sofá branco adornado. Seu cabelo escuro está puxado em um rabo de cavalo brotando da parte de trás de sua cabeça. Ela tem quinze, talvez dezesseis anos. Uma mulher está sentada ao lado dela, tentando colocar um pano úmido em sua cabeça.
— Eu já disse que estou bem — diz a menina, empurrando a mulher para longe.
— Obrigado, Vera — Jackson fala, dispensando a mulher. — Você pode sair por um minuto? Tomar um pouco de ar fresco?
Não há ar fresco aqui em baixo, mas Vera entende a dica e eu e o presidente ficamos sozinhos no quarto com a filha.
Ela para na porta, olhando para trás entre nós três.
— O senhor quer que eu mande alguém entrar? — pergunta ela, sem dúvida se perguntando se Jackson não se sentiria mais confortável com um agente do Serviço Secreto na sala.
— Não, obrigado, Vera.
Eu sei que não sou uma ameaça, mas é bom saber que Jackson não pensa em mim como se fosse uma. Ou, mais provavelmente, isso só mostra quão desesperado ele está.
O presidente se vira para sua filha.
— Melanie, este é o Dr. Goode.
— Você pode me chamar de Malcolm — falo, estendendo a mão.
Melanie olha para mim, depois olha para suas unhas, que estão pintadas com um rosa fosco pálido. Ela parece nervosa, e da maneira como Jackson a observa, posso perceber que estar no centro das atenções não é normal para ela.
— Eu não sei de nada além do que te contei, papai — ela murmura. — Tudo aconteceu tão rápido. Foi confuso.
— Certo, Jackson — continua. — Eu contei a ele os pontos principais. Malcolm conhece a Garde. Ele...
Ela olha para mim com os olhos arregalados, finalmente interessada.
— Você conhece John Smith? — ela pergunta.
— Conheço.
Sua boca se abre como se ela fosse dizer alguma coisa e, em seguida, ela a fecha novamente. Ela parece hesitante de dizer qualquer outra coisa, então eu continuo falando.
— Sam, meu filho, está com ele agora, em Nova York, lutando contra o mogs. Ele é o melhor amigo de John.
Sam está seguro? A dúvida continua na minha mente, como sempre.
— Você viu também, então? — ela pergunta.
Balanço a cabeça. Ela franze a testa e olha para o lado.
— Por que eu? — ela pergunta. — Por que eu fui sugada para o seu mundo de sonhos maluco?
— Você pode me dizer algo? — pergunto. — Eles disseram onde estavam? Mencionaram... — eu continuo — talvez um lugar chamado Santuário?
Ela balança a cabeça, fechando os olhos, tentando lembrar.
— Eu acho que não — diz ela. — Havia essas pessoas de todo o mundo. Eles tinham... — ela se esforça, fazendo uma pausa. — Eles nos disseram que poderíamos viajar usando uma pedra ou algo parecido. Um grupo delas apareceu em um mapa que uma menina assustadora nos mostrou.
— Loralite... — murmuro. Isso não faz qualquer sentido. Pelo o que eu entendo, a Garde precisava do Legado de teletransporte de Oito a fim de utilizar as pedras. Quando isso mudou? Isso está de alguma forma relacionado com os novos Legados?
— O que mais John disse? — pergunto.
— Ele queria que nós o acompanhássemos. Disse que nós podemos salvar o mundo se nos juntarmos contra os caras maus.
— E seu pai disse Setrákus Ra estava lá. Será que ele... falou qualquer coisa?
— Ele disse que ia me caçar. A todos nós — lágrimas caem em suas bochechas. — Ele disse que ia matar cada um de nós que estava lá assistindo. Ele... pai, ele era horrível.
Jackson fica de joelhos e a puxa para perto, olhando para mim com os dentes cerrados. Minha mente corre, tentando descobrir o que poderia estar acontecendo. Parece que John estava tentando recrutar pessoas, mas nenhum dos Gardes já mostrou o poder de criar algum tipo de ilusão generalizada antes. A menos que seja um novo Legado ou...
Novo.
Penso em Sam. E da garota que ele mencionou. Do fato de que pode haver novos membros da Garde surgindo em todo o mundo.
— Melanie — falo suavemente. — Quando você começou a mover coisas com sua mente?
Jogo verde, mas é óbvio que atingi algo. Ela para de chorar – para de respirar, na verdade. Lentamente, ela se afasta de seu pai até que seus olhos turvos estão presos nos meus.
— Como você...?
— A mesma coisa está acontecendo com meu filho — falo, as coisas fazendo sentido enquanto eu falo. — Com várias pessoas no mundo, eu acho. Provavelmente com todas essas outras crianças que você viu em seu sonho.
— Então não é só comigo? Eu pensei... Eu estava com medo de ser a única. Pensei que talvez eu estivesse ficando louca e que toda esta coisa de sonho fosse apenas a prova que eu precisava para ser trancada em um manicômio.
— Melanie, o que está acontecendo? — Jackson pergunta, olhando de mim para ela. Sua voz é baixa, mas é impossível não ouvir a urgência e dor por trás dela.
Melanie olha para ele, seus traços contorcidos em uma estranha mistura de esperança e medo, e um sulco profundo aparece no espaço entre as sobrancelhas.
— Esta manhã eu estava olhando para uma foto da mãe que eu trouxe comigo. Você já tinha ido. Eu queria falar com ela, queria que ela estivesse aqui. E então ela simplesmente flutuou até mim. Tipo, voou da mesa de cabeceira e atingiu meu rosto. Eu... eu pensei que fosse algo que os alienígenas fizeram comigo. Que eu ia morrer. Mas então continuei fazendo isso com as coisas.
— O quê? — a pergunta de Jackson está com um pouco mais de fôlego.
— Você pode nos mostrar? — pergunto, olhando ao redor da sala. Há uma garrafa de água sobre a mesa de café em frente de nós. — Lá. Você pode trazê-la até você?
Ela se concentra. Lentamente, a garrafa começa a oscilar, até que está subindo para fora da mesa. Ela flutua através do ar, água espirrando ao longo de sua borda. Jackson está de pé em um segundo.
— Querida... você está fazendo isso? — ele pergunta.
— Não fale comigo — diz ela, franzindo as sobrancelhas ainda mais. — Isto é difícil.
— Mas... como... como você está...
— Pai, eu falei...
A garrafa de repente explode, jogando um jato de água no ar entre nós três. Em seguida, cai no chão.
— Eu não sou muito boa nisso — Melanie fala, desanimada. — Meu quarto está... uma bagunça.
— Por que você não me contou? — Jackson pergunta. Ele continua balançando a cabeça, tentando fazer todas as peças do quebra-cabeça se encaixarem.
— Eu estava assustada.
Jackson sorri, mas então algo deve ter caído sobre ele, porque seu rosto se contorce rapidamente em uma carranca sombria.
— Mutação - ele murmura. — Habilidades antinaturais...
— Isso não é motivo para se temer — falo, embora eu não tenha certeza. — Embora... Melanie, você poderá ter mais habilidades estranhas. Todo Garde tem mais do que uma. Acho que a telecinesia é normalmente a primeira a vir à tona.
Ela olha para mim com grandes olhos castanhos, boca aberta. Em seguida, ela se vira para seu pai.
— Nós temos que ajudá-los.
— Quem, querida? — Jackson pergunta.
— A Garde! — sua voz é mais alta, mais grave. — Não podemos deixar esse monstro vencê-los e, depois, tomar o resto de nós. Eles já invadiram a Terra e explodiram Nova York. E a maneira como ele olhou para mim quando estava gritando, dizendo que ia me matar – matar a todos nós...
Ela respira fundo e engole em seco, enxugando os olhos com as costas das mãos, manchando-as com rímel e delineador. Ela percebe isso e de repente parece envergonhada; Jackson a abraça novamente, e perguntas começam a sair desesperadamente de sua boca. Por que ela? Que outras coisas a Garde pode fazer? Isto é contagioso? Faço o meu melhor para tranquilizá-la, mas eu não tenho muitas respostas. Finalmente, exausta, ela se vira para seu pai.
— Você pode me deixar sozinha um pouco? — ela pede.
— Melanie... — Jackson começa.
— Por dez minutos, pai. — Eu acabei de descobrir que tenho superpoderes, e eu meio que quero surtar um pouco. Sozinha.
Jackson concorda e me conduz até a porta. Assim que ela se fecha atrás dele, ele me puxa para fora do alcance da voz dos agentes do Serviço Secreto e fala em voz baixa.
— O que há de errado com ela? — sua respiração é instável, como se ele estivesse tentando não perdê-la completamente. O que, dado o que ele acabou de ver, é muito garantido. — Como isso aconteceu?
— Eu não sei exatamente o que está acontecendo, mas posso assegurar-lhe que nada está errado com ela — isto soa um pouco mais duro do que eu esperava, provavelmente porque estou pensando em Sam novamente. Eu tomo uma respiração profunda. — Acho que isso está acontecendo com muitas pessoas. Eu não sei quantas, ou como elas são escolhidas, mas o que posso deduzir é que os poderes da Garde estão sendo dados para crianças humanas – em todo o mundo. Telecinesia. Talvez outras coisas, eu... Eu não sei.
— Será que a Garde fez isso?
— Eu acho que não. Quando eu... — lembro-me que eu não deveria estar em contato com o mundo exterior. — Está acontecendo com o meu filho, Sam, como eu disse. Quando falei com ele sobre isso, ele disse que a Garde está tão surpresa quanto ele. E os mogs certamente não gostariam de deixar mais forte as pessoas que estão tentando conquistar. Eu não sei qual força está atuando aqui.
Jackson continua balançando a cabeça, movendo sua mandíbula e para trás enquanto eu falo. Ele processa as coisas por um momento, enxugando um brilho de suor da testa.
— Recebemos um vídeo esta manhã — ele finalmente fala. — Ra sabe sobre isso. Ele disse que é a “mutação” da Garde que está dando poderes para as pessoas. Ele insiste que entreguemos qualquer pessoa que mostre habilidades não naturais para que ele as “trate” — seus olhos encontram os meus. — Ele quer a minha filha.
— E o meu filho — eu digo. Sempre foi perigoso para ele enfrentar os mogs, mas agora que ele tem poderes, será alvo deles especificamente. — Não podemos deixar que os mogs os tenham.
— Claro que não — ele concorda rapidamente. Em seguida, ele recompõe-se. — Eu não sei se ele tem uma maneira de rastrear as pessoas com as novas habilidades, mas se ele puder... Ele nos deu quarenta e oito horas para entregar a Garde e quem sofre essa mutação. Depois disso, está declarando guerra.
— Não... — um protesto inútil. — O senhor não pode apenas entregar pessoas inocentes para ele. E a Garde é a nossa única chance, como falei anteriormente. Eles estão do nosso lado. O senhor tem que confiar em mim. Tem que acreditar em si. Droga, dediquei anos tentando ajudá-los. Eu confio neles com a vida do meu filho. Pense no que isso significa, de um pai para outro. O senhor não pode entregá-los.
Jackson bate um punho contra a parede ao lado de nós, apertando sua mandíbula.
— Droga! — ele cospe, toda a frustração e medo fervendo. Então, sua voz fica mais calma. — Por que ela? Ela é uma adolescente. Uma criança.
— As pessoas da idade dela são o motivo deste planeta já não ter caído completamente. Eu assisti jovens de dezesseis anos obliterarem esquadrões de mogadorianos inteiros. Estas crianças podem andar em paredes, conjurar tempestades – alguns deles podem curar feridas que poderiam ser sentenças de morte. Mesmo os que não têm poderes entre eles estão lutando com toda a força, fazendo o que podem.
— E não temos ideia de quantas dessas crianças que desenvolveram superpoderes estão nos EUA, certo? Jesus, nós estamos falando sobre cidadãos americanos. Não podemos entregá-los aos invasores.
Volto a pensar no que a filha dele disse, tentando encontrar sentido em tudo o que está acontecendo. O sonho compartilhado. As ameaças de Rá. As pedras de Loralite.
— Se existem áreas de teletransporte surgindo em todo o mundo, o senhor também pode estar lidando com um fluxo destes indivíduos que recentemente desenvolveram Legados viajando para os EUA. Parece que John Smith está reunindo-os. E ele está em Nova York.
— Todo um exército de adolescentes sobre-humanos — Lawson diz atrás de mim. — Interessante.
Jackson atira um olhar aguçado. Eu não sei por quanto tempo ele esteve de pé no canto do corredor, mas ele obviamente ouviu bastante.
— Essas crianças de que está falando poderiam se tornar bons soldados se nós lhes fornecermos uma liderança forte — continua ele. — Não Melanie, é claro. Ela ficará escondida por razões de segurança. Mas se há um exército de super-heróis recém-descoberto lá fora, vamos querê-los lutando do nosso lado. Quanto mais rápido puder obter um controle sobre eles, melhor serão as coisas a longo prazo.
— Eles não são cães, General — falo, voltando-me para ele. Se ele tentar colocar uma coleira no meu filho, vou lembrá-lo de que eu não preciso de superpoderes para lutar.
— Claro que não. Parece que eles são armas. Não é neste ponto que o senhor está querendo chegar?
— Eles são crianças — respondo. — Provavelmente com medo e sem saber o que fazer.
— Bem-vindo à guerra, Sr. Goode — zomba Lawson.
— Doutor — corrijo, uma pequena correção que não faço há mais de uma década. Posso sentir meu sangue pulsando em minhas têmporas.
As narinas de Lawson tremem um pouco.
— Todos estão apavorados, doutor. Isso é algo que podemos usar.
Viro as costas para ele.
— Sr. Presidente, sei que isto é muito para ser processado, tanto como pai quanto como líder. Mas lembre-se: tudo o que está acontecendo, sua filha está presa nisto agora. Ela pode não ser loriena, mas pode muito bem ser um membro da Garde. Lembre-se disso quando for tomar suas decisões. O senhor não pode abandoná-las. A Garde não é nossa inimiga. Os mogadorianos são.
Jackson devolve o meu olhar, balançando a cabeça ligeiramente, antes de se virar para Lawson.
— Se estes... Gardes humanos começarem a aparecer na América querendo lutar, o nosso trabalho será o de garantir que eles não façam qualquer tolice, mas não o de subjugá-los. Não podemos lutar uma guerra em duas frentes. General, chame todos de volta para a sala de guerra em trinta minutos. Quero firmar nosso plano de ação. A nossa principal ameaça agora é a raça de alienígenas que tem naves de guerra estacionadas sobre nossas cidades. Ainda temos mais de 40 horas de “paz” para chegar a um plano — seus lábios tremem um pouco. — E eu quero falar com John Smith em pessoa.
— Sim, senhor — General Lawson responde, dobrando uma esquina.
— E Dr. Goode, eu o quero lá também. Agora, se me dá licença, preciso ver a minha filha.
Ele vai para a suíte, deixando-me sozinho no corredor.


De volta ao meu próprio quarto, Briggs está mudando seu peso na muleta do lado de fora da minha porta.
— Houve, ah... — ele diz. — Pareceu que havia algo zumbindo lá mais cedo.
Eu não respondo. Tudo o que sei é que tenho de chegar ao telefone.
Com certeza, eu tenho uma série de chamadas não atendidas do número Sam. Pressiono todos os botões errados tentando freneticamente ligar de volta, sem me preocupar em esconder dos dispositivos de gravação. Finalmente, ele atende.
— Pai? — a voz de Sam é frenética, agitada. Não percebo que eu estive segurando a minha respiração até que eu ouvi-lo falar, e o ar corre de meus pulmões em alívio.
— Sam, graças a Deus, o que foi? — pergunto. — Você está bem? Onde você está?
— Oh, merda — diz ele. — Eu pensei que algo tivesse acontecido com você também. Eu...
Também?
— Eu estou bem, pai, mas... — no fundo eu posso ouvir gritos, dor e animais. — Algo terrível aconteceu. Você poderia... Pai, nós precisamos de você aqui.
Eu não hesito em responder. Sei que em outras partes deste bunker os líderes da nação estão se reunindo novamente. Há um assento para mim na sua mesa agora.
Mas meu filho precisa de mim. E não é como se eu pudesse aconselhar o presidente de longe.
— Claro, Sam — respondo, apontando para Gamera me seguir. — Apenas me diga para onde ir. Eu já vou.
— Eu... — ele faz uma pausa. Quando fala novamente, parece que está segurando o telefone longe da orelha. — John, espere, onde você está...? — vozes abafadas que eu não consigo entender, e, em seguida: — Pai, ligo para você de volta em cinco minutos, ok?
Ele desliga antes que eu possa verbalizar qualquer uma das dezenas de perguntas que precisam ser respondidas, principalmente essa: que diabos aconteceu?
Ainda assim, tenho cinco minutos para descobrir como escapar de um bunker secreto. Volto a pensar em Richards me dizendo que eu poderia sair quando quisesse, mas que ele teria homens me escoltando e certificando-se de que eu não poderia trazer ninguém de volta para o bunker. Até agora isso parecia uma ameaça velada, mas não acho que o presidente permitiria de verdade que Richards me matasse, especialmente não agora. Ainda assim, com certeza eu gostaria de sair daqui despercebido o mais rápido possível.
O problema é que nem sei com certeza onde estou. Talvez a sessenta quilômetros de distância de DC, se o percurso de trem foi de uma hora? Mais? E o que farei com relação ao transporte?
No corredor, Briggs deve ter percebido que algo está errado.
— Não — ele fala, balançando a cabeça.
— Pensei que eu não fosse um prisioneiro  — eu o lembro.
Ele não tem uma resposta imediata para mim.
— É o meu filho. Eu tenho que ir.
— Tenho ordens para reportar...
— Por favor, Samuel. Esta é minha família. Se a sua mãe estivesse em apuros você iria, certo? Especialmente se ela estivesse ligada a tudo o que está acontecendo, como o meu garoto está. Meu filho precisa de mim, e eu vou embora. Se tentar me manter aqui, estará apenas garantindo que eu não poderei ajudá-lo.
Posso ver o conflito nos olhos de Briggs. Ele olha acima e abaixo no corredor.
— Siga-me — ele fala. — Rápido.
Ele não espera pela minha resposta antes de caminhar na direção oposta sala de guerra e da suíte do presidente. Nós percorremos rapidamente uma série de corredores cinzentos. Ele acena para as pessoas que passam, que provavelmente presumem que ele está me levando a algum compromisso. Finalmente, chegamos à grande sala de cimento onde está inserido o bunker. Nosso vagão de trem ainda está no centro do salão.
O homem de jaleco tem o rosto enterrado em um tablet eletrônico. Ele olha para cima quando entramos.
— Estou aqui para substituí-lo, Joe — diz Briggs. — Apuramento Juliett Delta Kilo.
Joe, imagino que seja o seu nome, semicerra os olhos para nós.
— Eu não deveria ter uma pausa pela próxima hora.
Briggs bufa.
— Se quer continuar trabalhando, está ótimo para mim.
O nariz do homem contrai quando ele volta sua atenção para mim, levantando uma sobrancelha.
— Nosso convidado é um cientista — Briggs dá de ombros. — Ele está interessado no software que usamos. Além disso, é muito chato aqui, e ele está me mantendo entretido com histórias sobre ETs.
— Tudo bem, que seja — Joe responde. Ele se levanta e sai, murmurando alguma coisa sobre a má qualidade da comida é aqui.
Briggs o encara enquanto ele sai.
— Nós vamos fazer o caminho de volta — ele murmura. — Esse cara é um saco.
— Venha comigo — sugiro. — Você estará em apuros quando eles descobrirem que você me ajudou.
Ele balança a cabeça.
— Eu ficaria em mais apuros se eu desertasse. Além disso, tecnicamente você não é um prisioneiro. Vou apenas dizer-lhes que você me manipulou para ajudá-lo e eu mordi a isca. O que... provavelmente não é muito diferente da verdade. A menos que você acerte a minha cabeça com a arma ou algo assim, mas acho que eu prefiro que eles pensem que você me enganou do que me dominou. Sem ofensa.
— Briggs, eu... — mas eu não sei o que mais dizer. — Obrigado.
Ele mexe nos controles. Eu rabisco um número no canto de um bloco de notas que encontro nas proximidades.
— Esse é meu número. Veja se consegue entregá-lo para Richards. Diga-lhe que é por onde Jackson poderá me contatar. Diga... que a família importante. Acredite ou não, acho que o presidente pode entender.
Na parede oposta a nós, um painel de metal desliza, revelando um pequeno elevador.
— Isso vai levá-lo ao topo — Briggs fala, guardando o número no bolso. — Eventualmente, alguém vai sair para procurá-lo. Melhor não estar por perto quando o fizerem. Eles podem insistir que você volte.
— Acho que tive que correr mais nos últimos dias do que em toda a minha vida — observo enquanto vou para o elevador.
Gamera zumbe atrás de mim.
É só quando a porta começa a se fechar que percebo que não sei o que espera por mim lá em cima.
— Espere, onde estamos?
— Richards não lhe disse? Base Liberdade — ele dá um pequeno sorriso antes de desaparecer atrás da porta de metal.
Sou disparado a vários andares acima antes de finalmente parar. A porta se abre, e por um momento a luz do sol é ofuscante. Eu saio para uma área de grama e pinheiros enquanto meus olhos se ajustam.
Saio e me viro a tempo de ver a parede atrás de mim deslizar e fechar, até que ela se parece com nada além de uma outra seção da gigante parede de pedra branca na minha frente – algum tipo de barragem.
Me afasto alguns passos, tentando descobrir onde estou. É quando vejo um folheto desbotado e um mapa no chão, semienterrado. Está escrito “Reservatório Liberdade”. Pego o papel e o limpo. De acordo com o mapa na parte de trás, estou ao norte de DC, não muito longe de Baltimore.
— Tudo bem — eu digo, olhando para a libélula no meu ombro. — Vamos encontrar nosso caminho.
Começo a correr. Gamera voa na frente, se transformando no ar, até se tornar um cavalo. Ele recua e, em seguida, está na minha frente, sacudindo a crina.
Eu encontrei uma maneira mais rápida de me afastar do bunker.
Meu telefone toca enquanto subo nas costas de Gamera. Sam está do outro lado da linha quando atendo.
— Oi, pai.
— Filho — respondo enquanto Gamera começa a galopar. — Para onde vou?

4 comentários:

  1. Uou! Gostei. Tô curiosa e ansiosa pela continuação da série.
    PS: Valeu a pena virar à noite.

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  2. Respostas
    1. EU QUERO AINDA MAIS ! AI DEUS, ESSES LIVROS ME DEIXAM DOIDA

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  3. Karina nessa frase tem um errinho: "enxugando uma brilho de suor da testa.", concerta por favor

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